O CORPO PROFUNDO


«O CORPO PROFUNDO»

TIBERIO BRUNO

***

1 - O MOTEL
     Surgiram as luzes diante da janela do motel, revelando o cruzamento contra as avenidas paralelas. Noturnas e litorâneas, naquela enseada chuvosa, as sombras vazias dos postes flutuavam no alabastro macio da areia, sumindo vez por outra com o vento, e voltando como um trem fantasma que atravessava a calçada. Laurita ousou vigiar por um momento seus próprios pensamentos e, como um réptil que foge da sombra, instantânea, insuspeita, rastejou por debaixo dos lençóis gelados. Seu olhar voou pelas paredes, alaranjado, lançando as pupilas de mariposas verdes contra a inesperada paz das cortinas — e a solidão abafada de tudo aquilo a enjoou. Nua por dentro, chegou-se à janela, ajeitou os cabelos, e contemplou sem mover a cabeça bem penteada a estrepitosa maré alta que rebentava rumores entre os véus da noite semiaberta. Rosa e veludo vermelho, Laurita balançava nas frestas da fazenda, se escondendo e aparecendo, metade figura, metade mulher. Como um tecido estampado, quebrado e sem sentido, se protegia dos olhos atônitos do homem contratado. Reparou, ao perceber o frio das ondas nas costas, a anca arrepiada, um pouco irritada pela punição que o homem acabava de lhe infligir. Aquela anca que começava a ficar redonda demais para o seu gosto exigente, sem aquelas curvas devagar de que ela costumava se orgulhar, e que era o de que mais gostava no seu corpo. Fora os seios cheios, bem feitos com um esmero artesanal da natureza, difícil de se encontrar numa mulher. Desviou os olhos de si, e com o olhar chamou a atenção do escorte impassível que a contemplava girando o gelo e o limão no copo de gim. Apontou com as sobrancelhas para a cidade lá fora: e a ressaca sonora que lavava a calçada interminável. Esticou com medo o queixo delicado para a cena, indicando o perigo, e esperou pelo próximo estrondo que certamente viria na incansável arrebentação. Alegrou-se sem querer com aquilo. E consigo mesma distraída, ouviu o que esperava e temia.

     Surpreendeu-se com o grito doloroso que acompanhava a onda, e depois os estilhaços silenciosos da espuma num mundo único, sem música. Agressiva, solitária, nervosa, ela constatou que a voz que pressentia dentro dela vinha da sirene de um carro de polícia. Reveladas pelas lanternas do furgão, Laurita viu com as pálpebras negras entreabertas as trevas superficiais recobrindo o mar que se afastava. Apoiou-se num único pé, garça imóvel nos juncos do tapete, balançou se afastando da vidraça e fechou com força a noite que lhe esfriava o corpo. Entendeu com desgosto que a idade lhe vinha chegando. Amuava-se em si mesma, agora totalmente alheia ao palco obscuro onde deveria representar o seu papel de alimento e vítima. Os pensamentos se tornavam sua segunda pele. Sobretudo de todas as outras que já se acumulavam sobre seu corpo naqueles anos todos. Era uma festa que se acabava, feita de tantas cascas ocultando uma alma de cera fria! Asas de borboletas que revestem e recobrem pesadamente as carnes surradas pelos choque dos sonhos. Voltou à janela a tempo de ver uma onda mais forte empurrar o mar até a calçada, do outro lado da rua. A espuma sobre o asfalto negro retirava o ar de sua respiração. Não conseguia mais se manter na superfície e nem afastar as imagens da filha, e do destino de ambas, da natureza de seu corpo nú.

     Numa vertente rápida, a varejeira suja trazida pela maresia invadiu a janela descarrilhada. Cheio de horror, seu corpo atravessou o silêncio do vidro invisível. A rachadura fina entre dois momentos inadequados recebeu a mosca. Era um pressentimento, de que entre dois gozos perversos alguma coisa dentro dela, tudo aquilo, o quarto, o homem, o instante, o que lhe era mais precioso, já não lhe servia de nada. O rápido breve sorver de ar mais forte, se tornava pesado e quente: tudo aquilo estava destinado a desaparecer. Sofreu em definitivo a finitude quebradiça das coisas mortais. E com nitidez viu os contornos, os sentimentos daquele seu vazio de sempre. O tão conhecido indecifrável, que lhe revelava o seu inefável desaparecimento. O impossível sustento da sua presença canastrona numa cena mal barata. Como aquele teatro que já não a interessava mais! Nada lhe pertencia, subitamente fora do alcance de uma atriz ridícula e espetaculosa. Agora sentada, desmontava daquelas poses picantes que a deixavam cansada. Em silêncio e sozinha viu-se ao lado do homem anônimo. Laurita voltava a se entregar aos velhos momentos de sua existência. Cega e ambígua, o movediço nexo dos dias se afastava. Via que não podia ser outra, senão a sua própria carne, malvada e sem espírito. Como um pavio que se cansa, tinha-se desgastado. Se tornaria em breve uma infeliz fumaça, pequena fumarada lançada depois que a vela se apaga.

     Gastava a pensão de viúva nos motéis, com homens que não conhecia. Sonhadoramente pagava para possuí-la do jeito que ela queria e pedia. Cigarro, jantar, drinks, tudo por sua conta. O corpo roliço engordando às semanas. Doces, filés, empanadas, a presença dolorida do amante dentro dela. O que lhe retornava e repetia do prazer falso e da dor que aprendera com a vida? O próprio ócio, o tédio, tudo aquilo, era o ódio que conhecera dentro de si. Ou coisa pior, vinda do nada, agindo dentro dela, através dela. Aquele prédio que frequentava com assiduidade, era o trem fantasma de um parque de diversões. Imitava um palácio assírio, para o qual se pagava ingresso. Ia e voltava ali, num entra e sai eterno, só para encontrar-se com seus próprios horrores. Em breve seria um canhão, e teria que pagar o dobro ou o triplo se quisesse continuar a ter alguém que a chicoteasse suavemente e a suportasse nua entre as carícias. Notou que, pelo menos, suas unhas pintadas de escarlate estavam de acordo com tudo aquilo. Poderiam combinar como uma fantasia de Cleópatra velha, sempre escolhida por sua manicure, em seu salão privativo, no seu palácio da Babilônia. Talvez no Egito.

     Dois flamingos em chamas pousaram com as asas abertas sobre os vergéis da capa da poltrona. O amante, sempre sentado em silêncio, mais uma vez fumava placidamente. Receberia o dinheiro, fácil, com ou sem ação. Tranquilo, observava Laurita, sem procurar entender nada daquela mulher maluca e masoquista, indecifrável para ele. Ocultas detrás do amante, por vezes, aquelas aves de ofuscante beleza movimentavam os pescoços criando um suave estrépito no panejamento das cortinas do quarto. Quase congelados pelo ar-condicionado potente, os corpos se tornavam frios por fora, apesar das recompensas e do desejo que esperavam encontrar por dentro. O de Laurita, depois de tudo, agora mais gélido ainda.

     Embaladas para frente e para trás, oscilando por seu lento caminhar, as aves penetravam as longas pernas nos juncos do lago do tapete. Um demorado brejo de penachos brancos ondulantes se desenhava no esplendor acolchoado da cama. Cada batida de suas asas movimentava os copos, desfilando contra o rótulo da garrafa de gim na mesinha de cabeceira. As duas rodelas de limão descansavam no fundo do falso cristal, esquecidas entre as sombras do gelo. As frutas descabeladas, lembravam que dois humanos haviam passado por ali. E beberam em seus anseios. Agora, os pedaços de limão eram relegados a pobres papéis de bonecos mortos que se olham, enquanto lutam para se esquecer de tudo.

     Duas maçãs do amor permaneciam ainda intactas, perenes em seus invólucros de papel vitrificado, sobre a bandeja de plástico das bebidas. O brilho do açúcar e da anilina vermelha confirmavam a sua mentira. Bucólicas, o feitiço começava a se ofuscar. Pronto, a guloseima simbólica ia derretendo com a umidade dos corpos e da ventilação. Por conta do nauseante cheiro de mofo do muquifo de decoração extravagante, o resfriamento era forçado ao máximo pelos amantes. O vidro de um dos copos ainda exibia os restos equilibrados de uma rodelas de limão. Pendurada, se mostrava desfigurada pela avidez dos dentes de um dos dois humanos que bebiam o gim da garrafa até se fartar, até o fim. Certamente era o copo de Laurita. O rapaz, magro e feio, certamente com espinhas eternas e mal curadas, vinha de uma família de classe média baixa, nitidamente destruída, e quase não tocara na bebida. Sabia que seu emprego era temporário e perigoso, precisava manter o juízo no lugar. Num ímpeto irracional, a mulher fez questão de sugar todo o líquido do copo e mastigar o ácido do cítrico gelado. Antes de dirigir-se novamente para o amante, cuspiu o resto da fruta na bandeja gelada. Agora, o cadáver massacrado e verde se transformava em duro artefato de matéria opaca, irreconhecível. Em sua casca enferrujada, surgiam frias manchas cor de fumo mascado. Ao se tornarem escuras, faziam brotar meios tons mornos, contrastando com os pedaços ainda intactos do revestimento vivo e original. Uma natureza morta nauseante, quase inseparável da mesa de cabeceira ao lado da cama e do tapete turquesa que se estendia em pequenas ondas por sobre o pântano de massas felpudas. Massas que iam se amortecendo, desde a cama, em direção ao rodapé de cerâmica da parede cheia de bolor amarelo do fundo do cômodo. A sirene do carro de polícia voltava, agora mais veloz. Uma maré salobra, fugindo da praia pela janela emperrada, atingia o quarto. Entorpecia o corpo da mulher em silêncio sobre a cama. Seu olho estava obrigado a mergulhar no que não fazia mais parte da sua vontade. Ali ela se perdia, levada pela maresia para o fundo do mar. Para não encontrar mais o caminho de volta para a cama, onde se entregara há alguns instantes atrás.

     Laurita se assustava ao menor movimento das cortinas, onde os flamingos capturavam com o bico suas presas de rodelas de limão chamuscadas de álcool. Reconhecia nos padrões do tecido um silêncio, de que as aves se alimentavam. Eram as cortinas da sala onde a menina voltava a dedilhar o piano solitário. Agora tocava de ouvido. Percebia as notas que faltavam, os tropeços do andamento, os enganos dos tempos fortes. Teve vontade de corrigi-la. Mas descobriu que a intérprete apenas acariciava as teclas, uma por uma. E que o som que ouvia com os erros de interpretação, vinham de fora da janela. Então viu sua parte da partitura, fechada sobre o descanso na parede do piano. Confusa, forçou os olhos para distinguir o que ouvia. Encontrou, por detrás da plateia engalanada, o avesso daquela realidade de fausto e riqueza.

     Do fundo da sala romântica, dois bezerros moribundo são arrastados para a frente da cena. Pelo chão do salão de concertos, seu destino era a estrada diante do pórtico principal do casarão. As cabeças exibiam os olhos revirados, os vãos das órbitas, e íam às marradas contra as quinas das pedras brutas do chão do palácio dos potentados da Prússia. Os pequenos animais recém nascidos estão jungidos por uma corda rústica. Um imundo artefato de trança de crinas ora claras, ora escuras, e bastante esfiapadas. São puxados atrelados à velha carroça de feno branco e fresco do antigo cocheiro de seu avô. Seus dentes, e o que sobrou do fato e dos ossos, serão levados para o repouso final nos pântanos. Guiados pelo impassível homem sem rosto, refazem mais uma vez o mesmo caminho de todos. O pobre homem de meia idade balança de embriaguez a cabeça miúda e pesada pelos cabelos cinzentos e desgrenhados. Nas roupas amarfanhadas como um embrulho de papel sujo, ajeita o boné avermelhado. Tons de terra viva, surgem ásperos, de seus olhos fatigados. Confuso e completamente sem controle, ele conduz a carroça e enxuga com uma estopa grossa e surrada, para todo lado o suor, sobre a testa grande e marcada de sol. O boné miserável, que foi um dia um gorro de lã amarela e feito com esmero, é agora aquela massa desconexa e de cor indiferente que ele carrega sobre a cabeça oscilante, à medida que a carroça avança. A pele clara dos seus pés, entre os dedos grandes e tortos pelo ofício, está marcada por uma luz violeta e sem vida, que a envolve, e se reflete na madeira cinzenta do transporte primitivo. Ele trabalha, apesar da gangrena lenta e mortal que o consome. Um sol disfarça o mundo e assinala sem sedução o fim do dia.

     Tomada pelo espanto de reviver o antigo delírio, Laurita desviou-se da própria loucura. Sozinha ali, sem mais ter com que se impressionar, renascem e crescem na sua pele o desejo, e o gosto pelo homem, que ela imediatamente convoca. Novamente, ele lhe arranca o prazer proibido. Ondas fortes quebram e trazem a maresia pelas frestas da janela do motel. Se escuta o doce e áspero sangue dos peixes no ruflar seco e negro das asas da maré noturna: o crocitar da sua fome. Laurita, com as mãos dedicadas contra o corpo do homem, se esforça para se afastar das memórias, e se entregar novamente. Quer cumprir seu papel de fêmea em plena atividade. Desistir de tudo o que pensa, tornar-se sensações de um prazer completo.

     No instante seguinte, estanca e serpenteia de volta para fora da pele do macho que a reveste, e que ela larga novamente sozinho no meio da cama. Cobra atônita, busca cega na mesinha de cabeceira, e enfia a mão no âmago gelado da bolsa de crocodilo. Senta-se perdida na borda da cama, com os pelos do corpo eriçados pelo ar-condicionado forte, suavizado através do lençol negro passado no meio das pernas. Arranca de dentro da bolsa acomodada no colo o estojo fino de prata portuguesa, e tira lá de dentro um cigarro fino e longo. Segurando o isqueiro caro, sem olhar para o amante, acende o cigarro num gesto estudado. E sopra a fumaça para o alto e para longe. Para o mais longe dali que pudesse. Ganhava tempo, precisava sentir-se forte e madura.

     Entrava pela sua boca o gosto avinagrado do tecido da colcha de tafetá e dos forros dos almofadões em letras gregas antigas imitando fogo selvagem e os restos das roupas íntimas enrodilhadas sobre o tapete se destacavam na grande cama vermelha de laca chinesa coberta com a impecável pincelada de um lençol cremoso espesso entre as coxas que eram a paisagem perfeita para o avantajado corpo branco da mulher de meia idade vestida apenas pelas meias cor de café e as ligas azuis de seda cor de vinho seco que o amante pedira que ela mantivesse por mais alguns momentos para o flerte do fetiche com a fêmea madura na posição de poder contagiante que o homem lhe sugerira com um toque autoritário das mãos já com o rosto duro de desejo e agora a violava sem compaixão alguma gozando com sua dor como ela gostava na comedida brutalidade assistindo os dois berloques de bijuteria de brilhantes baratos do armarinho da senhora do povoado balançando aos trancos e solavancos nas orelhas ajaezadas grandes e abanadas exibindo os ninhos de fios de ovos dourados dos cabelos retocados por uma fina tinta acaju sutil nas cãs que se insinuavam com insistência nos últimos meses disfarçados em cacheados rápidos e soltos emoldurando sua testa redonda e fugidia suando pequenas pérolas claras sobre os olhos às vezes crispados numa dor rápida de que ela se esquecia logo e se deleitava porque era assim como ela gostava e deixava passar a língua nos lábios porque aquilo lhe transmitia um distraído ar de ingenuidade de menina perdida um pouco pesada descansando atarefada o rosto de lado no travesseiro que agarrava com as duas mãos se acolchoando docemente para amortecer o homem dentro dela em movimentos consoantes com seus cachos que oscilavam num ruído seco miúdo de vai e vem de brincos em madrepérolas se refletindo na maquiagem ruiva dissonante da malacacheta opaca sobre o rosto oriental ovalado cada vez mais transtormado de prazer e da dor que ia e vinha entre as sobrancelhas inclinadas forçadamente exageradas na tintura do lápis compartilhando a luz bordada do abajur e dos arabescos do papel das paredes de mau gosto como falsos diamantes riscando silhuetas de azuis estrelados atravessando cálices de anis retinindo sobre seus tímpanos de vidro ao meso tempo que nos fortes braços brancos as luzes baratas do quarto do motel imprimiam à sua pele desgastada os pequenos veios de mármore imaginários quando seu sangue se esforçava em todas as direções em todas as sensações possíveis do corpo disponível para a dor surgindo em pequenos bocados de dentro dela para que o homem se saciasse aos poucos e devagar e ela produzisse o suficiente nos divertimentos do animal que queria sempre alguma coisa a mais dentro dela naquele prazer do jogo com a dor que os dois procuravam juntos durante o qual ao mesmo tempo lutavam por um orgasmo duro, banal e brutal.
     Dois de novembro: diante da tua foto. Vestida como uma espantalha nua à espera da tua visita inesperada, sentada na banqueta ruiva do piano fumei ininterruptos cigarros sem filtro. Ouvi meu véu de choros de soprano e inventei sonetos sem fim de pés quebrados. Sem compartilhar com ninguém meu silêncio mastiguei minha máscara: flácida, atual e voltada para os céus. Nos olhos invisíveis quase imóveis, o pequeno macio cão à pilha importado me aguardava com seu jorro intermitente e interminável. Mecânico suor do amor aquecido sem cor depois da novela. O corpo branco sangrento sem par sempre sem ar dentro das vísceras tontas. Tripas rotas esfarrapadas, a pele invisível das mãos paralisadas vão gesticulando e morrendo como moscas bêbadas de luz. Luvas chiques, leques tons de vinho, estolas magenta revestidas de pelos claros, de onças pardas cintilantes: o figurino na moda de um animal extinto. Há muito tempo dependo toda hora do que vem depois, tanto que já me acostumei a esperar sentada. Nunca estou habituada a estar calada. Mal passada ou bem amada, isso ou aquilo de qualquer jeito, como sempre com qualquer um. Foi não foi — o sapo boi — tanto faz! Nunca cessam repetidos os atos cotidianos, as mesmas engrenagens se repetindo em antigas falas. Nem meus vícios, meus dentes nem eu. Nunca fomos novidade alguma, de novo mesmo, nem para mim nem para ninguém. Estou bêbada agora esperando durante uma longa fila de dias. Sempre a mesma crítica: a mesma música que escutam as outras meninas. Saímos à noite vitrificada, como minúsculas bonecas de vitrine pulando das caixas de acrílico para um tráfego intenso e assoalhado. Molhadas, descalças, seminuas, submissas seminovas nas calçadas. Nunca nos teremos completamente, eu mesma nunca me tive. Sempre tive de dar: muito prazer aos habitantes-avestruzes-espantalhos-empalhados espalhados nas calçadas. Das ruas da cidade voltamos leves estrábicas, de olhar para o mesmo ponto. Com cheiro de gás de algas nos sovacos, os olhos injetados de fluormetano e lentes de licor de anis ajustadas no estratégico foco fingido da hora exata. Algum dinheirinho magro na bolsinha perante o serviço militante: esfregamos contra os olhos a paisagem no interior do cômodo imundo. Sempre os mesmos quartos sem claraboia para que os nossos pensamentos não fujam pelo teto para as marquises. E nos desvertebremos na hora hagá, marquesa! As pálpebras versáteis raspam com os cílios as traças das paredes sem vidros. Exalo o suor sonoro do oloroso bolor daqueles sabonetes flácidos, baratos de breu, feitos de fome, perfume viciado e falso marfim. As miúdas minhocas noturnas, fininhas-fininhas, navegam no meu corpo transido. Flutuante de nojo rezo, rezo, prometo missa, vela, novena, e rezo de novo. Desde que não engravide, adoecer também não. Se não me engano nunca, se não me engano, porque nunca me lembro de nada ao certo. Porque, só faltava essa também não tenho medo de doença. Só faltava essa, ôxe! Não quero é ficar aí buchuda no estaleiro das valsas sozinhas. Sempre consigo e acendo mais velas, é bom porque quando se tem muita fé e se acredita no certo o medo desaparece, mas não o erro. Espero meus velhos inimigos usando as roupas novas que ganho deles: brincos tontos, galochas verdes e um par de abajures de viúva: a cor do dinheiro pintada nos olhos que restam em mim. Eles me fazem apenas lembrar do jasmin novo, de novo, e dos infinitos rompantes dos momentos banais, confesso. Escolhi mil vezes essas mesmas galochas, indiferentes e vazias. Sento-me sob o abajur, o diário nas mãos impecavelmente desleixada: rabisco, as galochas estou usando pela primeira vez. Mas não tomei banho ainda — quem toma banho para ir à feira? Nem passei perfume porque também não tive vontade de ficar com aquele cheiro de tomate podre no meu cérebro. Nem pensei pra sentir nisso: mas tive toda a certeza — também não conheço homem livre do medo. Rezo e escrevo, aqui sentada no banco do piano, nessa situação enfeitada. E ouço o deprimente gosto de gosma de losna de novo em minha boca.
     Foi como se Laurita não tivesse percebido nada: nem ela achava que nada estava acontecendo: de fato, em volta dela, nada tinha mudado de repente que valesse a pena saber: nem coisa alguma ainda estava para se dar de verdade: apenas, é que sobre ela, sobre algo que lhe dissesse respeito, ela nunca se dava conta de nada: sabia de antemão somente quando o tempo virava um pouco, mas a olhos vistos, e que seu corpo sentia era que tudo mudara para pior — era a chuva, e o dia mais claro que houvesse sido, definitivamente embruscara-se de vez.

     Por cima do telhado de cobertura miserável subia a fumaça desprendida das achas do salgueiro. Crepitantes, arrumadas no fogão primitivo, as labaredas miúdas dançavam e dominavam o ambiente estúpido do cômodo único. A caliça fina descia do teto e acumulava-se nos lábios brancos da criança dormindo guardada no caixote debaixo da mesa. Na mesma mesa onde Laurita havia acabado de acomodar a galinha morta o berço de vime rústico jazia vazio. No vão aberto nas tábuas cor de leite da mesa as pernas de Laurita indo e vindo embalavam o improvisado moisés da criança. As ramagens acinzentadas da árvore morta que Laurita arrancava com as mãos e jogava sobre o fogo invadiam a janela e desmontavam o alinhamento das cortinas de sacaria branca sem imagens. Pespontadas pelos furos do tecido remendado os panos balançavam velhos ao sabor da fumaça seca. Movendo o pescoço numa onda suave, piscando os olhos pequenos de gansa marcados em cima e embaixo por linhas negras de cílios ásperos, Laurita interrompeu a dilaceração da ave. Limpou uma na outra as mãos brancas e cheias como a lua. Preocupada e compassiva debruçou-se sobre a menina dormente. E rabiscou com o olhar todo o interior do ranchinho.

     Tosse, tosse, tosse! Quase sem forças dentro do pequeno cocho, improvisado em manjedoura de santo, a criança sofria em silêncio o pântano dos seus peitos. Enquanto voltava a despedaçar a galinha, Laurita tentava empurrar esse silêncio para longe ― para o mais longe dela possível. Para o mais fundo das sombras esquecidas de si que pudesse. E se esforçava para escutar. Aquele silêncio era como se ouvisse alguém quem chorasse, duro e mudo. E ninguém percebia. Mas quem adivinharia o cheiro de vísceras velhas e reses afogadas naquela tosse de mal agouro da menina. Uma rola cor de figo, pousada no umbral encardido da janela, tremelicando para cima e para baixo, como um cachorro sombrio, veio para olhar a menina, e arrulhou três vezes. Laurita viu o imóvel possível, o pássaro do destino da filha, ali naquela ave que reinava e subia, e se levantava e voava, e ia-se para sempre. Sentindo asco das entranhas da galinha, que lambuzavam suas mãos de terra vermelha e sangue, voltou a olhar comovida para as mãos endurecidas pelo trabalho. Percebeu-se, e à própria decadência, entretida pela semelhança da sua pele com a crosta enrugada e chamuscada que se acumulava no pescoço da franga. Voltou novamente os olhos preocupados, lacrimejantes de fumaça e ternura, num relance, para o rosto de menina morta. Ela estava viva. Notou como era lisa aquela pele ainda da sua face. E as únicas partes visíveis do pequeno ser enrolado em um espesso xale de papel crepom cor de mostarda: aqueles lábios sem lamentos que exibiam as bochechas mais vermelhas e vivas.

     O imenso limoeiro cravo ressecado que emoldura sua figura, ressalta como brincos exagerados ao redor de seu rosto, as mais que perfeitas esferas ocres e escuras, de onde sobe o perfume bruto dos frutos envelhecidos e de gosto acre. Outros bulbos, não tão perfeitos, mas vivos, foscos, exibem o crepúsculo da vegetação no espetáculo do mamoeiro repleto de pássaros em chamas. Os grandes seios nauseantes, amarelados e amadurecidos, sustentam os sangues-de-boi, bravos, vermelhos, se sobrepondo aos negros e aos camuflados castanho pera dos melros e das sabiás poca, mixando suas plumagens. Eles chafurdam nervosos, vigilante dos predadores, naqueles âmagos generosos de seivas, cremes e sumos. Laurita assiste embasbacada o banquete das aves e se encanta como sempre com a pintura primorosa dos tiês. Diante das árvores em burburinho, três equinos flutuam imóveis sobre a grama, movendo as orelhas peludas como peixes rápidos e confundindo-se com a neblina que a chuva arranca do calor do pasto. A pelagem dos animais obedece a uma escala precisa e quase musical, que começam em tons de camurça claro e discretos, decrescem do macho canela abundante e queimada, até à fêmea de castor quase rosado, e o poldrinho miúdo e baio. Suas caudas são semelhantes, denunciando a linhagem familiar: tendem todas para o amarelo. Com a neblina clareando um pouco a paisagem, Laurita tem os sentidos aguçados e sua atenção se desloca do olfato dos limões, dos mamões e do esterco espalhado por todo o quintal, para o que os seus olhos novamente descobrem. É o sinal daquilo que sempre volta.

     Como não lhe custavam caro todas aquelas manhãs de trabalho, de lida, sentada num banquinho com o balde entre as pernas, diante das patas e do mojo daquela vaca. Aquelas melancolias de curral sempre a tomavam naquelas hora! E então, como toda aquela antiga pestilência voltava a ser farejada! E então, como todas aquelas evidências de sempre mostravam claramente sua verdadeira face, na clareza da podridão das coisas. Como cada sensação se revirava esquadrinhando amesquinhada dentro dela os piores lados de cada coisa e de tudo. Tudo que se arruinando, a vida tomando seu fundamento do estava ao seu redor, enchendo de vazios o que pudesse enxergar, do pior. Olhava, e via e via todas as coisas se desmoronando em volta dela. Turbantes negros nas nuvens cinzas. Leves brotos cor de carne, o odor das romãs, surgiam aos poucos no verdes cansados. Sob a pouca luz que varava a neblina, confundiam-se folhas secas e rasgadas. Laurita via todos os seus dias de repente numa rajada do olho cansado e escuro. O pensamento era um arraial pesado de calor e sem vento. Um brocado pálido de todos os momentos iguais a si mesmos. Igual a todos os dias, de morbidez e cansaço. Um sólido e sórdido barranco no meio do caminho da vida, que descia por ali, e a fazia escorregar como uma cadela cega naquela manhã. Sem freios nem arreios, esse dia, num momento à conduziria à morte, e a nada mais. No entanto essa mesma Laurita, um dia fora vaidosa e vistosa, e apesar de tudo, avantajada de busto. Sem excessos, tresandava aos jasmins dos crepúsculos. Todo aquele cheiro no ar, ao cair da noite. Os acentos árabes que ela entender ao passar do banheiro para a cozinha. Tudo por culpa do maldito perfume licoroso que o marido comprava do prestamista do Sul, muamba do Paraguai.

     E apesar de gostar de se perfumar enjoava fácil às vezes às tardes aos vômitos à mesma fragrante e olorosa Laurita que se exauria no sabão e na bacia velha emaciada cor de leite por artes e ofícios do fastio e da retribuição das poucas flores quase nenhuma que nunca recebia e da quase nenhuma comida que não comia o tempo todo o que lhe dava de sobra era apenas um pouco de gordura nas carnes que sempre teve e não perderia por nada desse mundo para arear as panelas pretas de ferro do fogão de fogo vivo que lhe ardiam os olhos pela soda das roupas alvejadas depois enxaguadas depois torcidas as anáguas depois estendidas como pássaros mudos no quarto da barrela escaldante às vezes magra e ossuda às vezes cantante e branca regendo o espaço vazio entre as paredes com socos de punhadas fechadas desferidos contra o ar puro da madrugada ela punha para secar aquilo tudo embaralhado amarfanhado ainda pesado de água todo dia depois de casar depois de quarar as camisolas limpas lisas de um lírio branco de um limbo fino de olhos puros de altar maldito o marfim de um contínuo liso até o meio-dia transparente quando o animal de carga andava parado de um lado para o outro cambaleante para trás e para frente sem sair do lugar sem estardalhaço um esfregaço nas saias levantadas de longas listras ziguezagueando pelos cômodos pelo terreiro pelo curral em desterro sem destino sem descanso no barro seco no saibro leve nos laivos do leite do homem nas pernas escorrendo emparedada sob os caibros grossos do telheiro do terreiro transportava os trastes os troncos os porcos os fardos de feno farto fresco ágil os amarramentos de lenha revestida de camurça amarga e leitosa a pátina fria dos musgos finos oscilando no meio do dia rimavam com o balançar dos rabos de peixe das andorinhas imóveis nos feixes firmes pesados sobre os ombros com cantigas amenas de sinhás donzelas que aliviam os pesos do homens em seus ombros leves com antigos versos onde escondiam os olhos para não verem nem serem vistas nem se distraírem com os súbitos laranjas vivos e cáquis amarelados entre as rochas e as achas se revezando e revelando no pó ao pé do fogão que a denunciava a quem estivesse por perto aí vai! desmanchava a tralha no chão num estardalhaço de estilhaços num pequeno incêndio rápido com a mão ágil de mulher astuta tudo aceso e descansava deixando o homem velho exausto sem ar no terreiro das mangueiras descascava os imenso inhames brancos brabos róseos para a ceia do leitão de natal que se tornava a cada dia mais branco mais róseo mais alimentado remarcava a rês remoía a cana remordia o gozo que o homem não lhe dava e só lhe cabia debulhar o milho torrar o café estocar o fubá esboçar um sonho e lembra-se das coisas coisas todas das dores dores todas nas costas nas ancas duras regurgitando saudades desde o primeiro noivado Laurita esperava sentir saudades mas não era apenas o sol que vinha novamente para reabastecer seu corpo com mingau para do mesmo jeito logo em seguida descascar aquele dia como antes que se fosse morta de sono novamente quase junto à noite nascer antes do dia e caminhar até o poço à roça ao fosso colher água que a terra tosse forte fria e dava de graça de boa vontade carregá-la até à tina à pia à fossa junto com os novos excrementos frescos ainda vivos daquela manhã fedida se despedindo da vida a cada dia esquecendo-se de si como um lagarto frio ao sol esperando para mergulhar na toca da pedra aberta e ter seu calor absorvido nela de uma vez para sempre se livrando de todos os movimentos surdos que fazia não fossem nesse momento todas as horas mortas de fadiga e alegria e de medo de ser descoberta nos braços de Zukko entre a sebe a hera a terra manchada de figos frescos que o caipira brabo de olhos tortos lhe trazia o caolho atravessado o pestana branca todos os seus dias carregando a cruz de um corpo que entrava e saia de novo de sua toca como um lagarto quente esperando a lua que ainda lhe inchasse os seios tardios e grandes e enche seus sonhos de noites mal dormidas: Zukko!

     Uma cansada canastra cinzenta de vime rústico, jazia cheia de lenha no canto escuro da cozinha miserável. Por cima do telhado da cobertura frágil, subiam e desciam as magras fumaças dançantes desprevenidas desprendidas das achas em agonia do salgueiro morto. Caoticamente arrumadas no fogão primitivo, as labaredas pobres dominam mais um dia do ambiente sujo do cômodo único. A caliça fina desprende-se do teto, acumulando-se nos lábios brancos da criança dormitando, guardada dentro do caixote improvisado em berço enfiado embaixo da mesa. A mesma mesa onde Laurita acabava de acomodar a galinha morta. Debaixo do vão aberto pelas tábuas cor de zimbro e cobre da mesa, as pernas de Laurita indo e vindo, embalavam a caminha com a criança. As ramagens ostensivas e fosqueadas da árvore morta, que Laurita amassava com as mãos e jogava sobre o fogo para atiçá-lo, invadiam o chão e desmontavam o alinhamento das cortinas de sacaria branca sem imagens. Pespontadas pelos furos do tecido remendado, as franjas enegrecidas balançavam velhas ao sabor da fumaça. Movendo o pescoço numa onda suave, piscando os olhos pequenos de gansa farta, marcados em cima e embaixo por duas linhas negras de cílios ásperos e suaves, Laurita, com as mãos brancas e frias de tentáculos de inseto lento e pegajoso, interrompeu a dilaceração da ave. Rabiscou um olhar no interior do ranchinho abjeto, e ao mesmo tempo que preocupada, compassiva se debruçava sobre o rosto da menina dormente. Tosse, tosse, tosse! Quase sem forças dentro do pequeno cocho de bezerro improvisado em manjedoura de Jesus Menino, a criança sofria silenciosa o pântano dos seus peitos agudos alagados de catarro e fuligem. Enquanto a galinha se despedaçava, Laurita empurrava esse silêncio para longe, para o lugar mais longe dela possível. Para o mais fundo das graves sombras pressentidas de si que pudesse. Esforçava-se para escutar tudo ao seu redor, e naquele silêncio era como se não ouvisse nada. Só ouvia a voz de alguém que chorava, um uivo duro e mudo, e nada mais. Ouvia o que ninguém percebia. Ela, que nunca podia ouvir com certeza, o que sempre ouvia. Mas quem adivinharia o cheiro das velhas vísceras e reses afogadas naquela tosse de mal agouro da menina. Uma rola cor de figo, pousada no umbral encardido da janela, veio conhecer a criança. Tremelicando de cima abaixo o pescoço magro, como uma cadela sombria, arrulhou três vezes seu latido raivoso, e ergueu a cabeça injusta. Laurita viu o impossível imóvel. Viu o destino da filha ali cantando naquela ave que reinava um pouco e sumia. Ora se levantava, ora voava, e ia-se agora. Em meio às nauseantes asquerosas entranhas da franga lambuzando suas mãos de terra, gordura vermelha e sangue, deu com o olhar comovido para os dedos endurecidos pelo trabalho. Através da própria decadência, percebeu a semelhança da sua pele com a crosta enrugada e chamuscada que se acumulava no pescoço da franga despedaçada. Voltou novamente os olhos. Lacrimejavam de ternura e fumaça. Num relance preocupado para o rosto de menina, notou como eram lisas ainda as peles daquela faces baças de louça. A menina não estava morta. As únicas partes visíveis do pequeno ser enrolado em um espesso xale de papel crepom escarlate: aqueles lábios exibiam as bochechas dormidas, em algum lugar do seu sono, ainda brancas como porcelana. Manhã e tarde, segundo dia.

     Barro é melhor do que bosta. Mas esse barro grudento desse jeito, isso foi praga de alguém que pegou em mim. Feitiçaria! Melhor pensar no batebem do esguicho da teta no balde, no mel do cupim, na furta-cor do galo índio. Pena solta da beleza, gramão de pasto. Preparar a charrete, cocorricór no meu ouvido. O diabo nas guelras da minha solidão, o mundo todo contra mim. Coragem para uivar e viver de dor, sob as bombas do outro lado. Dormir debaixo de Zé Tião Zito. Noites de amarelo amargo pesadelo, e medo. Domingos de breganha injusta, a mui boa mula velha vermelha do Bento, pelo canivete russo falso cor de osso importado do Broa. Fumaças de cisco, o cheiro do porco na banha da lata, e conversas fáceis enquanto eles trocam. Olho no olho escondido com aquele moço bonito que trouxe a cabra, o sobrinho do Zé Dalemôa. O porqueiro miudinho e encantado com sua gaitinha mal soprada, faltando nota e dente. E os zói nas minhas coxa. Ah! Tião Zito, Zé, cê não vê nada na tua muié! Num vai nunca vê mais nada nunca nela. Nem quer saber onde ande, de mim. Cê casou por mode de ficar livre na tua travessia com a amásia casada. Sempre que se casou de olho na mucama, que ela não igualava a mim. Maluquice de casamento de homem sempre dormindo. Pestanejando nas poltronas de dia e de noite as idiotices e as imundícies dele. As galinhas no Domingo bem passadinhas, que quer que eu faça? E eu que quase não como! A menininha que nem não gosta também. Prefere o porco desarrumado das latas. Ah! meus frangões temperados com cebolas inteiras. Farofas íntimas meladas com azeites, as fartas da venda da vila. Fritas fumegando franzidas. As alegrias dos cabelos de feno do potro do Zukko! A febre fácil que se agita no ar pelo meu corpo debalde debaixo dele. Deitamos ambos no limbo de fininho na várzea doce sobre o mel onde as melas melam e as macelas brancam. Os meus zimbros, os meus milhos, os meus guizos de cetim sob os teus ombros de giz. O peitinho marelo na tua boca. Indo e voltando de marmelo, tudo gozando, toda molhada de mim. Sussurrando raivosa, sussuro grosso: tua puta! A buceta da onça nos teus olhos negros. Me vendo com fome de dizer besteira, aquelas fomes de vão e de vem. E voltavam, e iam e vinham, e ele falava de novo. A boca inchada, leitosa, com cheiro de rum num cálice de jasmim. Debaixo da árvore carmesim, sempre o mesmo pensamento de mulher podre pedindo. Toda aberta do teu lado, manacá, uma perna presa, enganchada no galho e a outra escanchada, mergulhada para sempre no inferno. Eu pedia.

     A mulher magra, mas corpulenta por força da lida no campo, entrava descabelada pela porta desencaixada da cozinha. E jogando com a anca a tábua destrambelhada para o fundo da parede, e a galinha destroncada no chão, bem para perto do vazadouro de água que dava para o mangue vermelho, pisou com força nas suas asas usando o estapafúrdio e espatulado pé esquerdo descalço. Notou sem gosto as unhas crescidas, já comidas pelos fungos das valas do chiqueiro e pelos bichos de pé que pululavam por todo aquilo ali. Num passo de mazurca brava, alcançou num lance a afilada e firme lança que mantinha presa na parede em cima do fogão. Tomou a lâmina com firmeza na mão, e com ela deu três pancadinhas firmes no pescoço da franga, já disponível entre os dedos da mão esquerda. Como um ágil barbeiro em seu papel de verdugo, arrancou um pequeno tufo na penumbra da penugem clara, e assoprou forte tudo aquilo para longe dela. Para não atrapalhar o trabalho com o gume de metal, mais três pancadinhas secas no pequeno clarão aberto na pele da cerviz da ave. E num movimento seco e brusco, acompanhado de um gemido frouxo, triste som oco antecedeu o final fatal. Um jorro viçoso e cremoso de sangue e vida ainda se esparramou dentro do coité de abóbora d'água que Laurita mantinha esperando por aquilo ao lado dos pés. Os grandes olhos trêmulos e redondos da mulher encararam a cara feia da ave que agonizava. Laurita enrugou a face, como sempre fazia, esperando aquele exato momento em que a membrana fosca de um tecido liso, opaco e cego despedia o olhar da galinha para o mundo, despedindo-se assim também da mulher que sempre se impressionava com aquele adeus. Laurita nunca aceitou confortavelmente o fato de que tirava a vida de um ser, que como ela, dependia da luz para existir. Mas, ao mesmo tempo, experimentava um prazer obscuro ao passar o gume branco da faca no pescoço da bicha. Um gozo no aniquilamento da galinha, como aquilo lhe satisfizesse um grande desejo oculto, e acrescentasse alguma coisa à sua vida de miséria. Ainda que angustiada, sentia-se mais leve a cada vez que via correr o sangue da ave contra a cuia que o aguardava. Depois os afrouxamentos do corpo, depois os estertores, e pronto, estava feito. A franga presa entre o seu pé a sua mão dava o sinal da falta de forças. Então, Laurita também relaxava. Dobrado como uma mangueira de água velha do quintal, donde brotava um resto de sua seiva, o pescoço flácido da ave tremelicava como uma serpente, soprando de si para esguichar o que ainda lhe restava de vida.

     O macho velho, pançudo, dormitava de boca aberta, babando meio morto sobre o travesseiro. Da barriga dura e grande para cima, surgiam seus pelos prateados. Pelo jeito que se deitava, pelo peito, pelos furos de tiros falhados na camisa parda, avermelhada, surrada, adivinhavam-se os reflexos da sua carantonha pesada. Os fracos fios da barba pouca, por fazer, deixavam escorrer um ranho de baba grossa, que a pobre fronha de chitão desbotado de seus azuis do travesseiro delineavam como um rio contínuo e sem curvas. A roupa de trabalho, fedia de ranço de curral, que ele não tirava nunca. Às vezes, dormia sem banho, sarnento, atravessando fedorento e nauseante como um marinheiro esmolambado e bêbado o convés do sono. Balançando entre um dia e outro inútil, mesmo assim domingo, dormindo grunhiu nenhumas coisas. E se jogando sem se jogar para o outro lado, puxou o travesseiro para o meio das coxas. Esticava e dobrava as pernas e os joelhos como se chutasse o cachorro que lhe abocanhava os sonhos. A mulher, abandonando na beirada da tigela o pescoço da ave abatida, ajeitou sua crista lá dentro, e equilibrou como pode as duas partes de seu corpo fraturado. O sangue virava molho e a terra virava erva. A uva virava vinho e ela envelhecia. Que não se desperdiçasse nada nessa vida. E ainda inundaria o chão da cozinha daquele melado difícil de esconder. Passou as costas e as palmas das mãos sobre a saia remendada e encardida, como se amolasse os dedos para passar seu gume no pescoço do homem que dormia, e que lhe dava náuseas. Repetiu o gesto uma e outra vez, e piscou para desviar os olhos daquela cena nojenta de um homem dormindo. Esticando o braço, alcançou o bule de café, guarnecido por um cabo de madeira marcado pela queimaduras do fogão. O metal esmaltado de verde fumegava na trempe negra de fuligem. Depois de desprender do gancho do aparador uma caneca que fazia jogo de matéria, cor e estilo com o bule, encheu-a da bebida quente. O conjunto exalava o ardor da palma do coqueiro e da noite de viola, mesmo na manhã morta de silêncio e angústia. Adoçou a bebida com a rapadura grossa da venda, sempre disponível na caixa de madeira próxima do fogão. Estendeu o braço surrado em direção à cama, e sem olhar para o corpo que jazia ali se contorcendo, disse: – Hum! ― Lutando com o travesseiro, o homem de olhos fechados tateou, tateou, tateou. Adivinhava o espaço onde Laurita estendia a caneca para um cego, esperando que ela lhe facilitasse o serviço. ― Levanta! Vai sujar a merda da cama toda! Depois eu que tenho que limpar. ― Liberta pelo trabalho com a oferenda, da obrigação de ter que adoçar com o corpo o amanhecer nojento daquele patriarca dormido, voltou a se abaixar. Despejou do pescoço da galinha dentro do coité quase cheio, quase as últimas oferendas de sangue que a vida do animal gotejava. Com uma mão, o velho arrancou o travesseiro de dentro das pernas. E num gesto curvo e pesado o apoiou contra o espaldar da cama. Com a outra mão equilibrava a caneca diante da boca. Soprava lentamente o quente do líquido, enchendo o quarto de uma fumaça pagã e doce. E fincou os pés no meio do colchão de crinas cheio de corcovas, rastejando de costas até à cabeceira. Lutava com a cama, tentava encaixar a cabeçorra para cima do espaldar. Aproximou a caneca da boca, e antes de levá-la aos lábios, abriu finalmente os olhos: duas grandes olheiras negras de cachorro velho na manhã nevoenta. Grunhiu novamente: ― Deixa esfriar... ― Não posso me mexer agora, merda! ― Laurita disse. Fechando novamente os olhos, o homem soprou com hálito pesado a caneca de café. Encostando a cabeça de lado na quina da cama, exibiu as bochechas flácidas, manchadas de azul pela barba sem fazer há dois dias. Olhava seu mundo fora de si, todo seu, sinistro mas seu. Acordava satisfeito de uma noite bem dormida, ao mesmo tempo que observava o trabalho de Laurita, e se regozijava porque tudo ia bem, na sua mais perfeita ordem. Dono da vida e senhor da morte, esticou mais ainda os olhos para fora da janela, e dessa vez os contraiu: ― Meda de garoa! Nunca que para! ― Pra quem fica na cama até às sete, tanto faz que se chove ou que se pega a fazer sol! ― Laurita disse, resmungando um desprezo, e sem se importar se seria ouvida ou não.

