«O Anão e a Doida»
I - Na Casa Grande
1 - O Coronel
[1] Despejadas das massas de nuvens da cor do chumbo, ferindo os corpos de quem as enfrentasse, as intensas chuvas daqueles dias — e elas foram incontáveis — deslocaram dos seus nichos as pedras esquecidas nos barrancos. Os deslizamentos de entulho e lama, confundidos, transbordaram as calhas dos córregos e se acumularam no espelho d’água, maculando a laguna salgada. Um tecido imundo e carcomido cobriu o jardim da ravina baixa, trazendo destruição à morada ancestral. A visão dos cadáveres dos animais domésticos flutuando, do alagamento dos pastos e do surto dos dejetos, se reduzia inicialmente à depressão em frente à casa. Agora, com o acirramento das águas, os espaços íntimos do próprio casarão — a alameda de lajotas que trazia da porteira à escada da varanda; os pátios de terra batida onde os capados eram mortos nos fundos; a área de serviço com a mesa de madeira para apoio da faina da cozinha; os pátios internos, onde se abrigavam para leitura e recolhimento seus moradores — tudo o que fora a vida um dia, se destruia e se alagava. Por acúmulo na paisagem, o sangue dos matadouros e o chorume dos lixões, e o abundante mosqueiro, e o odor pestilento da lama contaminada, tomavam o primeiro papel na cena. Os porcos ainda com vida, com as patas dianteiras sobre os escombros, nadavam aos trambolhões subindo uns contra os outros. Da sua cadeira de rodas na varanda da Casa Grande, o homem de cabelos cinzentos contemplou tudo aquilo em silêncio. Mantinha a mão dura da morte trabalhando para ele e agora pressentiu a sua mais próxima preseça. Pressionado pelo peso dos anos, lágrimas grossas nublaram seus olhos. Debruçou a testa contra o batente da balaustrada, levou as duas mãos ao rosto e evitou olhar para a nova maré de dejetos surgindo dos currais. Aquela estação de aguaceiros incessantes, e as mortes da criação, e a contaminação de todos os córregos, anunciavam a decadência da velha fazenda salineira. E, em definitivo, os dias da desonrosa loucura de Elvira.
[2] Naquela ocasião, os porcos ainda conseguiam se alimentar porque Zukko, o servo magrelo e valoroso — apelidado Pestana Branca por uma verruga de cabelos grisalhos metida no canto do olho esquerdo —, nunca se esquecia das latadas de lavagem, na tarefa diária da engorda dos suínos. Elvira, desde criança, como ele, alimentara os animais e carregara sobre os ombros as vasilhas de restos da cozinha e da horta, até os chiqueiros. Desde que soube dos sintomas extravagantes da menina, vinha religiosamente socorrer a companheira de folguedos. Conhecia o peso e as responsabilidades de quem lida com a terra e seus seres, e socorria a amiga. Para o Coronel Eustáquio, ao contrário, o que o comovia era a progressiva magreza dos capados, certamente provocada pela tradicional baixa qualidade do serviço da neta — agora piorada pela sabida incompetência do Magrelo. Um inútil preguiçoso! A modorra com que exercia cada tarefa, caracterizava-o como um imprestável definitivo. Se levantaria ele mesmo, o Velho, de sua cadeira de rodas! E se pudesse andar, carregaria nas próprias costas as bateladas de comida azeda!!! O antigo ódio que o Senhor do Sal nutria por tudo e por todos, aumentava a cada dia. E tinha como consequência, a olhos vistos, além dos problemas com os empregados, o fato de que naquele momento de tempestade e tragédia, a emoção histórica e ácida — como os cupins fazem com o armário da sala — lhe carcomia as entranhas. O rancor lhe retornava pelo corpo todo, surgindo nítido nas grandes feridas provocadas pela condenação de viver sentado.
[3] Aquele tormento já se estendia por longos períodos, num dia a dia cada vez mais difícil. Nas últimas semanas, passou até a sentir, com certa benevolência, os bichos roendo sua carne, lá dentro dele. Gorduchos e brilhantes, os vermes brancos comem-lhe as carnes da perna esquerda. Invadindo as nádegas, acarretam o lançamento de gazes fétidos, nos lugares onde a proliferação dos necrófagos é mais evidente. Apesar do desconforto, e por temer a moléstia maligna da neta, tem sempre à mão a espingarda de dois canos. Conhece bem aquela loucura. Como a palma da sua mão! A neta é herdeira da malignidade da sua própria filha. A fruta cai perto do pé! Assim, com a espingarda no colo, o Coronel, sempre que a fome lhe ataca, precisa avançar na cadeira de rodas até a cozinha. Alí, serve-se ele mesmo, rápido, pois não permite, por nojo, que a serva mexa na sua comida. Dá meia volta e, ríspido, roda a cadeira rangente, trazendo sobre o colo o prato de guisado de carneiro gordo, além da espingarda, de que não se afasta por nada, é claro. Chegando na sala, consegue se mudar da cadeira de rodas para a poltrona de estofo vermelho, que foi veludo um dia ― a dois canos sempre ao seu lado! Agora, o espantalho de palhas do móvel tem os olhos esbugalhados para todos os lados, de onde espreitam suas vísceras de capim seco e fino. Os amplos vazios da roupa velha, arrancados pelos dentes dos roedores, servem de munição para os ninhos, onde crescem os filhotes, pequenos, sem penas e desgraciosos. Saciado do repasto, a boca rica de baba e molho, o Coronel apoia o prato sobre o assento da cadeira de rodas e se espoja no encosto da poltrona furada. Quando percebe que chega o cochilo, a mão corre até a espingarda e a traz de volta contra o peito. Ali, firmes e agarrados, um ao outro, homem e arma esperam o pior, em madornas cheias de espanto.