     Entre um e outro arrepanhado de penas fumegantes, a mulher arrancava com raiva a pelagem da franga. Apertava os chumaços nas mão grandes, e depois os soltava na lata improvisada de lixo ao lado do fogão. Com um sacolejo brusco do punho, mergulhou a franga na panela de água fervendo. ― Só tenho serviço segunda feira. Esse fim de semana fico em casa pro mode dajudá vosmicezinha. ― mentiu o homem, jogando o café para dentro da goela. Bochecha para tirar a gosma que o sono e a natureza tinham depositado entre seus dentes, enquanto admira o bom serviço da mulher. ― “Grandes merda a tua ajuda”, Laurita pensou, mas era melhor não atacar a fera de frente. Haveria outras maneiras. E arrancava com mãos ágeis a cobertura farta do animal cor de terra se desmanchando dentro da panela fervente. Molhada e esfumaçando ia enchendo com aquela massa o velho depósito de metal amassado e sofrido. Por ali, já havia passado as penas de várias gerações de frangas, galinhas velhas, vermelhas, brancas, negras, cor de zinabre e o amarelo-fosco, pelas mãos diligentes de Laurita, diante dos olhos preguiçosos de Zé Tião Zito. O pequeno galinheiro atrás do quarto da barrela, não parava de produzir, nos cinco anos de calvário que já durava o casamento com o velho coxo: era dado a uns goles pela noite, e tornava-se exigente e agressivo dentro da cama. Depois que as penas desapareceram da pele do bicho, Laurita tirou a panela do fogo. Pegando o animal pelo pés e pelo pescoço degolado, chamuscou ali mesmo no que sobrava do fogo, as penugens que se exibiam, agarradas no couro arrepiado. Examinava detidamente os poros desprovidos de sua cobertura natural, e que justificavam sua existência de ave. Deitando a franga gorda sobre uma tábua larga, pesada e escura, que exibia um leito côncavo provocado pelo desgaste de tantas lanças que encontrara pelo caminho, a mulher com golpes rápidos decepou-lhe as garras e arremessou-as pela janela do quintal. Ouviu o ruído ríspido e rápido se aproximando dos despojos e o som do massacrar dos ossos crocitando. ― Vou tomar meu banho, disse o homem. ― De pé, jogou a caneca sobre a mesa e tentava encontrar o chinelo velho, com o pé descalço, que a perna ruim, menor que a outra, em contato com o chão de pedras do rancho procurava. Reclamando sempre da hora ainda de pouco sol e de muita neblina no pasto negro do inverno, entrou no banheiro. Laurita ouviu o ruído cricrilante da sua urina no fundo imundo da fossa, e a água gelada que caía da mangueira presa entre os caibros rústicos e roliços do teto de palha. O gelo gritando contra o corpo, arrancava da garganta do homem um sopro fino, doloroso e desafinado. ― Diabo de Julho, que só entra a esfriá! – Falou mais alto para impressionar Laurita. ― Pegando o pasto do João da Neia pra roçá, mando botar uma serpentina nessa merda. Tô injuado de tomar banho gelado feito capivara. ― Laurita riu em silêncio, descrente do que já sabia de antemão que não ia acontecer nunca. E enfiou a faca com ódio na virilha da galinha, começando a trinchá-la. Enquanto trinchava, cantava esganiçada a canção desafinada. E cantava de novo, repetindo o refrão:

      Óia só seu moço O que se deu pra lá Nas Minas das Gerais Entre as roças De feijão guandúú Depois de beijar uns tais Aquela moça da quirina russa Quem diria! Tá mojaaandú... Tá mojaaandú... Tá mojaaandú… Mojandúúú

     Diante da mesa, como de um macabro samovar, subia da panela de barro sobre o fogão de lenha, escaldadas e chamuscadas, o cheiro das penas no vapor enjoativo e forte da galinha morta. O aroma nauseabundo se distribuía pelo minúsculo cômodo, olor pantagruélico e sinistro. Laurita duvidava se aquele festim tão ávido e nojento não faria mal para a saúde da criança. A mãe de Laurita a concebera gêmea de uma irmã menos nítida, que ainda tiveram tempo de espiar por alguns dias, enquanto mamava quase sem boca. Sem formas, assustavam suas feições de nenhum brilho. E a família não conseguia se livrar daquela impressão de que a menina tinha carinha de rato. Das duas, uma, uma apenas se salvaria: Laurita sobrevivera. Temia que a filha, Elvira, também gêmea como ela de uma menina natimorta, de olhos grandes e pescoço de bezerro, não sobrevivesse. Por conta desses pressentimentos, era rigorosa no cumprimento de alguns rituais. Não deixava espelhos descobertos, próximo da criança evitava sapatos emborcados, espantava as aves de mau agouro quando piavam de madrugada penduradas na biqueira do telhado de sapé e cavacos. Principalmente no galho da magnólia centenária próxima da casa. Por muitas noites, o marido foi despertado pelo rebuliço dos passos de Laurita percorrendo o terreiro, entre os ramos da arruda-brava dentro das sombras, agarrando pedras e pedaços de pau para afugentar as rapinas que a atormentavam. A mãe costumava afastar, usando de todos os meios que pudesse, com raiva protetora, todas as ameaças para longe das proximidades da pequena. A tosse miúda, densa e de baixo calão da menina, a sacudia sobressaltada. Ela acordava em alarme, agitando os braços sufocados, como afastando um mostro. O peito arfando em compassos pesados, estacados assolavam os pressentimentos da mãe. Laurita novamente olhou para o caixote. Correu para o pano de prato, na ânsia de secar as mãos e socorrer a menina que acreditava num sofrimento final. Distraiu-se enquanto olhava para a criança.

     O falcão peregrino surgiu e desapareceu, cortando o espaço vazado da janela. Salpicou uma pequena nuvem com pontos negros que se afastavam em direção ao horizonte, para onde levava seu voo solitário. Deixou dentro do cômodo, rebatendo nas paredes, seus gritos de sinos secos e asas agonizantes. E logo uma pequena mancha vermelha pousou no galho do imenso limoeiro, escondido entre os restos de verde que o inverno lhe permitia. E de novo levantou voo, atingido pelo olhar maligno e assustador de Laurita. Ziguezagueou rápido como um azougue atrás de outro pássaro, rumo ao fundo infinito movediço na neblina. Algumas flores amarelas espetadas nos ipês esqueléticos confirmavam os pressentimentos de uma próxima primavera: era quase impossível não ser logo Setembro. E a beleza depois se encaminharia para dentro do quintal: a imponência maravilhosamente misteriosa e impassível da alma do cavalo de cabeça erguida para o vento, seus olhos cor de lua. O ar invisível que ele respirava e lhe dava a vida no frio da manhã. O animal mantinha extático seu pescoço enregelado, contemplando a pequena ameixeira de frutos ainda verdes, mas já vivos. A neblina mais forte com jeito de chuva, agora se anunciava torrencial. A presença esmagadora da cor nos olhos e nas faces da criança era sinais de vida que relembravam à Laurita que agora ainda não seria o fim. E que por um bom tempo o Setembro mesmo estaria longe delas: seria mesmo o inverno de então. O lampião da sala esquecido aceso irradiava o som dos insetos frescos se queimando. Imaginou sentir o cheiro dos bichos se fritando, como as tanajuras da infância. E olhando novamente para a filha, acreditou que por via das dúvidas o melhor que podia fazer naquela hora, era se benzer de novo. E benzeu-se. Desde as três da manhã, Laurita estava dentro do curral: um vento de uivo, silvo de mau agouro pestilento. Aguaceiro, seu corpo avisou que a camisa de dormir já estava suja. Amanhã, se coincidir um dia de mormaço, lavaria, a blusa também, não era difícil. Bão era mudar a roupa de cama, a cama também era levantar. Assim, o passar do dia, um pano limpo antes das chuvas. Chegar pela madrugada toda manhã, a casa suja pela umidade do vento. O bolor dos corpos, depois as nádegas, anáguas, mas a terra muda cedo. Ainda esperando na seca, a matroninha acordava de noite, aqueles seus olhos de jacu, uns dez minutos aí para tirar os barros das botas restantes pro outro dia da lida de ontem. Voltava pra cama um pouco, depois do corpo dobrado contra o mojo da vaca.
     Rezo há alguns dias, ajoelhada diante da Virgem, porque fui guardada para o Soldado Louco. Porque ele era oficial graduado, e tinha o direito de escolha. Homem de confiança do Major Gonzáles. Viviam seguros, ainda aquela época, porque tinham a certeza de que o Exército não os trairia. Não me informaram da verdade, porque ninguém sabia da verdade, isso eu te juro. “Não sei, mas acho que sim. O homem que eu matei era o meu pai.” O Soldado Louco disse, na primeira vez que me viu. “Quem sabe se essa mulher que você vai estuprar, não foi a tua mãe? Eu disse. “Imunda.” Ele disse. Vinha me ameaçando, mas não me violentava nem matava. Acho que tinha sido contaminado com as dúvidas que eu lhe inoculara. Apenas me deixava com fome. A morte dentro dos meus velhos vestidos de ossos! De manhã davam tiros para o ar, afugentavam os pássaros, mas não tínhamos medo. Me alegravam mesmo essas imagens de arrebóis e fumaça da pólvora, fui criada assim. Meu pés coçando dos espinhos do cacto mandacaru e as unhas sujas se mexendo no chinelo de dedo rasteiro. Ele me visitava sôfrego na cozinha do conjugado quadriculado. As mentiras em Copacabana preenchem os vazios dos arranha-céus. Deitada de lado, exibindo meus talentos em um leito de labirintos. Entre os meus joelhos dobrados precisava ouvir música. Por que não me daria um tiro ― como um raio que me partisse? Eu, que por mim não queria acordar nunca mais, tinha agora a missão de revolver e renovar o fundo de lama, debaixo do meu fogo extinto. Apagavas-te pela noite, você que virou a tormenta que eu mesma soprei. Mas, prisioneira, o fogo voltava, e considero agora a minha alma capaz de pássaros. Com o meu voo estudado, já posso subir tão alto, que a queda demoraria mais que a minha vida. E não seria suficiente para me matar. Ou ainda, porque eu não tinha fé suficiente. Ou não teria lhe revelado algo tão grave para que me matasse. Sem tocar em nada, como você dizia, morta apenas. Essa seria a tua versão oficial. O fato é que tudo seria atribuído à descoberta casual do meu corpo. Um corpo que já estava sem banho há três dias ao teu lado. Três noites sem sonhos nem ar. Não se morre de fedor.
     Viuvinha nova, saliente ainda, bem servida de carnes, a loucura disfarçada pelas baterias pesadas de medicamentos fortes, e de olho nas fases da lua, Laurita passou a fazer parte das novas preocupações da mãe. Vasculhando a memória para conseguir logo um marido novo para a filha, a mãe lembrou-se de um compadre, também viúvo, que tinha umas vaquinhas de leite, lá numa grota em Cataguases. Apesar de remediado, nem pobre nem rico, era um tipo honesto: tinha saúde e era trabalhador, sacudido como o diabo! Ainda podia fazer um filho em Laurita, que o estéril fosse Orfeu! Não a filha dela, era a sua esperança. Cartas trocadas, o velho enfiado num terno de casimira bege emprestado de um amigo açougueiro, e que lhe caía como um saco de coar café, depois de lavado e torcido, veio ter a conhecer a tar Lorita. Falava alto, canivete no lugar da cartucheira do revólver que não podia usar na cidade, chapelão branco impecável, embebido em lavanda e anel de ouro falso, o matuto tinha um ranchinho simples, mas um rancho honesto. Passava os dias batendo o pasto, cortando o trato, rapando curral e tirava um leitinho pra despesa. Ainda dava pra vender um golinho para compra o querosene da lamparina na venda do Jô. Então, não era rico, mas quem sabe fazia sim gosto na menina. Estava resolvido, é claro, e se ela quisesse e pronto: não era um tipo de home de remanchear em saco de fubá nem de cotiar negócio feito. Mas se ela aceitasse esse velho cocho como seu marido!

     Um pequeno aleijão de nascença repuxava a perna esquerda do cabra. Capaz! Ele queria mesmo mas era uma muié, uma muié sempre esquenta o frio da serra e faz o café mais gostoso, não é mesmo, comadre? Lorita não pensou duas vezes, nunca tinha visto uma vaca ao vivo na vida. O mais longe que viajara tinha sido até aquela famigerada daquela merda daquela estância hidromineral, onde passou a lua de fel. Aí, pegaram um trem na semana seguinte e foram todos parar em Cataguases. Casados num certo cartório expresso, onde só se precisava as certidões de óbito da velha morta do Tião Zito, e do marido morto de Laurita: os envelopes dos oficiais estavam lá e eram a letra da lei. Comeram tanta galinha melecada com quiabo e juntaram os panos depois de uma missa bem simples. Missa de primo padre na casa da irmã do noivo, também viúva e ministra da pastoral da Eucaristia, e mãe do jovem cura, únicos membros sobreviventes da família com que o noivo contava. Tudo aconteceu muito rápido, mas a mãe de Laurita ainda teve tempo de perceber que o padreco era um pouco baixo para a largura dos ombros, assim como o noivo: defeito de família – eram primos. Ramerrão que, esperava, não atingisse seu futuro neto.

     E seguiram para o além da vida e da morte, os dois sozinhos, macho e fêmea, o Louco os criou! Já de noitinha, em direção ao pedaço de terra prometida onde Zé Tião, dizque, mourejava com as vacas, encontraram o rancho. No começo da vereda, o velhote perdera a artimanha que usara na pantomima da igreja: ao caminhar pela picada de terra que levava da estrada ao interior da porteira, revelava-se muito mais manco, a poder de ter o dedão arrancado pelo pisão de uma vaca. Não por um defeitinho de nascença, como jurava. Laurita então, assumiu seu doce lar: passou a cuidar do queijo, rapava o curral, cozinhava e arrumava a casa: simples mas casa. E à noite esquentava a cama do marido, velho, mas um touro. Três meses depois engravidou dos gêmeos. O estéril era o falecido Orfeu, não te disse minha filha! Apesar de todos os cuidados de Laurita e da mãe, que se deslocara para Cataguases para cuidar dos recém nascidos, só Elvira sobreviveu. A miúda foi tomando forma aos poucos, apesar das baforadas que tinha que engolir, erguidas do fogão à lenha. A avó, assustada com a morte de seu próprio filho gêmeo mais velho, tendo ouvido falar que o papel era mais eficiente que o tecido para proteger um corpo do frio intenso, passou a encomendar no armarinho da cidade, amarrados de crepom macio. O suficiente para fazer as dobras necessárias num xale quentinho, e nos variados tons oferecidos das cores vistosas e berrantes do estoque da casa. Os artesanatos da avó, encheram os olhos de Laurita, e a deixavam feliz quando dava de cara com aquela menina, ainda viva, mesmo não sabendo por quanto tempo poderia olhar para ela de novo. Mas aquela decoração corporal lembrava-lhe sempre a estampa de um palhacinho enquadrada numa moldura tão viva e colorida, o que a fez amar ainda mais Elvira. Mesmo assim protegida, caía sobre a criança dia e noite, a caliça fumegante e fina das fumigações da folhas queimadas e requeimadas do fogão. Obrigada a manter-se envolvida naquela manta de papel crepom de cores variadas, fedia à fuligem e à linguiça defumada. O hálito da argila branca revestindo o fogão, incendida pelo fogo antigo, ressecava os lábios da criança rosa saibro.

     Na falta de capim novo nessoras de inverno as rês escorria para as beira dos bréus. Para comer um capinzinho ralo que ainda sobrevivia por ali, buscava as praias da pouca água do barranquinho. Antes de sair de casa, o homem reclamara com Laurita da seca da invernada: era o pior tempo da estação para qualquer gado. E não é que parece que o pensamento chama as coisas! Zé Tião saiu bem cedo nessa situação, nessa intenção da temporada: ia veiáco, e se prevenia dos atolamentos. Já já encontrou o que procurava dentro da cabeça: a rês adiantada, chegadinha a produzir, estava enfiada num charco, com o juncal pesado bordando seu corpo todo em volta da barriga. Envolvida até o bucho por aquela cipoada brava era impedida de ter seus movimentos. Abafava uns mugidinhos frouxos, canção de socorro e misericórdia. Depois de tantos esforços de puxá-la do pântano, o homem voltou ao curral para buscar ajuda. E apetrechado com uma corda e a mula de carga na volta, passou a dita corda aquela que trouxe, bem por debaixo dos sovacos da vaca. Amarrou a outra ponta com nó certeiro na cangalha da mula, que esperava parada em hora de serviço, no seco, olhando tudo com calma entre suas orelhas. Depois de várias tentativas frustradas de desatolar o animal, Zé Tião Zito, resolveu amarrar também seus, dela, chifres: passou o que sobrava de amarras na cabeça florida do animar. Para além de tudo, num derradeiro esforço – o sangue congela com o frio – meteu-se ele também numa espécie de arreio. O animal de tração, o homem, e a corda, e a mula eram agora uma roda a fiar. Confiável, num esmerado esforço estropiado: e começaram a puxar. Puxa daqui, puxa dali. Então a novilha aproveitou, ela sim veiáca. Partiu do impulsinho daquela tropa frouxa para o seu peso, e fez firmeza de apoio do casco num lugarzinho mais bão: queria morrer por nada desse mundo não: um toco do fundo. Fincou a pata ali junto com o moral que a máquina na beira produzia. E deu um salto sobressaltado sobre Zé Tião Zito inteiro.

     De um chofre, o caipira estava emaranhado em seus, dele, arreios, que ele mesmo criara para si próprio, improvisados. O desequilíbrio jogava ele no charco, por todo o lodo do bréu, com a barriga pra baixo. Caçou a morte com as próprias mãos. Tá lá as marca até hoje, que nunca sumiu, coisa do demo mesmo, quem não me acredita é só ir lá olhar! A vaca caiu por cima da perna ruim dele, ressuscitada, pisando tudo, homem, mula, fundo e chão. A vaca agora era roda a fiar sozinha. Na ânsia de se liberar das correias da morte, e do próprio arreio, puxou mais forte os laços de canga no pescoço do Zé. Depois, num instantinho, que essas coisas acontecem rápido, não é mesmo, Sinhá?! Se findava o noivo, sem espécie alguma de volta, entre as cordas boas que o prendiam. Um mergulho no borco, do lodo do bréu, afundando, afundando, e a respiração sem vida. A mulinha, cinzazinha fumaça, com aquela fita bonita de pelo queimado descendo do alto do corpanzil, liberta por si mesma da canga, voltava cabisbaixa, sem receber o milho de todo dia, para o curral. Laurita, sabedora dos perigos dos lodos, correu para o vizinho mais próximo, dando alarme de morte. Quando os cortadores de cana chegaram no brejo, Zé já tava gelado há muito tempo, respirando lama. Lodo mui frio, de boca de bréu naquelas hora ainda quase da noite de charco tão fundo! Pisão de rês, laço de corda que ele fez com as próprias mãos. Oh, procêvê, capaz! E a vaca, aquela rês boa, meiona, chegadinha a parir, vermelhinha pintada de preto, a pobrezita, liberta das peias, revivida, olhava em silêncio a cena: já sequinha. Aquele presidiozinho não fora nada pra ela. Nem se lembrava direito mais daquilo! A danada solícita ruminava mastigandinho um brotinho de capim que tinha achado com a boca na graminha, pertinho do corpo quietinho do segundo maridinho de Laurita.
     A minha pequena morte estúpida seria a pior coisa da vida para você. Pior ainda, se ela chegasse pelas minhas próprias mãos! Eu sei disso. Esse tipo de coisa era o menos esperado por você. Poderiam me acusar de corajosa, ou de estupro. De ser tão capaz do ato último, único, máxima ou vergonhosa coragem. E te absolver de tudo. Eles que pretendem se alimentar das minhas certezas, agora se alimentam com as minhas dúvidas. E ganhariam muito com o meu apodrecimento. Sozinha, em casa, dias seguidos, morta sem ninguém ser avisado. E esperam o tempo todo, por todos os lados, que eu desista das minhas mentiras. Os meus detritos que sobrariam, seriam jogados para o Soldado Louco. Ele que tem a preferência sobreo meu corpo, também a teria sobre o meu cadáver. Mas não há mais carne dentro dos meus olhos amputados. Apenas uma visão fantasiosa, religiosa, espectral do nada e do nunca mais. Vou acabar os meus dias olhando para mim, sem me ver. Para o meu rosto que não conheço. Enfim, olhando através do mais profundo escuro, onde ninguém mais pode me seguir. Ali, onde você não é visto, e ninguém dá pela tua falta. Morta no apartamento até que fedesse. Aqui você me vê, sendo que eu, pra mim, sou você me vendo. Você estava pronto, enquanto me olhava. Você era aquele dia pleno, como eu queria que fosse a vida toda. O que unicamente eu não fui. O que você seria sem mim? Sem que você via em mim, nessa época. Mesmo louca, com fome, humilhada, era o que você via em mim que te protegia de toda a vergonha do mundo. E te justificava. E o ódio que eu conseguia sentir por você, explicava e suavizava os teus olhos ressecados. Olhos perversos, animalizados. Suficientes para matar o coração amputado de uma mulher. Durante a conversa, na tormenta, na verdade, honesta, direita e satisfeita – eu sempre via os teus olhos. Mesmo que não os visse. Mas você não. O que me assusta é a minha própria imagem, sendo construída por você, nas tardes em que eu me adivinho. A cara que eu não tenho e que eu não quero ver. E que vou ter que levar por toda a vida ao teu lado. Você quer carne humana para comida. E eu só desejo ser protegida. Fazemos uma boa dupla! Você é um homem que se tornou como os outros, logo depois de atravessar o útero esquerdo que lhe expôs. Major Gonzáles, você apenas precisava voltar a afirmar o seu poder. Mas o exército te traiu. E a cozinheira caipira voltaria a ser obrigada a abrir as pernas para você. Mas nem todos nos elogiavam, quando eu e as minhas colegas preparamos todas aquelas comidas para os heróis da Matança de Agosto. Matavam, porque precisavam, diziam. Gonzáles, soldado louco!

     Matavam, inclusive as mulheres dos outros oficiais rebeldes. O major Gonzáles jurava que não gostava de matar mulheres. Mas que, lamentavelmente, era preciso fazê-lo. Principalmente as mulheres que ele ainda pensava em estuprar. Quando meu pão caía no chão, naqueles dias, caía sempre com a manteiga para baixo. Rubra rosa no roda ao corrupio, à janela, à fresca, à sombra. À forte claridade do fundo do céu, por onde passa a cor de damasco do cômodo, passa também o claro da minha pele. Com um pouco mais de dinheiro o pequeno seio roxo se entregava na antífona da quaresma. Na trepadeira do corpo, com os braços erguidos e amarrados, os espinhos me transformavam em mártir. Devagar mártir erótica. Eu ressuscito translúcida numa pequena fatia da hora, rápida imagem sensual entre nós dois. Os dias inteiros, inúteis de medo, e voz baixa. E no outro dia, de novo, eu entoo com voz firme e feliz, a nauseada litania da promiscuidade. Nesses dias de sol esverdeado de Agosto, até o veneno da morte me faz falta. O renascer dos pássaros nos corações gradeados, fazem com que se abram olhos necessariamente sem os seus rostos. Enquanto a falsa alegria nitidamente se expande como numa explosão. Vincos nas virilhas, cicatrizes de velhas giletes, a mancha de nascença, e o chumaço de pétalas ressecadas e guardadas na calcinha como um breve contra as venéreas. Linda, nua, com correntinhas nos tornozelos de batata. Danço novamente nua, sempre nua, na tua frente, cada vez mais pesada. Danço de novo. Com pernas de barata, agitada, me exibindo para o teatro da janela. Mas não me vejo como uma barata. Mas humana, me depilando, me contorcendo para ralar os calcanhares. Gargalhando contra a morte, entre a pia e o velho salto alto da geladeira cambeta. Envolta em panos de prato, eu rio. São brocados de esponjas de louça os tecidos das minhas vestes. E saem envolvidos em sangue e detergente transparente, os sons da minhas risadas.

     O perfume de almíscar do preparado para limpar o chão encardido. Nuvens sujas de groselha sobre as uvas sendo picadas. Caem passas nas margens do meu pequeno sexo. O trapo fedido, usado, sujo, que arrebata o lixo sobre a pia, também arrebata um rabisco errado de maquiagem borrada. A toalha lançada elegantemente contra o vento, é esquecida na cratera aberto pela explosão dos corpos contra o chão. Eu danço frenética, violentamente. Danço contra a espera. Danço para sobreviver mais um dia, diante de dois olhos vidrados no espelho. O corpo espancado, deitada do lado. O corpo oposto, dolorido. O major Gonzáles me deixava exausta, assustada. Choro sozinha, viúva, ainda viva, vizinha da morte. Sorrio com a língua falsa. Salto aos bocados, uma lebre suja lambendo as paredes. O sangue verdadeiro escorre das porradas, das fivelas contra os lábios.

     Os olhos apertados de medo, as pálpebras doloridas, marcam a dor cintilante da cor do esmalte. Os esquecidos intestinos digerem os hematomas infelizes. Eu também sinto medo, é verdade. Somos milhares de servas, seres civis, disponíveis. Cumprimos tuas ordens, na cozinha e na cama. Gonzáles! Até que eu me aposente, viverei religiosamente a teu serviço. Isso é o que ele diz para mim. Eu e as outras religiosas. E os nossos filhos abastardados e cínicos. Arrancados à força depois dos estupros. Na mesma hora em que nascem. Até que voltem para dentro dos nossos úteros de terra. Nossos ventres verdadeiros e originais. Livres das funções militares que ocuparão quando crescerem. Enquanto tua vaidade demoníaca, tua patente, assim o exigirem. Que nunca falte dentro de nós, filhos para as fardas. Que nunca falte o grande medo de ti. E da tua grande crueldade! Meus lábios tintos, este lacinho da calcinha de lingerie cor de abóbora e a coxa esquerda marcada de roxo.
     A menina moveu minimamente os pés diante da cadeira da mesa, e a afastou, sem se decidir a sentar-se. Eram os passos de uma dança de que não se lembrava. Descreveu com o olhar um arco completo que partia do chão, percorria as cortinas da janela e iam terminar novamente nos olhos da mãe. Enquanto girava o corpo na direção da mesa e sentava-se, Elvira foi aproximando o rosto devagar contra o seu prato já posto, num zigue-zague premeditado que exibia a performance de um estranho minueto desconexo. Elvira olhava a comida em silêncio, parada novamente no umbral do ato de comer. Solene, a menina fez uma mesura exagerada e ridícula, riscando o chão sob a mesa com a ponta dos pés. Exercia um indecifrado arabesco persa, alguma maldição que só ela conhecia. Os olhos mortos de Elvira se pareciam com olhos de peixes. Tomaram a expressão de um animal marítimo, de chifres flamejantes, fustigando a mãe entre as costelas. Finalmente decidiu comer, tomou os talher e aprumou-se detidamente na cadeira da mesa. Como um pássaro que precisasse de som para levantar um voo fatal, a menina tocou agressiva como baquetas os talheres sobre o guardanapo improvisado como tambor. Tirava da mesa um som seco de surdinas amplas. Entre um e outro golpe do tarol, ajeitava a comida dentro do prato em repartidos quadrados simétricos, que sorvia geometricamente, um depois do outro. Entre duas pausas, fazia a louça retinir com um som do garfos de metal, enquanto mastigava com calma, antes de engolir com exagero o bolo da sua boca. Então, parou toda a função e declarou solene: "Não, não quero me comportar dessa maneira adequada! Ainda não..." Disse tateando os dedos no último botão da blusa, na parte superior do tronco. E mostrou a pele do pescoço que surgia um pouco suja da roupa simples, envolta numa berrante echarpe amarela. O adereço fazia parte dos figurinos da sua loucura ainda benigna àquela ocasião. Elvira fechou acintosamente os olhos. Aquele detalhe simples da echarpe, de que não abria mão quando se vestia para sentar-se à mesa, davam ao seu corpo uma radical expressão de humanidade. Momentaneamente cega por vontade própria, conferia, abria e fechava a casa do último botão, com uma avidez que parecia que ia levá-lo à boca junto com a comida. E voltava mais uma vez a tirar a velha conta da presilha de linha grossa, já gasta pelo hábito. Desiludida do brinquedo sem graça, passava de uma mão para a outra um delicado anel de coral, grande para seu dedo, que tinha roubado da caixa de joias da mãe. O retirava e voltava a colocar no dedo mínimo. Alternando as mãos durante o novo brinquedo, disse, casual: "Eis que nesse anel está guardada toda a minha alma. Assim!" Ainda de olhos fechados, exibia a pequena joia como uma criança quer era. "Ora a tenho, ora não a posso ter." Disse num tom sério e comovente, abrindo os olhos e novamente encarando o olhar vazio da mãe.

     Colérica, Laurita gritou: “Você pode fazer o quiser com a sua alma, Elvira! Isso é problema seu. Não meu.” E completou: “Não quer comer, não come! Foda-se!”!!

     Elvira ouviu aquilo com desprezo e depositou rápido os talheres luzidios sobre a cambraia amarelada da toalha. Calou-se, afastou para longe de si, com gesto afetado, o fino prato de porcelana fria sobre a mesa, desdenhando o mundo. E finalmente deu-se conta de que ali em sua frente boiavam no molho escarlate duas cebolas gordas: carambolas gastas entre as fatias de lombo suíno. Aquilo mesmo que Zefa preparava toda noite. Percebeu a contaminação nauseante do molho do assado no bordado claro em torno da superfície das lâminas de carne. O fenômeno prendeu sua atenção. E Elvira o contemplou obstinadamente, em um longo silêncio para toda vida.

     Com o gesto brusco da menina, a mãe automaticamente levantou-se, crispando o rosto em forma de lua cheia. Bastante atuada, riscou com seu corpo endurecido pelas dores que as ancas lhe provocavam, uma curva em torno da pesada cadeira de assento de palha. Se equilibrava ali com dificuldade durante todo o jantar. Arrastou-se sem fazer ruído, empurrou com esforço de volta para seu lugar na mesa o pesado móvel de madeira crua e afastou-se. Apesar da alma desarmônica, para controlar seus sentimentos esmerava-se em ser o mais ritmada e melódica possível. Podia-se ouvir suas costas arqueadas rangendo entre pausas bem calculadas, enquanto se deslocava. Carregava para longe da filha a gigantesca sela anônima dos seus desencontros. Sozinha, buscava a paz, talvez por alguns momentos. Seu ser mecânico batia em retirada do comedor para sentar-se no calor animal da poltrona estofada de veludo. Naquele canto sombrio, apagada entre as pedras agudas da sala de visitas, solitária bordaria seu destino. Dormitaria diante do crepúsculo na vasta salina, enquanto imprimia na cambraia branca, com olhos exaustos piscando sobre o bastidor, o padrão exato de todas as tardes.

     Um pequeno vaqueiro encourado de peles amarelas atravessou na penumbra a limpidez da vidraça onde cabeceavam os olhos de Laurita. Correu para a direita, em direção ao cômodo mal iluminado onde Elvira fora deixada sozinha contemplando sua comida fria. Entregue à sua fúria, ia e voltava. Cavaleiro e cavalo perseguiam uma abastada novilha. A paisagem passou rápido na frente da mulher. Deixava veloz para trás contra os brilhos noturnos do vidro, os rastros da cauda da montaria ajaezada de prata e vento. A rês ziguezagueava, fugitiva das garras da fome de seu piquete magro, fugia em busca de capim melhor. Estava agora submetida ao laço do homem. Sem entregar-se, atirava a cabeça, inclinando-se e entortando o pescoço contra os ombros. Tornava-se enroscada como um nó. A língua crescia para fora dos lábios. Ora espadejava coices, ora subia ao ar e se jogava contra o chão, elevando a poeira da cena imaginária para dentro dos olhos de Laurita. Depois de desparecer por alguns segundos vazios, o vaqueiro ressurgiu diante da janela esverdeada pelo resto de sol, do lado direito da mulher. Correu para um lado e para o outro, tornando repletas as feições de Laurita de partes de corpos animais. Traziam seus cheiros para a náusea da modorra da sala de pé direito alto. Simultaneamente, vaqueiro, cavalo e novilha atravessaram a visão de Laurita. A mulher seguia as manobras que os três realizavam. Sua imaginação ia e vinha, ritmada pela duração do que acontecia dentro da sua cabeça. Congelada a visão sobre o vidro da janela da esquerda, a mão do vaqueiro atingiu uma das orelhas da garrota. O safanão fez a rês rolar no chão, exibindo as pernas soltas para o ar. Seu rosto rosa e olhudo rangia de dor revelada nas feições petrificadas da mulher. Laurita, assolada pela cena, mergulhou na sua alcatifa de modelado andaluz. Alternava a cabeça para um lado e para o outro, ora para os bordados, ora para os espaldares de mogno. Ora para o almofadão de penas-de-avestruz, que a aguardaram ali durante toda o dia que passara fora na aula de artesanato e na costureira. Reconfortada pela ausência de imagens, deu-se conta de que o vaqueiro desaparecera com sua presa. E que aquela luta entre o homem e a novilha, era exatamente uma repetição da sua própria vida. Só não conseguiu definir com clareza quem era ela naquela cena, se o vaqueiro, a montaria ou a rês.

     Finalmente reconfortada, Laurita viu o tapete de estopa envolvendo seus pés. Olhou as unhas crescidas saindo das pernas do pijama de seda. A echarpe negra a recobria até o pescoço. De dentro da canastra aos pés da poltrona, grossos edredons foram puxados para cima de seu busto de gesso. A mulher tremia delicadamente no seu esquife. O galgo branco, pestanejando olhares, admirava sua velha senhora, que imóvel fixava o teto. Deprimida, diante do crucifixo de madeira, Laurita lamentava com “ais” devotos a ausência, no instrumento de tortura, do corpo de seu divino esposo. Acalentando a espera de um reino que nunca viria, uma música ao longe a percorreu. Adivinhou seus ecos nostálgicos ecoando também pelas entranhas do cão. E chegaram aos seus ouvidos as imagens da filha sozinha na mesa da sala de jantar. O pássaro ferido se debatia no coração da mãe. Elvira mergulhava novamente no seu mundo escuro. Laurita pode ouvir os passos da criança ecoando contra o silêncio. A menina, abandonada pela mãe, ia se ocultar na solidão do seu quarto: o recôndito sem vida no corredor imerso em sombras. A mãe respirou aliviada ao perceber que teria se livrado por alguns momentos do inferno da filha. E decidiu também ir deitar-se.

     Recolhida ao leito, de luto, Laurita foi novamente assolada pelos antigos sentimentos de inadequação ao mundo. Sentiu que cresciam dentro dela animais voláteis. Via sombras e imagens de serpentes malignas. Suas asas úmidas, repletas dos frutos da morte, se abriam para seu coração. A aguardavam num escamoso abraço, a envolvendo em curvas sempre apertadas. Em momentos obscuros como aquele, o réptil da miséria descia sobre sua presa predileta. Laurita intuiu a presença do monstro se contorcendo. Viu seu rosto desumano entre as cortinas empoeiradas de leito medieval, fechadas às metades. Um rosto surgido dos relevos de luzes e sombras. Lutava contra a conhecida imagem da vaca vermelha. Entrevia a cabeça do marido, esmagada sob os pés da rês. Conseguiu afastar as obsessões e tentava distrair-se com alguma coisa leviana. Quando era menina nunca fora a um circo. Aquilo era o palácio dos sonhos não realizados. A figura fina da tristeza furou sua carne. Deu-se conta dos anos loucos que vivera na infância. Perguntou-se por que, quando menina, nunca tinha visto de perto o trapezista. Imaginou se aquela força sua para desafiar a morte não era de mentira. Se a vida dele não era também, como a sua, um livro de medos! Vida de escrava menina, sem gestos e sem gosto. Também nunca tinha visto uma bailarina. Nem escutado o som de uma fanfarra. O que conhecia eram as salinas: o chão maciço, o sol maduro, os sapatos lixados nos caminhos. Os esquadros de sal empurrando o horizonte. Terras senhoriais, correições de gente negra, mulata, miúda, sofrendo no eito, perdendo seus ossos para senhores brancos. Homens sujos de terra, nascidos na morte, esperando a vida ou a morte do consumo dos compradores de sal nas salinas dos latifundiários. As dunas móveis de vento estrangulando suas casas simples de barro bruto, soterrando os móveis, engasgando as crianças. Os gradis de ferro batido nas varandas das casas-grandes, mantendo separados seus rostos dos salões de chão polido. Tudo isso se revolvia e voltava dentro da mulher. Não pode evitar o leiteiro bêbado com a cabeça esmagada. Os cascos da vaca vermelhiça afundando o rosto do marido morto na lama rançosa de musgos. Alcançou com a mão esquerda o terço do finado marido. A relíquia, uma vez arrumada em cruz na mesinha de cabeceira, se moveu entre seus dedos. Laurita puxou o rosário para o peito, num gesto de mímica devota, e o suor escorreu no ensartado de contas. Comandou com lábios pesados a reza, e percebeu que ao se dedicar à sua fé vazaram as imagens distorcidas do quarto para dentro dos olhos semicerrados. Tentou lembrar-se da oração. Assustou-se com a dureza da memória. Uma frase tão antiga, e o pensamento não retornava. Arrastou os dentes rangendo sílabas, e pronunciou o mote mais fácil: Sete Chagas do Senhor Crucificado. Imaginou a mão sangrenta e a dor nos olhos d’Ele. Pode ver os leões famintos moendo as carnes de trigo dos seus mártires nas areias do Coliseu. Um circo, dois circos. Repetindo a jaculatória, divisou aos pés da cama a cara de bolacha de um palhaço maltrapilho. Tomava pela mão uma bailarina verde com os pés sujos de lodo. Seus joelhos estavam esfolados e as pernas tortas para dentro. Encantada, notou que tanto a pirralha como o palhaço sorriam para ela. Perdeu-se na decoreba que usava. Ao distrair-se, as palavras surgiram da sua memória: Creio em Deus Pai, Todo Poderoso... Sim, aquilo estava resolvido! Mas outro incêndio surgiu na sua mente: se um dia sobrevivesse à ela mesma, venderia tudo que tivesse para deliciar-se na plateia do Grande Cirkko Zukko o Turkko! Homens de braços de ferro entortam grades com os dentes! Sofram conosco as contorções da Mulher-Borracha enquanto devora seus sanduíches! Despertada por sons que vinham da realidade, ouviu a raiva das garras dos porcos sem sono focinhando o chão do chiqueiro. Assustados pela tempestade que se armava, arrancaram a mulher do seu circo imaginário. Os animais a jogaram de volta para o seu duro futuro entre as paredes de pedra do quarto. Era inevitável: os porcos invadiriam a sua cama. Subiriam como formigas pelas paredes. Devorariam os rostos das fotos de família penduradas como manchas pelas paredes. O final feliz das suas orações e de seu circo seria na pocilga podre, arrastada por grandes capados brancos, mergulhada sozinha em seu silêncio. Já afundada na lama, esperava que a próxima madrugada lhe trouxesse um pouco de paz. Mas, madrugada, que ela sabia não viria nunca. Com ânsia, apertou as contas do terço do rosário. Contraiu-se e forçou a recitação do Credo. Sabia de cor aquilo de que se esquecera! A crosta dura das cobertas agudizou o escuro das lamentações. Laurita comprimiu mais a cabeça.

     De dentro da noite física a mulher ouviu o som dos passos da menina desperta, se movendo pelas tábuas do soalho do quarto. A oração transformou-se em preço de cruz. Elvira, celerada, acrescentava urros às patadas contra o chão. Laurita percebeu que entre um soco e outro, a filha se erguia em saltos. Entre dois impulsos, se estatelava no piso. Saltos cada vez mais altos. A mãe não podia fazer nada. Laurita retomou o terço e tentou buscar alento na memória do finado marido. Apertou as contas, estava acostumada com aqueles gestos. Através deles, reencontrava a Glória do Ressuscitado. No entanto, mesmo que Laurita não tivesse notado, o tempo lá fora já virava a olhos vistos. O céu embruscara-se de azedo vento noturno. Destemido, trazia o inesperado imprevisível. Cinzentas nuvens deformadas cruzavam o céu como cavalos invisíveis. Carregavam em seus ombros uma nova destruição. Por todos os lados a tormenta se aproximava do horizonte. Uma calmaria se preparou de repente: e depois, o estrondo voraz. Era a nova vida que viria rasgando os frutos da terra. Traria também as flores: mas não tão cedo ainda. As tormentas de fim de inverno ainda deixariam pela terra aquele conhecido cheiro de sangue amargo, antes que a primavera surgisse em sua plenitude. Súbito, o som da saraiva veio do passado. Estremecia a noite escura em cada choque. Em cada camada de choques. Em cada onda de choques. Levantava sonoras notas para dentro do cômodo. Animais embrutecidos, a menina e a tempestade de granizo dançavam ali, contra os ouvidos de Laurita. A fera arrancava sua música branca raspando as unhas sobre os musgos escuros que embebiam as telhas. Pedaços do tempo morto, verdes, azuis, amarelados, cobriam os cavacos vermelhos que serviam de telhas. De cima da casa, voavam pontas de madeira para as janelas do quarto. Do lado de fora da janela do quarto, as pedras de gelo vibraram e tentavam vazá-la. A mulher adivinhou o arbusto da arruda-brava em frente à casa sendo arruinado pela força dos elementos. Os estilhaços das munições brancas repicavam na carroça cansada, na porta da cocheira vazia. O vento dói e traz para a superfície do corpo da mulher o odor nauseante dos curtumes. As lufadas balançam o velho paiol na margem do corgo. O som dos saltos de Elvira ecoam nos ouvidos da mãe. A grande serpente alada traz a fúria cevada nas montanhas. Uma onda de pó se sobrepôs à caliça salgada que já havia se depositado na sua porta. A tempestade revê depósitos de esquecimentos nos prados ressecados. Devolvia a memória esquecida e guardada. Em seu extremo, sopra o sal coalhado dos caixilhos. A salina entra pelas frestas das janelas e por debaixo das portas. Cobre os móveis da sala, as cortinas e os bibelôs. Laurita, soterrada pelas destruições, imaginou ver a sarça sobre o lago se deitando. Sarça que também se inclina contra a cama e a domina. Com o peso da caliça e do sal sobre o corpo, a mulher se entregou ao que a submetia. Suas mãos começaram a enrijecer e a perder umidade. Uma lufada mais forte, forçou a janela com estrondo. Ouvindo que eram derrubadas as estátuas dos compositores sobre o piano, a mãe despertou do seu entorpecimento. O vento correu pelo meio do quarto devolvendo-lhe um resto de consciência.

     Sentada na cama, sem largar o terço, Laurita piscava com esforço. Se distraía a todo momento da reza, imaginando a porta do casarão por onde espera que chegue aquele que ela desejou a vida toda. Espera à noite que ele force a porta. Zukko! Atrás de seus prazeres, tenta penetrar sua alma. Se aquela porta existisse de fato, ela poderia correr levando consigo Zukko pelas mãos. Se estenderia pelo cultivo cor de malva, pelos arredores do campo como uma menina na neblina. Chegaria a circundá-lo de beijos, num bem-me-quer no alto da escadaria da igreja. Apesar de esforçar-se em manter o idílio com Zukko, evitando as tonalidades do real, sua memória foi sugada para a velha gravura emoldurada na parede detrás do piano. Aquela imagem ali, da carroça com o cocheiro e sua sinistra carga, ela conhecia de cor. E seus olhos encontram a filha bem mais nova, estática, treinando as notas e olhando a partitura. Elvira move os dedos com dificuldade, dedilhando as teclas brancas do instrumento. Outra menina, personagem da gravura, nua da cintura para baixo, tange com a varinha de bambu o corpulento pato de carranca cinzenta. Coberta por abundante barrete de crosta vermelha, a cabeça da ave sobressai contra o capim. A aberração escorre sobre o seu bico de esmalte amarelo, com a forma de uma colher. Laurita não consegue rezar, nem fixar o olhar em coisa alguma. Luta para desviar a atenção do quadro nostálgico com a filha. Seus olhos voltam para cima do tampo do piano. Vindo da janela do fundo do quarto, um súbito sopro de ar frio avisa a chegada da madrugada. A anonimato das nuvens no rumo das montanhas anuncia outra chuva mais forte. O granizo voltará como tiros de fogos, mostrando o inimigo tão próximo, aguardando no telhado da sua casa. Laurita sofrerá ainda, até que a noite ceda seu reino para o dia. Num átimo, a mãe percebe que acompanha na imaginação as notas na partitura do Schubert. À mesma hora, a menina repassava a mesma peça todas as tardes. Pingos numa poça de lama. A mulher se assusta ao reencontrar os brancos longos da filha no seu delírio. A menina fecha o álbum com as notas numa rajada de mão, percebendo que a mãe a encarava sem esboçar reação. A coletânea de obras para piano do compositor alemão saltita na pequena estante acima do plano das teclas e exibe sua capa envernizada e desgastada. Laurita odiava aquelas composições, que ela também fora obrigada a dedilhar na infância. Àquela mesma hora em que a filha treina, sobre o mesmo teclado do velho piano de fazenda, Laurita via-se ali. Pode perceber a si mesma flutuando refletida nos olhos vazios da filha que o encaram. O ódio que sentira pela gravura que ilustra a capa do álbum volta à tona. A mulher se incorpora ao círculo de nobres que acompanham o compositor famoso. Refestelado numa grande sala exageradamente decorada com a opulência e mau gosto de dourados e cristais, o convidado, em destaque, interpreta suas composições.

     Diante dos olhos da menina que assiste a cena com desdém nostálgico, a carroça para. Um instante antes do cocheiro descer com dificuldade para o chão da sala de concertos, os corpos dos animais ainda estão vivos. Como uma cauda da carroça, emaranhados um ao outro, os fetos se contorcem costurados pelas carnes das costas. De seus cordões umbilicais, correm líquidos escuros. Ao mesmo tempo ouve-se saindo de suas gargantas abafadas a canção dos gemidos. Mugidos delicados se sobrepõe aos acordes que o compositor arranca do piano. Os sons se elevam no amplo salão envidraçado, amontoando-se uns sobre os outros. Os rostos súplices dos animais dão a impressão de uma prece. Do fundo de sua miséria, os bezerros agonizantes contemplam disformes a distinta plateia do concerto. De outro ângulo, trazem a impressão da fisionomia estragada de humanos miseráveis com as bocas pespontadas por dentes quebrados e podres. Suas expressões são de velhos trabalhadores, contaminados pelo trabalho diário com muares e enxadas. O cocheiro sabe a cavalos e éguas e arados. Todos os homens da sua laia estão contaminados por uma doença hereditária, são autômatos marcados por um eterno funcionamento compulsório. Como os bezerros, amarrados pelas costas às suas vidas, esses homens quando as forças lhe faltarem serão carregados para o despejo ainda vivos. Submetidos à vontades dos endinheirados, os seus destinos de bestas humanas chegaram então ao fim. O bezerro menor, camurça claro, é quase da cor do cocheiro — o mais crescidinho num tom mais vivo, é ainda mais pálido. Nas partes em que as peles se unem, uma mancha tirando para o roxo pisado, revela os hematomas causados pelo violência de terem sido arrancadas a força da madre da mãe. Manchas de onça violeta se estendem em laivos fundos. Nas faces tragicômicas, Laurita distingue a maquiagem de velhos palhaços. Depois de beber um gole oferecido da mesa dos enfatuados nobres, o cocheiro firma melhor as cordas que arrastam a sinistra carga. Sobe com dificuldade, evitando apoiar o pé apodrecido na boleia da carroça. Estalando o chicote e um velho grito, o escravizado cavalo de tiro se move com dificuldade. Quatro carcaças carcomidas evoluem durante a marcha forçada. Andam devagar: um solavanco atrás do outro: outro solavanco: um tiro seco: quase um tombo: outro solavanco: um som oco no chão chocho: outro som soco no chão mocho. A sala balança, os eco vivo das gotas de som do piano, os bezerros, os pêndulos. Todos se unem aos arcos esforçados contra as violas que o outro quarteto dos nobres retoma no movimento interrompido. A menina assalta as teclas e ataca o piano. Seus braços ossudos obrigam o ritmo da carroça a acelerar mais rápido o caminho das teclas. O camponês, na sua embriaguez sem rosto senta-se caindo sobre o móvel negro tornando os sons opacos. Laurita vê-se tomada por uma força que a suga para a cena. Qualquer dançar com um cortesão, ali no meio daquele inferno lhe serviria. Consegue inclinar-se com gestos lentos, estendendo os braços para frente. Ousa tocar o rosto da filha diante de suas mãos. Luta contra o peso das roupas pesadas, retardando seus impulsos. O corpo dormente deslocando-se como cera não consegue criar ângulos no espaço. Tenta dobrar as juntas das mãos, mas os dedos não obedecem e se amassam contra as suas dobradiças. Desiste de todo movimento, abortando o gesto que já não existia. Num súbito lampejo de lucidez, se dá conta da própria fisionomia esdrúxula, deitada na cama, balançando a cabeça para cima e para baixo como um boneco de engonço. No ponto de sua maior indecisão, quando o equilíbrio entre o desmaio e a consciência atinge seu momento crítico, novamente ela se imobiliza com os pelos do corpo eriçados. Vê-se agora, bem vestida, diante do grande espelho da sala do casarão. Magnética, extática, estrambólica, reconhece-se majestosa no absurdo reflexo daquele ambiente, do qual ela se orgulha com sua figura de mulher atraente. Mas, de fato, o espelho deforma sua fisionomia num espantalho assustador. Toda a paisagem passível de ser abarcada pelo cromo enferrujado se acumula num único ponto focalizando e revelando a miséria da mulher no fundo do aposento principal. Os lampejos luzidios descobrem a sala em perspectiva linear. Desenham entre seus objetos de decoração os traços gritantes de figura deformada de Laurita, em sua ruína imóvel. Recortada numa saia vermelha e gasta, usa uma blusa de decote pudico. Vê-se simplória e sem maquiagem pregada contra o fundo dos caixilhos da salina. Reencontra-se nos arredores das coroas-de-cristo, dos jardins de tílias, das carcaças das velhas panelas de barro abandonadas ali diante da entrada do casarão. O corpo envolto pela cerca está recoberto de trepadeiras. Exóticas madressilvas plantadas pelas suas próprias mãos quando ainda era uma menina como a filha, a transformam numa personagem unida à paisagem. Revê a rês vermelha de úbere desmedido, esperando para ser ordenhada por ela. A mesma rês de onde tirava o leite para a vida durante sua infância de servidão. As grandes flores rosadas despencando das caixas de madeira que nutrem os gerânios, saltitam com a chuva que volta a cair. As plantas se estendem e se abrigam debaixo da janela com os vidros foscos, como consequência do calor e da umidade do sal branco. Os cristais das taças guardadas no armário de pátina se multiplicam, uns pelos outros, refletidos no feltro branco das janelas. A figura obsoleta de Laurita delira no quarto sombrio, vendo aquelas sombras cinzas que dançam na penumbra diante dela.

     A menina surgiu novamente no umbral da porta do quarto onde Laurita estava deitada. Vindo do corredor, evoluindo em mais um galope barulhento foi jogar-se entre as pernas da mãe. Empurrou Laurita contra o banco do piano e inclinou o corpo, entregando a cabeça nas mãos da mulher que a olha sem reação. Oferecia seu afeto de escombros àquele colo em branco. A filha adora tocar as volutas que os ramos das tranças desmanchados jogam. Elas se despencam sacolejantes sobre os ombros quando se soltam. Lembram-lhe as pequenas colunas de madeira do móvel da sala. A menina faz girar os torninhos com as mãos quando passa por eles, arrancando ringidos agudos vindos dos seus encaixes mal enjambrados. Remancheia e evita que a mãe desmanche suas chiquinhas para ter o prazer de experimentá-las mais tarde com as mãos torcidas e sujas. Laurita descobre o fantasma da filha entre as pernas dela no calor das cobertas e volta a sentir as cinzas surgindo dentro de sua boca. Ressurgem de entre os dedos dos pés, pelas unhas crispadas nas mão úmidas. Enquanto desata os cabelos de Elvira, alguma coisa se dissolve dentro dela. Quem sabe fugir e deixar tudo aquilo? A menina pressente o que se passa pelas mãos da mãe. Elas se tornam geladas. Elvira luta para se desvencilhar dos carinhos que se transformam em ameaças. A mãe a contém com força e desce uma das mãos com peso excessivo sobre o pescoço da filha. Que fique quieta! Quem sabe, que fique quieta para sempre! Elvira faz um gesto brusco para se livrar do estrangulamento. Força com desespero o corpo para fora da cadeia das pernas da mãe. Estrebucha e se sacode como o esforço de nascer novamente dali. Queria sair andando como um potro ou um bezerro. Mas não consegue. As mãos da mãe começam a sufocá-la. Gira a cabeça para o alto, arreganhando os olhos como pedras. A mãe não cede e a menina experimenta o auge do pavor. Se sobrepondo à fera, arrepanha com as costas de uma mão o catarro que lhe surge do nariz. Espalha aquilo nojento pelo rosto e funga forte, para tomar fôlego. Numa última cartada, Elvira esticou o corpo mirrado, e com um espasmo apertou as mãos sujas contra os joelhos da mãe que a continham. Laurita não se comoveu com o sofrimento de Elvira e levando uma das mãos ao próprio rosto, maquiava-se com as cinzas que brotavam de seu nariz. Súbito, começou a ninar Elvira, entoando uma cantiga de amor com voz doce e frágil, enquanto a estrangulava:

Barcos de velas negras Ovelha de olhos claros Ondas sobre o peitilho Lama na baixa-mar

     As contas do terço trazem a mesma imagem: os baques soltos. A menina se ergue em saltos cada vez mais altos. Repete e arremete, multiplicando sua força ao impôr com os pés descalços os socos sobre o soalho oco de tábuas velhas. As sílabas santas que Laurita pronunciava durante a minúscula ladainha, são ecoadas pela força maligna da filha. A mulher compreendeu o sacrifício a que era chamada. Aceitou com mansidão a eternidade insuportavelmente longa. Teria que receber os coices da filha. Ao se entregar ao seu calvário, liberta da dor e dos pecados de toda a vida, a mãe conseguiu concatenar a reza. Sua alma se calava no seu amor sangrento pelo Esposo. Redimida, os olhos semicerrados reencontraram as duas antigas fotos arranjadas em espelho oblíquo na mesinha de cabeceira. A foto do homem morto -- ao lado da sua foto nova e viçosa -- lhe fazia companhia. Era a tradição das viúvas, que consagram a imagem de seus finados ao lado da sua, jovem, como ele a encontrara e possuíra tantas vezes. Laurita também mantinha as duas gravuras juntas, em molduras iguais, uma à vista da outra. Encenava um flerte cínico, que se estendia da vida, através da morte, até a eternidade. Dera de presente ao homem ainda vivo, a foto que tirara durante sua tão esperada visita ao circo. Agora a preservava nos porta-retratos retirados das relíquias da família. As belas peças vazadas em madrepérola africana, antigamente ornavam os lambe-lambes do avô e da avó. Enfatuados em seus trajes de missa e batizados, os antepassados, orgulhos do clã Agenor, sempre pareceram à Laurita dois repolhos amassados numa sacola de fim de feira. Pretendera com a oferta do presente dar uma mostra de gratidão pelo gesto do marido. Depois da longa temporadas de rogos e súplicas, o velho vaqueiro finalmente proporcionou-lhe a liberdade e o dinheiro para a realização do sonho de menina. Estavam inclusos no pequeno tesouro enrolado num lenço de seda, que ela levava escrupulosamente enfiado dentro do sutiã, as entrada para o circo e o trabalho do fotógrafo. O marido exigira uma prova cabal de sua presença no circo.

     A nuvem alaranjada replicou sombras no azulado das fotos na penumbra. Mosqueou de minúsculos grãos fora de foco o rosto da rapariga em flor. O amarelo vento fugia, percorrendo o cômodo, carregando o cheiro do feno sempre fresco e recém-cortado. Vazou pela janela, tornando os olhos claros da mulher mais vagos: novamente o vaqueiro pisoteado pela rês. Laurita vislumbrou a mariposa bruxa, debatendo as asas entre as juntas das telhas vã da antiga morada pobre. Apertou os olhos e julgou ouvir as engrenagens leitosas e lubrificadas dos ossos do bicho. Pressentiu uma súbita paralisação do ar. O animal de tocaia, em surdina, esperava que Laurita desviasse a vista para voltar a soprar-lhe sua música. A mulher pestanejava, girava, elevava e entregava as pálpebras, imaginando o passado no rancho com o marido. Ouviu o espasmo das asas da mariposa como um sino suave que vinha de longe. O som licoroso evolava da igreja oscilante. Quinze para as cinco: amanhecia. Deus era mesmo misericordioso! A menina arrefecera os saltos, desistira da tropelia e adormecera há já algum tempo. O que Laurita só percebera agora. Mas não iria a égua noturna irromper em seu quarto e invadir seu pensamento e suas rezas de novo? Agora, com o dia, ela podia ir para o sono. As imagens que revira, misturavam-se ao salpicar de ervilhas contra a pia. Ela as retirava com mãos ágeis dos montes de grãos secos, sujos e cheios de ferpas. Lançava-os ao alto, pela ação do trabalho humano, ao sacudir mágico de uma peneira. E os grãos caíam como sombras frescas, de volta na chuva incerta. Sem som nem felicidade, afastada da festa, a palha úmida só servia para engordar as lavagens. Fermentadas, eram derramadas como beijus macios pelo rapaz de pestanas suaves nos cochos dos porcos. Mas a imagem do jovem belo foi borrada pelo anúncio do tempo frio. O pé esquerdo, achacado pela gota, piorava com a umidade da madrugada. As costeletas de porco deixadas pela metade no prato, aguçavam a dor nas juntas. Afastada novamente do sono pelo desconforto físico, ponderou. Sem ter com que se distrair, resolveu sacrificar-se buscando seus pequenos pecados. Recorreu pesarosa à foto do marido ao seu lado. E deu de cara foi com a felicidade leviana de seus dias de juventude. Não podia negar isso, ao olhar a própria fisionomia na foto estampada na mesinha de cabeceira. Descarada, como era bela quando jovem! – e resolveu examinar-se detidamente para se regojizar com a sua nostalgia. Procurou com a mão os óculos e descobriu o pequeno estojo com as lentes de aros de tartaruga em cima da Bíblia. Colheu o instrumento com gesto sonolento, eternamente em silêncio ali ao lado, no criado-mudo. Antes de vestir os óculos, pode ver pela janela os mamões amanhecendo no tronco com poucas folhas. Admirou por um instante os globos já cheios de ferrugem. Seus cheiros ácidos atravessavam a vidraça e exalavam uma aragem fininha vindo lá de fora. Os frutos eram revolvidos pelos três tiês costumeiros. E um chumaço de sanhaços numa nuvem anil disputavam com eles, ao mergulhar suas cabeças nas carnes amarelas como grandes vermes emplumados. Pássaros no estio, pensamentos de passagem, se misturaram à figura vestida de couro, imobilizada na moldura de madrepérola. Mais uma vez chamou a atenção de Laurita a singularidade, o contraste e a ironia da foto do marido morto, com a vida dos pássaros refletida na sua foto, lépida e fagueira. Concentrou o olhar na sua própria imagem, casta ao lado do marido passado. Contemplava com orgulho sua figura de mulher sorridente e suculenta. Dona de si, ombros alvos num decote simulando esquecimento, entre os ombros apertados, se destacava o corpete negro e justo. A ave nova, senhora de um busto de metades generosas, exibia discretamente as recatadas peras maduras. Dali resvalam ofertas e promessas ambíguas para quem se arriscasse a colhê-las. Sobre as sombras em silêncio entre os seios, se acrescentavam reflexos âmbar vindos do penteado: amarrado em corda por uma rodela de veludo negro, valorizava o mármore dos ombros. Dali ela deixava cair vistosas mechas soltas recortadas desde o alto da cabeça sobre o decote ousado. Deitado num crepúsculo acima do ombro esquerdo, sobressaía solto um gordo ramo de ouro. Maiores e mais claras que a tarde, cheias de flores novas maliciosamente esquecidas, as pétalas se emaranhavam como farpas de arame no fulgurante brinco de faiança francesa em forma de lis. Laurita desceu os óculos com esmero para a ponta do nariz gordo, queria enxergar melhor e desfrutar mais delicadamente do adereço caro. Ele se valorizava na brotação de si, durante a imagem imponente. Pode reparar com olhos argutos, dentro do nácar das pétalas da flor, duas maçãs do amor refletidas na joia preciosa presa na orelha. No instantâneo sofisticadamente fixado pelo artista, a tão pura gema também refletia a cabeça encapuzada do fotógrafo. Laurita percebeu com surpresa aquela cena entre os reflexos. Experimentava aquilo diante de seus olhos pela primeira vez. Curiosa, resolveu investigar o fato mais detidamente. No miúdo detalhe da superfície espelhada, um homem sorridente, ao lado do fotógrafo, segurava em longos palitos de bambu os reluzentes frutos proibidos. Dois suculentos e vermelhos globos cristalizados balançavam erguidos nas mãos do homem. Associando a imagem aos traços fisionômicos do desconhecido, reconheceu num relâmpago a figura de Zukko, o pestanudo rapaz que se aproveitava da lavagem dos porcos. O mesmo tipo musculoso e malemolente que arremessava o feno para o alto, quando as horas mortas cisalhavam o sino. E nas noites vazias, solitárias e cotidianas, ele deslumbrava o vão gritante de suas pernas. As ancas para cima, numa coreografia brusca, a fazia ressoar como o campanário da igreja, rangendo no escuro da noite ente a palha fresca. No quase silêncio do celeiro velho, os dois respiravam o aquecido cheiro do estrume novo.

     Laurita observava com esmero os mimosos bordados da toalha da mesa da sala de jantar. Descobriu com horror que estavam recheados de mentiras intragáveis. Em silêncio, acariciou a superfície irregular da cadeira de palha onde se sentara para jantar. Suportava sob olho ácido a substância que consista seu corpo. A boca devolvia uma massa pesada e visguenta, um tom amargo e puxado para o verde. Aquela matéria dava contorno e essência a todas as coisas. As fazia latejar entre suas mãos, como seres vivos. Lutava contra isso. O máximo que conseguiu, foi fazer sua língua resvalar flácida para o canto da boca. Engoliu em seco e trincou os dentes doloridos, para não despejar palavras insensatas que revelariam sua íntima loucura. Viu-se chegando pelo caminho, dobrando a curva que se abrira ao redor da fachada da casa. Imaginou-se com a figura decrépita de uma mulher idosa, com peso bruto e em dobro. Se arrastava sobre as coisas, sobre a mesa, encarquilhada. Lembrou-se que largara no chão o embrulho com a saia balão e o cesto de flores antes de se dirigir à mesa. Não tinha certeza do que fizera com a roupa nova que pegara na costureira. Mas precisava comer, antes que caísse de fraqueza.

     A filha magricela, destroçada como um graveto, esperava a volta da mãe encostada no umbral da porta dupla da sala do casarão, sem dizer palavra. Sua figura movediça, se destacando contra o piano de cauda se debate de um lado para o outro e se arrasta mansamente os olhos da mãe para longe da sua dor. Elvira olha para o nada, balança o corpo como um bêbado, estatelada na luz mortiça da tarde que envolve o aposento sem lucerna. Nos dias de seu sofrimento, as sobrancelhas espessas como mariposas envolviam as amoras morenas e escuras da alvenaria das olheiras. Se diferenciavam bruscamente da pele clara, sardenta, um pouco ruiva. Os cabelos cor da cebola, destacam-se na fisionomia infantil. Os amassados olhos de pupilas ovais, atônitos, se enrugam como vidros de aquários sonolentos povoado de peixes sem casca e sem som. As tranças malfeitas dos cabelos embaralhados, vermelhos, divididos ao meio como os da mãe na juventude, caem pelos lados da cabeça um pouco grande para a sua altura pouca. Paralisada contra a parede, sem dizer palavra, a menina repuxa com as mãos sujas algumas mechas do penteado desgrenhado. Cobre o rosto com elas, as madeixas que se misturam ao ranho grosso e verde escorrendo de seu nariz. A face dividida pelos olhos estrábicos, o penteado malfeito, encurralada entre as sombras da sala sem saída.

     A mãe revê os olhos sem sentido da filha, e sabe que passara a a manhã e a tarde parada ali a esperá-la. A encara sem reconhecê-la. Esperando que a filha sente-se também à mesa, tenta aproximá-la de si: “Sente-se aqui entre as minhas pernas, vou desmanchar tuas tranças. Estás com elas desde a manhã. Se dormes com elas assim, terás, quando acordares, ah! sim, terás sobre a cabeça delicados caracóis com chifres cheios de medo e de mofo”. A filha mantém os olhos vazios, agora voltados para a refeição posta sobre a mesa. A menina piscou e foi vagando numa linha imaginária na direção da cadeira da mãe. Ninguém a esperava abrindo os braços para recebê-la. Laurita imóvel insistiu com a menina para que se apressa-se. Deveria representar mais uma vez o seu papel naquela cena fossilizada no cenário da sala de jantar de mau gosto. Descrente de conseguir a atenção da menina, que se equilibrava naquela linha imaginária sem reconhecê-la, Laurita aguardou alguns instantes. Parada diante da imagem da filha, se esmerava em cuidados sem sentido, e escrupulosa buscava corrigir etéreos e antigos erros. A menina de costas se negava a concordar com ela, olhando-a com ódio. Obstinada, voltara a gaguejar, ainda de pé, coisas sem sentido. O dialeto tartamudo favorecia a fuga de Laurita para longe da filha, prisioneira daquela figura sem resposta, inundada por um sacerdócio cadavérico. Os olhos de cera da menina branca, vogavam e passavam, por dentro de Laurita. Cenas, crimes, escrúpulos, crepúsculos, manhãs, quaresmas, velas acesas, mulheres sendo amaldiçoadas, radiantes de ódio entre seus cabelos em desalinho, e espessos rios de sombras rajadas, rompendo as massas de nuvens que se quebravam atingidas por pensamentos caídos como folhas oferecidas.

Barcos de velas pálidas Olhos azuis marinho Ondas crescendo baixinho Lágrimas na baixa-mar.

      Depois de liberta dos olhos da mãe, a menina finalmente corre num rompante veloz para sentar-se à mesa já posta por Zefa. Imóvel, Laurita foi incapaz de estender o braço para afastar a cadeira para a filha. Desistiu do gesto e acendeu a vela tosca pousada sobre a mesa da janta. Era inútil aquela escuridão que aumentava os grãos sobre os móveis. A noite caía com força e peso, e ardia em seus olhos roubando sua visão: então entregou-se ao grande vazio que crescia de dentro dela.

Cheirando a mirra e canela Esquecendo a esperança vindoura Desabou cor de cenoura O lábio inferior da donzela.
     O vento vinha frio da janela do outro cômodo. Amanhecia. Os dois punhos na minha cabeça. Me mantinha erguida com as pernas abertas. Na posição seguinte, eu precisava fazer com que ele me visse igualzinha a uma mulher de véu e perfume branco. Eu ficava vermelha de cansaço, e não conseguia ficar molhada. Gonzáles gritava! E ordenava que eu fosse ainda mais viva. Queria aproveitar o gosto quente das flores de canela que ele havia roubado dos jardins do hospício. E esperava receber as carícias insanas que o excitavam a me executar. Se aninhava como uma pedra dentro do rio do meu corpo. Me mimava com ofensivas, e depois me adoçava com algumas porradas bem ensaiadas. Eu já conhecia de cor aquela dor. Devia devolver-lhe olhares de submissão, enquanto me comia na escada dos fundos do prédio do quartel. Entre dois andares escuros, na saída do serviço na cozinha, me esperava ali. E então tudo acontecia como sempre, enquanto fumava seu charuto fedorento. Isso o deixava feliz. E, no que toca a mim, não me trazia nenhuma esperança de ficar viva. Nenhuma esperança cega na porra da minha vida de mocinha idiota! Fazendo as vontades de um monstro. Ele ainda não era o chefe do inferno, que se tornaria depois da Quartelada de Agosto. Mas já tinha poder de mando.

     Tinha o caralho com gosto de serragem velha, de madeira amarga, olhos pobres. E nas descidas dos degraus, nas despedidas dos infernos, no beijo jogado do alto da escada, no vento frio da janela que amanhecia num novo dia, antes de eu ir embora, eu já pressentia o rosto doce dos meninos revoltosos mortos. Nariz e boca deformados pelas coronhadas dos fuzis. Os lábios deformados em seus caixões de metal enferrujado. Conheci quase todos, quase adolescentes, crianças criadas comigo nos quintais da aldeia. E ainda fui obrigada a assistir seus fins, durante a eliminação de seus corpos, alguns ainda vivos, na estatal fornalha da fundição gerenciada por um amigo do coronel. Circense, frio, a fricção molhada da sua barba contra as minhas coxas. Em seguida, ele dizia que já partia. E me aguardava escondido atrás do guarda-roupas da enfermaria. Como um fantasma diante da fórmica branca, me assustava por detrás. Me abraçava ríspido, toda fria de medo, o pau perfurante. Da sua língua bífida de serpente entre os dentes agudos, surgiam as palavras sujas em minhas orelhas.

     Você estará comigo nos sacrifícios anuais dessa quaresma, dizia! Por quantas noites de vigília, rocei minhas lágrimas em meus cabelos, em meus espinhos. Tuas unhas doces, rasgaram as primeiras tardes do nosso casamento de mentira. Gritava comigo a noite toda, noites a fio, uma estação de gritos. As melhores noites, os melhores momentos, as piores tardes eram aqueles xingamentos entre as ondas gigantes de palavrões. Denegria os santos que se deixavam matar, e reservava os últimos e os piores nomes para mim, que acreditava neles. Quebravam os absurdos nas minhas orelhas, junto com o som dos jovens corpos, que gemiam e sofriam nos pavilhões, ao lado da nossa cama de campanha, improvisada na sala do comando. Se debatiam ainda vivos contra as pontes de pedras, enquanto os torturadores se interpunham sólidos no caminho das suas vidas. Durante isso, nós comíamos quentes sanduíches de presunto recheados de salsa e salada de maionese. Eu me enfeitava com a camélia amarga do inferno. Uma flor manchada, maldita, no meu cabelo fino de menina cega.

     Outro túnel invisível atravessando meu túmulo visível? O visual da menina magra de saias vermelhas surge sem meias na neblina da cozinha. Sussurra sinos balançando o gelo no copo com as mãos afetadamente elegantes. Quando bebeu demais na festinha do bingo a primeira vez. Ele gostava, uma noite com tira-gosto, cebolas em conserva, alcaparras negras. Ele vinha pra cá noites a fio ― outras noites, e de novo. E eu vou pra lá, e pra cá prá lá e pra cá. Tentando me embalar sozinha com a música da primeira jukebox da caatinga. O fazendeiro da zona da mata canavieira, promove o bingo. Ele me tira para dançar. Esperneado as pernas pracaelá, nãonãonão, quietinha na cadeira dos fundos perto da porta do banheiro. Não sei dançar, eu vou? Amuei feito sapo na pedra! E rompi pela estrada aberta como se fugisse da porta dos bois, com tudo aquilo que se derrama de um caminhão de memória. Tudo volta a cada passo para mais longe. Depois eu, e a porta parada, as cadeiras levantadas sobre a mesa. Tava voltando ainda meio bêba. Nós ainda conversava no balcão quando a manhã varria o chão pisado do forró nostálgico.

     O Fazendeirinho me olhava de cima, o chapéu de lado meio caolho caído sobre os olhos. Seus bois iam passando separados uns dos outros, separados de suas mães. Cores apenas, separadas, os seus couros e os seus sangues. Ficavam raspagens de ossos contra ossos. Batem ossos contra ossos em tudo que passam ― ossos contra ossos. Os donos deles enriquecem. Tudo o que sofremos, todo o nosso sofrimento que suportamos nessa jornada servem para engordar seus bois, e enrijecê-los de músculos. Nossa dor de corpo dá lucro. Bois pombos, bois ratos, bois vermelhos. Caminhões sujos, as canelas meladas com tanto excrementos de gado no meio. Garrafas de bebida vazias azuis nos quartos de trabalho. A jornada inteira de suor. O odor completamente frio das duas mulheres grávidas ao mesmo tempo ― do mesmo Fazendeirinho. Mariana! Um horror no meu estômago, assistindo paralisada à formiga que deixa um rastro no seu rostinho morto. Outro dia, Mariana ainda tinha fome, eu também tinha fome, e alguém sem nome também tinha fome. Nem com um pouco de dinheiro se conseguia comida na caatinga. Era só couro seco, pó e pedras podres.

     Quando sentiu o prazer comigo o miserável encheu meu estômago com esse gesto de grandeza. Me comoveu, me ofereceu o dinheiro que lhe sobrava para a comida. Eu não tive coragem de cobrar, paguei-lhe o amor faminto com o meu corpo também saciado de sede. A fome do teu corpo me alimentou. Depois roubamos um pouco do toucinho da despensa da Madrinha. Madrinha não estava em casa, tinha ido fazer hemodiálise. Carminha fica tomando as contas. Carminha é minha camarada, minha amigona, minha chapa. Não disse nada para Madrinha. Não tinha peito, tinha medo de mim. Caminhões sujos de pó, meias escarradas de barro seco, as garrafas sem água vazias. As últimas cacimbas nos claustros sob a terra para que ficassem frescas. Duas mulheres grávidas ao mesmo tempo do mesmo homem. Depois foi a vez dela, de Carminha, de ficar grávida, do mesmo homem. Mas teve coragem de ir à fazenda de anjinhos. Eu não, arrisquei criar. E senti um buraco no estômago aberto até hoje, assistindo a mosca que caminhava no rosto da menina. Passeando pelas minhas mãos pelo seu rosto. Ao lado dos mortos, não podemos deixar de chorar. Só se não for um morto muito amigo, num caixão de tábuas sobrando para fora de gordo. Aquilo nem parece morte, mas velório no circo. Eu sei o que não vejo, ouço minha urina. Meus olhos tremendo, um azougue de zigue-zagues. Quando quero me sentir uma estátua de praça, lentamente paro em algum lugar e abro os olhos para o sol. Não consigo imaginar a cor daquelas moscas, mas a máscara que o corpo usava certamente era branca, de um branco amarelado de cera fria.

     Diante do espelho, o céu andando, eu sei. Não preciso pôr as mãos. Meto minhas garras no mundo e me torno um percevejo fedorento se me apertam. Sem tomar banho, eu provoco nojo, surpresas! Eu sei, a vedete fedorenta! Nunca fui perfumada de nascença. E nem capaz de dormir completamente limpa com esses olhos que só enxergam sombras claras. Tudo é dia, e tudo é espaço, e pó. Desde dentro, volta e meia a imagem fincada numa das suas facas prediletas, duas moscas agora. Parte da água que sobrava do banho, ao me levantar da cacimba, ficava reservada. Sempre ficava guardada para a próxima da fila. Era uma espécie de banheiro carrossel. Os cavalos na porta da entrada e da saída, por onde uma ia, a outra voltava também. A outra ia, e vinha. E quando as chuvas voltaram um pouquinho, abrimos o salão para bailes. Todos os domingos, todos tinham direito à sanfona e a uns pastéis frios de graça. Desde que pagassem o bilhete de entrada. Madrinha inventou a função. Tinham direito a assistir o banho lustral ― com todas as meninas nuas. Nos banhávamos ao mesmo tempo na bacia do quintal dos fundos. As fontes das águas velhas eram usadas de novo, para as noviças preciosas. Precisava ser uma toalete simples, economia nos terríveis anos da seca, moendo o solo e os bichos. Madrinha sofrendo com a boca podre, antes de visitar o dentista no Piauí. Agora, em Copacabana, eles me veem abrir o chuveirinho toda hora, a dama das torneiras! Ah, me chamam! Me ensinaram usar o bidê com uma mão, e com outra me proteger. A água fura você, Elvira! Modernismos antiquados para lavar os buracos. Eles nos passam para o outro lado do mundo, onde estou agora. Do outro lado do que eu não vejo. Um lavado, um banhado. Um roçado infinito, até à praia grande onde os meus gritos se escurecem com a noite pesando contra as ondas. A água velha que sobrou por dentro de mim, vem me bater com a maré alta das artes de antes, de antes de me levantar e ser levada. Cada vez mais, o mar indo e vindo dentro de mim. Entram nesse mar sem fundo as ondas sem fim. Nada mais eu quero do que isso. Vou fazer tudo mesmo, tudo que eu possa, para que não acabe. Fazer o impossível, o imprevisível, para não ser apenas mais uma vez. Vou fazer o meu café da manhã, e chamar o homenzito: o Francisco do Ceará na portaria. Um tagarelar dos infernos, ele fala rápido. Um som elaborado e embolado que conheço anasalado. Mainha, painho, ôxe! E entendo suas palavras novas que aprendeu aqui e que vão se tornando diferentes das minhas. Mas os mesmos autores, os mesmo assuntos ― ele sabe dos velhos crimes contemplados por lá. Passo para ele a ordem do dia e dois tostões. Comprar salsichas de frango pra eu fritar pra nós dois, se ele quiser. Aparece depois do expediente com a cervejinha. Tá atrasada, Sinhá? Ainda não saí, para o batente, me pergunta? No meu quarto de rainha, quero comer, e beber, antes de morrer na luta.
     Amarrada sobre a cama, a menina mostra o mesmo tipo atarracado da mãe: apenas um pouco mais generosa de carnes. Destacam-se nela a anca cheia, larga mas não pronunciada, e os bem desenhados seios jovens. Seriam belos de ver, não fosse aquela pele riscada de vergões, consequência das correias que a mantém presa às grades das laterais do leito. Amofinado pelo prejuízo que a chuva acarreta aos monte de sal já colhido e estimulado pelo horror que a menina sente de raios e trovões, o avô ordenou à serva, naquela minúscula manhã, que de novo atasse a menina à cama. Também seria mais um teste para a segurança das correias. O Coronel Antenor — senhor de terras e gentes — tem refletido repetidas vezes sobre o fato amargo de que, mesmo em detrimento da segurança da família, precisa mudar esse hábito de manter a neta contida por fivelas. Por outro lado, pensa com perspicácia no perigo que todos correm. Com o tempo, o suor abundante que a menina exsuda certamente romperá as correias e os arreios da velha charrete. O que será mais perigoso ainda, como os fatos evidenciam já de maneira excessiva. Também, é claro, o desconforto causado pelas tiras de couro que a contém. Mas, que remédio, o sacrifício é sempre compensado pela felicidade que proporciona à família e a ela própria. Nada supera o risco de ver alguém mutilado por um ataque inesperado! A virulência da moléstia é uma constante ameaça à segurança familiar. Segurança, diga-se de passagem, que o Coronel sempre primou em construir para si e os seus. Desvelos da sua parte necessários mormente porque no momento em que se torna possuída, a menina é tomada por força muito superior às defesas do velho caudilho. Outra preocupação é vê-la entrando desnuda pela janela da casa de um colono. Isso não seria improvável, mesmo que tivesse que correr alguns metros pelo mato: os loucos se deslocam como fogo na palha. Ou saltasse de novo sobre a mesa da família, como um felino imprevisível. O Coronel Agenor acentua com esgares o termo felino. Sabe Deus o que o Coronel já não aguentou por conta dessa loucura da neta! Mas Agenor tem outra preocupação: desde a manhã, a chuva sazonal e clara, depois da pesada saraiva, cai com dedos finos sobre todo o território salineiro. Fruto do Verão que entra e alimenta os mananciais, as águas impedem a coleta de sal. Dessa umidade enjoativa, sopra pelas janelas uma aragem molhada, tornando difíceis as manobras no interior da herdade. Mesmo assim, o perigo de uma fuga súbita é cada vez maior. Como aquela deliciosa peripécia de uma semana atrás. Aí pelas dez da manhã, por conta de Zefa atarantada com chaleiras e toalhas, a porta do banheiro ficou aberta. Num espetáculo grotesco até para corações fortes, o Coronel Agenor viu de sua mesa de trabalho no estúdio envidraçado, a menina nua se espojando carnavalesca na pocilga dos capados. Sorria, encharcada de fezes e enlameada. Elvira agitava os braços roliços contra os corpos pesados dos animais, constrangidos por verem sua imunda intimidade violada por uma estranha. Com gritos, esgares e volteios de cadeiras, ela exigia dos tímidos animais, carícias e afeto. Mas, debalde, por índole os porcos caipiras resistem obstinadamente a qualquer tipo de perversão humana. Agora cuidadosa, Zefa, aproveita o mau tempo para cuidar da higiene da Elvira. Daí para frente, tomará banho ali mesmo atada à cama — duro cativeiro necessário para prevenir futuros desatinos. O Coronel, sensato, sempre acrescenta: — Até que se pense coisa melhor.

     “Gosto do Ósto!” — Elvira disse com voz clara, enquanto Zefa posicionava seus braços para o asseio. Lembrava-se de Washington, o rapaz das redondezas que recolhe as entranhas dos porcos abatidos. Eram as primeiras palavras que a menina pronunciava depois que Zefa, contrariando as ordens do avô, lhe afrouxara as fivelas. “O que se tem é o que se ama!” — Elvira acrescentou, em tom de confissão amorosa. Com o rosto pálido se inclinou para Zefa e a encarou fixamente. Seus lábios pendem pesados devido a fraca coordenação. A menina muitas vezes murmura frases como estas e vê coisas que não existem. Descreve o que enxerga, apontando para as imagens flutuantes sobre a cama mal cheirosa. Confundida pela colcha com brocados, a mente se perde oscilando na partícula humana. Lança um fluxo de luz sem brilho através dos olhos vidrados. Ouve-se o marulho do seu coração. Com o eco das chuvas estourando por detrás dos morros azuis circundando a planície, Elvira se encolhe. O aguaceiro agora retine golpes nos telhados macios do casarão. A menina imagina o som de conchas mastigadas, como se ouvisse ameaças, e se assusta com a tempestade. Lamenta-se em voz alta por causa do pobre do cachorrinho molhado exposto aos elementos no quintal. O cão, ecoando a loucura da menina, retorna suas súplicas baixinho para ela em sonetos de serrote cansado: serro, serra, cerro, perro! As águas de todos os domínios e arredores caem do alto das calhas, como saias brancas nas janelas coloniais. A chuva escura esconde o quadriculado das salinas. Os vidros embaçados pelo calor humano tornam-se novamente opacos. Em meio ao fartum do quarto, ouvem-se os miúdos gemidos de prazer de Elvira, exalados durante seu banho presa nas correias.

     Àquela hora da tarde fresca, em meio às chuvas finas que o vento de sudeste ainda impõe, uma aquecida réstia de sol passeava pelas folhas cinzentas do velho tamarineiro à beira-mar. É a hora mais encantadora do dia. Todos ficariam felizes se pudessem tomar um refresco perto das docas pelas mãos das vendeiras e merceeiras desbocadas do cais. Mulheres de fala fácil e maneiras rudes, que gostam de tagarelar à toa, sacudindo as frutas e as verduras lavadas pelas águas da fonte clara ali do lado. Escrupulosas, antes de servirem as bebidas e atenderem os clientes, secam os dedos com cuidado na bainha das saias. Os tecidos leves, estampados sempre em florões amarelos sobre fundo vermelho, lhes chegam aos pés varrendo o pó das pedras do piso do mole. Todas os padrões imitam as vestes das ciganas, de que elas certamente descendem. Mulheres de rostos duros que sempre surgem para nos enganar com homens louros vindos do destino. E algum dinheiro alto que com certeza vamos receber na semana que vem! Eu usaria meu chapéu de abas largas cor de sombras, que inesperadamente escolho no meu armário de necessidades para dias de sonhos especiais. Vou me debruçar por mais um domingo na amurada de grossos matacões de rocha lisa, balançando as pernas entre as mãos fechadas em concha. Verei os veleiros vindo, e indo e vindo, lançando para longe meus olhos de alto-mar. "Como eu ficaria, Vovô, tomando um refresco no convés animado de um saveiro?" ― ela pergunta, envaidecida de si mesma. Para escutar melhor as doidices da neta, o velho se ajeita como pode por detrás de Zefa, seu pequeno escudo humano, e debruça-se branco com medo nítido, sobre o corpo desperto e contido de Elvira. Estará sob controle e inofensiva por debaixo daquela conversa sobre o cais e seus chapéus sem sol?