2 - ELVIRA AMARRADA
[4]
O Coronel podia ouvir a neta se debatendo, amarrada sobre a cama do quarto. O corpo iluminado pelas janelas abertas para o quintal dos fundos da casa, destaca as fivelas da arreata da carroça, usadas como garrotes vis. Com os solavancos da menina, os metais badalam como guizos, a cada movimento do corpo. Da sua poltrona, o avô olha para dentro do quarto por uma fresta deixada nas folhas da porta entreaberta. Mantém uma distância segura, de onde pode controlar todos os movimentos de Elvira. Na hipótese de que ela escape da cama, o Coronel Eustáquio Agenor terá tempo para contê-la com uma boa saraivada de chumbo nas pernas. Não ia matar a menina, claro! Como a um porco, diriam... Mas, a Remington Double fica sempre municiada e destravada. Assim, espera atravessar mais uma daquelas infindáveis crises de loucura, vislumbradas entre cochilos pesados na poltrona, tentando compensar a falta de sono daqueles dias de tormento.
[5] Naquelas horas, na sala de teto baixo e abafada, as guelras de chumbo da espera e da insegurança em relação ao futuro, comprimem seus pulmões doloridos pela falta de ar. Ele sofre com a dificuldade de respirar, provocada principalmente pelos ventos secos, vindos das salinas entre quatro estações igualmente sufocantes. Naqueles meses de calor, entre as tempestades e as borrascas imprevisíveis, as fornalhas sazonais vem incendiar os telhados de placas de ardósia, tornando as tardes de remanso num oásis de asfixia, causado principalmente pelo pó que desce dos tetos, com os forros já carcomidos pelos cupins e os carunchos. Na vigília tensa e embriagante, sonolento e sem coragem para se entregar ao reino de Morfeu, o coronel vê pela janela os animais sobreviventes da última tempestade, dóceis, alí em volta da casa. Débeis e dúbios, os cavalos, as mulas e os bois se confundem com a paisagem novamente seca, já cristalizada de sal e vento de vidro. Percebe os olhares dos brutos, se esquivando de seu poder. Poder que lhe poderiam dar tarefas impossíveis e trabalhos estafantes. Os brutos disfarçam, pastam e mantém os olhos baixos, revelando a cruel relação desigual entre eles e o mundo do seu senhor alí em volta. De dentro da névoa verde, diluída entre a rede de renda da sebe florida, o Coronel ouve um som estranho: gritos de galinhas. Pelos tons, percebe que suas penas tem a cor das pedras. Aquela natureza opaca, que ele não pode vislumbrar com clareza, é um ornamento de luxo no museu de ruínas do senhor da salina. E os gritos desaparecem. Ele não vê mais nada. Mas ainda assim domina, enquanto dorme. Mas não dominará para sempre. Nem ao que não pode ver, adiante de seus dias.
[6] Desde a morte violenta do pai — varado de tiros dos muitos rifles da tocaia dos jagunços do coronel inimigo —, quando assumiu o latifúndio ainda novo, também contratou e botou jagunços armados nas varandas. A vida não tem lei segura, não é mesmo? É o imediato que reina! Agora, abrandados os barulhos, dali de onde dorme e governa dormindo sentado, quando ressurge por alguns momento do esquecimento do sono, pode adivinhar, ao invés de tiros e tropelia de capangas, o estardalhaço do galo, espantando as frangas afoitas com suas correrias fálicas. Os gritos da ave repetem urros desajeitados. Uma canção semimorta rima com a estação cansada. Tudo aquilo se arrasta na sua frente, enquanto luta com o sono. O mundo igual todos as tardes: os esquadros da salina, o vale verde e a paisagem esbranquiçada e exausta. Carregando um grande esquife de barro, em forma de barco, antigos homens passam diante da janela do velho adormecido. Suas roupas são bordadas pelas sombras da tarde. É a última imagem de alguém. Então, Eustáquio Agenor se revira na poltrona e de um pulo mira com a dois canos o coração da neta, que o ataca com uma faca. Desperta desesperado, gira o olhar para o outro lado do cômodo: — “Não era nada!” Lá fora, está a mesma árvore. La dentro, a mesma menina, atada sobre a cama. E os mesmos porcos, que ele conhece desde leitões, indecisos, focinham sem destino. Destacando o veludo do espaldar esburacado e dos braços da poltrona, o espelho de prata envelhecida orna a parede do fundo da sala. O velho sente-se desdobrar pelo espelho, junto com o dia, e se estica como pode, afetado pela umidade. Tudo desaparece com a sombra de uma nuvem e antecipa o poente como uma grande fera que abrisse a boca sonolenta: mesmo nublado o Sol dormirá vermelho e invencível. O corredor sem fundo escorrega para a noite. As sombras se inclinam para a direita, onde o mais noturno dia recebe a pouca luz do vitral da sala. A claraboia de vidro verde do telhado recebe as últimas sombras do barranco das urtigas. Já quase não se consegue ver encarapitadas, umas sobre as outras, as doninhas vermelhas, em suas carapaças de camurça fina. Todos os objetos e os seres, cheios de angústia, mergulham nas mais profundas trevas desumanas.