     O mar, o mar, o mar, se debate furioso nos cortinados das janelas. Nas revoadas dasc ortinas, ela ouve o nome mágico: "Zukko!" Elvira não quer pensar nele agora, só no mar. Mas, vê-se novamente nua, no centro da praça dos chiqueiros podres, sobre as pedras pretas do pátio, perto da porteira dos estábulos. Uma estátua fêmea da alegria, de chafariz, feliz com as canecadas que a mucama Zefa lhe derrama devagar. Com os socos suaves de água a pele de seus ombros grossos e opacos se arrepia. Feliz como uma lombriga, o vento vindo dos veios de areia das dunas brancas. Nuas como ela, os grandes morros de pó móvel, se deitam com seus volumes casuais sobre a enseada verdejante. Esquendo por alguns momentos o mar e o cais de domingo, Elvira está feliz, apesar de presa contra a cama com as correias da carroça. Regozija-se em imagens no meio a bagunça do quarto, com aquelas suas aquarelas, os livros de figuras antigas e o rádio sem pilha que só toca Beethoven. ― Viu aquele pássaro, Zefa? Azul, saíra! E aquele vermelho? Vermelho, sangue-de-boi! Como ele se alegrou quando me viu, o danadinho! E essa alegria, alegria, alegria, com que ele agora me alegra. Bica e devora as sementes também vermelhas que a minha mão lhe estende. O bichinho se derrama balançando trotando de galho em galho no seu delicado equilíbrio. Dança nas extremidades flutuantes da palha do feno. Um equilibrista nos vórtices nos veios das vagens, como um cão que se coça numa para: um galo, uma galha, um gaio, uma gralha! Três gaios! Tomai fôlego, irmãos! Engasgada com as lágrimas que caem sobre seu rosto, retoma a falação quase sem ar.

     ― Não! São tiês, são três tiês, tia Zefa! São três tiês tristes! Agora tão belos, são tão finos. Mas emporcalham minhas flores de pano com as suas concavidades intestinais! Agora é o meu pássaro predileto que canta: anuncia a chegada de alguém que já vem vindo. Alguém se desatrelando dos estribos. Se destacando contra a sebe clara das curvas da paisagem morena e do barro louro: Zukko! Ele vem no seu arado de prata, a pele cansada puxada pelo surrado cavalo branco. Cambaios, os pés descalços forcejam os arreios de metal e madeira escura. Ele vem todo nu, seu ser de mármore manchado do sangue das últimas batalhas. Lavado de vitórias, ele vem da temporadas de lutas contra os mouros de Antuérpia e Mádagascar. Zukko, o Inominável! Custa a passar pelas mãos pesadas, o canhão das luvas bordado de safiras macias. Ele limpa com os braços imundos o exausto açafrão do deserto que a poeira de seu rosto exsuda. Arranca da barba e dos supercílios grossos alguns espinhos dos ossos dos turcos mortos. Oh! Zukko! À noite, a tua grande e dura língua vermelha perfura vulvas, como uma lança viva escorrendo meu sangue virginal. Sobre o vosso leito de almofadas de linho leite, eu dormiria entre os detalhes de cerejas nas sedas brancas.

     Vovô me tortura, por causa de meu grande amor por Zukko, o Herói. Com as unhas arrancadas na raiz dos dedos, eu me arrasto pelas pedras do chão gritando teu nome aos quatro ventos: Zukko! Me sacudo e me debato, gritando teu nome desperdiçada: Zukko! Espero a morte pelas mãos duras de Vovô. Com a cabeça ensanguentada batendo contra as pedras lascadas pelos solavancos do meu corpo tirado pelo cavalo de suplício, as amplas asas do falcão negro ameaçam cobrir a taça dos meus olhos miúdos: Zukko! As pálpebras de cetim forradas de plumas cintilantes: Zukko! Envolvida em saliva, ele remexe com a língua de víbora todos os meus sentidos dormindo dentro das pernas. Zukko! Brotam de dentro de mim, me fazendo voar, tuas asas de águia. Os teus sonhos descobertos olham para mim, me fazendo sonhar. E caio com as cinzas quente da noite. Sem ti, tremo de frio, de fome e de feiúra. Pulso choques vindo dos peixes que me perfuram no fundo.

     Aproveitando uma breve estiagem, o Coronel em sua cadeira de rodas abandona o posto de comando no ponto central da sala, de onde pode ver tudo. Sentindo-se seguro pelas correias que impedem os movimentos da neta, improvisa também uma higiene rápida no pátio espanhol. Banha-se às canecadas. Instalada aquela figura no centro da construção, umbigo do mundo aberto em torno de si, constata-se a abjeção histórica da herdade: o banho do velho tirano perneta num cenário paradisíaco. As frondosas cerejeiras, carregadas àquela época, envolvem a fonte de onde ele enche sua velha caneca de latão. A árvore já deita frutos meio amassados, que as rodas do veículo do velho repisam quando se movem. Quando voltar para a cozinha, os cabelos grisalhos pingando nas lajes da área interna, arrastará um sulco vermelho: a marca de sua longa carreira de crimes. Mas que para ele sugere apenas o caráter corrompido da mulher que se entrega pela primeira vez a um homem. Primavera que a neta jamais conhecerá. A menos que arrefeçam seus delírios, e Washington — o Pestana Branca, como o Coronel o chama — decida desposá-la meio louca.

     Terminados os banhos, o Coronel e Zefa, voltam para seus postos de observação. Agenor, como um gato ágil, passa da cadeira de rodas para sua poltrona predileta. O móvel, com o encosto guarnecido por abas laterais, sempre traz à mão um dos livros da repleta estante. O coronel contempla com tristeza, além da menina, a forte chuva que volta a cair e derrete os montes de sal. Monturos de dinheiro que se dissolve. Zefa, acomodada no seu borralho, enfia os pés debaixo do armário de vinhos. Assim, duplamente vigiada, Elvira passará mais um dia cativa em seu leito grudento e mal cheiroso, amarrada com a arreata da carroça.
     Quero dizer com isso, para ele, que ele é meu único serviçal. E para que ele volte amanhã também. E todos os dias, sempre. Isso me torna desgraçadamente mais humana e tonta, antes de enfrentar o mundo. Quando me ama esfrega meus peitos, e estraga um pouquinho a minha maquiagem. Ajeita o bigodinho fino, maniazinha feia dele. Tira as botas de fazer a faxina, rápido, antes de entrar. Disse que aprendeu com a mainha dele: casa dos outros, pés descalços. Ele, quando era criança, percebia que ninguém gostava dos pés dele. Eu não vou dizer nada pra ninguém! Não quer que as outras meninas saibam que ele tem pés de pato ― Paturi Irerê, o apelidado! Fica sempre triste quando se lembra dos nomes, Pé de Colher ― triste porque as outras meninas vão saber dele. Eu não conto nada. Mas é como se ele fosse um marrecão, refletido num espelho d’água na lua trigueira, ele diz, querendo ser poeta. Sempre o tratam como se estivessem diante de outro homem, que não ele, ele sofre, ele diz. Comigo não, eu não vejo, não olho o que não vejo. Depois apalpei, uma noite ― ele dormindo. Não sei, mas era um pé pequenininho, de menino. Fiquei feliz porque não precisava, mas ele estava ali vivo. E disse sozinha pra mim mesma, sem sono ― Paturi Irerê era um homem de carne de verdade. Não era como uma memória. Mas dormindo parecia que não ia viver mais. Fiquei com medo, urinei, tomei susto de gente morta. E se estivesse um difunto na minha cama, dormindo. Com aqueles pés de sapo enormes, roncando pra sempre num último banhado rasinho. Mas acordou sozinho, logo depois do meu pavor. Adivinhou, acho que acordei ele do sobressalto meu. Deu um pulo atrasado pra escala. Uma enxada tem que ter alguém detrás dela, Sinhá! Sim, para fazer ela voar. Sim, ele vai trazer mais salsichas, de tardinha, sim. Antes de eu sair pro batente. A enxada véia! Se não sair para beber, depois do serviço com o meu dinheiro das salsichas. Filha da puta! O Grego veio ontem ― cheiro de vinagre e cigarro. No meu sempre quis fazer. Mas não! Escarro seco não serve. Seus pulmões de grutas verdes de peixes de jade. Viveu toda a vida dentro daqueles porões vermelhos de carvão, e das caldeiras dos motores. O pequeno jardim no parapeito da janela. O Grego dormindo parece outro morto. Todos ficam mortos dormindo. Bloqueados de cera no sussurro dos narizes. Ao relento, entrando pela janela adentro do quarto, o cabelo molhado do mar sobre a froinha da praia azul.

     Agora ele suporta todo o peso do meu corpo, ajudando com as mãos. Ajoelhado diante da pia, julga minha pele ressecada e a mal tratada aparência das unhas. Minhas carnes velhas esperam o fim na próxima temporada, guiada pela lua. Parece que me vê agora, de uma maneira diferente. Eu sinto. Quando surjo contra uma outra luz, outro meu visual exibo, quando fico de lado. Eu percebo direitinho. Ele percebe e gosta. Outras noites que vão para lá e para cá. E eu vou junto como as portas dos banheiros. Apenas raspam os meus sentimentos públicos, as memórias, os azulejos. As rodas batem em buracos e saltam jogando para fora do carro de bois as cargas preciosas. Até gente, até crianças caiam dali. Ele nos enriqueceria com tudo de que precisássemos. No fim foi um sofrimento só. Os pombos desapareciam todos os dias, e junto com eles o meu filho. Devem estar matado muitas pessoas por lá ainda. Foram treinados para matar, não perguntavam. Trucidavam, batiam. Suas honras de servir ao Major Gonzáles, assim o exigia. Um técnico de sofrimento, um homem que estudava para aquilo. O perfume da noite que a morte traz consigo, embebido nas religiosas, nas cozinheiras, nas putas. A morte não fazia distinção. Ou fazia uma distinção muito nítida. Tudo fazia com que eu me sentisse bela, mesmo quando eu estava sendo levada embora. Até aqui, ainda sinto aquele medo que andava nas pessoas. Achavam que ia morrer de medo. Tinham feito todo o possível para que todos tivessem um único corpo de puro medo. Um corpo universal de horror, embutido em todos os organismos. Nesse mesmo esqueleto que nos mantém vivos. Com o que fizeram deles, viviam. Sobreviviam, ganhavam seus salários. Eram exatamente assim como todos eram, exatamente assim como todos diziam que o respeitavam, desde o princípio. Gonzáles já não precisava dar ordens a ninguém, já era um deus. Era apenas um olhar, para fazer que agissem. Para fazer lembrar a qualquer um a imagem daqueles a quem ele pendurava. Como ele me pendurou, pela primeira vez.

     As cordas sumiam, afundavam nos meus pulsos e tornozelos. Dobrada ao contrário, sendo ferida pelo próprio peso. As munições foram encontradas na casa ao lado, no quarto do homem pendurado ao meu lado, no cano de ferro da saída do esgoto. Era Sevê, o vizinho que cuidava das nossas mandiocas magras, um jardineiro da fome. Adquiriu posturas impensadas, estranhas para uma pessoa tão séria como ele. Desdobrado no ar, com as mão e as pernas presas em algemas cintilantes. E as algemas também sumiam para dentro do seu corpo pesado. O suporte passado entre o vão livre das pernas, impedia o ar. Éramos uma única flor de dor. Ou seja, naquela posição parecia que já não estávamos com medo, já quase não respirávamos. Não tinha mais olhos, apenas inchaços. Queriam saber se ele tinha coragem para assumir o crime. Se ele ainda tinha o cinturão e as armas desparecidas, dos outros militares desaparecidos. Usavam crachás apagados. Eu não tinha medo, estava ali para morrer. Em nada me achava diferente de milhares de mulheres que vinham servir na cozinha. E depois eram penduradas, quando as coisas não saiam bem. Quero dizer que não saíam como eles queriam. Até que eu consegui me safar. Bons advogados, novos civis influentes. Minha função como cozinheira, e fanática religiosa, era apenas fornecer comida. Um infiltrado me denunciou. A minha punição era que não se deixasse apagar o grande medo. Ou, como se diz, que eu nunca deveria me sentir completamente feliz. Mesmo com a falta da liberdade, mesmo com a falta dos olhos. Subo as escadas com seus degraus de espinhos, por dentro de toda a concha onde vivo. Eu ando assustada, entre os vasos de lilases e as travessas de barro com os gerânios brancos no parapeito da janela. Suor de porcos mortos saindo pelos poros. A caça inflexível pelos tesouros desdobrados. Flamejantes, dóceis, arrependidos depois, todos os outros, os covardes. Todos os dias seus rostos surgem detrás do aquário, à espera da absolvição, dentro desse quarto de paredes amarelas e ásperas. Minhas músicas simples que cantarolo durante a caça. Tento fazer com que sejamos iguais em tudo. Apesar de que eles tenham que pagar. Melhor é se vender, do que quando cada um é escravo do outro. Se vender, pelo menos, é uma coisa honesta. Mas tudo vai ficar assim do mesmo jeito. Mas tudo é de um único jeito, assim. Um único jato: a escura dança. Uma mão enorme, de uma vez tomando tudo! Terra, pão, paz e liberdade! Não com esse nome. Um outro não tem o que comer, se esse tem! Para que dar nomes? Vamos lá de uma vez. E outro não quer comer quando tem, porque guarda para sentir mais prazer mais tarde. Se repetem as mesma peças, enjoadas, se movendo dentro de mim. Eu que já me senti livre um dia. Todos os rostos com máscaras de pano. Eu percebo com os dedos uma ilusão depois da outra. Eu me envolvo também nisso completamente. Nessa escuridão de ser eu mesma. Todos os dias entre esses meus amigos. Essas máscaras de linho branco que toco, me rodeiam diante do mar escuro. A imagem da vida azul dentro do aquário, flutuando nas plantas aquáticas que eu vejo com os dedos. A rude semelhança entre a texturas das algas e os passos da dança da minha vida. Do que eu mesma fiz de mim. O tudo que eu tenho hoje, e que amanhã vou perder. Enquanto isso me mexo com dificuldade dentro desses pensamentos gordurosos. Eu rodopio comigo, com todo o corpo grudento gritando em silêncio.
     No duro crepúsculo de outrora, durante as tormentas da primavera, durante a lama, durante o entulho: os galhos rompidos como braços frágeis se acumularam rápido nos lagos. Redobram-se como rugas da idade avançada e debruçam-se com as mãos no rosto contra a ravina baixa. O anúncio do surto dos desejos e dos dejetos se resumia principalmente ao espaço miserável da laguna dos fundos da casa, e à própria casa, onde era vital todo o sangue dos matadouros. E abundavam o abrangente mosqueiro e o odor pestilento. Com desgraças por todo lado, os porcos, filhos do lar, naqueles dias inquietos de ímpeto e trambolhões, anunciaram os inícios da loucura de Elvira. Os porcos ainda conseguiam se alimentar porque o pobre Zukko, o Pestana Branca, não se esquecia nunca das latadas de lavagem. Desde que soube da piora da menina, sua viera socorrer a companheira de infância nas tarefas digestivas dos suínos. Socorria sua amiga Elvira, aquela criança que como ele, carregava sobre os ombros, desde que já podia andar, a incumbência de distribuir os restos da cozinha e da horta aos animais. A menina, branca escrava de tigre, carregou sobre os ombros cotidianamente durante seus anos de infância e início da adolescência as pesadas cargas imundas e fétidas. Até que um dia a loucura a tomou para si.

     Para o Coronel Agenor, ao contrário, o que lhe chamava sempre a atenção, era a gritante magreza dos animais, provocada pela má qualidade do serviço da neta e agravada pela preguiçada do Pestana Branca. Preguiça que era evidente em cada gesto seu. Na modorra com que exercia toda tarefa, caracterizava-se como um definitivo imprestável imundo. Se levantaria, ele mesmo, o velho de sua cadeira de rodas, se pudesse, para carregar nas próprias costas as bateladas de comida azeda. O ódio por tudo e por todos a cada dia aumentava a olhos vistos. Isso tinha como consequência, entre outras coisas, o fato de que aquela emoção histórica lhe carcomia as entranhas como cupins. Surgia em grandes feridas purulentas, cada vez maiores, alargando as escaras adquiridas pela obrigação de viver sentado. Aquele tormento se estendia por longos períodos de tempo, num dia a dia cada vez mais longo. Nas últimas semanas, passou mesmo a sentir mesmo ao vivo, com benevolência e resignação, os bichos roendo dentro dele. Negros e brilhantes, as traças brancas comem-lhe as carnes da perna esquerda. Invadindo as nádegas, acarretam o lançamento de gazes fétidos dos lugares onde a proliferação dos animais carnívoros é mais evidente. Por outro lado, apesar do desconforto e diante do fato de temer a moléstia maligna da neta, achacada esses dias como nunca, precisava manter sempre à mão para se proteger, a dois canos. Conhecia aquela moléstia como a palma da sua mão -- sem calos, diga-se de passagem: a neta era herdeira da loucura da própria mãe, filha do coronel. A fruta cai perto do pé!

     Sempre que a fome do inválido solitário lhe ataca, -- a mulher, por não suportar mais suas loucuras exóticas, o abandonara assim que o velho terminara a obra da construção do enorme casarão -- ele vai se arrastando com os pés e as mãos como pode pela cadeira de roda contra a pia da cozinha suja. Descasca com gestos trêmulos e relances de olhos cheios de medo, um par de batatas roxas que dão vômito de tão velhas. Para economizar e não gastar batatas novas e frescas guardadas a sete chaves para o inverno, quando a cigarra fica com fome, usa os frutos passados de alguma estação que se foi há muito tempo. Volta e meia, rápido, ríspido, rodando a cadeira rangente, traz no colo o prato de guisado de carneiro gordo. A serva deixa a ceia cevada, preparada antes de dormir, na conserva de gordura quente. Num esforço hercúleo, o coronel consegue se mudar da cadeira de rodas para a grande poltrona de estofo roto, que foi vermelha um dia --- a dois canos sempre ao seu lado. Agora, o móvel tem olhos perfurados, esbugalhados para todos os lados, de onde surgem e espreitam suas vísceras de palha fina. Os amplos vazios arrancados pelos insistentes dentes dos ratos nas horas mortas, lhes servem de munição fresca para seus ninhos abscônditos, recheados de filhotes de mamíferos roedores graciosos. Saciado, a boca cheia de baba, ele se espoja recostado no pequeno travesseiro sustentado por um fio de barbante gasto e amarelado, detrás de sua cabeça cheirando a mofo e cabelo velho queimado. Quando percebe o cochilo, a espingarda vai contra o peito. Ali firme, agarrada, dorme em madornas cheias de espanto e horror. Vai que vigia Elvira delirando, vai que sente-se entre o devaneio de estar atento e o pânico de ficar para sempre atado na cadeira, sem defesa, sendo atacado pela neta. Lembra-se da louça por lavar, que por nojo não permite que a serva escravizada com suas mãos sujas lave para ele. Desperta assustado e associa os vermes que crescem sobre a pia, com os bicho que se mergulham nas suas nádegas, rasgando as suas carnes. Mas acalma-se, entre dois sonos cheios de cismas: a menina permanece contida por correias, graças a Deus! Ele apenas pode ouvi-la se agitar sobre a cama do quarto, confrontante com o quintal dos lados da casa. As fivelas da arreata da carrocha badalam como guizos a cada movimento da neta. Olhando lá para dentro, onde por uma fresta escondida e mantendo uma distância segura, ele pode controlar todos os seus perigosos movimentos. No caso de que ela escape da cama, Agenor terá tempo de sobra para contê-la com uma boa saraivada preventiva de chumbo nas pernas. Não vai matar a menina como a um porco, claro, não seria capaz disso! Mas a Remington Doble, fica sempre destravada e pronta. Assim, ele espera que se passe mais uma daquelas tardes de medo, varridas com suas pestanas pesadas na poltrona contra o sono da uma vida.

     Naquela hora de temporais na sala ampla, guelras de chumbo comprimem seus pulmões ardidos. Ele sofriam com os ventos úmidos daquelas esperas, entre calores sufocantes. As fornalhas sazonais vem incendiar os telhados feito de telhas de latas reaproveitadas, tornando as tardes de calmaria cheias de pó onipresente. Na vigília embriagante, o coronel vê pela janela os animais dóceis, débeis e dúbios, na paisagem cristalizada de sal e vidro. Percebiam seus olhares se esquivavando e os olhos baixos na relação desigual com o mundo. Dentro das nuvens verdes diluídas na renda da sebe florida, ouviu se afastando gritos de galinhas de penas de mármore. Aquela natureza opaca e movediça, quase oculta, é um ornamento de luxo naquele museu de ruínas que se espalha dentro do círculo de poder do Coronel. Agora ele nada vê mais nada, enquanto dorme, mas ainda domina o que diante de si. Desde a morte violenta do pai, de tiros muitos dos rifles da tocaia, quando assumiu o latifúndio, muito novo ainda, também contratou e botou jagunços armados nas varandas. A vida não tem lei segura, não é mesmo? Agora, abrandados os barulhos, dali de onde está sentado, quando acorda atônito, com alegria pode adivinhar pelo estardalhaço o galo flamejante e marcial espantando as frangas afoitas com suas correria fálicas. Os gritos da ave repetem urros desajeitados como os da morte, que ele conhece. Seus saltos, suas penas jorrando do ventre da terra, contaminam com o zinabre a tarde. Um calango de mal aguoro, ruim e enjoativo, é entoado pela a velha serva. Uma canção semimorta rima com a estação cansada. Tudo aquilo se arrasta ali na sua frente, igual todos os dias, sem tirar nem pôr: a salina, o vale verde e esbranquiçado, a paisagem exausta.

     Antigos homens passam diante da janela num esquife de barro em forma de barco, suas roupas estão bordadas pela noite. Agenor se revira na poltrona de escombros e em pânico mira com a dois canos o coração da neta que o ataca com uma faca. Desperta desesperado, e gira o olhar duro para o outro lado do cômodo. Não era nada! Lá estão a mesma árvore, a menina, e os mesmos porcos que ele conhece. Indecisos, focinham lado a lado. Contra o veludo do espaldar esburacado e dos braços da cadeira, o grande espelho de prata envelhecida orna a parede do fundo da sala. O velho sente-se desdobrar junto com o dia e se estica como pode, afetado pela umidade que lhe chega pelas lâminas da porta pesada. Os relevos desiguais da parede rústica criam jogos de nuances escuras. Tudo antecipa o poente, como uma grande cadela que abrisse boca sonolenta: mesmo nublado o poente surgirá vermelho e implacável. O corredor sem fundo escorrega lentamente para a noite. As sombras se viram para a direita, onde o mais noturno dia recebe a pouca luz do fim do vitral. A claraboia de vidro verde das tardes engarrafadas, se fecha contra o jardim das urtigas. Por pouco se consegue ver, encarapitadas umas sobre as outras, as doninhas brancas, mornas em suas carapaças de camurça fina. Todos os pequenos seres, com chilreios cheios de angústia, mergulham cada vez mais lentamente nas trevas inumanas.

     Com a noite, o Coronel desfruta como pode de algum repouso no inferno. A cabeça ainda recostada naquela sua almofada, pendurada naquele barbante podre, na mesma grande poltrona em cacos defronte das pedras imundas pela fuligem da lareira. Raras horas sem ratos, ali crepita o fogo obsceno. A lenha dá trabalho e o cavalariço não tem boa vontade. Desse posto o Coronel vigia toda a sua propriedade em silêncio e nas trevas. Mas o quarto da menina louca sempre é sua maior preocupação. Com pouca necessidade de espaço para se deitar a seus pés, um Anão de circo, que debandou e perambulava por ali, lhe serve de mordomo improvisado. Pau para toda obra que se precise, é sua nova muleta ― apesar do nojo que o coronel sente também por ele. Mas, tem coisas que não se pode evitar. Deitado apenas no chão frio, o pequeno homem esconde-se perfeitamente debaixo do bruto armário de louças no fundo do cômodo. O batente de angelim da sua porta alta é o apoio de cabeça do pequenito, que se faz de mudo para sobreviver por ali. Fala quando pode, responde quando lhe perguntam e luta para tirar escondido algumas madornas na noite silenciosa. Quando consegue um pouco de sossego, vigia o coronel que cabeceia e não o vê. Vigia também o sono da menina, que não pode ver nada, mergulhada que foi em pesados narcóticos. A dobradiça da porta onde o Anão apoia a cabeça, acumula um profusão de cabelos saídos dos restos da calva do nanico. E, segundo o Coronel --- que reclama de tudo ---, não é impossível que rebrotem dali inesperadamente numa fusão criadora entre a natureza criada e a calvície destruidora do rapaz. De fato tão próximas, pois o velho considera o Anão pouco mais que um animal doméstico. Sim, o anão constata enquanto pode olhar em volta sem o controle do olhar de Agenor: há muitas janelas naquela sala, todas altas, todas de ruivo angelim maduro. Sim, em todas elas surge a árvore equívoca, oscilando entre o loureiro e o manacá selvagem. Forte, imponente, indecifrada, ela se ergue e lança seus braços magros e negros iluminados pela lua contra o submisso espelho. Imagens poderosas, vigorosas em suas consequências, trazem o esquecimento da miséria da sala sonolenta. Ao fundo do espelho, na contra-luz, o chiqueiro quase vazio, o estábulo a ponto de regurgitar o último animal de tiro. Do lado direito do estábulo, as laranjeiras com a lepra visível dos musgos. As leiras das lajotas apodrecidas, a horta morta e decepcionada. Àquela hora, ali mesmo, agora medram o joio e a fanática mostarda --- sobrevivendo com sua teimosa contra a vontade humana. Por cima de todas essas desgraças, brilham numa luz indescritível que a lua traz, solidões fora de foco e solidão incomum. Uma camada de limo rosa avinagrado transborda com os reflexos baços, temperando o salão com imagens imóveis e comoventes. No chão, calado, o anão percebe que apesar da maciça presença das pedras, predomina entremeada em mosaicos negros a madeira dos paus-ferros. Largos espelhos vazados nos vidros das janelas ocupam o rosto sombrio do senhor avesso e branco, que sonha:

Espancando seus negros macios, Por culpa de teimosias nuas, E famosas melancolias, Fazia fatias das costas suas
     Mas me deixo ficar invisível, quase sem vida sobre a ponte da tarde. Na semana passada me voltaram, injustamente, as lembrança dos erros perigosos que eu cometi. Mas eu concordo, ôxe! No pior dos meus dias, as acusações contra o passado são como dor de estômago por dentro dos sentimentos. Por fora, é tudo igual, o dia claro. É o mesmo, ninguém vê, eu sou a mesma. Ninguém percebe. Nada, Elvira! Era como eu estar aqui viva, ou não estar. Todos os caminhos descem para mesmo fim. Foi como você fez eu me sentir ontem de tarde. Estendo os meus dias em manhãs e tardes, e não conto as noites. São mentiras brutais, escondendo o ar. Mastigando ovos, ruminando canções. Dias afora, silenciando mortos. No meu quarto sombrio, sonho, um ranho de amor. Onde só eu queria ter sido alguma coisa diferente na vida. Sem ter que correr contra ninguém mais. Faria tudo de novo, uma vez. E de tudo, mais de uma vez. E do que não gostasse, nunca mais. Mas então veio uma sirene faiscando. Golpes rápidos de bolsa, e a decisão tomada de agir novamente. O tiro na virilha. A navalha escura com cheiro de sangue. De quando em quando, quando eu era quase uma criança. Depois acidentalmente, quase todo dia, adolescente. Bem devota, arrependida, na cozinha do nosso convento. Mas então vieram os emblemas militares, nas jaquetas jogadas nas cadeiras das celas das madres. Suas grandes ancas sem sol, voltadas para as pinturas do teto, sendo sodomizadas pelos soldados. Seus rostos engordurados, queimados com a pólvora da guerra. Algumas, muitas, foram sumariamente executadas, ao se recusaram suavemente a ceder. Alegavam fanatismo religioso e incompatibilidade com a nova ideologia. Mas a realidade é que eram compatíveis com os estupros. Uma semana antes as células guardavam mulheres que dormiam sem as suas coifas de tecido bruto. Os cabelos esmeradamente picotados à tesoura. Agora suas vulvas gordas, incham violentadas, dormitando antes das matinas. E novamente vestem as suas coifas de tecido bruto. O cômodo de pedra reservado, improvisado como morgue, estava cheio dos corpos das mulheres. Mulheres nuas, que como eu ostentavam brancas carnes baças. Mortas ostentavam as pernas já banhadas de roxos do outro mundo. Os amores em segredo, deixados no escuro do passado. Transformados em singelas flores achatadas dentro dos missais. Últimos correios do mundo lá fora, as vidas plenas de ausência.

     Os ciprestes dos pátios ventando em meios aos seios escondidos. E aos teus olhos de cera. As perfeitas ilhas do céu eram encontradas quando divisadas às tardes. Na névoa sobre o pátio central do claustro, suspiravam e seguiam sem rumor. Viviam do seu amor às andorinhas de caudas duplas e fugidias. Elas voavam e voltavam sozinhas, trazendo velhos pressentimentos inimigos. Os santorais não são feitos para essas coisas que os nossos vícios precisam. O que os eleitos buscam é a febre de quem chora, ansiando pela morte, debaixo de chuva e vento, e ela não chega. Uma panelada de memória, cozinhando meu corpo em sangue. A faca espetada contra uma face. Um osso quebrado na outra face. Enquanto outro osso é quebrado na outra face. Um bando formado de pais, mães e filhos, temperando terra para fazer uma sopa. Depois da zona da mata, se comia farto, com a riqueza tirada da nossa poeira muita. Outros conhecidos e desconhecidos fermentando musgo para fazer uma torta. E lá, depois do fim da areia, onde começam os vergéis, se via a opulência. Aqui, fome, e ninguém de quem esperar uma carícia. Tanta notícia ruim, eu não tenho mais coragem de dar. Dou as boas vindas, só. Só falo do que viemos fazer por aqui. Eu fui sozinha encarar o traste. E as outras fêmeas ficaram juntas, acotoveladas espiando na janela. Olhavam o sinistro capturado. O acidente, depois o chá, o velório. Flores e a miséria da carne apodrecendo rápido, como apodrecem os pobres. Na sentinela, encontraram o cabecilha assistindo detrás de um morro, olhando de longe o companheiro morto. Era um rapaz novo. O homem que o apontou, dono de uma mercearia que ia ser saqueada, fugiu roendo suas ruínas. O povo ia linchá-lo. Não se submeteria a novos cortes no rosto, como já haviam feito com ele. Lá, humilhado, sozinho com seus ossos, pensava no rapaz que foi traído por ele, corroendo o seu coração de pedra. Se suicidaria também, pelo que fez? Pelo que foi sabido, até agora desprezaram o seu pai. Os revoltosos não tinham motivo algum para apoiá-lo. Atirou muito tempo para os coronéis, do outro lado. E agora, delator. O vendeiro precisava dar uma prova de fidelidade ao novo regime. É o que se fala. Então disse o que sabia de ouvir falar. Ele disse qualquer coisa de achar por si só, afirmou isso várias vezes. Mas não sabia direito, não tinha a certeza clara. E os militares deram sorte. Procuravam por um e deram com outro.

     Os militares agora tinha a certeza que nós eram pessoas reais. E não um medo do que não se conhece, como a gente miúda dizia. De demônios escondidos nas matas. Porque já tinham encontrado os corpos dos soldados das patrulhas que então se arriscavam a procurar-nos. Pouco depois da delação do vendeiro, os militares chegaram ao redor do nosso acampamento. E começaram a nos morder por fora. O pai do delator havia conseguido uma saca de café e duas ou três sacas de farinha ― mais por medo do que por simpatia. Porque acreditava que quando a coisa estourasse, isso poderia contar a seu favor, apesar do passado de agiota criminoso. E o rapaz, apertado pelo pai, na iminência de ser morto, acusado de apoiar os rebeldes, precisou se safar. E safar o pai. Falou o que sabia e o que não sabia. De fato o que tinha visto era um outro acampamento numas grotas nos longes. Lá pros lado do Solta Cravo, onde o mato cresce livre. Tinha ido pra lá, sozinho, faltando do que fazer. Bestava nas capoeiras, dormindo nas pedras, caçando lagarto. Com a sela da mula, um bacheiro xergão grande, de lã de carneiro, se ajeitava. O cigarro de palha sempre aceso para espantar os mosquitos, ia e vinha atrás de uma ou outra rês cara extraviada do pai. Tomava seu rumo de descida prá lá pros baixos. Indo e vindo como o vento. Tudo junto, ficou lá por perto, com nós, de três a quatro dias. Bebendo café na caneca de lata e comendo daquela carne seca que nós ainda tinha, ― que podendo oferecer, nós oferecia. Ficou camarada nosso, prometeu até voltar um dia. E procurar por nós que se estivesse por ali ainda. Se encontrasse era para ficar de vez, entusiasmou. Ele tinha ficado vivo com a empresa, como muita gente. Na saída deixou o xergão pro Zeca, ― porque não ia precisar na marcha batida de volta pra casa. De presente, sem pedir, porque viu que Zeca se admirou de uma peça tão bonita. Dormia no chão de forrado com palha. Já dormi muito com o Zeca enrolado nós dois naquele bacheiro xergão. Homens cruéis e armados com salário fixo, rações, seguros de vida e aposentadoria com promoção de posto.

     Se você falar alto, ou gritar de fome, vai descobrir o verdadeiro nome de cada momento desse mundo. Eu ficava em pé sobre uma lata aberta, como uma ilha cercada de militares por todos os lados. Ensinavam seus truques antigos para os que estavam começando a carreira agora. Não se preocupe que tudo vai ficar o tempo todo como está. Eles estão só gastando o tempo deles. Havia um homem forte no governo a ponto de sufocar completamente o povo, como uma faca na escuridão. O frio poder que tinham sobre o frágil corpo da nossa fome. Mas o ódio ainda podia vencer o medo do meu coração. O medo servil e submisso que a minha Madrinha me ensinou. O medo que ela sentia, e conheceu aprendido da mãe dela. O medo nascido do desespero do dia a dia. Mas o ódio, eu sonhava, se crescesse, crescia com força. Ainda podia tirar essas correntes dos meus pés. Eu não dava sossego ao demônio do medo, que me perfurava a vida. E gritava contra essas coisas por dentro. As pessoas assistiam, enquanto ele era preso. Já jogado no chão, obrigado a mastigar a terra que ele queria dividir. A boca igualzinha aos peixes que comem o fundo do mar. Só que ele não se submeteu, tinha coragem de sobra. E os militares minavam a força de seus gestos que tentavam suportar as pancadas. Calado, os outros debochavam. Lidavam com as mãos segurando os cigarros acesos como atores de heróis da televisão de verdade. Impecáveis, unhas polidas, cabelos aparados, uniformes, insígnias. E o queimavam no rosto e no peito. Um olhava, como Paulo. Só que depois continuou o mesmo, ou até pior. Mas no fundo, toda aquela figuração de variedades, escondia o medo das mudanças. E no fundo do fundo, a perda dos seus salários. Tentavam salvar suas peles grosseiras, dos ouvidos do povo que escutavam com atenção as nossas reflexões inteligentes. E se o povo se contaminasse com a coragem. E a coragem de alguns mais sensíveis era feita de apenas algumas pequenas sílabas certas.

     Foram ouvidas à meia voz. E eles, os capangas do regime, ouviram esses sussurros, que aumentavam por todo lado. E também tinham medo ― medo de nós. Embaraçada no vestido, no salão de baile, no branco dos ladrilhos, no elástico apertado na barriga. Tentando fazer da tarde, um barco que retorna da solidão à podridão. Minha sombra sobrava sempre sobre a sobremesa, servida simples, sozinha na cozinha. Ou na sala, sentia-me uma outra jovem agora, depois dos anos servis. Minha quadrúpede anca contra os ângulos das janelas de Copacabana. Orgulhosa da maquiagem vermelha em tons de branco e brasa. E pálida, destacava os músculos felizes. Feroz, vitoriosa depois da eleição de mentira que as novas amigas fizeram de boas-vindas. Mas sempre uma cega muda e trôpega de bêbada. Bastante felpuda por dentro, o coração inflamável, infalível, incessante, batendo pressentimentos pesadamente cansados. Cansada mesmo quando me abria meladamente ― a falsa fala fria insensível. Exibia o que não havia lá dentro, de verdade. Nada, a não ser gordura, pedras e lamentos de morte. Notívaga, consumida de febres, alcoólica de mormaço, onde permanecia no mesmo lugar. Nas paredes, encostada, surpresa, ainda esperava a volta da fome que, para mim, diferente de muitos outros, já não viria. Ouvia os gemidos dos meus entes queridos e antigos, que se mexiam encolhidos, as mãos contra os ventres. Os corpos contra as paredes que caíam, mordendo o barro das entranhas dos varais do pau a pique, para sobreviver mais um dia. Sobre a terra original, os vermes da barriga enxameando. Quase saindo pela boca. Ninguém por perto pra dizer um ai, ou estender a mão. Os olhos das crianças gritando na janela. Olhos de horizonte cheios de espera e de seca. Caindo aos pedaços, o casebre em ruínas, defronte do mar a perder de vista das carcaças dos animais ressecados. Viva e alimentada, sentia a virilha acesa e esperava ficar nua em breve. Entre a pele e a vidraça, a cortina varre a luz sonolenta, envolvida no vestido de golpes de vento, rápidos, febris e lascivos. A lua exibe os seios na calçada. A bebida suave-verde e o falso rubi no umbigo. Fantasiosa e nostálgica, na fase de libélula. A vírgula no penteado, a boquinha trêmula.
     Com o surto de sábado à noite, o boticário Alves --- óculos de lentes grossas e mortiças, pendurado na ponta do nariz chato e largo, um pouco bêbado pela hora da urgência --- foi obrigado a ministrar uma dose bem forte de láudano. Como a droga não fizesse efeito algum. Em último caso então, não houve jeito! A morfina que se evitava fora usada. Paralisada sobre a cama, o Anão sente falta da menina rodando corrupios pela casa. Aquela centelha viva, celerada mas viva, e acordada, o fascina. Ao invés desse sono quase infinito que dá a impressão do eterno de cada momento. Nenhum temor, nenhum torpor, nenhum horror de ser atacado por ela. Nem desgosto ele sente, mas se ressente e entristece, quando não a tem por perto. Aí, dias depois de morta, ela desperta, sonâmbula, sorrindo, na alegria de ver os seus guizos saltando do barrete vermelho. Tudo volta, ele pulula. Provisoriamente, enquanto os dias de alegria não chegam, o Anão, para se divertir, liberta em segredo a amiga de folguedos das correias do cativeiro. Na hora em que Zefa lhe deu banho, isso sim a fez escapar para o chiqueiro ― não os descuidos da mucama. Isso sim, a verdadeira causa da sua fuga para o romance com os porcos na semana passada.

     Ela dança nua entre os porcos, enlameada de fezes, e sua loucura se transforma de novo no velho caso de amor pelo Anão: seu número predileto. Todos riem, Zefa, o Nanico, e a menina feliz dentro do chiqueiro. Assim se refaz na alegria e na fanfarra, o caminho inverso do atônito, do abandono e do ódio dos outros, entranhado na sua carne, que a levaram a perambular pela loucura. O Anão já não dorme mais, durante essas noites de cativeiro e solidão, precisa vê-la! A imagem da criança brincando no sol, com sua boneca de pano sem os olhos de botão, debaixo da janela do quarto. Seus brinquedos quebradiços espalhados sobre a colcha de quadrados em tons vivos. Os reflexos dos vidros nas colunas da cama, reforçando os claro-escuros da bela tapeçaria que reveste o chão diante do leito. A presença maciça da grande arca encostada à parede, atravessada pela luz poeirenta do fim da tarde. As nuances arrancam das pedras do chão rugas em vermelho, que fazem subir aos olhos do Anão as imagens dos belos dias. Voltarão as luzes que sobram dos sonhos. Diante da lareira central, ele olha o fogo pensando na menina. Durante a madrugada, imagina-a como uma velha tecelã, como uma filha silenciosa com suas manias distraídas. Filha de olhos sangrentos pelo trabalho, e arregalados. Filha de olhos fixos, sem vida. Combustão de imagens espontâneas, através do silêncio, quando os dois despertam na mesma hora, dos mesmos pesadelos. Naquele estado da noite, desejam os mesmos desejos. Correm de mãos dadas em alegria pelos canteiros circulares e coincidentes. Brincam com os farelos da relva recém-podada. Aconchegam-se no dorso côncavo dos colchões de feno amarelo que as mãos comoventes do Anão tantas vezes engendram para ela mesma, num canto escondido do quarto. Ali se encontram, quando a lucidez permite e a vigilância cochila, animaizinhos de cocho, em coitos rápidos de roedores. E aquilo é tudo que a vida pode oferecer de melhor: o grande amor entre um anão e uma menina louca.

     Ele precisa vê-la de novo, sussurrá-la. E desabrido, vai encontrá-la, num descuido do Coronel: a mesma lebre fria, deitada de borco, sobre os lábios de lado, abertos e crispados. Carnes pálidas, vermelho escuro, nacos sobressaltados rasgam dois dentes miúdos na sua frente de faces abaulada. Acomodada num sobre o travesseiro de cetim amarelo, derrama uma mancha forte de saliva fluida. Tem a cabeça emoldurada pelos cabelos gelados de um cão sem vida. Embebidos em suor, os grandes olhos pardacentos entreabertos sobressaem das pálpebras graúdas. As faces estivais encovadas sobre o corpo cor de sabão são uma sombra única dentro do quarto sem vida. O galho florido horizontal se estende do tamarineiro em direção à janela. E se enfia pelo quarto adentro, balançando da parede do fundo sobre a cama. A sua estante exibe o pequeno exército das bonecas de pano, engendradas para desempenhar a dupla função de fantoches e espantalhos de horror. Concebidas como aves de rapina e ficção, desengonçam dos ombros contra a parede suas pequenas cabeças mal desenhadas e desconexas. À noite, os brinquedos tomam vida e se transformam em horripilantes górgonas, medonhas e assustadoras, diante da imaginação corrompida da menina. Uma pequena ópera sinistra, misto de circo e bestiário, apresenta o espetáculo, que ameaça e ao mesmo tempo encanta e devora, como todo teatro verdadeiro. Por outras vezes, ao contrário, quando é obrigado a adentrar o quarto sob as ordens do Coronel, tudo aquilo se transforma de aventura amorosa em grande suplício. Não o medo de ser morto, mordido ou estapeado, ou mesmo golpeado com os socos e pontapés violentos, que são os terrores do velho. Mas sim a grande dor de ver a menina mergulhada em morte, privada das possibilidades que não deixam vestígios.

     Açulado pelo aguilhão de gado que o Coronel empunha, o Anão vai na frente, testa de ferro preparando-se para a invasão. Contornam em silêncio a grande lareira do salão --- onde o velho assa aos domingos suas batatas-doces e costeletas de carneiro --- e se dirigem para o quarto da menina. O Coronel tem um medo desproporcional, e percebe suas mãos de inseto geladas apertando com força os dedos contra a roda da cadeira. Procura a todo momento a arma que leva no colo. O pânico faz o velho imaginar o som de uma música que não ouve: enjoativo, um cego faz soar seu realejo à beira do córrego. Lavando o sal bruto, barato e escuro, a imunda melodia engrossa os pântanos em volta da casa em silêncio. O Coronel nota ruídos novos, talvez perto da janela, porcos focinhando flores amarelas de mostardas selvagens pendoadas. Talvez caniços magros das flores do trigo se dobrando, lutando uns contra os outros. Sempre soam sons sinistros que não ouvia antes, dentro de sua cabeça. É quando o Coronel Agenor ordena ao Anão que se aproxime dos aposentos da menina. O medo transformando seus músculos em palha, numa confusão de destinos, o Coronel grita: “Para a freeente, Cabeçudo!”