3 - O ANÃO
[7] Há algum tempo, o Coronel contratou de um circo mambembe de passagem por alí, um ajudante de palhaço insatisfeito com a trupe: com pouca necessidade de espaço, vigia agora a seus pés, esse Anão. Nas horas vagas também lhe serve de mordomo. Pau para toda obra, Salatiel Salieri — como o nanico jurou se chamar — é sua nova muleta. Apesar do nojo que o Coronel sente por ele, reconhece sua ajuda, e o fato de que há coisas que com a invalidez e a idade não se pode evitar. Deitado apenas sobre um velho tapete que cobre o chão frio, o pequeno homem esconde-se perfeitamente debaixo do bruto armário de louças da sala, ao lado da poltrona do Coronel. O batente de angelim da sua porta alta é o apoio de cabeça do pequenito, que sempre se faz de um servil para sobreviver sob as ordens do velho. Respira, quando o Coronel deixa, e só responde quando o patrão lhe pergunta: as respostas esperadas pelo caudilho. Mas, por outro lado, é esperto o suficiente para tirar escondido alguns cochilos na noite silenciosa. Sempre de olho na porta do quarto da menina! Qualquer descuido lhe pode custar o emprego. E quem sabe a vida, pois a espingarda do Coronel vai entrar em ação naquele momento, sem se preocupar com quem estiver na frente. Quando o anão consegue um pouco de vantagem, vigia também o Coronel, que cabeceia de sono na poltrona, e assim não o vê cochilando. Entre uma e outra madorna, vela também pelo sono da menina — que não pode ver nada, anestesiada dos pesados narcóticos. A dobradiça da porta do armário, onde o Anão apoia a cabeça, já acumula um pequeno tufo de seus cabelos, saídos dos restos da calva em expansão. E, segundo o Coronel — que a tudo observa — não é impossível que rebrotem ali, inesperadamente, numa fusão criadora entre a natureza criada e a morta. E surjam como mudas, para uma cura a calvície galopante do rapaz. De fato, tão próximas, essas duas natureza, pois o velho considera o Anão pouco mais que um animal doméstico ou uma planta em estado de fossilização. Sim, agora o Coronel cochila, e o anão pode olhar em volta: há muitas janelas naquela sala, todas altas, todas de ruivo angelim maduro. Sim, em todas elas surge a árvore equívoca, oscilando entre um loureiro e um manacá selvagem. Forte, imponente, indecifrada, o ser dúbio se ergue diante da janela da frente. Lança seus braços magros iluminados pelo crepúsculo, contra o submisso espelho que vive imóvel, apesar do que movimenta. Imagens que trazem o esquecimento da sala sonolenta. No fundo do espelho, na contraluz da janela da esquerda, o chiqueiro quase vazio, e o estábulo — a ponto de se livrar do último animal de tiro. Na janela da direita, as laranjeiras decrépitas, com a lepra visível dos musgos, emaranham os cipós amarelos. Por cima de todas essas desgraças, brilha uma luz indescritível: a chegada da Lua. Traz solidões incomuns, mesmo para um anão acostumado a viver corajosamente em companhia do Nada. No chão, calado, o pequeno Salatiel Salieri percebe a presença maciça das pedras que lhe servem de cama, ao redor do seu tapete gasto. Ali, predominam os mosaicos negros, margeados pelas madeiras claras das réguas dos rodapés. Imitam, pelo avesso, a salina lá fora, construindo a riqueza do homens reais. Largos lagos repetidos, vazados nos vidros, os janelões enquadram as bacias quadradas da água salobra, enquanto se apagam. E se ocupam, ainda por algum tempo do rosto sombrio do senhor. Perverso e branco, o Anão sabia seus sonhos:
Espancando seus negros macios
Por culpa de teimosias suas
E famosas melancolias cruas
Ele fazia do avesso fatias
Daquelas
Suculentas costas nuas.
4 – A VISITA
[8] O Coronel Eustáquio — senhor de terras, gentes e almas — tem refletido sobre o fato de que precisa ter a neta contida. Pensa no perigo que todos correm. Com o tempo, o suor abundante certamente romperá os arreios da velha charrete. Não se pode esquecer o desconforto causado pelas tiras. Que remédio! O sacrifício é compensado pela segurança e supera o risco de vê-la mutilada por um ataque inesperado! A virulência da moléstia é uma ameaça à sua própria segurança. Segurança, que o Coronel sempre priorizou. Desvelos necessários, porque no momento em que se torna endemoniada, Elvira é tomada por uma força superior. Com todos os custos, o melhor é tê-la sob controle.
[9] Açulado pelo cano da espingarda, usado como um aguilhão de gado, o Anão é caminha para frente. O Coronel, e seu escudo humano, preparam-se para a invasão. Dirigem-se sorrateiramente para o quarto da menina. O Coronel, mesmo armado, tem um medo desproporcional. Percebe as mãos de inseto covarde, apertando os dedos na roda da cadeira. Procura, a todo momento, a arma, que leva no colo. O Coronel se assusta com ruídos novos: porcos focinhando as mostardas. Ouve os caniços lutando uns contra os outros. Sempre soam sons sinistros, que nunca ouviu, quando o Velho se aproxima do quarto da Neta. Então, o Coronel ordena ao Anão que se aproxime da porta. O medo transforma seus músculos em palha, e o Coronel grita:
— “Para a freeente Cabeçudo!”
[10] Pela expressão do caudilho salineiro, seus ossos tornaram-se trapos sujos. As partes mais moles de seu corpo, transgridem a pele e se esparramam pelas roupas: a papada, a barriga, as bochechas, o bigode imundo de tabaco e restos de comida — tudo se torna flácido. As batatas-doces e as amêndoas do recheio do capado, e o açafrão e agridoce tomilho, voltam à garganta. Um gosto de vinho envinagrado sobe por sua boca. Os rolamentos do mundo fora das órbitas, o frufru do tamarineiro contra os batentes da janela — tudo se associa em horrores. Agenor percebe o Anão dentro do quarto. Covardemente, se posiciona rente à parede. Em caso de ataque, usará o Anão como escudo:
— Cabeçudo!!! Mais um passo à freeente!