     Pela expressão desabada do salineiro, seu ossos são fracos trapos úmidos. Velas abandonadas ao vento, as partes mais moles de seu corpo transgridem a pele e se esparramam para fora pelas roupas. No estômago, as batatas-doces e as amêndoas torradas com que recheia as carnes do capado, confundidas com o agridoce do açafrão e do tomilho, se retorcem mal digeridos no péssimo organismo em pânico. Um gosto amargo de vinho velho surge na sua boca. Carrega, no distúrbio gástrico, um companheiro nesses tempos de sofrimento, junto com a erisipela que adquiriu como evolução maligna da ferida causada pelo coice de seu burro pedrês, brabo e predileto. O pássaro à beira da morte, os rolamentos do mundo fora das suas órbitas, os rugidos do tamarineiro contra os batentes cansados da janela em pleno vento. Agenor se acalma um pouco ao ver o Anão parado na porta do quarto. Esconde o corpo por detrás do homúnculo e, matreiro, se posiciona bem rente à parede. Dali pode ter uma visão ampla do aposento e usar o Anão como escudo. “Cabeçudo, um passo à freeente!” Então o pelotão dos dois homens entra na sofisticada masmorra. O salineiro tem horror ao que encontra diante dos olhos e tenta traçar rotas de fuga para deixar o Anão sozinho nas mãos da neta louca e assassina. No entanto, inútil, nada disso é preciso. A dose mais forte ainda faz seu efeito e apenas suaves espasmos sacodem vez ou outra o corpo inerte, pálido e gelado, de Elvira. Um teatro trágico num irônico cenário. Em torno da doente imersa em trevas a luminosa janela de imbuia e cristal inunda o ambiente com a mais diáfana luz de vida. A claridade perpassa imóvel pelas janelas de vidros azuis quadriculados dando para o pátio de pedra lá fora, indo e voltando. Numa olhar rápido, o Anão percebe o chão do quintal novamente coalhado pelas pétalas caídas das cerejeiras em flor e supõe carinhosamente que essa visão, associada à ilusão de ótica do galho de salgueiro, com os pequenos melros pintados na parede, traria alegria àquela pessoa querida inconsciente ali diante dele. Alguém que teve a vida estrangulada pelo cordão umbilical do destino, e agora dos remédios. Ironia trágica, na bordadura das curvas da colcha de brocado cobre e dourado que azuleja partes do corpo de Elvira, as cegonhas aplicadas em laranjas vivos equilibram-se reais nas suas franjas, tocando com os dedos o chão de tábuas enceradas pela mucama. As aves pernaltas mergulham e voltam, no corpo da menina, erguendo nos bicos peixes voadores de rostos compridos e asas de feltro.

     O corpo de cera da menina surge detrás de seus voos. As plumas das aves roçam seu rosto branco. Meio-dia: os sinos! Elvira sempre amou essas sonatas vazias que nos fazem esquecer as nossas misérias! “Nos rejubilam, aos gritos, os seus bronzes", ela grita. “Dois desertos cheios de espinhos, o que os sinos realmente querem nos dizer” --- o Anão reflete. O grande campanário da igreja do povoado soa dentro do quarto, redobrando aquelas horas de pesadelo. Quem controla definitivamente as cordas, os toques, as horas e os hábitos? O Coronel percebe o enleio do Anão diante do dobar dos sinos e crê numa suposta confraria, acusando-o sub-repticiamente de heresia. Os movimentos trêmulos dos olhos de Elvira, causados pelo facho límpido que a nuvem esgarça e deixa passar, dissipa a ilusão de ótica do galho e das aves. Os sinos silenciam e a menina percebe a concreta presença dos dois.

     A dois metros de distância da neta, a única segurança para o Velho são as fivelas da arreata da mula que contém o pescoço e o corpo de Elvira. Apertadas em excesso como precaução, provocam vergões vermelhos nas pernas, e com mais profundidade, nódoas roxas nos pulsos e nas canelas. Os bordados de contumazes e antigas feridas e cicatrizes se espalham pelos braços. Surgem para fora da colcha esplêndida de paisagens sem brilho. Elvira semidesperta engole em seco com dificuldade, contida pelos medicamentos e pelas ferramentas de tortura que impedem seus movimentos. A primitiva camisa de força de um cabresto do animal de tiro lhe trava a traqueia. Ela parece se engasgar com algo que comeu: um inseto incômodo subindo pela narina ou descendo para o estômago. Uma cigarra que não canta, ainda muda, talvez. Os sinos ressurgem escondidos pelo vento, e depois de algum tempo se requebram em revelações, um a um:

!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!


     --- "Jaqueline, Jaqueline" --- Elvira timbra os lábios trêmulos, abrindo e fechando as mãos vermelhas de suor. Duas palavras úmidas rebatem nos seus lábios embebidos na luz clara do aposento. Então os raios de sol se desfazem, e deslizam para fora, apesar da hora morta do dia. O quarto fica envolto numa meia sombra e já não há nenhuma Jaqueline por ali. A menina delira, confunde os seres próximos com alguém distante que ela nunca conheceu, em seus olhos turbados. Vai revelando os sonhos que rumina e se aproximam. Tem uma expressão assustadora que os denuncia. Agenor não consegue deixar de sentir medo, diante da cena medonha que presencia, apesar de armado e da certeza de que a menina não se livrará das correias facilmente. Elvira agora, insiste em lançar uma ponte para a vida: os grandes olhos subindo imagens pelas paredes pesadas do abismo. Memórias que o corpo transborda e bombardeia, desde o fígado comprometido, trazem um suor pastoso para sua pele, transformam em pedras os seus ossos frágeis. --- "O doutor ontem esteve aqui, Elvira. A febre alta é das tuas amígdalas inflamadas." ― mente o Anão com voz fraca e fraternal. A menina gira os olhos de gesso pelas órbitas opacas e o marfim flácido que os sustenta ocupa toda a vaga área das fendas oblíquas do crânio. Máscara coberta por sobrancelhas invisíveis, de anjo demônio, do vazio de um rosto sem pupilas. A menina reconstrói com dificuldade a sua verdadeira face, na tentativa de encontrar a própria imagem. Lambe com o avesso dos lábios, os ressecados dentes de coelho, indelével caminho para o próprio humano. O que poderia ter sido, já agora não tinha futuro. "Não posso convidar Jaqueline para passar a tarde conosco, Vovô?" --- Elvira sussurra, tomada por uma súbita alegria. A sensação de desproteção contamina o avô e o velho busca uma posição mais segura. Agora --- Mais longe dos pés da cama! --- disparou a ordem para o Anão que ele usa como escudo. --- "Mais looonge, Cabeçudo! Mais looonge!" --- "Vovô não se lembra da boneca de porcelana que me deu na festa dos meus quinze anos? Ou está com preguiça de se erguer até à terceira prateleira ao lado da janela? Não pode pegar a quarta bonequinha para mim? Sim, pode pegar delicadamente a marinheirinha? Traga ela para entre suas ondas, por favor, Vovô!" --- Elvira de novo fita o vazio e fala sem parar, como dirigindo-se a alguém que estivesse dentro da parede. Aumentando o tom da voz, dispara: --- "Preguiçoso! Vem todas as tardes me olhar, esse homem tão sério. Sempre se esquece de me beijar! Não pode se esquecer, Vovô! Faça uma carinha bonita para mim, arrisque, tente vencer sua preguiça. Me traga o brinquedinho agora, Vovô. Eu sinto falta dela! Jaqueline sempre me faz companhia na janela quando contemplamos os veleiros vazando a enseada. Depois dobram logo ali a proa em direção à amurada do ancoradouro. Jaqueline e eu navegamos juntas o verão passado inteiro, quando recebemos a visita dos homens das ilhas. O vento do mar agora aquece meu quarto, entrando pela janela escancarada. Me dá vontade de navegar de novo. Mas o Vovô não gosta, tem medo de me perder num naufrágio. Pode afrouxar um pouco o espartilho, Vovô? Tenho falta de ar e gostaria de ir até à janela ver como está o mar, hoje!" --- Elvira balbucia as palavras como uma máquina, com um sorriso fixado no canto da boca. Extática, ela olha seu encantamento, fixando e girando os olhos estrábicos entre os guizos flácidos, pendurados no velho barrete do Anão.

     Despertada pela aragem fria que entra pela janela do aposento, a urina doce e nauseante inunda a cama e fica mais viva, presente. A menina volta a se mexer, e domina todo o quarto com nítidos e rápidos olhares inseguros. O Anão e o Velho ficam paralisados com aqueles dois grandes olhos demoníacos e doces à flor da face, fixados neles: Elvira agora os enxerga. O Coronel teme a possibilidade de ter que fazer uma manobra brusca com a cadeira de rodas, e isso faz correr por todo o corpo do velho uma corrente de metal gelado. Numa preparação para a retirada, totalmente desprotegido, tenta defender a perna doente com as mãos e escuta o remancheio da neta: --- “Não pode afrouxar o espartilho, Vovô? Não pode me trazer Jaqueline, Vovô?” --- A menina se lamenta num tom dorido. As correias estão firmes, não há a mínima possibilidade de afrouxá-las!
     A mão, à esquerda do ladrilho em que me apoiava contra a parede do bar, desfilava um anel de serpentes miúdas. A língua, de raras vermelhas esmeraldas. Batendo boca amigável com o homem detrás do balcão. A outra virilha, vã, elétrica, se acendia. Olhava para a direita, para a esquerda, e sonhava com os salgados na vitrine. Que me esperassem quando a fome colocasse o estômago para fora. E o corpo jogasse o dinheiro para dentro da bolsa. O dia da puta é sempre um nunca, cheio de espera. É como você estar aqui ou ali. E em todo lado ― o que seja! Do mesmo jeito, dá igual, dá no mesmo ambiente, calor ou frio. Ainda que eu tivesse que encomendar uma roupa ou uma música, da minha cor predileta, nada mudava. Sempre em sonhos, estaria em lugar algum. E nua, como sempre, como o tempo sempre fez comigo. Fosse nos meus dias de palácio ou de tugúrios, era sempre do mesmo jeito, assim ou assado. Faziam o mesmo efeito, as mesmas estações, quer entrassem ou saíssem. Chegavam ou saíam novos clientes, eu fazia o que fazia ― e eles que fizessem o que bem entendessem. E se levantavam agoniados, aliviados e tristes. E iam embora quase sempre sem ter nada a temer. Nada mesmo para ter que perguntar. Nada falavam, nada com ninguém, após, sobre os dois ocorridos. Escutava, com os ouvidos secos, as conversas de bolsos cheios. As putas conversando, entregando as encomendas de outros dias atrás. Eu contava histórias diferentes, autênticas, só minhas. De outros amores diferentes ― com a puta cega! São sempre os mesmos, os dois ou três cachorrinhos que gostam disso em mim. Aqueles cinco ou seis! Os outros fogem maliciosamente, indo tomar uma antes. E depois não voltam mais, com medo do inferno. Foder a cega era o dobro do triplo do pecado! Ah! que foder e pagar a quem enxergasse. E vivia assim aqueles dias, sempre não vendo e me dando por dinheiro. Eu chutava a culpa e cobrava feliz, sem enxergar. Conhecia as notas e os homens pelo cheiro. Antes de pagar, eles faziam cera para conversar mais um pouco, vendo se conseguiam colocar um pouco de intimidade no crime. Quando a gente se vê de novo? Mastigavam seus silêncios, seus novos dentes, seus chicletes, seus chinelos remascados. Quando você quiser, amor! Olhando para o quarto, eu adivinhava os homens esperando o inferno, e escutava. Pagavam e ficavam tristes, a fantasia imortal ia embora. Eu era só a puta, e ele, como sempre, era um idiota que tinha gasto um dinheiro que não podia, a toa. Seus olhos acompanhando as órbitas flutuantes do meu fosso furioso de gozo fingido, fingindo, fingindo. A água rala e tímida dos globos oculares vazados balançavam de um lado para o outro. Ondulavam sonhos dos outros e sombras da figueira na tarde. As unhas cravadas nas costas, nas coxas, no rosto. Eu ficava furiosa, tomada, possessa, quanto mais lanhos mais o dinheiro tinha valia.

     Tudo o que se passava, eu não via direito, e descontava mordendo os dias com os dentes. Os agressores, os amantes violentos, eram crianças bem comportadas perto dos orgasmos de louca vingativa, quando chegavam ao auge. Tinha matado o marido, os filhos, qualquer coisa que eu inventava, na suave hora pequena da alcova de aluguel. A novela da Princesa sem Olhos, desprezada pelo noivo, e que entrou para o cangaço e matou a família toda do ex-futuro esposo, era a minha predileta. A respiração entoava uma sirene de sopros rápidos. Longuíssimos, imitavam os ventos da praia rasgando as folhas dos coqueiros. Indecisa, entre os pensamentos que queria evitar e as sensações que pressentia, a sirene chegavam sempre novamente. Sentia a virilha branca, elétrica, cavalgando o potro de carvão aceso no escuro. Conhecia o cheiro forte de mostarda de alguém, quando me queria bem. De verdade, esse era o meu segredo para decifrar meus amantes. Fungava fundo, a fuligem fosca dos suas peles. E só subiam na minha cama os que tinham a coragem e a fúria para amar o que não tem olhos. Avesso, o mundo. O carinho quente das minhas pernas. A minha enxúndia de galinha branca, vulgar, que vai morrer e ser assada no domingo pra família toda. Logo cedo despejava um copo d’água na violetinha chorona rosa forte. A alma toda cabia naquele cálice que eu vertia para ser bebido pela terra de só uma vez. O cristal precioso seria quebrado logo em seguida. Completamente exposta, num ritual, a superfície da pele se tornava embaçada. Com o tempo, perdia a cor, e precisava de alguém para aplicar mais maquiagem. Escolho a forma primitiva que acredito ter sem precisar de máscara. E passeio sozinha pela areia para ter a certeza de que sou eu mesma. Sem motivo nenhum, volto. E ando com um véu escuro, de elevador, até à cozinha, até o crepúsculo. Dentro da penumbra da janela, um corte de luz fúcsia vem do poste da rua. Descubro pelo quente do assoalho uma víscera. Já seria pra lá das seis, a coruja logo deixaria a sua árvore. As gaivotas voltavam da travessia, e preparam uma nova madrugada no caminho para os seus ninhos nas matas do litoral. As paredes ficavam pálidas, pintadas ao meio pela claridade quebrada na janela. O armário era metade luz, metade bicho, eu sabia. Àquela hora, a substância nevoenta sempre confunde seres e coisas. A noite se espalha pelas placas gordurosas dos ladrilhos, que as minhas mãos descobrem ser da cor do cheiro dos limões. Eram as nuances ácidas que me ensinavam primeiro. Exponho sentidos, e ideias elevadas, para a constituição sensível dos objetos imóveis. Eu os sei pelo vento, e seus ideais vulgares. Meus dentes novos avançavam para frente. A boca grande demais para as dimensões do meu rosto me transfigura num peixe. Uma buzina, ou uma turbina. Eu emito mugidos engolidos em busca de um silêncio que já não conheço. E que detesto.

     Talvez com a luz forte do poste da rua meus olhos se recuperem do aspecto de ameixas murchas. E nas órbitas vazias ganhem vida, ainda que mesmo cegos. Acrescentava um outro copo d’água à violeta cansada. Muda, branca, quase invisível, era mergulhada agora na tinta pesada da noite. Morta afogada. Com as veias do pescoço gordas de substâncias amargas, na face surgem manchas de quem não tem sangue. Inesperadamente, eu retiro de supetão a máscara escura para o dia. E volto a ter a face, a face igual, a mesma, de quando eu era criança. Nunca envelheci tanto, nem mudei, desde que nasci! Dentro dos círculos do medo de me ver no passado, me salvo crispando as mãos. Eu tremo e sou cuidadosa com os outros, como devota da Virgem. Quando me sinto revelada, decifrada, estou pronta ali mesmo para jogar no corpo uma outra pele da cor da mentira. Um vestido antigo, amarelado, de prata pura, de chuva fina, que eu conheço bem e remendo lento com fios de ovos às escondidas nos guetos frios. Recolho os retalhos que sobram com as costas das mãos verdadeiras: botões, estampado, reforço das casas, a ousadia das bainhas de cuspe. Tudo rimando com o novo lado esquerdo da face, onde eu escondo meus mistérios falsos. A língua estuda a fala nervosa, metálica. E vai finalmente assumir o personagem que esperam dela.

     A Rainha do Começo da Noite. Brutalmente carnal e cínica, remoendo as unhas e as juntas dos dedos. Enquanto espera um ou outro peixe para morder a isca do aquário. Como eu gostava de aprumar os peitos! Largada, lânguida lavanda, encostada na cerâmica fria da parede de fora da loja de ferragens que tinham acabado de fechar. E branca, eu era sempre a primeira a chegar. Demorava a andar tateando as pedras do calçamento e chegava logo. Garantia minha vaga na garagem do melhor ponto da calçada. Feito o negócio, eu era sincera com todos ― desde que fossem sinceros comigo também! Jamais permitia que algum pudor de mercado se intrometesse entre minha carne quente e a planície eterna, infinita, elástica, do nosso palácio horizontal e ondulante. Eu amava aquelas camas baratas, as pulgas, os chatos, como a dama chique ama seus brilhantes. Gargantilhas – suas cristaleiras de relíquias, de antiquário caro e afrancesado. Depois, não se escutava mais nada, por mais que nos falássemos. Dois mudos silêncios, de liquidação, e baratos. As mãos salgadas e secas, suavam devagar, pesadas. Pespontavam a maligna terra, a malícia legítima da lingerie, com unhas cor de vinho. Um estalado na garganta, e eu me lembrava da menina pequena, de pernas tortas, sendo violentada pelo dedo cheio de cascas secas da pele do cura da aldeia. Ainda no banho, sim, quando me lavo, sinto seus dedos de pedra rugosa e fria. Ele me olhava e podia me ver. Isso era injusto. E eu não sentia inveja dele, só medo. Um dia seria casada e tudo aquilo estava esquecido. Mas sentia que enfiava com as mãos, para dentro de mim, ovos por estourar. Na vida de todo dia, eu ia crescendo, com pensamentos mais lentos do que caramujos. Ávida, a cada vez, me esforçava para pensar de novo, todo dia, cada vez mais rápido. Palpitações inconsequentes, inexplicáveis ontens, um dia ouve um choque. Um choque mais forte de relâmpagos mais claros, difíceis. Então a vida passou mais rápido, com seus estúpidos passatempos de momentos explosivos. Ontem, mais que na semana passada, eu voltei com o lábio esquerdo roxo. Em cima da boca, eu disfarçava com a mão, conversando aqui e ali, como se cobrisse o sol com a peneira. O rosto voltado para o lado da chuva, contra a parede. A expressão de cólera, doce e resignada, talvez nem mesmo isso. Nem minha compaixão vazia pela humanidade torna o crime mais angelical. Falava sozinha no caminho de novo para a casa do velho médico.

     Três de novembro. Na ânsia de encontrar coisas belas, e de que você despareça. Me sinto uma vítima, uma moça nova, com os seios já amputados pela doença. Já havia bebido alguma tequila gelada pela manhã, o que sobrou da taça derrubada no veludo do umbigo de ontem. Depois, numas dessas noites, numa dessas passadas em branco na maré vermelha das luzes dos inferninhos, eu usei o gorro de lã negra que a prima me mandou pelo correio. Parecia um calango, eu achei, com o entusiasmo que podia achar. Da janela, eu adivinhei a lua baça, que sempre baça, brotava por detrás de algumas crianças nas vidraças ― talvez que fossem negras, as crianças, eu sabia ― voltando da praia, de volta para os tugúrios. Atrás delas, dois homens que se deixavam passar por honestos, vestidos de vigias noturnos, escutavam valsas. Um deles era coxo. Mais atrás vinha um grupo de sujo, andando com as pernas em ritmo lento, os pés pisando macio nos mesmos momentos, todos afinados. Uns fantasiados de diabos, outros de soldados, outros de doces anjos de procissão, miseráveis. A lua ficava verde com isso, e vinha brilhar na calçada. Na hora do cordão atravessar a rua, dois pirilampos pousaram nos joelhos da melindrosa que ia na frente com o estandarte na mão, e se acenderam. Se mantiveram aceso sem interrupção daí para frente, até o fim da rua. Um cântaro cheio de sangue misturado com vinagre, balança sobre os meus ombros. Então se deitaram todos, aninhados ao meio-fio da esquina da farmácia. Entre eles, três meninos brancos e cheios de farinha nos rostos, que vieram de outra direção. Nunca fizeram parte, mas se meteram como participantes do sujo. Um batom escandalosamente vermelho, se podia adivinhar no lábio direito da vendedora de maquiagens. Assistia friamente o cortejo, detrás do balcão da farmácia. Um palitinho com um coração mergulhado num copo de rum – que ela bebia escondido do patrão porque era carnaval – balançava como um relógio de pêndulo, para as quinze para as dez, dez e quinze. Por cima do coração, maliciosamente, uma mão segurando um pequeno guarda-chuva abóbora, acenava para todos nós. A vendedora se preparava para fechar a loja de plantão, já embriagada, e cair na folia. Equilibrando-se nos saltos da bota amarela, cambeta e suada, já na calçada, eu estudava a divisão das pedras. Andava um pouco à frente, nádegas desiguais revelavam a idade chegando. Um pouco atrás, pouco caídas – tão caídas! – as ancas flácidas desequilibravam o montinho do molambo dos saltos. As outras colinas do corpo escondiam sete estrelas, brilhos fulos, negrores africanos, rouge e talco perfumado. Eu adivinhava a felicidade para todos, daqui a pouco. E conseguiria um antibiótico sem receita, se precisássemos. Os dois pontos de vista dos homens que atravessavam a rua, vindos do outro lado, se cruzaram comigo entre as duas calçadas. Se olharam rápido, com medo um do outro, no meio daquela noite, indo um para cada lado da vida. Eu escutava os passos no asfalto, são dois atrasados, caminham rápido, um contra o outro, assustados. O tráfego, ao perder da hora, aumenta a cada momento, com as ruas fechadas para os desfiles

     Começa a noite de verdade! Entre a minha cabeça e as deles, esvoaçou uma indecisão. O que ia, e o que voltava, qual chegaria primeiro? A espera dolorosa de não se saber que rumo tomar para evitar o que não se adivinhava. Eu permaneço parada: perguntei por mim em silêncio. Aumentei o peso do corpo sobre a parede de cerâmica verde, para parecer mais forte. Eles seguiram e depois voltaram, cada na sua direção oposta. Novamente se encontraram ― escutei que finalmente parafusavam frases e escondiam flores. Os olhares, as cabeça quase debaixo dos pescoços ― olhares encolhidos que reservamos para os mortos. Os pássaros em seus hesitantes voos, de corpos por um fio, giravam em hélices perfurando a ondulação da noite recém nascida. No outro meio-fio, na trincheira em frente, Samira, com suas coxas grossas, ainda descia para a morte mais uma vez, de braços dados com um dos dois machos que a colheu na esquina, para uma valsa. Com minha canção suave, de encantar elefantes, eu elevaria para mais de mil o número de barcos imóveis que se acomodam agora no ancoradouro visguento do meu corpo. Um pequeno grito de surpresa, parado no véu da minha boca ― e chegava o perfume calmo da mostarda. Vinha de novo, sim, numa viragem que brota da planta fresca. Das pedras ali no chão, exalava o perfume do seu anel novo, que caminhava em minha direção. Os pequenos ossos do meus pés ficaram firmes, quando ele se aproximou ― minhas nadadeiras tomavam a cor da calçada. Vivo ainda, já passado dos oitenta, um pouco cansado, o coração do velho médico, solitário e famoso, pulava como um louco de carnaval, na esquina da Prado Júnior. Eu iria reencontrar seu chicote ― Cadela da rua, ele ria! E que não fôssemos tristes nem tímidos! ― Ele gritava, sorrindo baixinho, carinhoso como uma criança querida, as mãos trêmulas agarradas no meu ouvido. Falava cuspindo. E era só o que ele esperava por mim. Mas ele não era de nada, o babaca!

     Tremendo, eu quis sim. E agora me sinto uma estátua de manteiga, lentamente pensando. Não ouvi a formiga, mas me esforço. Imagino uma máscara que uso quando fico de pé diante do espelho. Imagino. O céu está andando para trás, suas garras no mundo fazem funcionar o lança-chamas na casa de banho. Nojo, surpresa, camisola laminada, nunca fui capaz de dormir vestida. Agora ouço duas formigas no cotovelo. Depois, no sonho, eu queria uma tainha para o café da manhã. Imediatamente, a água suja de sangue que rola pela tua geladeira, rola também entre as minhas pernas de corpo derretido. Cortina de fogo morto a tarde seca, a boca torta. A borboleta dos abismos começa a se dissolver por dentro. Recomeço a voar: a noite extinta, os insetos do verão logo reviverão a princesa, entramos. Começo a rir e a beber ― rir é o melhor segredo do negócio. Falar sobre o pântano das novelas, o velório dos mortos a tiros sobre cavalos. A atração pela agonia de uma rã esperneando na boca do bufão, ele adorava isso. Mais falava, mais se aproximava. O dinheiro era certo. Aquele assunto à meia-noite, me perguntava, se sou eu o seu amor. O amava de verdade, te amei hoje, sincero, disse! Tanto que quanto mais o toureiro ao touro. Enquanto você pudesse ser útil. O busto de pedra sob a malha cenoura se metendo entre os peitos. A minissaia queimando a calcinha, a camisa de seda azul. Eu usava, eu estava usando, a tarde para cobrir meu corpo. Bronzeado na praia no dia de minha coroação, pelas minhas amigas, de miss Copacabana. Já tinha um maiô chique, de listras pretas e brancas, diziam. Uma zebra, imagina! Nervosa, Elvira! Pra quê? Com as mãos amassadas uma na outra, eu dedilhava a coroa de papel laminado de cigarro. E o júri formado pelas piranhas todas, apenas por elas, zombava de mim. Eu era a plateia e o espetáculo. E o meu prêmio de viagem era mais uma noite das mil e uma noites. As mãos raras, acenado para a vencedora. Me mandavam erguer os seios como uma rainha. Uma delas, Martina, me xingava, rindo, de Filha da Puta de Rainha da Merda! Era o que nós somos, dizia, completamente embriagada, mas firme, e gengivando o papel da cocaína. O que tinha sobrado, escorria com a tequila entre as minhas pernas. Haviam cheirado ali. E frequentaram a noite toda, todas as outras intervenções provisórias. Julgados os juízos e privados do murmúrio, dos meus quarenta anos de beleza no quarto dos fundos vazio, eu era rã de serviço.

     Crise de rim, tanque por lavar roupa, poesia sem nenhuma apelação aquele dia. A latrina da empregada bucolicamente enfeitada por um assento rachado e fedido. Emblema da caatinga, a tábua de privada rachada de uma puta! Eu sou casado, ele deixou escapar. Minha mão no quadril, abanou, desrespeitosa de qualquer relação com sua família. Não precisa falar disso aqui! Eu sou uma dama, não tua amante. A madeixa de cabelo rosa brincando no rosto com a maquiagem padrão. Alta costura nos esmaltes dos dedos dos pés. A tinta rebrilhava na unha fungada. Fingida, a rica roupa da rainha de Ramos refulgia. As malvadas malvas enfeitavam disfarçadas de casca de cebola a minha meia longa, negra como alfaces velhos. Abandonamos ao solo o sereno em algum lugar. Os órfãos entregues ao vento. É sempre horrível a luta de ser sozinha. Nada do pânico inútil de gritos. Apenas a toada de todas essas coisas pequenas. Respiradas fundas que surgem como acidentes, e desaparecem. Sobretudo a lagarta lenta que sobe pelas minhas certezas. Peixes e relógios atravessando o aquário da minha cabeça. O pensamento, deixe-me ver, um não identificado objeto, indefinido! Um último dedo que sobra na medida entre a vida e a morte. O dia em que a Madrinha operou a vesícula, quando a pobre voltou para casa, na cara dela ― tinha a cor verde musgo do outro mundo. A cara dela! Aliás, esse corpete lindo que eu estou vestindo sempre me alivia de qualquer angústia. Não dou ele para Martina por causa disso. Velhos cruéis e anéis de pedras grandes nos dedos enfiados de todos os dias. Meus culotes bailam na execução de óperas cada vez mais amplas e rodadas. Uma banda de música quando desfilo. O tocador de tuba da fileira do fundo fecha a porta da carruagem de banhas. Olé! A alma do ventríloquo não encontra mais lugar para se aninhar no cortejo do que sigo, e calam-se, ele e seu boneco debochador. Meu peito range de banha. Digo: Ôxe! Não é de borracha, eu digo! Ele é casado, ele diz de novo. Eu não quero saber nada disso, seu babaca, porque me satisfaço com minhas ilusões do momento. Não preciso de outras. Ele me castiga, não por mim, ele diz. Mas por ele, porque assim falando, despreza sua mulher e as duas filhas que estão no internato de freiras em Petrópolis.

     O que entendo disso tudo é que ele é profundamente odiando pelas três. E acho graça da minha certeza óbvia. A saliva abundante que ele junta antes de cuspir no meu. Depois fica parecendo aquela parte da água da lavagem dos porcos, e enfia com força. Como ele gosta, e paga por isso. Ao me levantar, aquele gosto podre volta sempre presente na minha boca. Na espécie de sala de cirurgia que se abre para a porta da frente do cemitério, deixo correr o ar. A fonte de mármore branco da bica de lata suja do quintal, oferece a purificação salvadora. Toalete entre as moscas jorrando na carroceria furada. Os terríveis anos de moagem da vida, nas véspera de ir ao dentista com Madrinha, pela primeira vez no Piauí. Os dentes longos, todos estragados ― armas longas, cheiro de fossa nos lábios doces. Ainda não me acostumei com esse chuveirinho do demo, mas preciso aprender a guiar o bidê. Uma mão na torneira, a outra mão ajuda. Me protejo contra os jatos que vem do outro lado do mundo. Do outro lado do que não vejo, um lavado, um roçado, um banhado. Um caminhozinho entre as plantas rasteiras da areia até às dunas, onde os meus gritos se espraiavam. E o botão de rosa caia! Quando fiquei sozinha, o cuitelinho trouxe na boca um bucadito de sal, até à minha vagina machucada. Suas asas iam bater rápido de doçura na minha boca. Nos meus ossos doloridos, nos meus gritos que não iam adiantar para nada. Então fiquei calada mesma e aguentei tudo em silêncio. Ele jogou à força a água dele toda para dentro de mim. Muito mais forte aquele dia, do que eu pudesse esperar. Nada mais do que eu conhecia, e do que eu pudesse fazer por acaso, senão o impossível. Todos esperavam alguma reação de mim. Não vai matar ele, Elvira? Ninguém vai matar por você! Eu lutei apenas para não ser mais uma assassina.

     Outro amor perigoso foi o daquele pinta que apareceu na cidade há uns dez anos atrás. Trazia ideogramas, pensamentos perigosos de mudar a vida, a vida perigosa. Tudo para ele era poesia fácil. E quando a coisa estourou, foi amarrado nos trilhos pelo homens do Major Gonzáles. Mais um dos que foram pisoteados sob os saltos da linha do trem. Vou fazer o café da manhã com a ideia apagada, me lembrar disso. Depois de tanto tempo, que merda! Matar a realidade, seria melhor. Mas isso seria me matar. Mas pensar em me matar era outra coisa inútil, que traria de volta a vida toda, dia por dia. Já faço isso todo hora, porra! Por algumas semanas, até, confesso, eu pensei. E se não fosse isso, o que é que aconteceria comigo todos o dia. Desde já, aqueles entões? Esse nome era o que me deram? Elvira de quê? Da Flor das Flores! Eu não sei. Sei o nome todo da Madrinha ― Jacinta Tenória do Ambrósio. Me deixou de presente quando morreu um bueiro aberto enorme no fundo da casa, como a minha boca de menina sem dentes. Uma carta me ensinando a balançar entre a vida e a sorte. O bueiro me lembra para sempre aquela carta. Depois se transformou numa dessas salas de trabalho, onde me esforço e faço por onde. Ouço a voz de cantor de missa, um malandro me dizendo porcarias. Me equilibro numa banheira sem água e salto. Uma prostituta cega cambalhotando como uma bolha de papel branco na superfície do ar. Começou a chover, as nuvens se avermelham com gosto do molho rosé. Nos mamilos frios, alcaparras. Como no dia em que cortei a carne do braço por você, uma dia escuro de cinzas claros. A cloaca do banheiro do ônibus aumenta de cheiro com os quilômetros, e preciso voltar para lá. Volta o cheiro do chiqueiro do homem metendo a garrafa em mim. Tinha desejo de fazer sexo com corpos embalsamados. Disse que esse era o costume seu e de seus amigos. A passageira ao meu lado vai para a cidade grande, aumentar os seus afetos com silicone. Eu preferiria engolir naftalina, seria mais fatal. O final da rota da empresa Crato-Rio de Janeiro, me espera longe. Descansamos paradas para o almoço, o motorista veio arrastar a sua asa. Buscou intermédio, intrépido, nos meus silêncios de amor. Com o olhar disfarçado para meus olhos, revolve os cabelos covardes. Bole no espelho esticando o nariz enfeitado pelas sobrancelhas no meio das minhas pernas. Sem mais problemas ele se perde na minha carne. Isso eu adivinho. Eu nunca passarei fome, posso ser telepata de circo. Como tudo se tornou simples para mim.

     Esse é o segredo do paraíso em que vivo, apodrecer! Lourdes foi como que comprar um pão, porque eu precisava quebrar o meu longo jejum. Pressinto a tua antiga crueldade naquela minha fase de vestido de senhora séria. Como se eu tivesse encontrado o que procurava ― em você! Apenas durmo com um louco guardado em sua fúria, para sonhar com o avesso do travesseiro, e acordar apavorada. Na cidade não vou precisar de olhos novos. A vida é assim mesmo, a mesma. Apenas de novas mãos dadas com todos, como todos me avisaram. Frequentar manicure, como uso de puta rica e bem casada. A cachoeira que sinto dentro do meu corpo sobe e desce perfumadamente, como se eu pudesse me lavar e me sujar de mim, repetidamente, ao mesmo tempo, e todas as vezes que quiser. Em mim mesma, e para mim, eu deveria começar a ficar logo nua agora. A minha vida de noiva nova, com gestos frescos. Beijos selados, salgados chupões que sonoram em meu corpo. Peixes da praia nos almoços na orla. Ora, era um gesto simples. Oi! Ele tinha era uma cara boa, eu acho. Uma tentativa apenas desesperada de te encontrar com um aceno da mão aberta. Olá! Ele tinha apenas um rosto contraído na tentativa de pegar o sabão. Agh! Limpo, cheia de melindres, com a outra mão a espuma do olho esquerdo. Meto a outra mão erradamente na brasa do cigarro aceso no cinzeiro. Queimo minha pele, eu demoro a cicatrizar. Ninguém ri, ele pega o cigarro no chão e me devolve pelo lado certo. Tento perceber alguma coisa além da fumaça. As formigas sobem pelos dedos, sinto no olho distraído que elas sorriem para os pés bem feitos. Meus dentes novos e a barba de baixo caprichada. Agora cor de rosinha para rimar com ela por dentro. Na cidade, não voltam os medos de que alguém enxergue o meu passado. Se é que algum dia eu tive um passado! O tribunal de recurso decidiu sodomia. O juiz segurava a vara com castão de prata, se intoxicava de leis e me devolvia à vida ao me expulsar da cidade. Usando o último perfume que precisei, para me disfarçar com cheiro de novas solidões. Caminho sob as folhas decíduas das amendoeiras solteiras e vermelhas na praia de Copacabana. No outono, os ventos do mar são ainda mais cruéis. O virtuoso marido quer que ela esteja sempre pronta para ser amarrada com as mãos para trás. Quer que ela esteja de frente com a cabeça virada para trás, toda torta. Diariamente, noturnamente. Antes de me comer no domingo, depois da missa, quando vai ao clube de pesca, ele sempre me canta um velho bolero. Esconde o nome do que sente.
     Na entrada principal do casarão, encimado o pórtico de gameleira roxa, ergue-se a rosácea em vidrarias de tons azuis. São imagens fatiadas de dobras regulares, de setores delicados, de limitados frisos de fino chumbo. A obra-prima do Coronel Agenor representa o Caos de Todos Nós, em todas as suas fases e desdobramentos. Desde as primeiras emanações sombrias até a culminância de criar o Homem. Aquelas cenas trágicas dão ao conjunto o aspecto de nenúfares. Reflexos esvoaçam das membranas pousando sobre poças grávidas de clarões. Revelam a estranheza mágica da leve película de uma inseto translúcido. Por cima da rosácea, distribui-se a reverberação do telhado bem imaginado. Círculos concêntricos abrem-se num imenso para-sol de cascas de madeiras. Sobressai dali, toda torta, a monumental torre de ébano, recoberta de latas que o velho fizera questão de prender com os rótulos pintados para fora. A quinquilharia dá ao conjunto o aspecto de um outdoor decadente, corroído pela ferrugem. Relembra, a quem teve a oportunidade de conhecê-lo, o bolo de bodas com a falecida esposa. Que de falecida nada tinha, mas era chamada assim porque enfiara um pé na bunda do velho e se casado com um malandro da capital. Como o bolo, a torre sugeria um mergulho vertiginoso contra a chuva de migalhas trituradas sobre o escuro telhado. Igualzinho como o destino caíra um dia sobre a cabeça dos noivos. Também constava ali uma bufante gola de palhaço, espalhada por todo o solo em torno da nave, um sangrento canteiro de coroas-de-cristo. Esse abstracionismo tinha a missão de celebrar as raízes do cristianismo: e a tortura e o sangue que dela mana. Significava a relação de amor e ódio que o salineiro mantinha com o Advento do Messias: amor ao jovem contestador judeu e ódio à desgraça que Constantino provocara no credo d'Ele. O velho matuto jurava o monarca de Constantinopla era a Besta e a Gênesis do pensamento de exceção que grassou na história da Igreja. Mas a verdadeira função do tal canteiro era proteger o sossego do velho dos ataques dos gatos. Agenor vivia, entenda-se, cercado de ratos que lhe faziam companhia. E os bichanos não perdiam uma oportunidade para colher alguns roedores para o jantar. Assim, a inteligência do Coronel, emulando a fé, previra uma defesa contra os intrusos felinos. De fato, esse uso do engenho humano nas menores coisas performara essa miscelânea sem misericórdia. Essa arquitetônica balbúrdia, que sintetizava a concepção do casarão: contraditória como a personalidade do dono. Num apanhado geral de tudo o que havia lido, ele expressava a si mesmo no projeto. A partir daí, jorrava daquela cabeça a definitiva herdade. Dividia-se em três alas. Ou, como o coronel gostava de dizer, três damas que discutiam no meio de uma briga. Repetia: três almas gêmeas, estranhas umas às outras. Como um todo, a coisa imitava de longe a planta das catedrais góticas do séc. XII. O arquiteto descalço mantivinha uma atração maníaca pelos monumentos flamejantes. A obsessão da obra, como era evidente para qualquer um, era o tal estilo. Gritavam os arco ogivais, as abóbodas em cruz e os deslocamentos do peso através dos arcos botantes, confeccionados em rangentes bambus. Autêntico, o gênio cortou ao meio, num amplo cômodo, o retângulo que vai da porteira da entrada ao córrego nos fundos do terreiro. Foi deslocando-o lentamente até chegá-lo para o fundo, abrigando o largo transepto que delimita as alas gêmeas: as moças faladeiras. Anexas ao espaço principal do salão central que se divide em sala de estar e biblioteca. A ala da direita é palco de madornas nas suas alcovas entre as mal-assombradas paredes da casa. Na ala esquerda, pode-se esperar a cozinha, a despensa e a meia-porta dos leitões na sua últmia jornada. Atirada para os fundos, num espaço exíguo, a área externa guarda as dependências dos servos, agora praticamente vazias. Mas outrora coalhada por corpos tisnados de sol que mourejaram nas salinas dos senhores. O recinto, historicamente abrigara a nefanda senzala dos pretos --- como o Coronel se referia a eles. Esse era o palácio que a filha Laurita, órfã da mãe que debandara por paixão, um dia herdaria do velho Coronel Agenor.

     Laurita, aquela jovem e bela mulher que, nos seus vinte poucos anos ali se refugiara da desgraça da segunda viuvez. Como consequência da falta de opção na vida, além de se expôr à dominação cotidiana, tinha que engolir o humor carrancudo e irascível do pai. Atravessada pela dor, carregava emagrecida nas tetas secas pelo baque, a pequena Elvira de colo. Incapaz emocionalmente de viver sozinha, tentara então, para si e para a filha, junto às suas origens no interior, uma vida melhor. Para espantar o tédio, que se avolumara rápido naquele ermo, submeteu o monumento do velho já quase inválido a uma papagaiada decorativa como havia visto nas revistas quando mais nova. Mas, ao contrário das catedrais, depois das lutas tantas do velho, transformou o interior de um cômodo banal num suntuoso prostíbulo oriental. Noites e noites seguidas, a fêmea lasciva vivia enfiada naquele harém solitário e sem sultão. Já dava notícia do retorno da doença que a levara outrora --- quando acompanhara a mãe em suas aventura amorosas na cidade grande --- às sessões de choque num reputado manicômio. Acabava de comer a janta e se acomodava ali. Lia e relia novelas de cavalaria até o amanhecer, aquecida pelo vento remoendo os cataventos. Sonhava elementos, exalava febres sobre o feno, aquecia seus olhos abertos no alento da lamparinas. Inspirava-se, e se queimava, imaginando perigos como um animal da noite. Enfim lhe chegaria o cavalariço magro, trazendo nas braçadas milhares de ramalhetes de flores do campo. Ele a cobria nua com os seios pontiagudos para o luar. No cio e serena, encrespava as ancas insistentes. Quando acordava daquele sono fosco, o sol já vinha batendo forte nas suas ventas cansadas, de uma Laurita mal dormida. Nos montes de capim fofo que ela distribuía pelo quarto para dar mais realismo às suas lucubrações eróticas, vislumbrava o amassado da figura do amante ainda quente. Descobria decepcionada que despertava bem depois que o rapaz já se retirara de seus sonhos. E não tinha tempo para beijá-lo, ante que fosse apertar o leite das vacas na madrugada branca. Pintadas vacas de vermelho, amarelo e negro, escorriam de si prazeres fluidos. Cálidos líquidos, que a mulher desejava que também viessem dela. Todo sonho se torna vida, e o rapaz do curral lançaria fluxos também contra a sua realidade. Sempre deixando aliviada alma e pernas, ambas untadas de um limo branco.

     Com o passar do anos, Elvira, aquela neta do coronel que chegara de colo um dia, agora jazia enlouquecida como a mãe. Atada na cama maciça, numa alcova fria de decoração sofisticada, vivia alí como resultado das paranoias do avô. De toda aquela pompa salineira e cobiça pelo dinheiro, a herança que tocou à menina fora aquele grande quarto nauseabundo na asa esquerda do transepto. A peça ostentava um janelão protegido por grades grossas, revestidas de espuma densa o suficiente para amortecer suas cabeçadas na tentativa de fugir. Elvira vivia separada do mundo por ferro e amortecedores. Vegetativa criatura espumante aos cuidados do Bruneleschi Agenor, arquiteto de merda, que vai e vem como um peru bêbado, preso na sua cadeira de rodas dentro da própria obra prima. Daquele posto de observação móvel, o velho toma conta da menina maluca, com uma espingarda de dois canos no colo. O Coronel sempre desperta assustado, saciado de sono e ouro, desconfortável e torto na velha carrocinha de ferro que o transporta. Eleva a mão e constata que a arma quente ainda vaga no seu colo.