[11] A dose mais forte aplicada pelo boticário, depois do último surto, ainda faz seu efeito. Um ou outro espasmo suave, sacode o corpo pálido e frio. Uma cena de pesadelo, um teatro trágico, representado por atores reais, num irônico cenário. A janela de imbuia inunda a mais diáfana luz de vida sobre alguém que apenas vive. A claridade perpassa a cena e os objetos do quarto pelas lucernas quadriculadas de vidros azuis. O Anão percebe o chão do quintal lá fora coalhado das pétalas caídas das cerejeiras em flor. Supõe carinhosamente que essa visão traria alegria àquela pessoa querida ali diante dele. Elvira! Estrangulada pelo cordão do destino, agora é contida por correias e por remédios. Ironia trágica, a menina semimorta deita-se como uma princesa sobre a bordadura das curvas da colcha de brocados, com detalhes em arabescos cobre e dourado, O corpo de cera da menina emitindo luzes que azulejam partes da sua pele, tem um sobressalto, debaixo daquela iluminação exótica do meio do dia. Os sinos! Meio-dia! Os sinos! Elvira sempre amou essas cantatas vazias, que nos fazem lembrar as nossas misérias!
— Rejubilam-se, os nossos algozes de bronze! ― Elvira grita, subitamente desperta.
Com a cabeça presa pela correias passadas em sua testa, ela olha o Coronel, que estremece em sua cadeira de rodas.
— “Dois desertos cheios de espinhos, é o que os sinos devem cantar.” ― o Anão reflete.
[12] O campanário da pequena igreja do povoado ressoa ensurdecedor dentro do quarto. Redobra aquelas horas de pesadelo. Quem controla as cordas, os toques, os hábitos dos sinos? O Coronel percebe o enleio do Anão ao ouvir a música brônzea. Crê numa suposta confraria, do cura e do Anão. Sob o facho límpido que a nuvem esgarça, os movimentos dos olhos de Elvira, causados pelas ondas sonoras, se ampliam. Os sinos silenciam, e a menina, de olhos abertos, percebe a presença gritante dos homens dentro do quarto.
[13]
As fivelas, apertadas em excesso, provocam vergões vermelhos nas pernas e nódoas roxas nos pulsos e nas canelas. Os bordados de contumazes e antigas fendas, feridas, e cicatrizes, se espalham pelos braços. Brotam as feridas para fora da colcha esplêndida de paisagens, já desbotadas e sem brilho. Elvira, grogue, engole em seco e com dificuldade. A primitiva camisa de força do cabresto do animal de tiro lhe trava a traqueia. Ela parece engasgar com algo que comeu: um inseto incômodo subindo pela narina ou descendo para o estômago. Uma cigarra que não canta ainda, muda talvez para sempre. Os sinos ressurgem, a princípio disfarçados pelo vento e saem de seus esconderijos. Rebatem em revelações gritantes, um por um:
!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!
[14]Movimentada pela aragem fria da janela do aposento, a urina nauseante inunda a cama. Fica mais viva e presente, e a menina volta a se mexer. Novamente em silêncio, com rápidos olhares domina todo o quarto. O Anão e o Velho ficam paralisados com aqueles olhos amendoados. Doces, à flor da face de Elvira, estão fixos neles. A menina agora os enxerga e o Coronel teme ter que fazer uma manobra brusca com a cadeira de rodas. Sente-se totalmente desprotegido, tenta defender a perna doente com as mãos. Volta a escutar o remancheio das palavras mal pronunciadas da neta:
― Não pode afrouxar o espartilho, Vovô? ― A menina se lamenta num tom dorido. As correias estão firmes. Não há a mínima possibilidade de afrouxá-las!
― Jaqueline... Jaqueline... Não pode me trazer Jaqueline Vovô?
[15] Elvira timbra os lábios, e as mãos vermelhas incham de pressão e suor. As palavras rebatem nos seus lábios. Os raios de sol se desfazem e deslizam para fora do quarto. O cômodo fica envolto na sombra, não há nenhuma Jaqueline por ali. A menina delira, vai revelando os sonhos que rumina. Tem uma expressão assustadora, denuncia todo o bestiário que assiste. O Coronel, apesar de armado, não consegue se convencer que a menina não se livrará das correias. A imobilidade causada pela correias, dão a aparência de pedras aos seus ossos frágeis.
― "O doutor ontem esteve aqui, Elvira. A febre alta é das tuas amígdalas inflamadas." ― Mente o Anão, com voz débil.
[16] A menina torce os olhos de gesso pelas órbitas maciças. O marfim ocupa toda a área das fendas do crânio. Uma máscara coberta por sobrancelhas grossas, faz surgir a aparência de um de anjo ou de um demônio. O que se vê, de fato, é o vazio de um rosto sem pupilas. A menina luta para reconstruir sua verdadeira face. Tenta encontrar uma imagem que lhe sirva para viver aquele momento difícil.
— "Não posso convidar Jaqueline para passar a tarde conosco, Vovô?" ― Elvira sussurra, tomada por uma súbita e forçada alegria.
Diante da inquirição dirigida a ele, a sensação de desproteção covarde contamina o avô. O velho busca uma posição mais segura:
― Mais longe dos pés da cama, Cabeçudo! ― disparou a ordem para o Anão. ― "Mais looonge, Cabeçudo! Mais looonge!" ― Gritou de novo o velho com voz de falsete, contaminado pelo horror.
— Vovô não se lembra da boneca de porcelana que me deu na festa dos meus quinze anos? Ou está com preguiça de se erguer até à terceira prateleira ao lado da janela e pegar a bonequinha para mim? Sim, pode pegar delicadamente a marinheirinha? Traga ela para navegarmos entre a ondas dos seus cabelos, por favor Vovô!
[16a] A estante do quarto, ao lado da cama, exibe o pequeno exército das bonecas de pano, engendradas para desempenhar a dupla função de fantoches e espantalhos do horror. Concebidas como aves de rapina, desengonçadas jogam os ombros contra a parede. E suas pequenas cabeças mal desenhadas e pendem sobre o peito desconexas. À noite, os brinquedos tomam vida e se transformam em horripilantes górgonas. Assustadoras e medonhas, se exibem teatralmente diante da imaginação corrompida da menina. Uma pequena ópera sinistra, misto de circo e bestiário, apresenta o espetáculo que ameaça e ao mesmo tempo encanta.
[17] Sem resposta, Elvira volta a mergulhar no seu mundo. Mais uma vez, fita o vazio. Súbito, volta a falar, para um ouvinte dentro da parede. Aumentando cada vez mais o tom da voz, dispara:
― Preguiçoso! Vem toda hora me olhar lá da porta. Sempre se esquece de entrar e me beijar! Não pode esquecer Vovô! Faça uma carinha bonita para mim. Me traga o brinquedinho, agora, Vovô. Eu sinto falta dela! Jaqueline sempre me faz companhia na janela, quando contemplamos os veleiros cortando a enseada. Jaqueline e eu navegamos juntas o verão passado. Ah! o vento do mar, agora aquece meu quarto. Me enche de vontade de navegar de novo. Mas o Vovô não gosta! Tem medo de me perder num naufrágio. Pode afrouxar um pouco o espartilho Vovô? Tenho falta de ar e gostaria de ir até à janela ver como está o mar hoje!
Elvira balbucia as palavras como uma máquina tartamuda. Vez por outra, gira os olhos estrábicos entre os guizos flácidos, como cerejas maduras, penduradas no velho barrete vermelho do Anão.
6 – O BANHO
[18] As águas de todos os domínios e arredores da salina, agora engrossadas, desciam do alto das calhas, dos beirais e dos telhados, como saias brancas vestindo as vidraças das janelas coloniais. A chuva em golpes pesados, escondia, lá fora, o quadriculado das salinas. Os vidros embaçados pelo vapor das chaleira preparadas para o banho, e o calor humano das duas mulheres, envolviam o interior do quarto numa neblina densa e difícil de respirar. Em meio ao fartum do cômodo e à desolação da cena, ouviam-se os gemidos de prazer de Elvira, ao contado agradável da água quente derramada pelas das mãos cuidadosas da Zefa. Durante seus banhos, Elvira entoava delicadas canções de ninar, por meio das quais queria fazer adormecer os cãezinhos de pelúcia da estante do quarto.
[19] Temporariamente livre das correias, que Zefa contrariando as ordens do Coronel fizera questão de afrouxar — e se movendo livremente sobe a cama, enquanto cantarolava —, a menina exibe o mesmo tipo físico da mãe, apenas um pouco mais generosa de carnes: a anca cheia, larga, mas não muito pronunciada, e os bem desenhados seios jovens. Seriam belos de ver, não a fosse aparência emaciada do rosto, deformado por tantas horas sob o efeito dos narcóticos, e a pele riscada de vergões, consequência das correias que a mantém presa nas grades de madeira das laterais do leito. — “Gosto do Ósto!” — Elvira sussurrou, com voz clara, enquanto Zefa posicionava seus braços para o asseio. Lembrava-se do Zukko, o Pestana Branca, que agora alimenta os capados e recolhe as entranhas dos porcos abatidos. Eram as primeiras palavras que a menina pronunciava, depois que Zefa, lhe afrouxara as fivelas. — “O que se tem é o que se ama!” — Elvira emendou, em tom de confissão amorosa. Com o rosto bastante abatido, se inclinou para a Zefa, e a encarou fixamente. Seus lábios pendem pesados, devido à fraca coordenação motora. A menina muitas vezes murmura frases como essas, e vê coisas que não existem. Descreve as imagens, apontando para pontos flutuantes, movendo-se acima da cama. Confundida pelas texturas da cortina de damascos, sua mente oscila lá dentro da partícula viva. Vez por outra, vê-se um fluxo de luz coerente, lançado ao acaso de dentro de seus olhos vidrados. — Ouço o marulho do meu coração perto do mar. — acrescentou — Ouço o eco das conchas sendo devoradas pelas ondas. Estouram por detrás dos morros azuis. Tenho vontade de me encolher. — Acusa o aguaceiro, retinindo as pancadas nos telhados macios de musgos do casarão. A menina imagina aquilo como o som de conchas mastigadas. E, como se ouvisse ameaças, se assustava com a tempestade. Enquanto de banha, cansada das canções, se lamenta em voz alta, ora por causa das roseiras estragadas pela chuva, ora por causa do pobre do cachorrinho, que escapara da estante do quarto, todo molhado, exposto aos elementos no quintal. E agora retoma sua cantiga para acalmar os cães. Imagina o basset salsicha de pelúcia ecoando ganidos e uivos duros, em resposta à loucura da menina. Tão íntimo dela, o brinquedo pode adivinhar seus sentimentos e retorna seus lamentos: serra, serra, perro, perro! Feliz, Elvira escuta, o que só ela ouve.