      A Comissão foi formada às pressas pelo garboso Tenente de Polícia, dito “Olhos Verdes”, o carrancudo Delegado da Sessão de Costumes, dito “O Amarelo”, seu Escrivão balofo e barbudo, dito “O Patarro” e a nanica Assistente Social da Secretaria de Saúde do Condado, dita “A Carola”. Davam apoio à operação da Máfia Urbana, quatro homens sonolentos do Batalhão de Choque, com os seus respectivos Cães Farejadores, equipados com mochilas de mil e uma utilidades destrutivas. Para a eventualidade do uso de máscaras, força braçal bruta excessiva e luvas antigatos, estava lá fora todo o resto. Não usavam coletes balísticos por falta de verba naquele momento difícil das finanças de um Estado Corrupto, atacado por todo lado pela resistência dos vários grupos coligados na guerrilha FDA, Frente dos Salineiros Armados, que já se estendia por longos vinte anos. Mas o Cangaceiro-Tirano resistia. Ainda!

     Rapidamente, num ataque surpresa, toda a equipe de facínoras pagos pelo Estado Corrupto para a manutenção de sua própria (do Estado Corrupto) sobrevivência, já estava dentro do casarão. O que chamou de cara a atenção da Assistente Social foram as grades das janelas pós-góticas, que ela contemplava encantada, desviando os olhos ora para as falsas paisagens pintadas nas paredes, ora para o horizonte lá fora, que era reproduzido nos mínimos detalhes pelas ilusões de ótica aqui dentro. Celeste imaginava um dia perder sua famosa virgindade, num lugar como aquele. Certo que com o homem que amava e com a aprovação da mãe. Celeste tinha trinta anos e nunca raspara um pelo do corpo, também seguindo a educação agressiva e ameaçadora da Mãe: “Mulher que se raspa é puta! Quer acabar lá?” Ao adentrar o quarto e examinar o aposento onde a presumida doente se encontrava acamada, Celeste perguntava-se espantada sobre os estapafúrdios mistérios daquelas medidas lúgubres, e sobre o que ainda de pior estaria por vir. Moveu-se profundamente também pelos retornos, em seu coração, de uma questão que aprendera com os padres antigos, nos longos retiros em jejum e silêncio da Semana Santa, na casa paroquial. Celeste se deliciava com o bordão da patrística idealista: “Deus invisível cria o mundo visível.” (Cyrilo von Antuérpia, Gesamelt Werke, Vol. XXXIV. Leipzig, 1632)

     De frente para a laguna, olhando as montanhas distantes, o cômodo era defendido do mundo lá fora por uma alta paliçada de aguçados bambus gigantes. Ainda que a menina viesse a vencer o robusto gradeamento, coisa inconcebível, a segunda defesa daria tempo para que se fizesse soar o alarme rápido e se impedisse a fuga por ali. Lá dentro, felizes, as gaivotas, albatrozes e peixes voadores pintados nas paredes em esmerado trompe l'oeil, tentavam saciar em Elvira a apaixonada obsessão pelo mar. Desde o começo da doença, a vítima era acometida por uma fantástica febre quando delirava com viagens frenéticas em suntuosos navios de cruzeiro e barcos à vela de madeira. Emoldurando o mar aberto, na parede que circunda a janela, um grosso tronco de amoreira, vestido de uma folhagem espalmada e irregular, salpicada por delicados matizes de verde iridescente, ostentava por detrás da cama da paciente os deliciosos frutos maduros cor do vinho. Não fosse a tristeza daquilo tudo, a cena poderia associar Elvira a uma cortesã do deus Baco, mas infelizmente era pura coincidência. A menina era apenas uma possessa entregue nas mãos de um carrasco cínico e impiedoso. As folhagens serviam também para enfeixar as margens do decadente mangue de águas paradas escorrendo fetidamente por volta de todo aposento. Uma exigência do avô, para que Elvira nas suas viagens oceânicas jamais se esquecesse dos pobres pântanos do torrão natal onde vivia. Aquilo, vasando nos baixos do quarto, era uma língua negra que tirava todo o encanto das belas cenas das regiões superiores das paredes. Celeste reconsiderou seu encanto.

     Motivada por tão elaborado cenário ingênuo, o Coronel acreditava que Elvira viesse a acreditar na própria liberdade, como tantos outros. E por fim, que também visse naquela situação, os melhores dos mundos proporcionados pelo avô. De fato, o que o velho esperava, era que a menina ficasse perpetuamente naquela cama, em silêncio e satisfeita da vida, tranquila para o bem de todos! O que todo tirano espera de seus presumidos servos. E para reforçar o espectro ilusionista que criara diante da menina, contava-lhe histórias, onde ela era uma personagem plácida, passeando a nado nas nuvens do lado de fora da masmorra. Em algumas tardes amenas, e para o cúmulo do ilusionismo, eram-lhe fornecidas amoras verdadeiras, compradas na feira pela mucama Zefa. As frutas úmidas retiradas de um saco plástico, ficavam escondidas entre as cortinas. Com essa manobra inteligente, Agenor esperava que a menina acreditasse colher os vermelhinhos frutos que lhe eram oferecidos com narrativas sobre o frescor da relva macia e verde da planície por onde caminhava Chapeuzinho Vermelho. A falsidade da cena, contrastava com a delicada liberdade dos marrecos irerês, vistos pela janela na superfície da laguna viva, picotados entre os quadriculados sinistros das grades, da janela e das salinas.

     ― Eu sou militar, suspendam o fogo e abaixem as armas! Gritou o Coronel para a tropa. ― Fui eu que solicitei o apoio da Força Pública! ― Girando diante da Comissão em sua cadeira de rodas, Agenor arrotava a patente de coronel de terras e homens. Era o poderoso senhor da menor salina de Charque do Norte. Exigiu que a tropa se perfilasse e batesse continência, no que prontamente não foi atendido. Desistiu do protocolo e em seguida para manter as aparências adotou um comportamento que primava pela polidez com todos. ― Os senhores podem entrar --- disse malemolengo num rapapé submisso, mas sem tirar o chapéu e mantendo o ar senhorial. Desnecessário acrescentar que já estava todos lá dentro. ― Mas muito cuidado com a louca, ela está furiosa hoje! ― uivou imitando um cão danado.

     Contida em seu belo leito de flores e brutais correias, imobilizada pelas grandes fivelas da arreta dos animais de tiro, o corpo furioso de Elvira, espumava às escuras se contorcendo. ―- Qual a sensação que você tem quando se aproxima de um ser humano nesse estado? A minha é de total horror --- sussurrou a Assistente Social Celeste para o Delegado Amarelo. Distribuídos em torno do catre, maravilhados pelo fausto da decoração do sarcófago que acabavam de profanar, com os olhares arregalados e estupefatos, os membros da Comissão de Ordem e Saúde ― nada intimidada pela patente de Coroné, filho de Coroné, neto de Coroné ― começou o interrogatório:

     ― A doente tem carteira de saúde, Coronel? inquiriu dialeticamente o Tenente de Polícia Olhos Verdes, ajeitando maquinal num gesto inclinado o ensebado quepe cor de terra. ― Qual a queixa que o senhor apresenta para convocar a Junta Máxima da Ordem e Saúde Pública do Ministério? acrescentou fingindo inteligência e erudição o Escrivão Patarro. Distraído pela opulência dos santos barrocos roubados das igrejas da região e que enfeitavam o oratório do quarto, esqueceu-se de ouvir a resposta. ― Ela apresenta sintomas de banditismo e mania de esmolar na porta da igreja, disse o avô acusador, esticando com desdém o pronunciado o queixo em direção à cama onde Elvira jazia. O velho, ainda mais queixudo pela máscara que construíra com o abundante ódio das entranhas, mostrava o desprezo que sentia por aquele lixo humano na sua frente. ― Já bateu carteira, se embriagou em dia santo ou xingou o padre? --- acrescentou o Delegado Amarelo, dirigindo para o distraído Escrivão Patarro um autoritário gesto para que ele voltasse a prestar atenção e anotasse o depoimento do velho. Agenor olhou para o Delegado com desprezo e cospiu no chão, um tão espesso catarro de sarro de cigarro que arrancava das profundezas de seu nojo por tudo aquilo. A excreção lhe vinha de uma raiva antiga, permanente e autoritária. Diante de tão evidente ameaça, o Delegado desistiu da pergunta e, voltando-se para o Escrivão, gaguejou: ― "Tome o depoimento da menina, Capistrano." Preferia nessas condições, o nome de batismo ao vulgo. ― Eu falo por ela, atalhou o Coronel. ― Menina moça na minha casa não tem voz! ― O gaiato do Tenente Firmino Olhos Verdes tossiu alto e forçadamente, lançando uma forte sombra de dúvida sobre a castidade de Elvira. ― Não pode afrouxar a mordaça, assim ouviríamos a própria suspeita falar, e com suas próprias palavras? ― acrescentou tecnicamente o escrivão Capistrano Patarro. Arriscava-se a contrariar o decadente herdeiro da decadente salina. ― Só vai registrar palavrões! --- cuspiu novamente o velho. ― Se esse é o caso, eu mesmo posso lhe xingar de todos os nomes que eu sei. Isso, caso o senhor precise que conste no processo também os palavrões ― rematou Agenor com desdém. ― Não posso encaminhar nada ao senhor Juiz, sem que haja por escrito ao menos um pronunciamento da própria falante. Tomando-se como uma realidade jurídica o fato da falante não ser muda ― insistia o funcionário. ― Ô xente, caráio, eu já não disse que falo por ela! --- engrossou o Coronel, com voz alterada e metálica. Já se mostrava forçadamente sufocado, já era evidente que se via sem saída. Encurralado pela turba perguntatória, o velho avô arriscava tudo no último lance:.uma última jogada para fazer valer seu pouco ou nenhum poder de pequeno latifundiário de merda.

     A Assistente Social Celeste, vestida num modelinho barato de chita vermelha, obra-prima da costureira do quarteirão, arrastando chinelos baixos de fedorento couro de porco cru, baixou os olhos miúdos de calango diante de tão afrontosa ofensa. A Virgem ostensivamente se ofendia ao som do mais ingênuo palavrão. Mas, no fundo da cena, o fato de um homem falar daquele jeito diante dela, deixava-a suspeitosamente ambígua, dada à sua condição morfológica. Precisava revelar constrangimento para salvar as aparências. Ao mesmo tempo, tinha o ar perspicaz das mulheres que esperam tudo, para ver para onde vai o vento. Analisava toda a situação em silêncio. Olhos Miúdos Como Os De Um Calango, como quem nunca tinha segurado ou colocado na boca um caralho, tentava tirar do fenômeno falado, o máximo proveito pessoal. Era assim que se subia na vida.

     Mas, demasiada humana, Celeste, diferentemente dos policiais, mantinha a atenção presa na menina cativa. Tentava todo o tempo estabelecer com ela uma relação o mais afetuosa possível. Apesar do estado lastimável de Elvira e dos jogos de poder que se desenrolavam naquele absurdo, a Assistente Social Felpuda se expunha e se arriscava. Poderia ser encarada como impertinente, ao insistir com o Delegado: “Nos nossos abrigos sacerdotais, temos uma instalação confortável para ela. Lá, poderia ser tratada, contida e perdoada. E até mesmo ser punida, se for esse o caso.” O Tenente pensou mas não falou. A ideia do perdão e punição nascera em Celeste junto com o medo da morte. Esse era, resumindo, o pensamento único que a profissional experimentava diariamente, desde que crescera e vivera naqueles sertões cheios de balas, que cortavam as carnes das pessoas. E de mortes que levavam os homens e as mulheres e as crianças cotidianamente embora para sempre. "Ótimo, ela é toda sua, leve ela para a sua esbórnia, atalhou o Escrivão Azedo. Mas antes eu preciso fazer um boletim de ocorrência." ― E procurou no bolso a única caneta que encontrara antes de sair às pressas da delegacia. ― Confere, Comando? ― Sim, claro, disse o Delegado Enfadado, tirando do caminho dos olhos o suor que já lhe escorria pela sua testa. ― Sem ocorrência, não haverá boletim, e sem boletim não haverá ocorrência. Esta é a máxima máxima do direito penal, complementou cansativamente com ares de gato mestre, o Comando Amarelo.

     ― Qual é a queixa, Coronel? --- arriscou o Delegado, afetando uma autoridade e uma perspicácia que não detinha. Patarro estufou o peito e procurou seu melhor personagem, enquanto buscava no seu antagonista qualquer indício de resposta. Usara para a pergunta aquele seu tom de voz que guardava para momentos de clímax profissional e ocasiões amorosas críticas. Aprendera aquilo nos bancos escolares das aulas de oratória quando lutava com a própria burrice para se formar em Direito na única faculdade paga da capital. O caipira metido à besta usava um chapéu simplório, que ajeitava involuntariamente num gesto vago de submissão e cumplicidade diante dos potentados, de quem esperava cuidados e apoio às suas tramoias aqui na terra. Enfim, como o velho não desse de si, o Delegado se arrependeu da empáfia, inclinou e baixou a cabeça numa demonstração animal de que reconhecia a superioridade dos poderes do Coronel Agenor. O homem não era obrigado a responder merda de pergunta nenhuma. E quem duvidasse disso podia pagar um preço alto pela audácia. Temia ter sido insidioso demais para os padrões políticos da época.

     ― Ela tentou me matar --- disse o velho cinicamente, diante do silêncio submisso do Delegado Medroso. Aquilo lhe viera como se espantasse uma mosca pousada na cesta dos pães velhos. Ajeitou-se na cadeira de rodas para parecer mais alto e arrotar poder, e gritou para o fundo da cena: "Zé Bedelho, traga a dois canos! Com cuidado, porque eu sempre ando com ela carregada!" Voltando-se para o Delegado, acrescentou, como se desse de presente um favor ao homem da lei: "Vou lhe apresentar a arma do crime, Doutor. Direitinho como o senhor precisa para o seu trabalho." Para impressionar a plateia, encheu os peitos e gritou novamente lá pra dentro, como se já tivesse passado muito tempo e o empregado não o tivesse ouvido: "Traga logo a merda da arma, ôxe! E bem aberta para não assustar os doutores!"

     Aquilo tinha ultrapassado os limites da paciência daqueles homens brutos, acostumados a fingir que lidavam com o lado difícil da vida. O Delegado não suportou a humilhação e ultrapassou o grau de subserviência que havia feito questão de manter até ali. ― Nada me assusta, Coronel --- disse entredentes. --- É bom mesmo que a arma esteja carregada, pois assim ela pode ser usada a qualquer momento. ― Nunca se sabe quando vai se precisar usar uma arma, não é verdade, Coronel? ― pegou carona o Tenente na fala do Delegado. E arriscou uma pergunta direta, tentando sair de seu papel de papagaio de pirata: "Não se poderia aproveitar a menina como prisioneira operária? Acrescentaríamos mão de obra barata às fundações do novo quartel que estamos construindo para o grandioso futuro da corporação." ― Ela morde --- disse o Coronel rangendo os dentes, quase devorando o Tenente. ― Passe a mão ali na altura da boquinha da criança, pru mode o senhor mesmo ver se eu estou mentindo, seu Tenente. ― Essa última apelação à reles patente do militar fez com que o mesmo evitasse os olhos do Coronel, que o rebaixavam mais ainda com seus trejeitos humilhantes. Apesar de não demonstrar constrangimento, por dentro o Tenente se remoía. ― Poderia atacar os outros operários e nos causaria problemas sindicais --- disse o Delegado Cagão, tentando minimizar o constrangimento causado pela desastrosa intervenção do subalterno. E acrescentou: "Essa merda desse psiquiatra que não chega!" ― O Gouveia é médico legista, doutor, sussurrou o Escrivão Bicão, tentando manter o chefe dentro do regulamento. --- Que me importa que diabo ele seja, desde que venha assinar o laudo! ― Sem laudo, não há boletim --- repetiu o que já havia sido dito o Tenente, tentando novamente se meter na conversa. ― Mas ela ainda não é um cadáver, para se precisar de um médico legista --- disse com cautela a Assistente Social Apertadinha, segurando as saias que um vento maroto tentava levantar para alegria da plateia engalanada. ― Devemos prever o futuro, caso algo aconteça no decorrer das investigações --- disse com sabedoria o Escrivão, enquanto tentava desviar os olhos das grossas pernas reveladas na beldade baixinha. E acrescentou tecnicamente: --- "Precisamos de uma mapa detalhado do caso para sabermos a hora e o local exatos de interferirmos, no caso de se precisar usa a força bruta e os recursos legais do Estado. Mórbidos, recalcitrantes, exóticos, lunáticos, há uma enfermaria para cada caso. E sem o laudo não se poderá sequer arranjar uma cama condizente com o seu estado, para ela dormir em segurança. Assim dizem os luminares, os próceres e os estatutos. ― Isso é caso de polícia --- disse o Tenente, já perdendo a calma. Por mim, já tinha transferido ela para a cadeia municipal e pronto. Dava-lhe um bom pau. De arara, entenda-se. Depois a gente via como é que ficava ― cantava de galo novamente o pouco graduado oficial, ao mesmo tempo que evitava encarar os superiores.

     O Velho Agenor, nesse meio tempo que transcorria entre as discussões de procedimentos burocráticos, aproveitou a confusão para descobrir umas cadeiras polpudas no alto das pernas da gordinha bem intencionada, e não tirava os olhos dali. O fato erótico ficava patente para todos. Tentando desviar a atenção do Velho das curvas bem feitas da funcionária pública excitante, o que caracterizaria o artigo 26 do código de posturas funcionais, olhares prevaricados, o Tenente atacou de novo: --- "Ela chegou a atirar em vosmicê, Coronel?” ― O militar apoiou como um caubói barato a mão redonda na culatra da pistola quadrada. Acariciava como um ator de chanchada a peça metálica que surgia do coldre desgastado. Como a resposta à sua pergunta técnica não veio, acrescentou com impertinência, levando adiante a sua tese de acusação: --- "Há marcas de projéteis nas paredes? Podemos constatar isso? Caso se confirme o uso de arma de fogo, já posso encaminhar o caso para a promotoria.” ― O Delegado, vendo-se colocado em segundo plano na abstração jurídica altamente sofisticada, elaborada pelo Tenente, não quis ficar para trás: --- “Há ainda que se fazer análises precisas da real situação do fato, como anatomia e geometria” --- disse matematizando a questão. “Preciso incluir isso no boletim, senão nada feito, o Juiz nem olha pros papéis” --- rosnou o Delegado, perdendo a paciência. E acrescentou já com voz alterada: --- "Estupro, assassinato, desinteligência, lei do silêncio ou uso de drogas? ― Eram as suas últimas tentativas para solucionar o caso. ― Doença venérea, caboclo! Ela é um poço de gonorreia desde que voltou daquele passeio no barco! ― Explodiu o Coronel perdendo a paciência e se utilizando finalmente daquela sua voz metálica de adestrador de mulas que todos conheciam. Fez-se um duro silêncio, entrecortado apenas por um ansioso ruído de botas que se moviam umas contra as outras. Doença venérea era o mais grave caso de polícia no Condado. Naquele fim de mundo a promiscuidade grassava, e um pequena faísca poderia acender o pus nas pererecas e paus de todo o município. A Câmara Municipal, advogando em causa própria, liderara uma campanha para erradicar a peste da região. Esse fora seu maior projeto político nos últimos mandatos. Fora a verba liberada em regime de urgência para a higienização e nova decoração das trinta casas de tolerância do bairro operário. Ali se concentravam os riscos para a maior parte da população. E onde também grassavam os subversivos que defendiam melhores condições de trabalho e salários justos para a multidão de quenguinhas do povoado. Vai que tudo isso não fora tramado por eles?!

     No meio daquele silêncio pesado, o Clínico Geral do Hospital Geral Responsável pela Supervisão Geral do Sistema Geral e Detenção Provisória Geral (CGHGRSGSGDPG) finalmente entrava pela porta. O salão principal do casarão foi invadido de repente por um tão estapafúrdio homem: um jovem senhor bem afeiçoado. Teria entre seus trinta, trinta e cinco anos. Usava cabelos curtos e lustrosos à brilhantina fresca francesa, aparados com extremo rigor. Exalava uma decência desmedida e uma assepsia corporal digna de ser encontrada apenas em um monstro. Óculos grandes em forma de rodas de bicicleta antiga, envergava um terno de gabardine branca impecável, embebida em gomalina cristal. Cinto também branco, adornado em toda sua circunferência com motivos florais e estrelares, e rematado por uma fivela de dourada insígnia gritante, onde aparecia em verde o caduceu de Mercúrio. Nos pés grande e esparramados de pato, contrastando com o terno alvíssimo, sapatos negros de verniz castiço, arrebicados por sinal de debique com o povo miúdo e descalço. Povo que se mantinha vivo, por enquanto, sob seus cuidados e decisões. As grandes medalhas de prata representando o poder da medicina que encimavam os calçados estavam salpicadas de minúsculas pedrinhas de um estonteante jade azulado. Aquele ícone do poder, do conhecimento científico e dos bons costumes, irrompia aposento adentro, com sua figura gritante de primeiro tenor flamejante de filme de horror. Um personagem que se destacasse, por sua voz sinistra, daquelas figuras simplórias do coro: Oh! Flaneur demoníaco! A cara zarolha e feia como a de uma górgona, zunia maldições no seu silêncio impassível. Ele vinha se deslocando mecanicamente sobre as tábuas do chão, em direção ao quarto de Elvira. Ouvia-se o entrecortado baticum de seus saltos no soalho, sozinho, se exibindo na sua parte da gritante ária, como se esperasse aplausos da multidão. Mas no seu caso, naquele exato momento, ele era apenas o protótipo do fracassado em tudo que tentou na vida. Apenas tinha o que tinha, e ocupava o cargo que ocupava, por influências políticas de parentes. O típico caipira mal vestido que leva a vida que os outros esperam que ele leve. Vinha como sempre, exagerado e aprumado para a missa de domingo. Ou seja, um endinheirado presunçoso famoso estudantezinho da capital.

     Oriundo de tradicional família do latifúndio salineiro, exatamente por causa disso, o médicuzinho tornara-se naquilo que os poderosos esperavam dele. Era um preposto, admirado e temido nas suas relações com o governo central do Charque do Sul. Pronto para defender a facadas a permanência no poder do Condado Meridional que submetia o Centro e o Norte com seu regime de força. Era uma espécie de olheiro e braço direito do Príncipe Cangaceiro. O tirano, líder da “Confederação dos Três Estado”, teoricamente independentes, era de fato o Senhor de Todas as Salinas e de Todos os Coqueiros do Litoral. “Sal e Coco!”, o lema atravessava em arco o quadrado azul do céu da bandeira da vergonha. O autocrata impunha a ordem e o terror com seu exército de perversos homens brancos cavalgando jegues albinos não castrados. Sobre as montarias providas de estribos como os dos hunos, fumavam paiêros fedorentos e assobiavam ao mesmo tempo o mesmo estribilho de fidelidade ao Cangaceiro-Mor. Enquanto matavam indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, e a quem ousasse se meter na sua frente. O próprio Príncipe Cangaceiro fizera questão de arcar com as despesas dos estudos do rapaz submisso na capital. Agora esperava dele toda a disponibilidade possível. O caudilho era nada mais nada menos do que tio-avô do rapazinho de nariz empinado, ou melhor, do Doutor Ramiro Saraiva Freitas dos Guedes, Clínico Geral do Hospital Geral Responsável pela Supervisão Geral do Sistema Geral de Saúde e Detenção Provisória das Três Condados. Chefe da Carrocinha de Cachorro e Cirurgião Plástico de Hemorroidas, como o povo galhardamente se referia a ele.

     Atual catedrático do Colégio de Cirurgiões, começou a carreira curando caganeira braba, e jamais tocou num bisturi, nem para descasar uma laranja. Era considerado uma autoridade entre seus pares. O açougueiro não tomava nenhuma decisão sobre o corte dos bifes do tirano, sem chegar a consultá-lo. Nem esquecia de se aconselhar com ele nos mínimos detalhes, quando atuava em seu lugar, nas intrincadas intervenções a que se dedicava com afinco quando da necessidade legal de uma amputação --- ou extirpação, como se diz em jargão forense policial --- das partes do cérebro responsáveis por comportamentos antissociais. Como um dos Saraiva Freitas dos Guedes, pertencia ao ramo dos salineiros que tinha entrado em peso para o banditismo, o bandoleirismo e cangaceirismo. O próprio Deocleciano Saraiva Freitas dos Guedes, o diabo em pessoa, recebera do Antigo Poder Monárquico de Além-Mar, uma sesmariazinha de merda, como ele mesmo fazia questão de chamar. Na delicadeza republicana de rifles e jagunços, transformara seu quintal no vasto império do Charque do Sul. Diagramado pelos caixilhos das salinas, o império da tirania estendia-se de onde e para onde se pudesse jogar os olhos. Naquelas lonjuras entrecortadas de brejos e lagunas, nas branquidões empapadas de lençóis de água e de sal sujo, reinara o Velho Guedes. O senhor das pontilhadas aves pernaltas e vermelhas que disputavam espaço com sapos-boi sonolentos, fumantes de cachimbos por artes do Chefe dos Sacis.

     Os Saraiva dos Guedes eram inimigos há várias gerações dos também bandidos e poderosos Ferreira dos Furtados, de Charque do Norte, aos quais pertencia por parentesco direto o aleijado Coronel Agenor Ferreira dos Furtados, agora decadente. Bem inferior --- em volume de moeda sonante, terras e temperamento --- aos donos de Charque do Norte, o pai do Coronel Agenor, Coronelão Agenor, o Velho, era um boêmio de cair pinguço em cima do próprio revolver sempre na cinta. Se casara com uma de suas mucamas, Dagmar, negra atraentíssima, mas como se pode supor, sem ter ido à escola --- e pobrezinha de pai e mãe, de fazer gosto. Discriminado por ter sujado sangue, pelos brancos católicos da família, o Velho Agenor dos Furtados, Pai, fora passado para trás nos jogos sempre imundos das heranças. Assim, a ele apenas coubera, para não ficar na merda, o pequeno feudo enfiado entre brejos mortiços, onde o Antenor, o Novo, nasceu e vivia. Tudo acontecera assim principalmente em função do horror que o latifúndio branco sente diante da possibilidade de ter que repartir seus torrões produtivos com uma negra, a mãe do Coronel Agenor, o Nosso --- única coisa boa que trouxe do destino. Enfim, apaziguados os barulhos do seu fado, o Coronel Agenorzinho, era agora aquele salineiro em fim de carreira, quase pobre, e morador num castelo de horrores de um parque de diversões de cidade do interior. E os problemas mais imediatos que tinha para resolver eram, primeiro, a neta louca amarrada numa cama, depois, a figura do potentado médico que entrava como uma alegoria de carnaval pela sua casa. Uma alegoria de algo real: o Poder. E vinha para decidir o destino dos dois envolvidos naquele drama: Agenor e Elvira. Diga-se de passagem, o jovem cirurgião sem bisturi e o velho salineiro fudido na vida, eram inimigos de longa data. Note-se, se avinagravam à menor presença um do outro. Mesmo que através de seus próprios nomes próprios e sobrenomes.

     O médico fitava a menina temeroso e surpreso. Ordenou com displicência ao Escrivão que lhe oferecesse um cigarro. Aceso, o pito de fábrica exalava no ambiente uma fumaça difusa. Tal fumaça, o Médico notara, igualava o quarto ao ambiente sfumato que caracterizava a Amsterdã do séc. XVII. Recurso plástico que Rembrandt, em oposição ao chiaroscuro da Escola Italiana, (magistralmente explorado por Giotto, [Hauser, 1972.]) soube tão bem reproduzir na sua obra. Especialmente a neblina que emoldura a grande muralha da esquerda e o foco de luz sobre o cachorro perdigueiro na sua “Ronda Noturna”. O esteta cirurgião examinava mentalmente a cena. ― Como é o seu nome, minha filha? ― o doutor Ramiro perguntou, olhando fixo para a menina. Elvira respondeu, baforando com prazer: ― Elvira Juliana Natália Solange, ela disse num tom seco e cavo. O guturalismo parecia saído da garganta de um ser mitológico, tão diferente dos diálogos lânguidos e românticos do cinema que ela tentava imitar, jogando com o cigarro entre os dedos. O médico retornou com uma outra pergunta, dessa vez ontológico antropológica, uma pergunta mesmo pelo Ser: ― Você não tem nome, minha filha, só sobrenome? ― retrucava perspicaz o médico preocupado com a possibilidade da questão legal de ter que encarcerar alguém que só tinha nomes próprios. Isso anularia os quesitos maternidade e paternidade e estaria em conflito com a Lei Orgânica do Município: nome e sobrenome completos. O Coronel salvou a situação: ― Ela não foi batizada não. A falecida mãe não quis. E quando as duas vieram morar comigo, essa daí já tava quase desse jeito. ― E acrescentou irônico, em meio a uma risada de desprezo: ― Novinha já comia os besouros que espocavam nas janelas. Agora piorou de vez. Crescida assim e doida varrida, ela mastiga é pedra. ― A Assistente Social Quietinha, que assistia a cena com a respiração suspensa, ruminou umas frases em silêncio. Rezava pela alma de Elvira.

     O Velho Coronel tinha hábitos bordados, estranhos para um homem da sua idade, é verdade. Mas até aonde aquilo ia, ninguém podia prever, o médico tinha razão. Essas coisas a gente sabe mas não diz. ― E como é que eu chamo a menina, Coronel Agenor? ― o Delegado inquiriu, já um pouco amargo e perdendo o medo da figura de poder na sua frente. Todos já se acostumavam com a figura do velho. ― Assobie que é melhor por vias das dúvidas. Vosmicê não se confunde e ela atende na hora, disse o avô num tom cínico e agressivo. O Chefe da Junta preferiu não receber como uma ofensa a resposta atravessada à pergunta de seu subordinado, apenas um delicado coice de conterrâneos adversários políticos, como de fato eram. ― Você quer um refrigerante, minha filha? ― Inquiriu o médico, procurando uma familiaridade que sabia, irritava o inimigo nas disputas eleitorais. Elvira petelecou a guimba pela janela aberta pela mucama, aproveitando a deixa de ar puro que entrava pelas grades, contrariando as ordens do Coronel. Estalando a boca para preservar o sabor da nicotina, Elvira disse: “Não, paixão, prefiro uma dose de gim.” E emendou: “Zefa, por favor, ajuste as ligas das minhas meias para que eu possa me portar dignamente na presença dos cavalheiros. Não tiveram ainda oportunidade de apreciar as minhas pernas.” E acrescentou vaidosa, simulando surpresa: “Estou um pouco gorda, é verdade. Preciso me exercitar, mas, mesmo assim, vou dançar hoje à noite.” E sorriu um sorriso sofrido e maroto, num esgar triste onde o canto dos lábios valorizava a boca carnuda. ― Vai beber de novo? Ó, Elvira, o que que tu já arrumou com a bebedeira de sábado à noite!” Virando-se para o Doutor Ramiro, que assistia impassível deixava as cenas correrem no palco, Zefa confessou: “Ela só tá presa assim, Doutor, porque ficou bêba! Quando ela bebe, quem manda aqui é ela, pois sim! Isso é que eu não gosto. O Coroné teve que enfiá um remédio no caldo dela, senão, Deus nos acuda! E então, bem feito procê! ele amarrou ela todinha com arreio da carroça véia, porque nóis não tinha outro remédio. Já disse e torno a repetir, bem feito procê, Elvirinha dos Porcos!”

     Diante da figura maior do Chefe da Junta, a verdade começava a surgir. O médico ia dizer alguma coisa, mas Zefa foi mais rápida e atacou de novo: "O que é pra ser dito, doutor, seja dito, ela é terrível, chefe! Otro dia, vai que eu falo mesmo, bateu na cara do Coronel e derrubou ele da cadeira de rodas dele. Eu tava no curral e ele ficou aí no chão estrebuchando, todo nervoso. Estatelado como um cachorro se mijando com o rabo entre as pernas. E eu é que tive que vim ajeitar o homem na cadeira de novo." Tudo isso, Zefa interpretava teatralmente, acompanhada por uma mímica precisa e fina, que revelava o nojo que ela sentia daquele homem aleijado e medroso se cagando no chão. O odor da urina que ele exalava não foi incluído no depoimento, mas acentuado apenas, pelas expressões do rosto e do corpo da ótima atriz que Zefa se revelava, quando bem queria. "Mas que que eu vou fazer, eu sou só a empregada”" O Coronel, impassível como estava, impassível ficou: aquilo não lhe dizia respeito. Zefa não esperava coisa diferente daquele homem que conhecia nos mínimos detalhes. Virando-se para Elvira, a mucama aliviava o clima com a menina: "Vou pegar teu gim agorinha minha filha. Quer que eu bote um gelinho?" Acovardada pela expressão de ódio da menina por causa da delação premiada, Zefa saiu às pressas. Corria, levantando as fraldas das saias compridas, como se sugasse a poeira do soalho para dentro do seu útero servil e vilipendiado. O Tenente magriço, animado pela rodada de gim, atalhou a tempo de alcançá-la, antes de deixar o quarto: “Zefinha, o meu pode ser sem gelo, é ruim para a garganta. Mas não precisa correr, querida." Eram primos, e amásios. Zefinha já tinha sido dele, e ele dela, na adolescência, primos entre si! Deixaram saudades, um no outro, a dose sairia caprichada. Saudade de bucetinha é para sempre!

     Todos sabiam agora, se não sabiam mesmo! que era a mucama Zefa quem mandava ali, naquela merda daquela espelunca, povoada por um aleijado e uma louca. O Coroné estava desmoralizado e a menina só tinha nome. Sem se deixar impressionar pelas revelações da matroninha, o velho se revirava como um contorcionista de circo na sua cadeira de rodas. Então abriu os botões da camisa e estendeu para o Delegado um labirinto de hematomas e fundos arranhões, que exibia atravessando seu peito. Iam e vinham em várias gerações e gradações do roxo, do ingênuo lilás ao azulado de um perfume profundo. Do maior para o menor, começavam num dos mamilos e subiam até a raiz do pescoço, como uma intrincada tatuagem de feiticeiro polinésio. ― Sabe o que é isso, Saraiva? ― O Coronel atirou com frieza, chamado dramaticamente o médico pelo nome de batismo. Agora já havia se dissolvido a oscilante separação entre réu e vítima. A clareza dos pressupostos maniqueístas de culpado e inocente se extinguira diante daquela estranha maquiagem que o Coronel exibia. Elvira tinha perdido. O médico agora precisava mover sua peça, e atalhou com brilhantismo casuístico: “Se não conseguirmos nada contra ela, podemos usar a mesma estratégia de Rembrandt, contra Geertje Dircx, disse o médico, revelando finalmente o lugar obscuro onde ocultava o tempo todo seu pensamento. Demonstrava uma cultura que ninguém suspeitava, e que calava mesmo aquela impressionada plateia. Mas o fato é que nada ficava claro, aqui como lá: e não ficava mesmo! Mesmo com o pesado arroto de cultura do doutorzinho, a única coisa que ele podia alegar era uma altercaçãozinha. Porrada ali era coisa comum. ― Comportamentos instáveis, é o que se sabe até agora, disse com segurança o Escrivão Amarelo. ― Sim, comportamentos instáveis são a raiz de todo o mal, mas não servem para um inquérito rigoroso. Vemos isso todos os dias na melhores famílias.” O médico olhava com um ar sorumbático e desdenhoso para o Escrivão. Sua jogada espetaculosa fora em vão. Elvira exibia um ar de grande júbilo, gozo e deboche.

     Aquele imbróglio indigesto que lhe atravessava a garganta e atrasava os preparativos para o baile daquela noite com o Príncipe, onde ele sempre corria perigo de morte, estava quase no fim, e agora Elvira respirava aliviada, supondo que tudo se resolveria a seu favor, e o mais rápido possível. Naquele meio tempo a empregada voltava com a bandeja polida, e bem equipada: a bebida fora servida para a menina e o Tenente. O Velho, vendo os ódios de família acendrados e vendo a miragem de seus objetivos dissolvida pelo Escrivão, baixou a guarda e foi direto ao ponto: “Me deixe essa bandeja aqui, Josefina, e traga uísque e gelo para todo mundo. Uísque bom, não é daquele que você bebe! Na minha casa, ninguém entra e sai sem beber uns tragos de coisa da melhor qualidade! E uns muitos tragos. Quem sair daqui andando reto, é corno!” ― acrescentou, tentando ser sociável. Aquela grosseria não atingia somente a Purificada Assistente Social, que engolira a língua, diante de tamanha degradação humana. Logo todos estariam embriagados, e ninguém podia imaginar o que sairia dali.

     Mas, girando a cadeira de rodas para a parede do fundo, o Coronel deu de cara com Zé Bedelho, que escondido por uma cortina tornara-se quase invisível num canto do quarto. O homenzito mostrava o cérebro aberto de vergonha. O médico, que deduzira o desconforto do Coronel pela rachadura no crânio do empregado, ficou encantado com a semelhança entre a cabeça rompida do serviçal e o personagem de outra tela de Rembrandt, seu pintor predileto e que sempre lhe vinha à mente nesses momentos difíceis. E concluiu que, mesmo sendo impossível provar, apenas diante do que via ali, agora ficava claro para ele que Joris "Black Jack" Fonteijn, o alfaiate holandês, fora realmente assassinado pelo pintor, numa tentativa de limpeza estética da cena. E que daria o mesmo fim ao estropiado empregado do velho Agenor, assim que saísse dali. Isso estava resolvido. O silencioso olhar malígno do médico para o porqueiro, insuflou no velho novas forças. Aproximando a cadeira de rodas na direção do empregado, disparou com ódio: "E você, rapaz, mula velha, seu corno! Nunca tinha percebido mesmo que o teu menino é a minha cara?!" O velho aprumou-se na cadeira como para se defender de um golpe que ele sabia, nunca viria. Constatou, com a mansidão dos poderosos, que o porqueiro não esboçaria reação alguma, como sempre, e cospiu entre os dentes as palavras mais amargas que conseguiu: "Vai ficar aí parado me olhando com essa cara de bosta, seu boi velho? Vá pegar a travessa de torresmo e traga aqui para as nossas visitas." Zé Bedelho foi-se, imbricado em silêncios gordurosos. Carregava o mundo nas costas, um suor de chumbo derretendo no corpo esfacelado, caminhava para o fundo da sala com o pequeno cérebro exposto. Parecia que saindo dali, saía também da vida, porque naquela ironia trágica, típica de existência, a partir daquele momento a odiar o filho que tanto amara e a quem dedicara todos os seus sonhos e o melhor suor de seus esforços.

     Num esforço para tentar resolver o problema do seu modo, o Tenente, comungado com o gim, também tentava novamente fazer parte dos personagens principais daquele teatro. Resmungou para o Escrivão: "Pode botar aí, Amarelo, por minha conta! Tá tudo claro, espinhela caída, tô vendo daqui." Olhava para os seios vilipendiados da menina e abanava uma das mãos indicando o busto da meliante suposta. Com a outra, balançava as pedras de gelo no copinho de bebida que Zefa fizera questão de oferecer gelada. Contra a parede transparente e nublada do copo de massa de tomate falso cristal bico de jaca em plástico vagabundo da cristaleira da cozinha de Zefa, o militar podia enquadrar Elvira deitada diante dos seus olhos. A menina permanecera calada durante todo aquele tempo, encantada com tão importante comitiva em visita ao seu quarto de convalescente de um resfriado forte. E bocejou longamente num tom de pilhéria filosófica, desapegada do mundo. Aquele suspiro metafísico revelava a aguda apreciação da sua alma pelas coisas sublimes. E disse, caprichando na pronúncia dos termos estrangeiros: "Não podemos todos ouvir Beethoven Coronel? Seria uma boa oportunidade para apreciarmos juntos as maravilhas do compositor alemão. E sei uma que combina com gim tônica, aquela que adoro. Por favor, coloque para tocar a Sonata para piano, Waldstein, em C, opus 53, primeiro movimento, alegro con brio, na interpretação fulgurante de Wilhelm Kempft.” Num tom de voz de camurça, falava fluida como um apresentador de programa de rádio de música erudita. O avô, impelido por um mecanismo automático, gritou lá para dentro: "Zefa, traga o rádio dela." Zefa imediatamente trouxe o rádio de pilha com defeito e o posicionou no ouvido de Elvira. A menina aconchegou-o contra a face e pousou sobre ele a mão em concha acústica, como o seu compositor predileto, esforçando-se para ouvir o que pensava. Revirava os olhinhos com prazer tão profundo que exibia no rosto o êxtase do contato com aquele objeto puro que era a música. O obra magistral do compositor surdo e os sorrisos da menina louca davam gosto a quem contemplasse a cena. Com a outra mão, a menina regia a criação de própria sua alma.

     Voltou rápido, a Zefa, para a escura e empoeirada cozinha repleta de caçarolas de pesado ferro, de caldeirões de verdes bronzes, sinos escaldantes que adornavam em silêncio as paredes construídas em pura pedra. Seguindo a linha arquitetônica da mansão pós-gótica, a quinquilharia de serviço caracterizaria a vida cotidiana do pequeno latifúndio salineiro decadente. Lá dentro, os dois insetos, Zé e Zefa, marido e mulher se atabalhoavam na medonha sinistra correria. Deviam ambos imediatamente cumprir as ordens do Coronel. Com a cabeça ainda aberta pela dissecção que a declaração da mulher lhe fizera no crâneo, aprofundada pelas humilhações do velho sedutor, o miúdo porqueiro Zé Rebelo se esmerava indo e vindo de um lado para o outro na ânsia de dar conta dos mandados. Havia uma enormidade de tarefas implícitas naquela simples frase: "Traga a travessa do torresmo!" A delicadeza do imperativo escondia a brutalidade de uma ironia torpe e uma frieza pusilânime e perversa: implicava o acionamento quase automático de uma série de medidas estafantes e incessantes por parte de Zé e Zefa. Sendo que o bocado amargo, o quinhão mais humilhante, naquele caso, recaía sobre os ombros do homem.

     Equilibrando-se como um cão de circo para não deixar escorrer nos móveis e no chão o sangue coagulado escorrendo de seu cérebro exposto, Zé da Zefa abriu portas, desceu pratarias, trambolhou louças finas dos armários, atravessou várias vezes num vai nem vem sem fim o longo corredor escuro que levava da cozinha ao pátio dos chiqueiros ali atrás, na área de moradia dos serviçais. Finalmente, finda a faina dos preparativos, se atracou como um leão com uma leitoa de poucas arroubas, e meteu o ferro nela. Em momentos mágicos, o animal estava trinchado para ser sapecado arrumado temperado fritado rápido pelas mãos agilíssimas da Zefa. Voltando ao pátio que desce da cozinha, Zé foi capengando ao depósito de móveis em desuso e agarrou com as mãos pesadas dois cavaletes de madeira boa e sem caruncho que o patrão mesmo fizera questão de aparelhar para uma ocasião especial, e colocou a tralha sobre os ombros. Levou as traquitanas para a cozinha, junto com a intenção de ordenar para que Zefa passasse um pano nelas, mas não aquele pano imundo que ela vivia carregando de um lugar para o outro pendurado no pescoço pela casa toda! Aquele pano que lhe servia como uma batuta quando dava ordens a ele, Zé, e marcando os tempos e as suas vontades com a voz aguda, numa conversas cheias de “Vosmicê, seu Zé”, e “Me faça logo o favor!” “Já sei, excomungado”, Zefa rosnou”, e escafede daqui!

     ― Por que a menina está vestida de noiva, Coronel? Inquiriu solene o doutor Ramiro, que nas últimas cenas se resumira a ficar calado, apreciando para ver aonde toda aquela chatice ia levar. Demonstrava, com aquela pergunta, um agudo senso de observação, e ao mesmo tempo uma forte aversão profissional por aquele corpo paralisado, patético, apalermado e seminu, diante dele. Enquanto acreditava escutar seu Beethoven, Elvira jazia cheia de feridas, deitada na grande cama de ébano, exalando uma figura cheia de sombras que purgava estática e apática. Cercada de mobília cara e objetos inúteis de decoração anacrônica, como tudo naquela casa, confirmava-se a presença do estetismo. O velho Agenor era mestre numa escola que substituía os pavões imperiais pelas galinhas de terreiro, os motivos orientais pelas composições em retalhos das artesãs da região salineira. Aquele quarto onde Elvira padecia, revelava um mau gosto verdadeiro e generalizado, típico dos decadentes caipiras ricos quase pobres. Agora, tudo constrangia o verniz superficial do estômago delicado daquele culto doutor fino formado na cidade grande. O homem, ainda que nascido na roça, com as vivências mundanas, tornara-se versado em música clássica e ópera famosas, disciplina do hábito obrigatório que o pai lhe inoculara quando de sua formação na capital. Mas, esteticamente, em sua desenvolvida concepção crítica daquela cena, o que mais lhe incomodava eram as correias apodrecidas, usadas na velha carroça, por meio das quais o avô mantinha cativa sobre a cama a neta Elvira. "Isso só se faz em dia de festa com a própria mulher entre quatro paredes", pensou consigo. "E nunca como um espetáculo público para tão heterogênea plateia." E teve ímpeto de avançar no pescoço do velho inimigo político, como era seu costume sempre que alguma coisa ou alguém o contrariava.

     Porém, conteve-se. Porque sabia que toda aquela sua equipe distribuída em semicírculo ao redor do leito onde a menina restava prisioneira, esperava dele a mais esmerada e polida solução para o caso. Desfecho imediato e retumbante, como nas mortes provadas pelas disputas de terras, que os liberaria para voltarem para suas casas o mais rápido possível. ― Libertem a menina lunática! ― gritou o médico com firmeza autoritária, onde não transparecia a menor dúvida de que seria atendido prontamente. No entanto, permaneceu no ambiente um eco amargo de que faria algo contrariado. ― Ela não é lunática nada, seu doutor! Se faz! Ouviu-se a voz metálica de Zefa, aproveitando a oportunidade de um solo, na última fila junto aos figurantes: o Tenente, a Assistente e o Escrivão. E o quadro imediatamente trouxe à mente do médico aquela outra cena, a da “Lição de Anatomia do Dr Nicolas Tulp”, sempre do mesmo Rembrandt, que já visitara sua imaginação estética tantas vezes ali naquele mesmo local. Na famosa tela, o Cirurgião-Anatomista-Chefe da cidade, expõe para os colegas retratados na cena mediante polpudo jabá depositado no bolso do pintor, os músculos do braço de um marginal executado há aproximadamente vinte e quatro horas atrás. Acusado de assalto a mão armada, o criminoso respondia pelo papel principal do show anual da Guilda de Cirurgiões de Amsterdã. Supostamente, a Corporação de Ofício teria fabricado a acusação contra o criminoso, com a cumplicidade daqueles homens que pagaram alto para aparecer na cena. Rembrandt teria cobrado o dobro se o prazo de vinte e quatro horas para a execução de um criminoso condenado à morte não fosse cumprido. Diz-se que o artista perambulava indo e vindo pelas ruas da cidade cercada de diques, escoltado por arcabuzeiros, em busca de alguém que preenchesse o perfil esperado para o papel de ser morto. Num belo momento, às tantas da noite, um miserável das docas do porto estira para ele uma caçarola, implorando uma moeda. É imediatamente preso pela polícia da casa de Nassau, acusado de assalto à mão armada: teria ameaçado com um objeto mortal a vida do pintor da corte. A caçarola não aparece na cena da tela famosa, como não aparecerá na nossa algo parecido mais tarde. Mas, pelo estado de placidez do morto, percebe-se que ele foi reconfigurado em seus ossos cervicais. E entrava como antagonista principal no drama do Teatro dos Cirurgiões da Era de Ouro dos Países Baixos, que criavam criminosos e execuções, sempre que precisavam que Rembrandt lhes pintasse um quadro para imortalizar suas caras de mau gosto.

     Lembrou-se, também, o médico ― tudo isso se passava como pinceladas rápidas no seu juízo plano ― de que a participação de Rembrandt Harmenszon van Rijn, no crime que redundou na Lição de Anatomia do Dr Tulp (sem mencionar a morte do pobre homem), é até hoje discutida pelos historiadores da Pintura. Especialmente Wöllfin, em sua História da Arte, condena veementemente qualquer ligação do pintor com a Guilda. Já o também historiador Arnold Hauser (1936) [de tendência marxista], assinala que o fato do quadro estar assinado com as iniciais completas, RLV [Rembrandt Van Leiden, aqui se refere à cidade de Leiden, não ao rio Reno, Rembrandt van Rijn. Veja nota 336 infra.] evidenciiiia (Hauser sempre frisa os iii em suas palestras quando quer que seu ponto de vista tenha destaque) a notoriedade de Rembrandt, como um agravante de certeza. O que seria um indício de forte suspeita do envolvimento do pintor com a tramoia fúnebre da tela anticlássica. Mas, no entanto, por outro lado, suponhamos, a argumentação nos deixa tanto o pintor como a obra impunes para a posteridade. A propósito, Hauser, seguindo a abordagem de seu mestre materialista Gyorgy Lucász, argumenta que artistas geralmente são pobres. E que quando enriquecem em vida, certamente é porque se corromperam, aliando-se às classe dominantes, possuidoras dos meios de produção da cultura de massa (indústria cultural, para os articuladores da escola de Frankfurt). Ramiro deduziu tudo isso, rápido, e disso, a aliança de RVL com facções do sistema que lhe garantiram de forma fraudulenta o sucesso e o esbanjamento de capital acumulado. CQD! Aquele caipira podia ser um médico mal vestido, mas o desgraçado do dinheiro corrupto e sanguinolento gasto na sua formação na capital servira para alguma coisa. E agora estava claro, diante de tal ensaística relâmpago, que a grana alta havia sido bem empregada.

     Coberta de fuligem, metida numa farda radical e camuflada, apenas piscava com dificuldade, com o olho que lhe sobrava, purulento de remela sangrenta, a mendiga sentada na calçada diante do Grande Palácio do Príncipe. Esmolava ao lado do seu cachorro mais mendigo do que ela. O inferno dos seus próprios olhos fúnebres, lúbricos, e castanho-claros obstinados revelava que ela estava pronta para morrer na sua primeira ação. Piscou para afastar um pensamento de medo que lhe apresentava as inevitáveis consequências da sua escolha definitiva. Percebeu o tremor lhe atravessando rápido o corpo amargo, a crosta da dura da vida que se acumulava sobre seus ossos magros se derretia. Mas nada daquilo lhe interessava naquele momento, e girou os olhos para dentro das vidraças de cristal. Recebeu de volta a luz na escuridão: o Grande Salão do Baile do Palácio de Festas do Cangaceiro. Chispas vivas se jogavam sobre sua face pela vidraça âmbar refletidas pelos lustres e pelos cristais importados. Misturavam-se numa florescência de anis velho avermelhado contra o vitral baço das sombras rápidas. O reflexos das joias dos colos e das grandes orelhas de jegue pendentes das damas dos donos do gado de corte e do sal e da cana e do charque e do tabaco se estendiam sobre o imenso canteiro de urzes e tílias, debaixo da janela onde a mendiga se abrigava ― por um laivo de piedade impossível dos guardas da segurança do Príncipe que evitavam o seu cheiro. O forte uníssono da noite de pequenos guizos azulados faziam as flores das moreias densas vibrarem numa agitação de pescoços descontrolados: o vento. Ela distingue o som da morte viajando através deles. Percebe o movimento decorado dos corpos que bailam e antecipam a chegada do Filho do Cão. E aquele exato momento em que ele estaria disponível para o tiro certeiro. Taturana era o seu codinome principal: gostava de ser chamada assim, porque acreditava que certamente queimava a que se encostasse nela, como de fato queimava! Alguns assuns invisíveis trinam na noite escaldante das moitas ao redor da calçada: pássaros não cantam de noite! Taturana tinha-se posto de atalaia cedo, disfarçada de louca, mendiga e velha. Sobre os ombros brancos e esqueléticos apontando ossos de giz, uma pele de onça vibrando em tons amarelos e negros, complementavam a indumentária fantástica. A prata lunar rebatendo no grande broche de lata velha verde da tinta que o revestiu um dia contrastava com o volumoso colar de gigantescas contas de esmeraldas de plástico. Os dois esmirrados seios valorizados pela joia de brinquedo eram o contraponto perfeito para a consequência suntuosa do salão. O mundo dos ricos, dos poderosos, dos imundos donos da vida, se amplia na tristeza do seu olho fumegante, fortemente mórbido e injetado. Uma espécie de película, de membrana mole de olhos de ave, acumulada pela fome, esconde a córnea. A contraluz lá de dentro denuncia tudo dentro dela, e a tudo ofusca. E a tudo move, diante do rosto da mulher em ruínas. Elvira acompanhava o desenrolar daqueles acontecimentos com a máxima apreensão.

     Dispensado de apresentar a arma aberta que o Coronel lhe peticionara, visivelmente consternado com a interferência da mulher, ouviu-se o vozeirão requebrado de Zé Bedelho, lá dentro da cozinha: "Fecha essa matraca, mulher!" "Cala essa boca, seu corno, que até agora não teve coragem de dar um peido para defender a menina! Ela tá aí nessa mesma cama presa há uma semana!" O pequenino porqueiro, surgindo na retaguarda, engoliu em seco e empalideceu. Só fez olhar mais uma vez para o Coronel, antes de sumir de novo lá para dentro. O velho, sentado na sua cadeira, acendeu um dos seus fedorentos minroles, contemplando as fumaradas que tirava do cigarro saindo pela janela e atingindo a longínqua planície salineira. Aquilo diante dele, se estendia a perder de vista, e no entanto ele era dono apenas de uma pequena fatia daquela pintura verdejante, coalhada de quadrados repletos de montes de sal marfim. Com um ar de quem tinha acabado de comer um leitão inteiro, deu de mão, dando a entender que não se preocupava com nada. Nem com a menina nem com o porqueiro traído, não se preocupava com coisa alguma. Ele era o Coronel Agenor dos Freitas! Mas, se não revelava poder a ofensa ao servo, exigia desse luxo apenas a constatação de um fato consumado. Tirou dos lábios com as unhas crescidas e encardidas pela nicotina, um fiapo de fumo perdido pela culatra do cigarro mal feito, e remoeu o sarro para os dois lados da garganta, revolvendo o queixo, e olhando com desprezo para o médico. Disse, com ar displicente: "Sabe, menino Ramiro, Zefinha tem razão. Ela não é louca de fato mesmo. Se faz. E aí, é como se fosse! Pois não? Ó xente, pois não?!!! Vamos ver no fim de tudo se eu não tenho razão! Vamos ver no vamos ver, então." O velho Coronel provocava o médico, rodando com a cadeira na volta da cama, e quase passando as rodas sobre os sapatos arrebicados da Sumidade de Esculápio. Aproximou-se da cabeça miúda e mirrada da menina, arroxeada pelo uso da mordaça, e debruçando-se ousadamente em direção à cama, começou lentamente a desmanchar o nó de couro, grande, e já endurecido pelo tempo que ficara feito. Aliviava a garganta de Elvira, que alheia a tudo isso, fumava e ouvia enlevada seu Beethoven predileto.

     Mas, de fato, estava presa ali como se prende um cachorro furioso. ― Deus nos acuda, Coronel, agora vai ser um dilúvio! ― Zefa, que voltava da cozinha, gritou com as mãos magras postas como um louva-deus, e afastou-se da cama, correndo novamente lá para dentro. Elvira, surpresa por se ver livre das amarras, circunvagou em silêncio os olhos pelo quarto abafado. Tranquila, centrada, dona de si, disse para o médico: "Querido, não pode me conseguir um desses teus cigarros? ― Havia uma leve fragrância de nouvelle vague em preto e branco, de luta entre o capital e o trabalho, de radical semiologia existencialista interpretando trabalhadores saindo de fábricas enfumaçadas, da displicência calculada na maneira com que a menina dissera aquilo. Audaciosa e articulada, como uma camponesa enlouquecida de tesão pelo filho do patrão, inclinou a cabeça para o lado esquerdo em direção ao falo do macho poderoso. Seus lábios eram grossos e apresentavam uma variedades de nuances fotogênicas. Diante daquele homem rico e revestido pelas benesses da cultura e do poder, ela tinha apenas a pretensão de ter alguns desejos seus, atendidos por ele. E ninguém poderia censurá-la por isso.

      Na cozinha, ouvia-se a estrepitosa faina de Zé Bedelho e de Zefa. O homúnculo desajeitado voltou novamente ao depósito e colocou nas costas mais duas compridas tábuas de cedro rosa, aparelhadas pelo patrão para mais uma ocasião especial e voltou à cozinha com outra mesa improvisada para que Zefa também passasse um pano nela e repetiu a mesma frase ouvindo o mesmo xingamento proferido pela mulher. Mas Zé Rebelo dessa vez não se moveu: estava cansado de tudo aquilo. E sentou-se num pequeno banquinho onde gostava de sentar-se, posicionado na porta da cozinha, saboreando o vento direto que vinha encanado o pátio dos porcos e das galinhas. ali funcionava o raro e breve recreio dos empregados do eito. Seu prazer era cuspir farelos de fumo fresco engambelando as galinhas enganadas engasgadas fingindo que eram farpas de farelo de pão. Queria vê-las rodopiando as cabeças bêbadas com o alcatrão da mistura das cordas molhadas das folhas torcidas e tossindo como gente, como ele gostava! Zé Rebelo satisfeito, se via nas galinhas um irmão, um próximo. Gostava disso, ele era feliz por se divertir daquela maneira e se acreditar uma ave, como se fosse também aquela galinha enganada. Toda arte e fandango da sua vida se resumia naquilo de ver as galinhas tossindo pelos farelos de fumo que alguém letrado em safadezas como ele jogava para elas. Acendeu então o embrulho de fumo forte que ele chamava de cigarro e soltou uma baforada maciça enchendo a cozinha limpa da Zefa de um quilo de mancheias bem pesadas, redondas, de fumaça oleosa e negra. Aquela infração era uma espécie de compensação por todas as horas que passava acordado e trabalhava feito um dos bois de carga e às vezes mais que os próprios bois, Brasil e Brasileiro. Mesmo! Vivia, dormia, acordava, resfolegava, debaixo de todas aquelas ordens do velho latifundiário. Mas com ele era assim, e que se que podia fazer? As revoluções nas salinas ainda eram conversas de pássaros de noite, quando eles não cantam. Mas ele bem sabia que elas existiam. E ele as ouvia com atenção e em silêncio.

     Zé Rebelo, magrinho, baixinho, pobrinho há gerações, e sem família além da mulher e dos cinco filhos, tinha as mãos duras e crestadas por sulcos profundos nas articulações das juntas. Cortes que lhe rodeavam toda a circunferência dos dedos, como anéis sangrentos e amarelados. Daqui a pouco, o velho gritaria de novo, com certeza, com a voz de bode velho. E tudo deveria estar no ponto: o leitão pururucado, a maionese batida, as babatas macias e bem cozidas, e a farofa com os miúdos completamente olorosa e gostosa. Tudo ao jeito de dar água na boca do Coronel, como sempre. Antes de gritar seu urro animal, o velho usaria apenas aquele maldito sininho que identificava seus desejos nas horas em que bem entendia que deveria ser ouvido. A qualquer momento do dia e da noite ele dava as suas badaladas metálicas e histéricas, gritantes, que entravam pelas têmporas do homem marcado pela sua desgraça. Mas naquele momento a servidão humana ainda lhe permitia ao menos que desse outra baforada gostosa daquelas que arrebentam o pulmão de nicotina e raiva.

     Zé Rebelinho ajeitou os miolos dentro do crânio. Fazia tudo aquilo com zelo e o melhor que podia, ôxe! Agora não tinha outro jeito, e lambendo do sangue escorrido das orelhas, lembrou-se que o melhor que tinha a fazer era agradecer a Deus por não estar na rua da amargura. Tantos por aí boiando nas sarjetas, acompanhados por cachorros e uma garrafa da maldita. Diziam asneiras para si mesmos, e comiam o último fruto de uma espiga que alguém já havia chupado e jogado fora. Ele ainda podia fumar o seu tabaco colhido e conservado fresco. No auge de sua desgraça, desfiando fumaças de pensamento, deu de cara com o gordo gato branco – herança da falecida sinhá Laurita, Deus a tenha! ― que descansava sobre a pilha de lenha ao lado do fogão. O bichano piscou para Zé Rebelo e disse baixinho: "Lambe os beiços, seu cretino, e se dá por satisfeito com a vida que tu tens!" E miou longamente e zombeteiro.

     Zé desconsiderou a ofensa, mas não pode deixar de responder, que se ele não fisgasse umas gordas ratazanas, o gato também não comia! No fundo dos destinos, os dois eram exatamente iguais e um só: tinham que trabalhar para sobreviver. Até o Sol trabalha para fazer seus dias, pensou Zé. Apesar de que não fosse tão novo e forte, ainda podia fazer filhos nas pedras. E nas porcas, e nas cabras, e nas bananeiras! E até mesmo nas palmas das suas mãos conseguiria engendrar anões que lhe dariam minúsculos netos e grandes dançarinos acrobatas, como se diz essa palavra? Pequenos cantores de realejo que se apresentariam nas praças, junto com ele, tirando melodias de seu cavaco enfeitado com fitas vermelhas e alegres. E quando a cegueira lhe anunciasse a velhice, sua descendência de artistas populares o conduziria pelas mãos até a sepultura, antessala do escuro definitivo. Mas hoje, Zé da Batata, como era conhecido naquelas vizinhanças, ainda comia de se empanturrar. Comia sempre que podia, e comia! Se o patrão não estivesse de olho nele, como um porco ladrão de repolhos, comia que comia! Que era corno, era, mas bem alimentado! Mas só é corno que procura saber! Sentado naquele banquinho, de onde estava agora, podia ver o Sol, que junto com ele começava a se cansar daquele dia. O grito de voz forte e autoritária finalmente veio. E apagou da memória do porqueiro as espetaculosidades que ele trazia e levava na sua cabeça. Naquela sua vida, idas de vindas, a verdade era aquela sua cabeça aberta de vergonha. Era isso o que ouvia do Coronel, naquela sua voz de trovão inventariando vontades. Vontades que ele, Zé da Zefa, tinha que cumprir!

     Levantou-se de um pulo pronto, supondo. Uma ordem já chegava. Pendurou os dois cavaletes entre os ombros. Não podia apoiar as tábuas da mesa sobre o do tampo cabeça por conta das peças anatômicas: cérebro, cerebelo e bulbo ainda frescos funcionavam perfeitamente. Aqueles miúdos de açougue ainda lhe pertenciam por direito, e deveria preservá-los. Arrepanhou as duas lascas de madeira com a mão de pesado ferro, suspensas debaixo do braço. Cambaleava com o peso da cangalha rumando para dentro do quarto da periciada. Uma tragada forte no outro cigarro desconjuntado, novamente cuspiu pela porta aberta do terreiro o espesso sarro do catarro negro. Lá ia de quebra o resto do porrongo, e a ave desfolhada engoliu a binga. Ouvia-se um cacarejo de galinha vermelha, rajadas de pescoço pelado, regurgitações angulosas de restos de cigarro. Depois as gargalhadas do peão ainda com as traquitanas penduradas pelo pescoço. Zé espiou entre as tábuas adivinhando o caminho, dobrado e contorcido, a cabeça para o lado e para fora. Desequilibrado, evitou ser atingido pela quina da madeira de lei da mobília improvisada. Atarantou-se no meio da sala antes de ter tempo para pensar em outra coisa. Esperava não esperar nada, e procurou em silêncio baixar as encrencas no chão. Iria de novo ser chamado de palerma pelo Coronel. Sem o poder de mudar o tempo e as coisas, nem aos homens evidentemente, suas suspeitas logo se confirmaram. Ouviam-se gritos lá dentro do cômodo onde Elvira amargurava. A voz do Coronel perfurava os tímpanos que sobraram suas orelhas. Palerma cuidado diacho perrengue arrume logo essa coisa no chão seu cão!

     No quarto do surto da doente um lume. O silêncio envolvia a penumbra e circulava os homens. Todos suavam na testa na tarde das salinas. Um pouco sumido e embriagado pelo uísque barato, oferecido como caro, do velho Antenor ― que Zefa distribuía com mão larga ―, o Médico Chefe tentava ocultar seus verdadeiros sentimentos de nojo por tudo aquilo. Lançava olhares de cenho contraído para seus pares. E, meio bêbado, demonstrava um temor que ainda não tinha revelado. Ao contrário de alguns que se tornam leões, o doutorzinho da capital sentia medo quando bebia. Desmontava-se pela primeira vez a farsa daquela pose onipotente e inabalável. O médico agora arriscava um excesso de tato e afetação educada: "Ela se comporta bem quando lhe retiramos os arreios?", sussurrou para o Coronel, esforçando-se para ser ouvido. Desatrelada da charrete que lhe conduzia imóvel no leito, e que deveria arrastar pelo resto dos seus dias, como se comportava a doente? Daqui para frente, estaria sob os seus cuidados, matutou o temeroso médico. Não sabia se tinha feito a escolha certa com aquelas palavras, mas o dito já estava feito. "Sim, no geral ela é mansa.", disse com desprezo o Coronel. "E mansa até demais, às vezes.", acrescentou. "Gosta de conversar e de cantar. E se derruba uns tragos, é possível mesmo que, depois de tirarmos a mesa, que dance o flamengo para nós.” Os olhos de verdes carambolas do Tenente, se fixaram nas ancas sobressaltadas da menina convalescente, já as imaginando em ação sobre o palco.

     Zefa, alertada pelo necropsiado, entrou no quarto carregando pendurado no braço esquerdo o vestido negro prenhe de florações escarlates, e o pesado xale de viúva espanhola. Na mão direita, uma escova e uma pequena barra de sabão em pedra, feito por ela mesma no fogão da cozinha da casa ― uma receita só sua que misturava a gordura dos porcos com a soda cáustica da venda do povoado salineiro. ― Hoje é sábado, Elvira! Vestido de baile e xale à espanhola, Zefa disse. ― Quem sabe não damos uns passos de dança para nossas visitas? ― O sorriso forçado de Zefa, nem de longe convencia o diabo de que Deus era bom, e valia a pena adorá-lo. Mas estava feliz por ver a menina livre das correias. Não fosse o medonho inferno que ameaçava desabar sobre o mundo, e que Zefa pressentia com a sensibilidade das cobras diante da chegada de um terremoto. Não fosse também a visão da precária situação de sua carne, Elvira teria aberto um sorriso franco e florido. Mas era apenas a miséria daquela cena. E a menina exibiu aqueles seus terríveis dentes brancos que lhe enfeitavam o rosto como sujos rododendros de plástico. A pesada noite circular, guirlandada apenas pelas luzes da lareira em chamas, caía com calma inclinada sobre a iridescente masmorra de cinzentas pedras frias em torno da mesa de cavaletes que o Coronel fizera acabar de montar às pressas pelas mãos exaustas de Zé. Os homens da Comissão se empanturravam com as viandas e quitutes preparados pelo suor de Zefa, gotejando junto com os molhos em cima do fogão. Presenciava-se uma estranha Santa Ceia às avessas, onde se decidia o destino não do Filho de Deus, mas de uma humana endemoniada. Nada do Espírito Santo, mas apenas a filha de uma mulher viúva duas vezes, que se enforcara. Desgraçada pelo desatino de seus acasos, agora para culminar sua sina, a decrépita Elvira era confrontada com o julgamento de empoderados. Experimentava o arbítrio sujo dos homens, contra uma menina indefesa. Um futuro branco se conjurava ali diante do corpo de Elvira. Com as últimas manobras de Zefa, a jovem agora tinha todas as carnes libertas das velhas correias da carroça.

     O Médico usava um terno branco de linho que fora impecável pela manhã e agora se dizia um traste amassado pelas manobras exageradas que o corpo afetado pelo álcool desenvolvia no calor do fim da tarde. Todos abusavam das bebidas fortes que Zé e Zefa traziam atarantados da cozinha num vai e vem de bandejas e garrafas de tudo, pinga, uísque, gim e bagaceira. Licores percorriam a cena, e mesmo semiembriagado o Médico dava mostras de um receio profundo e antigo. Temia as reações da menina liberta. Sentada na velha cadeira onde a ama costumava contar-lhe suas histórias, o olhar inclinado para o chão, Elvira se deliciava com as invenções de Beethoven. Ouvia com deleite estático um rádio que nem mesmo com as pilhas que lhe faltavam poderia lhe dizer alguma coisa. E, no entanto, diziam tudo que ela queria ouvir. No rosto do profissional responsável pelo laudo, tornava-se claro, acima de tudo, que lhe era por demais enfadonho ter que lidar infindavelmente com tudo aquilo. Ficava, na sua visão, cada vez mais claro que, à medida que Zefa ia distribuindo sobre a mesa, as linguiças, os chouriços, o sarrabulho e os torresmos que a leitoa acabara de doar à turba faminta, tanto o calado Delegado Patarro, como o calado Escrivão Amarelo, seu assistente, tanto o Tenente Lourinho como os homens do Batalhão de Choque ― também servidos em seus postos estratégicos lá na varanda por ordens superiores do Coronel ― esperavam dele uma solução para o caso. E todos davam mostras de uma embriaguez evidente e profunda, que aumentava de gravidade a olhos vistos. Embriaguez, diga-se de passagem, à qual faltavam todos os rigores da lei e da ciência. De uma ação de Agentes do Estado, a coisa desandava numa borracheira generalizada. O Delegado pediu licença ao Coronel para afrouxar o cinto: a bebida lhe dava gazes. O Tenente, um pouco mais louro e pálido, e suando em bicas pela pinga forte que adotara depois da primeira dose de gim, por sua vez se sentia oprimido pelo peso da gandola rajada ostentada com brio desde sua chegada, secundou o Delegado no pedido de abrandamento do protocolo. Alegou calor provocado pela falta de sono, reprovocado pelo plantão da noite passada, triprovocado pela ação que executava no momento, e que não sabia mais quando teria termo. Receberam, o Delegado e o Tenente, permissão do velho fazendeiro para ficar em mangas de camisa. A Assistente Social bebia pinga atrás de pinga feito homem, e o fato de ser virgem e de ter sido criada no alambique do pai dava-lhe coragem e vantagem sobre os outros homens. Tinha as energias preservadas e aprendera a beber desde criança. E quanto mais bebia, mais ela se parecia com ela mesma. O Escrivão, homem de olhar seco, e depreciador, mas dado a poemas nas horas de remanso do Serviço Público na Delegacia (já detentor de dois prêmios em concursos de poesia e redação ― o que lhe empestara a alma com o sonho gorado de um dia ir morar e escrever numa cidade grande), contemplava aquela bacanal com estupor estoico. O médico burocrata era a figura que mais se destacava no meio daquela balbúrdia de pequenos burgueses, militares, e funcionários públicos. Alguns, de inteligência medíocre, outros de medíocre inteligência, outros completamente medíocres. Sob o disfarce de cumprirem suas funções esperadas pelo Estado, se refestelavam na esbórnia de uma tarde de bebelança e comilanças, digna das noites de Neros e Calígulas.

     Estatura mediana, pele muito mais para o pardo, uma barriga levemente proeminente que se dava ao luxo de ser volumosa e denunciava a sedentariedade de sua função burocrática. Os pés grandes envoltos em sapatos caros eram as únicas peças do vestuário sempre novas que o mão fechada do solteirão Vicente Amarelo se permitia como luxo. Olhos negros embaçados e encharcados de lubricidade debaixo de alguns fios de cabelo de pelo de rato mal pintado na cor de palha de milho velho, denunciavam os tantos e tantos anos já idos depois da juventude. Também se faziam notar as duas mãos de garras de metal enferrujado e corroído, contaminados pelo trato cotidiano com a velha máquina de escrever da Delegacia, fedendo a zinabre e tinta de impressão, escondida numa salinha escura no fundo do prédio úmido. Amarelo era o guardião daquele inferno onde o Doutor Delegado imperava. Aquela delegacia para onde Elvira seria levada e sistematicamente fichada por ele mesmo, Vicente Amarelo, funcionava como uma espécie de Pavilhão de Espera da Carceragem Geral do Estado. Aquele covil imundo onde eram depositados homens sobrevindo das camadas inferiores da população ― o lixo humano, como o Patarro dizia. Sobrevivendo anos, quando sobreviviam, com água suja e macarrão temperado com o ácido ardido dos seus azedos. ali eram guardados os excedentes do rebotalho, que não dera certo para a mão de obra nas salinas servis do Cangaceiro. Aqueles que não serviam para nada, escória de um sistema homicida, que punha tudo, e todos os recursos, à disposição da reprodução dele mesmo e dos seus apaniguados. Atuava com o único fim da própria reprodução e jogava os dados sobre a vida de todos. De quem quer que fosse, e que não fosse filho dos poderosos. Como dependente da profissão de onde tirava o seu polpudo salário, Amarelo odiava tudo que não lhe dissesse respeito, e aos seus ganhos e aos seus interesses. Mantinha, por Elvira, desde que chegou, aquele desprezo que se mantém pela vida de um porco que se sabe vai morrer dali a pouco.

     A gata no cio elevou a anca e ciciou, e roçando no umbral do lado de fora da janela lambuzou o quarto com um lastimoso langor fúnebre e leitoso. Zefa benzeu-se. Esperava o que Deus mandasse, e que um dos seus anjos viesse ao quarto imediatamente e lhe anunciasse o quanto de desgraça tudo aquilo ainda traria. Mas o que acontecera logo depois, foi o que percebeu por um momento: através dos movimentos do olhos da menina entendeu que o concerto retransmitido pelo rádio havia terminado. Liberta das correias, que a envolviam como a um animal de carga, Elvira, não mais atrelada à cama, levanta-se agilmente da cadeira, como se despertasse de uma longa e revigorante noite de sono. Massacrada, mas tentando ostentar glamour, apresentava-se diante da plateia, fresca, coquete e leviana. Ajeitou a roda da saia do vestido de noiva que usava algumas noites para sentir-se melhor, e que envergava na hora em que foi contida, lasciva e completamente embriagada, pelas correias da arreata da mula velha contra a grande cama de mogno vermelho. Mas não, Zefa! O traje tinha muita cauda e ela não gostava dele daquela maneira. Em compensação, a tiara, o véu e o buquê eram de extremado bom gosto. Adornados com pedrarias e vidrilhos vermelhos, como um farol na escuridão do mar, ostentavam num centro único um diadema de açúcar cande. Aquele regalo especial que Zefa salvara do bolo de aniversário da filha da vizinha mais próxima a duas léguas de distância. A mucama caminhara sob sol com a bugiganga presa na mão só para agradar a menina. Reservara e guardara carinhosamente aquele mimo para enfeitar a roupa de núpcias de Elvira, que ela mesma modelara com tanto esmero a ´partir de velhos trapos esquecidos e que a afilhada gostava de usar depois do longo banho antes do casamento. Os casamentos, sempre com o mesmo Príncipe, é óbvio, aconteciam em algumas tardes especiais, quando Elvira se sentia especialmente muito especial. Zefa esperava com o regalo aliviar o sofrimento daquela alma pura e vilipendiada. A quinquilharia da alta costura de retalhos fora tirada de uma velha colcha que não prestava mais. Transformada milagrosamente pelas mãos da ama, num figurino de contos de fadas, enfeitava a doente em seu teatro de sombras domésticas numa masmorra escura dos cafundós da roça.

      Elvira deitou a cabeça para o lado contra o ombro esquerdo delicadamente e ao mesmo tempo manteve os olhos fixos nas tábuas escuras do soalho que já contemplava demoradamente com os olhos semicerrados há algum tempo. Numa expressão muito sonora que visava o ouvido do Avô, bebendo preguiçosamente sentado na mesa, já agora ao lado do Médico seu arqui-inimigo, desfrutando das belas amizades que os copos de álcool proporcionam, íntimos e cordatos, disse: “Qual será o tema do nosso banquete dessa noite, Coronel-Avô? Se for novamente o Amor, precisamos encomendar as Flautistas.” ― Dispense as flautistas, Elvira, e vá tomar seu banho. O Doutor que examinar você. ― Retrucou o Coronel-Avô, num tom humano e casual. Fingia naturalidade sincera, através de uma paternal preocupação falsa pelo destino da menina. Mas sabia desde o início aonde tudo aquilo levaria, desde que a Junta havia chegado à casa, desde que ele mesmo a convocara. E para atingir seu objetivo, se dirigia à neta naquela maneira educada, que talvez, por outro lado fosse já também o fruto da ingestão de largas doses de pinga. Ou sequer apenas para fazer bonito diante dos homens e da mulher misteriosa da Comissão. O fato notável, e raro, diga-se de passagem, era que desde que a menina fora libertada dos arreios que a prendiam à cama, e estava sendo observada pelo Médico, o Coronel mudara bastante. Já não se atrevia a encará-la ou a desafiá-la. Percebendo a evidência de que o motivo de tão surpreendente mudança era o fato da liberdade de movimentos de Elvira, todos constataram que o Coronel era de fato um covarde! Os homens da Comissão, apesar de comerem e beberem à sua mesa, e às suas custas, e deverem-lhe todo o respeito e consideração dentro dos padrões da falsidade social, moral e política vigentes na Comarca Salineira, não tiverem como evitar essa crua constatação. Mesmo eles, que ainda que mesmo dissimuladamente, também temiam a mesma menina louca.

     A roleta russa dos fatos do mundo agora girava a favor da menina. Pressionada por debaixo das ordens do patrão, e temendo aborrecer Elvira, Zefa aproximou-se dela. A menina perscrutava o ambiente fechada num mutismo de pedra. Era vista por todos como um animal que se sabe perigoso. Tomando todo o cuidado possível numa situação como aquela, a ama passou a mão pela cintura da afilhada. Enlaçou-a delicadamente como se a convidasse para uma valsa nostálgica e dogmática, e a ergue da cadeira onde jazia mortiça. De pé, assim que percebeu o envolvimento, Elvira jogou-se enlanguescida nos braços de Zefa. Inclinou a cabeça para trás, como um cachorro que se coça, exalando pulgas e revirando os olhos naquele seu trejeito maroto de infância e quase lúbrico, que Zefa conhecera desde quando as duas ainda eram meninas. Afinadas, cantaram o famoso mote composto por Elvira, fora do tom e inconfundíveis, no registro metálico dos loucos.

Num minueto de matar Encontrei meu par Era um homem Era um homem Era aquele forte homem Que ondula o mar


     Solfejavam engasgadas como o canário de um católico, sedento em seu cárcere. Mas não saíam do lugar. Dançavam e cantavam como lombrigas rebolando pregadas no chão seco. Como uma pedra de esquina, agora Zefa falava baixinho. Com sua máscara de cachorro choroso, passava a mão carinhosa no rosto da parceira. ― Tá com ideia de se meter com fogo, Elvira? O Coronel quer que você vá tomar banho, fía. Os doutores precisam ouvir você, e querem te examinar. Ajuda a amiga Zefa, vai.” Desta vez, Elvira cantou sozinha:

Enchova sardinha Corvina tainha A mais bonita sereia Será euzinha?


     Zefa perdeu a paciência e puxou a menina com mais rigor para junto de si. Percebendo a resistência nervosa de Elvira, pesou o quanto seria difícil o trajeto dali até o cômodo onde se instalavam a banheira e o trocador de roupas. De supetão, trazendo a cabeça para a frente num movimento inverso ao que mantinha antes, e quase desequilibrando Zefa, a menina debruçou-se sobre o ombro direito da mucama. Levava os lábios bem próximos da orelha da mulher, e sussurrou dramática num tom que sempre usava quando queria irritar o Coronel:

Vermelhos bois de pasto Apontam chifres de alabastro Soando sinos de ouro Nos duros testículos de couro


     As duas derramam uma larga e gostosa gargalhada. Em nítido contraste com a tensão do ambiente, provocam um acesso de tosse no Coronel Agenor. Depois que o velho recuperou a calma e conseguiu falar, dirigiu-se à Zefa com a economia autoritária de palavras que lhe era peculiar: que a mucama se livrasse daquele abacaxi o mais rápido possível. E para arrotar poder diante das autoridades, gritou: ― Josefina, me leve essa menina para longe daqui agora! ― Zefa soltou um muxoxo surdo, bufando um "ôxe!" automático. A expressão de desagrado surgia dos seus azedos bofes de mulher da terra, alimentado pelos ódios antigos que nutria pelo velho Coronel Salineiro. Zefa novamente abraçou- se com Elvira. Novamente o estático minueto inútil. Novamente a menina não se movia, fincando com mais volúpia os pés fundos no chão. A dupla agora se abraçava numa cena de filme romântico, e seus olhos miravam fixa e langorosamente uma em direção aos olhos da outra. Quebrando o gelo da ação, Elvira empertigou-se preparando-se para o papel de ave que iria representar. Cacarejou alto, numa voz esganiçada que imitava os trejeitos sonoros da galinha em vias de ser morta:

"Cocó, cocó, cocó... Quantos circos Se revezam nos meus sonhos? Cocó, cocó, cocó..."

     Dessa vez, Zefa não riu. Sabia o quanto aquilo era contagioso. Sabia a que aquilo se referia, e que, uma vez que a menina seguisse por aquele caminho, não haveria volta. Diante de uma tão poderosa plateia de gente com mando de vida e de morte, poderia pôr a perder a vida do Coronel de Terras e Gentes, e da própria Zefa. Eram os refrões de devassidão e podridões eróticas prediletos do Coronel. Árias que o homem cantava enquanto cumpria seus ritos de requintes sexuais com a mucama. Quando sussurrados por ele entre dentes, tomavam a forma de práticas perversas que ressoavam pelas paredes de madeira e pedras cinzentas do casarão maciço. A menina escutava aquilo sem poder evitar, e conhecia um repertório desses impropérios sexuais. Os repetia pelos cantos, baixinho para si mesma por horas a fio, em sua solidão de mau agouro, com todos os tons de desprezo que ouvia e que podia arrancar de seu coração. Elvira, louca, imitava com finura, em gestos e música, as perversões imaginárias e realizadas pelo homem adoecido quando possuído por sua luxúria. Zefa fincou os olhos com força contra a menina. E num tom que usava quando precisava implorar-lhe um pedido, disse baixinho: ― Dândár! Ô! Pra ganhar têm-têm? Olê! ― Que aquele fandango tivesse o poder de criar uma metamorfose na alma de Elvira, o afago transformando-a numa criança dócil e alegre, Zefa sabia de antemão! ― Quero, quero, quero! ― exultava a menina. Trepou um pé sobre cada pé de Zefa, deixando-se levar vivamente pela ama, para dentro do corredor escuro. E iam as duas aos pulos, como aqueles comediantes que improvisam abraçados com uma boneca de pano, cujos pés vão costurados em seus sapatos, exibindo-se pelos tablados das feiras. Dançavam e evoluíam, as duas atrizes, desaparecendo enquanto saíam de cena na luz difusa do fundo da sala, no magnífico número de teatro popular.

Dân-dár! Ô! Pra ganhar têm-têm! Dân-dár! Ô! Pra ganhar têm-têm! Dân-dár! Ô! Pra ganhar têm-têm!

     ― Mais uma rodada de xerez, Coronel? ― Gritou para o velho quase surdo, o Médico Presidente da Junta, já visivelmente embriagado. De fato, escutava melhor do que se pensava, o dono da casa. Então, não se mexeu. Limitou-se, como sempre, a dar de mão numa curta curva dispondo a garrafa. Depois deixou cair o braço contra o guardanapo, alcançando com as pontas dos dedos de forma despreocupada o tecido grosso. Agarrando o trapo, levou-o até à boca, raspando com asco a pesada crosta de gordura que se acumulara ali. Indicava com aquele gesto desdenhoso, a moléstia e o desprezo que sentia por toda aquela gente, e que nada significavam para ele. Depois de clarear os beiços, atirou sobre a mesa o guardanapo pintado pelo suco de tomate, e manchado pela ferrugem grossa do molho do capado. Movendo para o médico os olhos injetados, gritou com voz de pedra, terminando o suspense que a pergunta do Chefe da Junta levantara sobre todo o ambiente: "A garrafa está em cima da mesa, Doutor! Para que todos bebam até se fartar!" O Médico não se deu por rogado e foi diplomático. Pegou com toda a delicadeza o frasco com a bebida e o circulou derramando para dentro dos copos dos seus subordinados, um por um, o precioso licor. Tentando o melhor tom de voz para a ocasião, o Dr. Ramiro ergueu seu copo num brinde, e disse: "Acho que posso compartilhar com vocês uma parte importante da minha alegria nesse momento especial. Não é todo dia que vemos um espetáculo tão exuberante e imortal como esse. Digno de nos levar a memória para a arte romana e seus imperadores construtores dos imortais mosaicos, das suas saunas e dos seus palácios. Concordam?" Todos assentiram com as cabeças embotadas pela bebida e esticaram também seus copos para o Cirurgião. Brindaram, beberam, e o Boticário Metido a Besta voltou a encher todos os copos de maneira pródiga, diante dos olhos amuados do Coroné. Animado pela plateia, o Presidente da Junta continuou: "Então, para experimentarmos juntos, num mesmo copo, e como se fôssemos um único corpo, nossa imensa e imortal alegria por esse espinhoso trabalho que estamos levando adiante, com esforço memorável, e que logo chegará ao bom termo previsto como alvo da operação, eu proponho uma boa quadrilha entoada a quatro vozes! Cinco, quero dizer, se o Coronel quiser nos acompanhar. Nossos famosos bordões, todos já conhecem!