[20] Por conta de um descuido de Zefa, atarantada com chaleiras e toalhas, aí pelo final do banho, a porta do quarto foi deixada aberta — acreditando-se que Elvira, com aquela cantoria de brinquedo, estava num humor estável. Num espetáculo grotesco, até para corações fortes, o Coronel Agenor viu de sua poltrona diante da lareira no salão do casarão, pela janela que dá para ao pátio dos fundos, a menina nua, se espojando carnavalesca na pocilga dos capados. Gritava o nome do porqueiro Washington — Que viesse vê-la!!! —, e se exibia para os porcos, sorrindo languidamente enlameada. Agitava os braços, brancos, roliços, contra os corpos marrons e pesados dos animais, que se envergonhavam por terem sua imunda intimidade violada por uma estranha. Com gritos, esgares e volteios de cadeiras, ela insistia em que Washington a visitasse para contemplar seu feito. E ensaiava carícias nos tímidos animais que resistiam ao seu afeto. Debalde! Por índole, os porcos caipiras lutam obstinadamente contra qualquer tipo de vínculo humano.
7 – O ALMOÇO
«Mas, se você não quer comer, não come!!!»
[21] Ouvindo aquilo, Elvira depositou com desdém os talheres sobre a toalha da mesa, e calou-se. Com gesto agressivo, afastou para longe de si o prato, que praticamente não chegara a tocar. Desdenhosa do almoço, dava-se conta de que no molho do pernil, boiavam rodelas de cebolas cruas, que Zefa preparara com má vontade e as mãos sujas. Com mais desagrado, viu que o contato do assado com o caldo do tomate, sujava as lâminas de carne. O fenômeno, prendeu a flutuante atenção da adolescente. Elvira o acompanhou, o contemplou demoradamente, num silêncio lânguido, cheio de nojo e sem vida. Com o espalhafato da menina por motivos absurdos — tanto Laurita como Zefa, esmeram-se na melhor refeição! — a mãe levantou-se de um pulo. Crispou com toda força o rosto, e, já brindada pelos desafios dos dias, suas feições tornaram-se cada vez mais pesadas. Bastante irritada, afastou-se da mesa e riscou com o corpo uma curva em torno da cadeira onde se sentara. Afastou-se, sem olhar para a menina e sem fazer ruído. Lembrou-se de algo e voltou rápido. Para cumprir o ritual, empurrou para seu lugar na cabeceira, o pesado móvel de madeira.
[22] Apesar da alma desarmônica, Laurita caminhava o mais ritmada possível. Entre as pausas que faziam nos passos, podia-se ouvir a raiva dentro de suas costelas arquejantes. Rangia o ar, enquanto engolia a desfeita da filha. Depois voltava a se deslocar. Carregava para longe da mesa a sela anônima que lhe crescera sobre as costas. Aquela cena se repetia quase sempre: a mulher mecanizada, batendo em retirada e a filha sozinha na mesa do inferno de todo dia. E a mesma solução de sempre, Laurita sem a refeição, indo sentar-se em silêncio na poltrona forrada por uma pele de carneiro negro. Aquele canto sombrio do seu quarto já a esperava nas horas determinadas. Único ser vivo entre as pedras da pequena lareira de canto, que a serva acendia nas noites insônia, solitária, voltaria a bordar. Miúdos pontos brancos cruzavam seu destino sobre um tecido cada vez mais encardido. Sonolenta, diante da vastidão horizontal da salina branca, via o fim do dia rasgando a fresta das cortinas da janela. Ainda pode ouvir os passos da filha, ecoando contra o silêncio do casarão. A menina, da mesma forma que a mãe, ia-se ocultar na solidão do seu quarto — o recôndito sem vida no fundo do corredor imenso.
[23] Encolhida em sua poltrona, Laurita foi novamente assolada pelos remordimentos. Lutava contra a conhecida imagem da cabeça do marido esmagada sob as patas da vaca vermelha. Tentava distrair-se jogando com o que podia da memória. Deu-se conta dos anos loucos que vivera quando criança. Lembrava-se de que, quando criança, seu sonho era ver um trapezista. Também se imaginava como uma bailarina, sob som da fanfarra. No entanto, que conheceu foram as salinas. O chão maciço, duro de roer. O sol maduro, os sapatos lixados pela caliça. Os esquadros de sal empurrando o horizonte, as terras sombrias senhoriais. População de gente — negra, mulata, cafuza — sofrendo os horrores do eito, do trabalho no sal e na terra. Peles tostadas perdendo seus ossos para senhores brancos. Homens sujos de barro desde o ventre, nascidos para a morte certa. Esperando, para manter a vida dentro de seus corpos, o dinheiro dos compradores de sal. Suas vidas iam e voltavam, numa ciranda entre as mãos dos senhores grandes latifundiários. As dunas móveis de vidro moído, estrangulando suas casas simples de barro bruto. As montanhas da riqueza se acumulavam e soterravam os móveis, entupiam as cozinhas pobres, engasgavam as crianças. Os gradis de ferro batido nas varandas altas das casas-grandes mantinham lá fora, por jagunços armados, seus rostos esfomeados e marcados de dias difíceis. Dalí, assistiam os jantares dos salões, as mesas fartas de iguarias, erguidas sobre o chão polido. E desistidos de enfrentar as balas e o chumbo, voltavam para suas casas, para dormir entre o sal, já não precisando serem embalsamados.
8 – A FOTO
[24] Por tantos pensamentos erráticos, a mulher desistiu do minucioso trabalho do bordado. A atenção desviada, impedida de qualquer ação que exigisse a concentração dos olhos, Laurita estendeu o braço esquerdo e alcançou, no aparador ao lado da poltrona, o terço do finado marido.
A relíquia, arrumada em cruz na mesinha de três pés, logo moveu-se entre os dedos. Puxou o rosário contra o peito num gesto de comiseração pura, e sentiu o suor da mão cansada umedecer as contas ensartadas no fio de seda. Puxaria uma reza breve, cujo único responsório seria o seu — o que sempre a ajudava em momentos difíceis. Não, por mais que tentasse, não conseguiu. Por mais que lutasse, não se lembrava da oração mariana.
Tentando um outro caminho para Deus, rangendo sílabas, pronunciou um mote mais fácil:
Sete Chagas do Senhor Crucificado
Sete Chagas do Senhor Crucificado
Sete Chagas do Senhor Crucificado
[25] Ao final da terceira rodada da jaculatória, deu-se de cara, nos pés da sua cama, com o rosto brincalhão de um palhaço maltrapilho. Tomava pela mão uma pequenina bailarina de saiote verde e corpete de um vermelho vivo. Com os pés sujos de lodo negro, os joelhos da menina estavam ralados, e as pernas eram tortas para dentro. Assustada, e ao mesmo tempo encantada, Laurita notou que tanto a pirralha como o palhaço sorriam docemente para ela. Esperavam algum tipo de reconhecimento ou um convite para sentarem-se. Perdeu-se na jaculatória e, ao distrair-se, voltaram vivas na sua boca as palavras perdidas: Creio em Deus Pai Todo Poderoso! E as imagens dos funcionários circenses desapareceram.
[26] Mais relaxada, e reencontrada com a pequena paz momentânea que a fé lhe proporcionava, Laurita reencontrou as duas antigas fotos arranjadas em ângulo agudo, na mesinha de apoio. Marido e mulher se encarando num tempo perdido, traziam o reencontro com a felicidade leviana de seus dias de juventude. O homem morto — ao lado da sua foto nova e viçosa — agora lhe fazia companhia, em sua solidão de ausente.
[27] Laurita lembrava-se de que dera de presente ao marido, ainda vivo, o instantâneo que tirara durante a visita ao circo. Agora, a preservava no porta-retratos recuperado das relíquias da família. Procurou com a mão os óculos. Mais uma vez chamou a atenção de Laurita a singularidade da sua própria figura. Sentia orgulho da imagem de mulher sorridente e suculenta. Dona de si, os ombros alvos num decote simulado, se destacavam os seios no corpete negro e justo. Sobre as sombras em silêncio, se acrescentavam reflexos âmbar vindos do penteado. Uma rodela de veludo negro em torno dos cabelos, valorizava o mármore do pescoço. Dali, ela deixava cair mechas vistosas, soltas sobre o decote ousado. Preso no corpete, um broche de madrepérola chamava a atenção para toda a sua fisionomia. Laurita escorregou os óculos para a ponta do nariz cheio. Queria enxergar melhor e mais delicadamente o caro adereço. No instantâneo fixado pelo artista, o joia refletia a cabeça encapuzada do fotógrafo. Laurita percebeu com surpresa aquela cena diante de seus olhos.
[28] Ao lado do retratista, um homem sorridente, — um anônimo — segurava em longos palitos de bambu os reluzentes frutos proibidos. Dentro do nácar, duas maçãs do amor se refletiam na joia presa no tecido. Associando os traços fisionômicos do desconhecido, reconheceu num relâmpago a figura do acompanhante que ela contratara para lhe fazer companhia na ida ao circo.
9 – DO DIÁRIO DE ELVIRA, no quarto ao lado.
[29] Entre o caos do meu quarto, nas noites chuvosas, ouvindo o silêncio do escuro, ainda pressinto mamãe no quintal. Cambaleia sem ruído, entre os ramos da arruda brava. Metamorfoseia-se no que foi esquecido. Seus grandes chifres expostos. Os pés deformados, descalços, pisam as goiabas brancas. Conserta o gorro de lã, e me observa, com aquele corpo cheio de ameaças. O mar, detrás dela, reverbera o inesquecível. Os gastos mariscos de bronze, recendem sobre o areal. Depois, ela vai se tornando cada vez mais madura. Nesses dias, muda os penteados e as unhas, de acordo com a idade que apresenta. Os farrapos de cabelos, fracos e lisos —completamente curtos —, vão se tingindo daquele vermelho de fungos. Mesmo assim, sempre bela: o ar de pássaro de fogo sobre pessegueiros chineses em flor. A pele com matizes de musgo nos ombros marcados pelo trabalho, como os das mulheres sentadas na soleira dos bordéis à beira-mar, que carregam o tempo nas costas. Despida, despudorada, dentro do vestido aberto, deitada num leito de urzes, mamãe se vicia fácil, nisso e naquilo. Os pensamentos das mornas carnes, lhe rondam as noites de amoras silvestres. Sentada no degrau da escada, é comovida pela hera que abraça e rasga os muros do pátio. Com cheiros corporais antecipados, medita horas a fio seus momentos de requinte. Deixa as louças na gordura, e o trabalho na cozinha por fazer. Deitada aos pés da cama — posso vê-la —, os olhos cor de âmbar, o corpo envolto numa pele de carneiro negro. Às altas horas da noite, ela se abre com uma faca. Nua em pelo, se arrasta pelas pedras do chão. Entre murmúrios, as mãos decoradas com o jade e o rosa, a expressão animal reforça o excelente par de coxas. As pérolas barrocas espalhadas no colo, passa entre os lábios o colar de contas, que saboreia com volúpia. A boca entreaberta, ela arranca os brilhantes azulados do porta-joias, e os experimenta com a língua bífida. Ao acaso, tudo passa por seus olhos. Em seus dedos, tudo se torna mágica, antes de voltar a assumir de novo a função bestial e ordinária. Enquanto isso, ela gira a pequena violeta de ouro branco entre os dedos. As unhas cheiram a anis novo, como ela quer. E assim, reencontra o que procura. Seu corpo agarra o velho broche de madrepérola entre os dentes primitivos. Ajeita os cabelos, para mais uma vez prendê-los e soltá-los. E delicia-se consigo mesma, antes de fechar profundamente os olhos. Nas rugas de vidro de seu rosto cansado, passa um anjo. Dois anjos. Três anjos, num sonho mofado.
10 – AS MAÇÃS
[30] A tom avinagrado do tecido dos almofadões, a iluminação da colcha de tafetá imitando fogo selvagem, os fragmentos das roupas íntimas enrodilhadas no tapete, se somavam contra a imponente cama dourada com incrustações de laca vermelha. Impecavelmente decorada, com um lençol de cetim púrpura entre as pernas brancas, no ambiente de teto baixo e paredes avermelhadas, a silhueta voluptuosa de Laurita voltava do banheiro. Vestida ainda com as meias cor de café e ligas azuis, que o amante pedira que mantivesse, a fêmea madura então se entregava. Os dois berloques de brilhantes baratos balançavam aos solavancos. Os ninhos de fios de ovos dos cabelos, em cacheados rápidos, soltos, emolduravam a testa redonda e suarenta, onde o suor brotava pequenas pérolas claras. Às vezes, crispava-se numa dor rápida, que logo esquecia e rápido voltava a se deleitar. O movimento lhe transmitia um distraído ar de culpa de uma menina pudica sendo violada. Descansava o rosto de lado no travesseiro e agarrava com as duas mãos as dobras da colcha, se defendendo para amortecer os impactos do homem dentro dela. As sobrancelhas, forçadamente inclinadas, exageravam a tintura do lápis e roubavam a luz bordada do abajur. Refletindo os arabescos do papel das paredes, as luzes frouxas imprimiam em seus braços e na sua pele pequenos veios de mármore. Enquanto seu corpo se esforçava, a alma disponível para o prazer e para a dor fazia surgir dentro dela pequenos bocados de memória.
[31] De pé, diante da janela, Laurita viu as pistas da avenida litorânea, repetindo o rastro cinzento da lua sobre a cama. Ajeitou os cabelos, escutando a incessante maré que rebentava entre os véus da cortina. Surpreendeu-se com um grito agudo, que prolongava longamente o estrondo da onda. Nervosa, constatou que a voz vinha de um carro de polícia. Contrastadas pelas lanternas do furgão, entendeu a dimensão das trevas que recobriam o mar. Apoiada num único pé, como uma cegonha nos juncos do tapete, puxou com força a vidraça que lhe esfriava o corpo. Amuava-se por si mesma, totalmente alheia ao teatro onde deveria se apresentar. Seus pensamentos tornaram-se uma segunda pele. Eram feitos de tantas cascas, ocultando sua alma de cera. Folhas secas que preenchem um espantalho. Uma onda mais forte empurrou o mar até a calçada. Um pensamento como uma mosca varejeira invadiu o quarto do motel e horrorizou seu corpo. A rachadura fina de um momento inadequado, atravessou o silêncio pesado entre dois gozos perversos. Alguma coisa dentro dela — tudo aquilo, o quarto, o homem, a masmorra — se desmoronava. Num mesmo instante, o que era mais precioso, já não lhe servia de nada.
[32] Cega e ambígua, ao lado do homem desconhecido, o movediço sem nexo a levava. Não podia ser outra, senão a sua única carne sem sentido. Sentado em silêncio, o amante fumava calmamente. Observava Laurita sem entender aquela cliente indecifrável: a mesma mulher que há alguns instantes se entregava obstinadamente, e com profundo desprezo por si mesma. Quase congelados pelo ar-condicionado, os corpos se tornavam frios, apesar da recompensa do que esperavam: ele dinheiro, ela prazer — o de Laurita cada vez mais gélido. A garrafa de gim barato na mesinha de cabeceira também recebia o frio. As duas rodelas de limão descansavam no fundo do copo, esquecidas entre as sobras da bebida. Duas maçãs do amor permaneciam, ainda perenes em seus invólucros, sobre a bandeja da bebida. O brilho do açúcar e da anilina, que confirmam a sua mentira, começava a se ofuscar. Por conta do nauseante cheiro de mofo do muquifo de decoração extravagante, o resfriamento era forçado ao máximo. Num ímpeto, Laurita fez questão de sugar todo o líquido do copo, antes de dirigir-se novamente para o amante. Uma maré salobra, fugindo da praia pela janela mal fechada, atingiu o quarto, enchendo de náusea o corpo da mulher sentada em silêncio sobre a cama. Com os pelos do corpo eriçados pelo ar-condicionado, suavizado com o lençol passado pelo meio das pernas, Laurita arrancou de dentro da bolsa, acomodada na poltrona ao lado da cama, o estojo de prata e tirou lá de dentro um cigarro. Segurando com firmeza o isqueiro, sem olhar para o amante, acendeu o tabaco num gesto estudado. Soprou a fumaça para o alto, e para longe. Para o mais longe dali que pudesse. Ganhava tempo. Precisava sentir-se madura e forte. Com novo ímpeto, sorveu, no fundo do copo, o que ainda restava de gim.