     ― Hurra! Hurra! Hurra! ― a pequena turba engalanada gritava, agitando freneticamente braços e mãos. Adoravam as quadrilhas do Açougueiro, que ele sempre organizava quando se embriagava nas suas famosas Operações de Ordem Social, pelas salinas da região. E sempre se divertiam com as imitações que o Chefe dos Demônios realizava dos personagens do povoado: o Médico era um exímio mímico, e se esmerava na reprodução de semblantes caricatos, que todos conheciam e não tinham nenhuma dificuldade em reconhecer. E, sobretudo, realizariam diante do morador principal daquele Brejo das Almas, uma ação dramática que seria extremamente valorizada pelo Alto-Comando do Cangaceiro, cujo Departamento de Ações Culturais estava voltado principalmente para o deboche e o desdém de toda a população. ― Pode ser o Jeca-tatu, Chefe? ― Sim, Sim, Sim! ― gritou o Médico. E olhando para o Coronel de forma significativa, acrescentou alegoricamente: ― Achou que vem bem a calhar com a situação em que nos encontramos. Todos riram e o Amarelo acrescentou: ― Sim, Chefe, disse o Delegado, o Jeca é um excelente pedido. É um dos nossos prediletos e está bem ensaiadinho. Sempre passo as letras quando subo e desço as escadarias da Delegacia sem ter o que fazer. E rio muito comigo mesmo! ― Sim, Chefe, disse o Escrivão, podemos usar a coreografia do dia de São João. É simples e todo mundo que está aqui, conhece de cor. ― A pedidos, o Jeca-Tatu, com a coreografia do dia de São João! ― disse o Médico Chefe da Junta, erguendo os braços e os agitando em sinal de júbilo. ― Todos a postos! ― gritou novamente o Médico, com voz de comando, sempre tomado pela emoção e pelo abundante xerez. Feliz, dirigiria mais uma das suas famosas quadrilhas que envolviam e faziam a alegria de seus subordinados. ― Celeste Andrade, de ilustre família, nossa Assistente Social, fica encarregada do soprano, com não podia deixar de ser. O Delegado Waldir, com seu vozeirão, defende o baixo, como também não poderia deixar de ser. Tenente André Rebouças, que não é nem tenor, nem baixo, mas altamente competente, fica com o contralto. E o Escrivão Amarelo e eu, diga-se de passagem as vozes mais oblíquas da região, ficamos com o tenor, como também não poderia deixar de ser. E o nosso Coronel, convidado de honra nesse momento em que invertemos os papéis, pode escolher a parte que quiser. Afinal o nosso homem aqui é o dono da casa! ― Todos aplaudiram freneticamente essa última moção do Chefe da Junta de Araque.

     O Médico ajeitou as calças com as duas mãos firmes, jogando os panos do cós e do cinto num rompante circular que se movia de um lado para o outro até que as fraldas do tecido que lhe caiam pelas pernas estivesses arrumados em sua cintura. Deu mais firmeza ao fecho da fivela e inteiriçou-se: "Tudo pronto, turma?" Todos se levantaram e esvaziaram os copos, bochechando com as bocas ainda cheias. Engoliram e reengoliram o que sobrara de seus goles. Alguns aproveitaram para mais um copinho, sempre sob os olhos atentos do Coronel. Nunca era demais uma boa azeitada com bebida forte correndo pela garganta. Apesar do estado de embriaguez da pequena turba debochada e estatal, todos conseguiram realizar a proeza de formar uma impecável fila por dois, dois a dois. Prontos, deslocaram-se para o salão principal. Na frente, destacando-se do grupo, ia o Médico. Mula velha, florão da tropa, o doutorzinho empunhava um espeto de churrasco que antes fora deixado ali com uma perna de leitão e que agora, esvaziado de seu hóspede suculento, servia-lhe como batuta. O Coronel, indo com eles, afastou a cadeira de rodas para o fundo do aposento, de onde preferia esperar para ver como é que fica.

     O cortejo marchava sem se deslocar, marcando passo no mesmo lugar. Soavam tempos forte e duras divisões de compasso. Elevavam joelhos e requebravam ancas, debicando descaradamente da cara do velho salineiro. Alguns preferiam realizar rápidos vocalizes e exercícios de dicção cujas sonoridades acabaram também em deboches rasgados em homenagem ao dono da casa. Naquele instante o Médico levantou o espeto batuta. Seu gesto foi seguido pelo brado do tenente: "Avançar!" Toda a minúscula turba deslocava-se em uníssono. O quarto da menina, que assistira tantas cenas inesquecíveis de perfídia e traição, ficara vazio. Agora, Elvira banhava-se num cômodo nos fundos da casa, enquanto uma insondável manobra músico militar acontecia no salão principal da herdade neogótica, construída pelo Coronel, e que inexplicavelmente parecia ter sido planejada para aquele fim. No cômodo vazio, camarim sinistro, restaram pendurados pelas paredes os velhos arreios da carroça que serviram de forma iníqua para manter Elvira atada ao seu leito de vergonha.

     Os coreutas iam em frente, balançando os corpos com remoques e requebros ousados, emitindo pilhérias sonoras enquanto agitavam os pescoços de um lado para o outro. Saudavam uma plateia imaginária, que os aplaudisse de um palanque. Lá, estariam o Czar Cangaceiro e a Primeira-Dama do Sal, aos quais, todas as mesuras sempre se dirigiam. Também lá estariam, como em seus corações, o Alto Comando Militar, as Altas Autoridades Civis e Burocráticas, e os Potentados Eclesiásticos e Diplomáticos. E por último, no sereno, mas não menos importante, o Sindicato do Populacho, que nunca perde uma oportunidade de se divertir com a desgraça dos outros, mesmo que seja com um bom desfile militar. O cortejo encantava o salão principal, preparando-se para fechar a primeira rodada. Contornando a esquina da grande lareira, imitando o repto dos taróis, os primeiros a atacar os bordões foram os tenores:

     jeca jeca jeca jerereca (duas pausas simples) jeca jeca jeca jerereca

     Esticando o pescoço para frente como uma pequena cegonha africana, a Assistente Social atirou para a multidão seu gorjeio metálico de ave solitária. Treinada para cantar até debaixo do chuveiro, ela remedava um clarim:

     jeeeca jeeeca jee ree ree ca

     Em seguida, o ribombar do bumbo rotundo, a voz dos baixos:

      peeega peeega

     Como pedras se movendo, completando a fanfarra, entraram as caixas, gritando umas contra as outras, e trazendo uma emoção nova ao cortejo.

     Taaa tuuuuuuuuu Taaa tuuuuuuuuu

     Não é que a coisa funcionava mesmo, como sempre! jeca jeca jerereca pega pega taaatu taaatu

     Conforme o esperado, todos estavam impecáveis em seus registros. Nas marcações do bailado, revelavam o tempo que gastaram juntos, às custas do dinheiro do povo, ensaiando a abominação cívico-militar. Ou seja, enquanto treinavam a quadrilha, exerciam as funções públicas recebendo gordos salários do governo, e mantendo nos cargos amigos em comum e interesses parecidos. Tramoias combinadas em surdina, faziam deles uma máfia exemplar exibindo um exímio coro de igreja, desses que ouvimos no casamento de uma alta autoridade do dinheiro ou da política, mas geralmente dos dois. O Coronel, totalmente avesso a arruaças, acabou sendo contagiando pela poesia física, a suarenta e musical tropelia, juntando-se ao grupo. Esqueceu-se de que estavam ali para decidir do destino de sua neta, e foi seguindo o cordão e acrescentando um tom jocoso ao espetáculo: rodopiava atrás da fanfarra como uma piorra doida, fazendo rolar a velha cadeira de rodas pelo salão. O fato é que desempenhava com mister aquela sabedoria de andar circulando e não chegou a comprometer a harmonia do grupo. Arriscou-se mesmo a mandar umas beijocas para a imponente plateia imaginária, e contagiou-se com a própria fantasia. O Coronel revelava que também era volúvel, traço da sua personalidade que escondia enquanto a bebida não o desmascarava.

      Agora, organizados em cânone caipira, os Funcionários da Comissão de Ordem e Saúde giravam em torno da grande lareira do salão como um carrossel de um parque de diversões inspirado na realidade. Dragonas, coturnos, quepes, cinturões e coldres recheados de pistolas e sabres, combinavam perfeitamente com sedas, linho e cabelos à gomalina. Exibiam-se, imaginando-se heróis da Batalha do Riachuelo surgindo naquela cena mítica. Dado à semelhança épica, não se poderia negar que aqui e ali, alguns atingiam mesmo a perfeição em seus papeis de idiotas. Tudo estava saindo às mil maravilhas, mas foi quando... ― aí foi que... foi então que... ― uma espécie de pântano surgiu debaixo da cena, de repente, sob os pés de toda aquela gente: o Chefe da Fanfarra tropeçou no tapete. Desequilibrado de si, perdendo o resto do juízo que lhe faltava, fazia piruetas para manter-se de pé sobre o chão que lhe fugia. Os sentidos embotados pelo álcool ajudando na falta de prumo físico e emocional, deu-se então que o Médico mais uma vez ao tentar se aprumar ia novamente se estabacando chão. O homem arribava e desmontava, como numa coisa feita, de que não conseguisse se livrar. Recuperado do susto, e então curado da epidemia das diagonais que lhe atormentavam, retornou à posição vertical e ergueu o bastão de comando.

      Gritava com voz de chefe, usando um tom que além de interromper o prazer de seus subordinados, chegou a causar medo naqueles que o conheciam bem. Era um urro de morte e ameaças diante de qualquer erro. Com a voz carregada de toda fúria, assustava como um animal feroz em agonia. E no mesmo instante um frenesi de endemoniados se apoderou do corpo do Chefe da Junta. Arrepanhando os panos que lhe sobravam pelas bainhas das calças, como uma lavadeira dengosa que se preparava para entrar na água gelada onde faria o seu serviço, iniciou uma estranha dança primitiva. Cheios de volteios e pavoneios encenava aquele lundu da mata virgem. Aquelas maluquices de devaneios desencontrados davam a impressão de que o médico cismara de imitar o desespero final da ave do paraíso. Marcava o chão com o salto dos sapatos, e vez por outra atacava o solo também com a biqueira dos calçados. Repetia no mesmo lugar as infinitas vezes que se sucediam umas às outras.

      Uma poeira fina e sufocante se ergue dos arabescos riscados ali por cima do avermelhado tapete persa do salão principal. As pancadas e gestos agudizam-se sobre as pranchas de madeira de lei do soalho negro, e levantam mais sustos aos estáticos assistentes. Temiam uma crise apoplética e fatal no Comandante da Operação. Minúsculas ugas violetas encrespam seu rosto, aprofundando-se à medida que o corpo precisava deslocar mais força para os pés. Ele freme como um leão, enquanto entorta as mãos de moribundo rigoroso, esticando a língua possessa para obter mais precisão e equilíbrio naquela dança de toureiro louco. Ora encurta a duração dos golpes, ora alonga o tempo das pausas entre dois compassos. Preciso, em seguida, disparou uma sequência de sopapos com os pés, como se andasse nas asas de um colibri. Esmagava contra o chão um matraquear de castanholas tão rápido, que seus sapatos quase pisavam nas próprias solas. Não seria impossível evitar mais o trambolhão catastrófico. E ele parou parado. Parando.

      Olhava para o chão com um êxtase contínuo, vendo estatelado o que ninguém via num único ponto imóvel. Suando como um touro louco, dobrou a cabeça em direção ao solo, e depois todo o corpo. E depois, se inclinou no sentido dos pés, enxergando de cabeça para baixo as fisionomias atônitas da plateia. Imóveis, todos acreditavam que aquilo era uma pausa de efeito. O Médico certamente prepararia um grand battement, que era só o que lhe faltava. Mas o que se seguira daquilo ninguém poderia imaginar: o que o potentado descobrira era algo que faria mover toda a poderosa engrenagem da máquina infernal dos porões do organismo da tirania das autoridades máximas da Junta do Poder. Daí, disso, lenta voz opaca emitiu uma frase breve que escorava por sua boca mortiça:

"Enrolem essa merda desse tapete na direção dos meus pés!"


      Dito e feito! Com mãos de especialista em museus, Todos Os Assistentes se esmeravam em cumprir aquela ordem, da maneira que o chefe exigia, o mais rápido possível. Quando estavam se aproximando dos pés do Médico, aguardaram por um pequeno instante para que ele pudesse pular, como uma pulga, a porção do tecido empoeirado que já havia sido enrolado. Depois, o Chefe retomaria o posto que ocupava. Os comensais passaram a peça de pano pesado rápido por debaixo de seus pés. Com a liberação da cobertura espessa, e a ausência do impedimento tapeceiro, que evitava o contato entre o solado das botas e o chão, o Cirurgião voltou a pular. Pulava, pulava e pulava! E da superfície do chão, ouviu-se nitidamente ser emitida a voz de um som oco. Um cavo e seco eco profundo foi seguido de um ronco rasgado e esquecido no solo. Tudo reverberava por debaixo de tudo. Imaginando o aposento que gritava, a plateia percebeu a mudança de tom e de timbre do solfejo macabro. Todos estatelaram os olhos fixos e os corpos duros em direção ao monstro que havia sido descoberto por debaixo do chão.

     Enquanto o Chefe mantinha o sapateado para não perder o rastro do bicho, os subordinados esquadrinhavam e examinavam minuciosamente a geometria do soalho. As tábuas regulares acusaram uma diferença diagonal no seio de um grande quadrado ortogonal e oblíquo. Era isso! Um pentagrama invertido desenhado ali! A madeira de cor ligeiramente cenoura, emoldurava um espaço de meio metro quadrado diagramado pelo maligno, bem ali onde o Esculápio se exibia. Ele parou, lívido, calmo, lânguido, e disse para o Tenente rebouças: “Me empresta teu punhal Claudinho André.” O militar retirou submissamente a arma branca, relíquia do pai, conservada na parte de trás do cinturão, e a estendeu para o superior. Gouveia abaixou-se com determinação e fincou a faca entre as costelas das pranchas. Olhava com frieza para os subordinados atônitos, que esperavam para ver aonde a cirurgia do Ramirinho iria parar. O Chefe forçou a faca para um lado e para o outro. Usando o vértice de uma tábua como apoio, crispou o rosto e se utilizou de toda a sua força disponível A tábua rangeu, rangeu, rangeu e cedeu! O Ramiro Gouveia se ergueu. Triunfara: era uma revelação! Era uma alçapão.

      ― Grampo nele, Claudinho André Rebouças! ― gritou para o Tenente. ― Não posso algemar o Coronel Agenor Eustáquio Ferreira Furtado de Freitas, Chefe! Ele é sobrinho-neto do irmão do falecido prefeito. ― Isso foi antes do golpe! Grampo nele, já disse, Tenente. Não aceito insubordinação! Ou você quer ir para a cadeia? Aqui você responde só a mim. E eu mando prender e matar o prefeito e toda a família dele.

     Prenderia e mataria. O Médico era um apaniguado do Cangaceiro Geral das Salinas de Charque do Norte. “Grampo nele!” ― repetiu. Todos temeram aquela atitude destemperada. O Médico raramente fazia o uso ostensivo da força, do poder e dos benefícios do regime de exceção, no qual estava envolvido até os olhos. Quase nunca impunha daquela maneira sua autoridade sobre seus subordinados. Pobres diabos debaixo de sua onipotência! Levando-se em conta que o Médico fazia parte de um obscuro grupo de elite, que respondia diretamente e somente diretamente ao Cangaceiro, e que o Cangaceiro respondia somente, e diretamente somente, a ele mesmo, atitude do Médico era extremamente perigosa para todos ali.

     ― Vamos descer! Alertem os homens e os cães da varanda! Coluna por um, armas na mão. A Assistente Social Celeste Sepúlveda vai por último e em último caso. Isso aqui não é ambiente para donzelas. Cuidado com os miasmas e as antigas cataplasmas, influências maléficas do suor do diabo rondam por aqui, disse o Gouveia com nojo veemente. O Capataz Geral estava visivelmente alterado em seu estado de ânimo por aquilo sinistro que descobrira.

      Já estava jogado no chão, altercado e algemado, o Coroné, debaixo de um dos pés das botas do Tenente André Rebouças. O militar recebera na íntegra as ameaças do Chefe. Assim, num canto da sala, com as pernas e as mãos atadas nas rodas de sua cadeira, a presa era fortemente guardada, e vigiada também debaixo dos olhos dos Homens e dos Cães Funcionários Públicos da Varanda. Viam-se os adornos reluzentes das grossas algemas que esperaram por ele durante todo o tempo da comilança, que ele mesmo proporcionara. Algemas que aguardavam polidas, presas ao cinturão do Claudinho, e agora se encontravam ajustadas como uma luva nos pulsos e adornando os tornozelos do neto do velho e derrotado chefe de bandos, Coroné Agenor, inimigo político do Funcionário Chefe da Junta. O alçapão viera a calhar! O descendente de poderosos nesse momento estava nas mãos de um poder obscuro. O Cangaceiro Geral contava com uma matilha de homens completamente destituídos de qualquer resíduo de humanidade. Foram preparados para infundir no ser humano a qualidade insuportável da dor e do horror, e de destruição psicológica, que fosse necessária para atingir seus objetivos. Manietado e atado ao seu veículo de tração humana, o velho impotente assistia à invasão de seu aposento secreto.

      A cova porciúncula escura ocupava praticamente toda a extensão do porão da mansão estapafúrdia, incluindo os alicerces de pedras brutas que serviam de base para cada coluna lavrada que se erguesse das fundações. Um arco ogival, vaginal, virginal, gengival, dividia o teto numa colmeia pitoresca de máscaras, e corpos deformados, percorrendo e citando quase todas as tendências arquitetônicas e teatrais e eróticas da História da Arte. Campanários, sudários, frontões, colchões, colhões, lápides, arcos quebrados, roupas rasgadas, sensualidades góticas, romanas, mouriscos, e pernas de mulheres corrompidas se erguiam em todas as direções adornando a extensão inferior do assoalho polido de lajotas. Podia-se distinguir, sob a luz baça que escoava por duas delicadas claraboias transversais, dissimuladas por um canteiro de urtigas, cobrindo o chão rugoso e reluzente, um enorme e bem trabalhado tapete de brocado vermelho. Pontilhado de reflexos ocre e iridescente magenta, na peça, fruto da aplicação meticulosa de ouro velho e lápis-lazúli, em cujo centro, desenhada à mão, destacava-se a assustadora efígie da Águia de Duas Cabeças. O ícone maçônico e hermético do temível deus Abraxas, se erguia implacável com suas asas de metal e o bico curvo voltado em direção ao destino dos homens de um dia. No centro da tapeçaria, que coincidia com os ocultos seios lúgubre e fartos do animal, erguia-se um enorme forno alquímico ― o atanor dos árabes ― que garantia à mistura uma equilibrada distribuição de calor. Aceso durante todos os anos em que já se lavorava ali com a matéria primordial, empregava na operação o tempo que lhe era necessário. Dormitando nas entranhas da vida, sobre o atanor, pousava a retorta com seu pescoço de cisne. Em suas circunvoluções deixava escorrer o substrato cor de alabastro, destilado poético e psíquico, que ia deitar-se numa caçamba improvisada. O Coroné, sempre muito criativo, usara para criar a peça mágica, uma cabaça de abóbora d'água, planta endêmica e folclórica da sua região natal.

     O laboratório estava cheio delas! Assim se desfazia o mistério da paixão do velho pelo cultivo das cacimbas ornamentais. Em cada ala lateral do subterrâneo, jaziam sob as entradas de luz, estantes apinhadas de livros, e instrumentos de laboratório. Numa mesinha ao lado do alambique, aberto numa página que exibia uma gravura do momento da putrefatio ― com o pássaro de olhos brilhantes se erguendo do lamaçal ancestral ―, o Mutus Liber exibia sua encadernação exuberante num enorme exemplar antiquíssimo. Volume raro que estava em poder de Agenor graças às mãos leves de um ladrão de bibliotecas estrangeiras. Na ala do fundo do porão, em contraste com tudo aquilo, um cintilante atelier de pintura, recebia sobre seu cavalete um facho de luz dedicada vindo de uma insuspeita rachadura entre as pedras do teto. Confundiam-se sobre caixotes improvisados, outros velhos cavaletes, tintas, pincéis, telas e solventes. Na parede oposta ao alçapão, preparada à maneira de uma galeria de arte com painéis especialmente posicionados, uma infinidade de quadros de arte erótica exibiam a camponesa Zefa participando das mais variadas perversões que se possa imaginar. Em todas elas, a mucama surgia como a atriz principal daquela Gomorra do fim do mundo. Pobre serva, a mulher imperava ali, ora como uma atriz de circo, ora como uma náiade com os ombros ornados de juncos. Zefa era um pedaço de fêmea para ninguém botar defeito. Quem a via coberta com aqueles andrajões cinzentos e gordurosos não imaginava o colorido e riqueza de formas de seu colo. Seios e coxas, espaços livres, pele alagada de pelos, linhas, vincos, volumes e profundas carnes. Em todos os recantos do corpo, eram massas e superfícies que encontravam seu destino nas telas do Coronel Agenor: o que de dia parecia disforme, à noite surgia como beleza perversa. Zefa vivia agora para sempre naquelas telas. Podia orgulhar-se de ter seu corpo, maltratado pelo trabalho, vingado pela perfeição de uma camada de gotículas de suor que o seu artista fazia questão de imprimir em cada obra, como uma marca registrada de seu atelier gozoso.

     O esforço estético e erótico da modelo exsudava as tais gotículas com generosidade realista. E também podia-se ver ali a tal mestria dos pincéis dos gênios: lágrimas em camadas vertiam de seus olhos como uma santa chorona quando era sodomizada com requinte no auge da patifaria. Se necessário fosse ao teor da cena, Zefa escorria pelas faces, numa mostra de gratidão ao seu carrasco, aquele pranto de arrependimento sincero por provocar tal aberração. Cruel fenômeno do belo, que o artista e a modelo conseguiam realizar num conluio perfeito entre o profanador e a vítima profanada. Tinham total domínio, e a prima, sobre a tela branca. Para conseguir a imediatez desses efeitos, o pintor deixava escorrer algumas gotas surrealistas de azul da Prússia, ou verde viridian para fora dos exuberantes seios da mulher encimados por seus olhos de ovelha pudica, envoltos em véu de comiseração. Zefinha ninfa, era roliça e adelgaçada. Andava nua pelos jardins da Trácia, com pelos abundantes jorrando das virilhas como folhas de formato miúdo, que lhe associavam ao lado peludo dos sátiros. Ora era uma sílfide do Peloponeso, ora uma matrona dos banhos quentes de Tebas. E principalmente coreuta de olhos úmidos e lábios agressivos, embriagada nas Grandes Dionisíacas de Atenas. Pulando alguns capítulos da História da Arte, era citada então como uma Vênus de Boticelli. Era uma camponesa de seios à mostra e seios delicados apascentado um bode negro e lascivo, de falo grande e ereto, no Barbizon Francês. Zefa era também uma mulher burguesa com um cachorrinho no colo, cujos pescoços, da dama e do cão, estavam envoltos num delicado e caro colar de pérolas rosas. Sobre o busto nu, referência ao impressionista Manet, Zefa era um Dejeneur sur l'erbe, sem necessidade de companheiras ou de cesta de piquenique.

     ― Não acredito! ― gritou a Assistente Social Celina. ― Putaria da Grossa! Quem imaginava que esse traste velho tinha tanta imaginação diante de um xibiu! ― Lamentou-se, entregando sua verdadeira identidade a puritana filha da viúva.

     Mas aquilo fora demais para ela. Ato contínuo, Celina capotou de pernas para o ar, gemendo no chão como uma cabra no cio, possessa e assustadoramente lúbrica. O Médico franziu o cenho com uma ponta de medo, o que era raro num homem daquele. Procurou o Delegado com os olhos encrespados e acenou impondo ordem. Branco e apático, o policial civil não esboçou reação. Não tocaria naquele corpo enlouquecido por nada desse mundo. O demônio pulava de ninguém para ninguém, e poderia entrar nas velhas carnes duras dele. Por mais que mantivesse o controle em qualquer situação, aquilo se limitava às situações onde o diabo não estivesse envolvido. O Médico insistiu! Como os olhares não fossem suficientes, precisou fazer uso de sua forte voz em modo comando: “Contenham a Assistente Social!”. Sem outro remédio o Delegado Patarro cutucou o Escrivão. Não tendo jeito de descumprir ordens superiores, Waldir Amarelo, desferiu um sonoro tapa na cara mocinha caída no chão. Ato contínuo, sua mão começou a agir por vontade própria. Trejeitos efeminados surgiam dos punhos e dos pulsos, em gestos que o Escrivão lutava para dissimular. Agindo a favor da sua própria destruição como macho, exclamou com voz fina de donzela: “Meu braço não me obedece mais, Doutor!” O Delegado, vendo tal quebra de hierarquia, amparado pelo Código de Conduta da Polícia Civil, desferiu um violento soco no queixo do Amarelo Escrivão, que caiu no chão cobrindo o rosto com as mãos. Assustado, começou a chorar como uma mocinha, num tom quase de boneca de porcelana de caixa de música: “Titia, ele me bateu! Aquele monstro! Aquele monstro, Titia!”. O Delegado, contaminado pelo próprio soco que desferira, começou a vomitar todo o porco pururucado e enferrujado que devorara no festim do Coronel.

     O velho caudilho, encarcerado em "suas" algemas reforçadas, ouvia agora com deleite o espetáculo que preparara de antemão para os invasores da pirâmide do subsolo. Súbito, um vento gelado atravessou as paredes e foi recolher-se no canto da estante onde guarda-se o diário das experiências alquímicas do Coronel Agenor. A lufada de ar desfolhava e arrancava dali páginas inteiras, que levava para fora pelas pequenas aberturas da escura mansarda subterrânea. A aragem, atingindo o Delegado, prostrou-o num desmaio quase mortal, revestindo seu rosto com uma camada fina de luz verde limão e sombras profundas nas olheiras alaranjadas. ― A síndrome dos alquimistas! ― gritou o Médico alarmado. ― Envenenamento por mercúrio. Caso não seja ventilado imediatamente, seu cérebro perderá a lição e viverá como um vegetal reprovado por todos os séculos. ― Abaixou-se, e ao tocar no corpo do Delegado, tomou uma descarga de eletricidade estática acumulada ali, que o jogou num dos cantos do porão. Acomodou-se como pode, um pacote troncho, debaixo de uma mesinha que guardava ampulhetas de precisão e uma infinidade de frascos das mais variadas formas, e cores inimagináveis. O Tenente, último sobrevivente da tropa, diante do ataque das forças da trevas, hesitava entre fugir o mais rápido possível, chamar reforços, ou tentar intervir para fazer parar aquela mostra do poder maligno. Quase instintivamente, sem saber ao certo o que fazia, guiado apenas pela sua própria natureza de soldado, meteu a mão no coldre, sacou a pistola e fez fogo três vezes para o teto. Com o impacto, uma bala deslocou milimetricamente uma trave, que se soltou e, atingindo-o na cabeça, levou-o à lona.

     O vento crescia e se transformava num odor de enxofre insuportável. Pútrido, revirava todo o subterrâneo de pernas para o ar. Instrumentos, livros, quadros, tintas, todo o ferramental alquímico plástico do Coronel se agitava como um imenso carrossel fantasmagórico. Mas, ao invés de girar, a maldição tremia sobre si mesma. Novamente, da sala de cima, ouviu-se a rascante risada do Coronel. Que, uma vez sozinho, se utilizara de um velho troque circense aprendido com um contorcionista que visitara o povoado, e se livrara das algemas. Agenor girou a cadeira de rodas até a entrada do alçapão, e dali assistia embevecido em seu camarote especial, a submissão das leis dos homens às forças imponderáveis dos seus seres obscuros e imaginários. Ato contínuo, dirigiu-se à varanda para avisar os homens do Choque a gravidade do incidente ocorrido.

     No fundo do porão estavam todos os homens da Comissão, totalmente embriagados. Tiravam a sorte para decidir quem seria o primeiro a possuir a Celeste Cabaço. A putinha já tinha a blusa aberta, uma perna apoiada no banco das alquimias e um baita de peitão rosado para fora do seu califom barato. Fazia esgares sensuais, aguardando que a pequena turba, em fila, se prontificasse a começar o festim. Anos mais tarde, o Coronel sempre exagerado, contaria, cheio de orgulho, que de fato a funcionária pública naquele momento foi encontrada completamente nua e em plena ação, maculando o caráter ilibado da personagem melíflua. E, ao contrário do que os homens da Comissão tentaram fazer crer às autoridades durante o inquérito administrativo instaurado para apurar o caso, o cenário onde tudo ocorrera fora apenas um porão vazio e úmido, sem qualquer apelo romântico. Um descalabro arquitetônico com suas poeiras e trastes inúteis. Quando o Médico e seus subordinados falaram em seus depoimentos sobre pintura eróticas e instrumental alquímico, foram tratados, eles sim, como loucos por embriaguez. Mais uma vez, o Coronel Agenor Ferreira Furtado de Freitas provara que seus poderes sobre aqueles longes não tinham limites.
     Conservo o cigarro na boca. As pontas das unhas na minha carne, ao menos uma vez por semana. No máximo, não é pouco. Amor, como você me deixou sem esmalte! Como você costuma não me ver! Amor, como você, que é meu senhor e me quer mais e mais! Amor, amor, me espera na roleta, na roda gigante, no carrossel. O parque de diversões traz sensações de agulha entrando pela garganta. O navio dos marinheiros gregos no cais da praia ao lado. O que ele realmente queria era que eu girasse e ficasse tonta de uma vez, bêbado, só de olhar para os cavalos subindo e descendo. Ali mesmo, rodando sem sair do lugar, presa no cavalo do carrossel. E partiu fugido, no mesmo dia do passeio no parque. No dia seguinte da cachaçada no bar do porto. Sem me dar o dinheiro dos seus altos salários, que alegava pelas travessias de todos os oceanos. Em casa, tinha insônia e esperanças originárias da sua volta. Uma aposentadoria no benefício da putas, fiéis aos marinheiros. Quando eu morrer você vai para uma casa de caridade em Paraty, Darling! Já está tudo pronto com meu advogado, ele disse com sua boca de torta de morango. Menina pronta para casar, ninguém para casar. O marinheiro não foi com a minha cara, eu entendi logo. Ou se foi, foi embora logo. Nem sei se ele contou a verdade para mim. Se era grego ou argentino. Todos eles falam a mesmo língua, todos iguais. Uma língua de serpente que ninguém entende. Ou o que ele disse ― que me amava ― era uma piada de mau gosto, comum lá na terra deles. Não, não era verdade. Eu sabia que não, mas ele gostava de mim. Não gostava de todos os lados. Algumas partes tortas e quebradiças, ficavam de fora. Principalmente quando eu tinha que ficar de bruços na chuva. Na garagem, no armário, nas sextas-feiras de despacho, após devorar a fatia de pizza. Era que sobrava, na última hora da madrugada. Mas era ótimo ouvir aquilo, idiota! A estrela da manhã nascia primeiro entre os meus seios. Às nove, a cidade grande estava toda cheia de pavios de bombas prontas para explodir a qualquer momento. E espinhos por todo lado, para onde se tentasse fugir. Tudo a ponto de acabar de uma vez, de uma hora para outra. Tudo amarrado com barbante velho, puído. As vidas frouxas, as vidraças sujas, as palavras chochas. Os ônibus especiais, cheios de frio nostálgicos. Os seios de plástico da concorrência desleal. Com o acessório de um pau para quem não se contentava só com o trivial simples necessário. Na porta da igreja um menino nu e faminto diante do ouro do infinito fundo dos altares. Morto o Deus deles, o inverno voltara. E o menino permanecia ali. Usava sua fome como roupa.

     E provava sem sombra de dúvidas que a sua ressurreição estava próxima, assim que morresse sua morte do excluído. Como uma das meninas do meu cardume de piranhas à moda antiga, eu também fui excluída de ser reverenciada num local reservado. Um especial local só para mim, do tipo altar erguido do chão para um ser humano como eu, apenas que distinguido de mim. Me mantinha anônima, incógnita, anacrônica. Reservada musa para os adoradores do meu culto perverso. Isso não estava claro agora ― depois de tantos anos de ilusão ― quem batia, quem apanhava. Mas, de maneira geral, eu apanhava. Eu continuava a esperar por essa resposta, que agora eu mesma me dou. O que isso era, era para sempre e nunca iria deixar de acontecer. O que para mim se tornava até perigoso. Viver depois dessas duas décadas de medo, tomando porrada como uma profissional do ringue. Quando os deuses se tornam violentos são dados a crises de vômitos. Lanças na mão, os versos saíam de sua boca como poemas bem feitos. Até em francês, que eu não compreendia. Meus lábios caíam observando estúpidos. Minha mudez avermelhada. Envergonhada pelas marcas do chicote. Seu desejo era desenhado em lanhos acentuados, poéticos. Na capa do livro, estamparia uma foto com uma expressão de imbecilidade e raiva. Eu era uma idiota, e lamentava a vida. Minha saúde caía e descia devagar. Ele observava a virilha sem depilação. Depois cantarolava baixinho, un poemito, se vangloriando da velocidade com que compunha a debochada peça. E me valorizando por não ter raspado os pelos, que eram dele. E era o que ele mais amava em mim! Ele gostava de me ver pelada, peluda. Suas mãos voavam por cima e por dentro de mim, e depois desapareciam. Colocava o pau grande e quente para dentro da minha garganta, o mais dentro possível. Me olhava com aquilo dentro entre os dentes, e sorria amplo. Meus lábios alagados e eu engolia. O prazer lubrificado descia com dificuldade. Me imaginava uma velha madona desdentada, com seu séquito de anjos e homens corpulentos à espera. Mastigava aquele mingau de hóstias, sem a criança no colo. Depois abria a boca e mostrava as pequenas lesmas brancas que sobravam nas gengivas. Deslizavam para todo lado pela minha língua. Abria e fechava os lábios, e exibia no viciado vão vazio aqueles viscos esbranquiçados. Ajudam a recuperar minha memória.

     À meia-noite, à meia-luz, na sombra verde dos pirilampos elétricos do aquário, ardem meus olhos. Mesmo sem ver nada, imagino que daquelas sereias brancas, esterilizadas, límpidas, fulgurantes, brotam libélulas marinhas, vermelhas como helicópteros. Bétulas, velhas féculas, algas flácidas, bolotas de carvalho de veludo azul marinho. Acéfalas, inexplicáveis paisagens submarinas. O cavalo marinho dança ali agora, eu imagino. Pequenos amarílis roxos nascendo da narina esquerda do peixe palhaço. Ele descansa as nadadeiras, com as mãos nas cinturas, exausto do seu número no circo. O vestido de chita verde perereca, meio curto quase mostrando a periquita cheia. Porque o vestido era da prima mais menor. O novo estilo mais moderno dos retirantes. Lembro de um mote cantado ― Ô, rios de terra seca! Ô, gente de vidas seca! Aqueles rostos picados de varíola, como cera velha de casa de abelha. O início do terceiro verão, o estio sem água. O espetáculo da desolação dentro do moinho destroçado, dentro de mim. A mente da Madrinha construía as imagens. Memórias tão pequenas, finas de um tão raro lavor. Panos coloridos que não me esqueço. Ah! Porque eu me dava por dinheiro para os retirantes, era isso. Isso é verdade! Pra que ter vergonha, uma prexeca tão pequena, tam novinha, era crime? Ah, uma aquela fila enorme de homem. Com fome caindo de quase mortos. Pagavam com uma raiz arrancada de roubo em algum lugar. E matavam uma outra fome que pudesse lhes dar uma alegriazinha. Ah, era crime? Só se bebia um pouco antes de morrer. Madrinha não achava. Nós comia. Mas isso era impossível, eu daquele jeito tão nova! Então eles, quando brotava algum dinheiro de quem tinha vendido uma rês quase morta, jogava na minha bolsa. Eu me vestia de santa e me sentia novamente viva. Devolvendo vida. Nós duas, arrependida e humana. Como nunca, só porque era capaz de pecado! Olerê! Aquela labuta velha da vida. E ainda tinha a madures de cobrar por ele. Ôxe, já era alguém então, nós, caráio!

     Uma perdida, duas, mas era demais. Delegado podia nos prender. Prostituição de criança era crime! Mas tudo tinha começado muito antes, com o padre. O senhor do pecado. Ele nos fazia pecar e depois absolvia. Era um santo completo. Foi na sacristia da igreja que me tornei prostituta infantil. E não recebia nada. Agora eu tinha um chamamento por dentro, um olhar atravessado, viezado, sem ver. E um ódio só meu. Só guardado por mim, mas que todo mundo via. E eu não precisava mais de me casar com o filha da puta do padre. Que me batia e me enfiava o dedo no cu. E que tinha me prometido que nunca ia casar com menina nenhuma, só pra ser meu pro resto da vida. Enfiava e me batia com o mesmo dedo do anel de noivado, com o Cristo Nosso Senhor dele. Sempre acertava meu cu, e sempre a porrada na minha boca. Se lhe cobrava a promessa, apanhava mais ainda. Pelas chagas, me ensinava o sofrimento igualzinho. E me satanizava e me sacaneava o mais que podia todos os dias. O que ele mais gostava era de enfiar os três dedos em mim, de uma vez só no meu buraco mais apertado. Os medicamentos sagrados, como ele dizia, que escondia no altar da sua mão. Ao invés de pão, vinho e do Espírito Santo ― que descia sobre as coisas pelo sangue do rapaz judeu que foi o Filho de Deus ― ele me agarrava por trás. Sempre foi isso, traiçoeiro, e enfiava com força na minha bunda até sair sangue. Ele também juntava uma poeira sinistra, varrida do chão, que jogava no meu rosto. E cobria os meus olhos irritados e cegos, pra eles ficarem fechados e não mostrarem sua feiura cinzenta, bolorosa na sua frente. O vinho, o pão, o Espírito Santo descendo sobre as minha coisas novas, na hora da substância. Sexo feito à força, socado e batido, quando ele me examinava para ver se eu já estava vertendo sangue. A duração infinita daqueles pequenos milagres baratos! Me ameaçava com manifestos, malefícios de deserdamentos. Por um longo tempo me mantinha ajoelhada na sacristia, até o sangue parar de escorrer de mim. A bunda empinada para cima como ele mandava. Me contemplava em silêncio, esperando o tempo de sair para a outra paróquia. Falava pouco. Era instruído, simplesmente perverso e inflexível. Suas humilhações afetavam calúnias e sobre os meus próximos. “A tia cafetina! Quem paga é você! Putinha nova, pelo mesmo caminho!” Chegava perto da minha orelha no confessionário. Ninguém iria acreditar na sobrinha de uma puta velha! Cega, burra e gostosinha, deixa eu ver tua bunda, ele ria. Me penetrava primeiro com uma falsa hóstia, sem validade de verdade. Para afastar o pecado, que eu lhe trazia no confessionário. Eu era a culpada do demônio vir visitá-lo ali. E depois o seu falo vermelho e já um pouco velho me purificaria das minhas imundícies. O casamento com ele, sim, na minha vida de putinha novinha, seria para mim uma água-viva. Sim, um dia eu seria uma puta religiosa, mas com pecados poucos ainda. E que só se limpariam na outra vida.

     Desde aquela época, eu já gostava do seu vinho ralo. E do seu leite quente que derramava na minha boca, enquanto me penetrava com a falsa hóstia seca de um bico de pão dormido. Me machucava com os seus dedos duros e brutos, e de unhas grandes. Me obrigava às vezes a ficar de quatro diante da parafina sem cheiro das velas, com a periquita arrebitada para cima. E então, aproveitava os bastões de fogo ainda acesos e me queimava ali com eles, gota a gota. Me virava de frente e com o falo dentro de mim, com uma vela acesa chamuscava meus pentelhos. Os meus seios seriam benditos! O prazer dos padres perversos que estupram crianças órfãs, com a conivência dos seus tutores! Oh Senhor, o que fizeram da tua igreja! Antro de psicopatas. Lugar das perfeitas núpcias sagradas que o diabo sempre imaginou com perfeição. Por detrás das pesadas cortinas das catedrais de Constantino, praticam, para o demônio, a pedagogia do medo profundo no interior dos corpos fracos e famintos. O falso deus deles, e da sua igreja falsa, resolverá tudo. Todos os nossos buracos, todos os nossos problemas. E o que não era impossível, podia ser resolvido pela fé. Senão, os seus capangas armados resolveriam na bala. Bartolomeu Floro! Eu conheci pessoalmente. Me garantiu: eu viveria sem medo, em família, num cotidiano do bem e adorável com Deus. Era só aceitar e me submeter. Depois ficava ali a catar as partículas perdidas dentro do meu corpo. E a mastigá-las para aproveitar o cheiro e o gosto da minha buceta, da minha bunda e da minha alma. Ele me alertava! Que não as deixasse cair no chão, eram o corpo do Nosso Salvador, cravado profundo em minha carne. Aguardava a minha transfiguração. Isso, eu acreditava mesmo, me purificava. Mitigava a minha desonra humana de sobrinha da cafetina, puta velha. Quando me entregava ao meu sacerdote divino, como sua vítima propiciatória, as portas dos vizinho sempre se fechavam. Jamais se apresentavam testemunhas quando ele executava seu ritual. E as janelas eram tão próximas, quase dentro da sacristia! Todos sabiam! E voltavam para a missa de Domingo. Os véus brancos caídos sobre os seus rostos magros de mentiras. Deviam saber de antemão, a semana toda, o que estava acontecendo ali. Há anos naquelas horas mortas, de calmaria e procissões ocultas. As velas acesas, quando o pároco fechava as janelas para não ser interrompido em sua catequese junto às crianças órfãs, uma por vez.

     A vizinha carola, papa-hóstias da Irmandade do Crucifixo, do Terço da Virgem, das Mantenedoras da Sacristia, deveria sempre manter os olhos secretos. Enrugava as pálpebras sozinha no espelho, aplainava as rugas e evitava o enfrentamento das consequências de uma denúncia terrível. Temia a peste das vestes purpúreas, e do cinzento fumo cerimonial. Tudo aquilo começava nos lanhos das suas unhas nas minhas coxas, e nos rasgos das minhas calcinhas de cores insuspeitadas, vistosas e infantis. As mãos vazias de armas, para me ameaçar, brandiam apenas a lei do Deus enfumaçado. E o padre fumava com calma longos cigarros brancos como velas, depois dos estupros. A cena deformada para as vistas alheias, filtrada pela cortina nacarada e diáfana. A Madrinha esperava o fim da catequese, sentadinha do lado de fora da sacristia, no átrio sepulcral. As relações com Deus deveriam ser veladas. No fim da espera, as portas do infernos abertas de par em par, ele elogia minha aplicação. Vislumbrava um futuro na igreja para a menina. A Madrinha era recebida com um embrulhinho de linguiça de porco e um cálice vivo de porto licoroso. O cura depositava a muamba na sua mão, junto com as moedas que tomava emprestado da caixa de esmolas. Compre umas balinhas para essa criança, para ela nunca se esquecer do padre e da sua vocação de se tornar religiosa. Madrinha, cafetina e sacerdotisa do mal! Enquanto ele me dava a lição do seu próprio cálice, era o meu corpo uma carne a mais a ser renovada cada vez. Ressuscitada em toda catequese onde ele podia sempre ter o inevitável que quisesse. O que eu não escolhia era repetido uma vez por semana, na quebra da madrugada, quando chegávamos na casa paroquial para as matinas das sextas. Linguiças e moedas para o sábado. Vinham outras meninas, junto com o vento que empurrava a poeira e as criaturas para o abismo da sua salvação. No coro, cantávamos alegres como serpentes ultrajadas de línguas de três pontas. As notas saíam com seus venenos embebidos em pecados. Depois as carolas nos orientavam. Mesmo que ele faça alguma coisa errada com vocês, nunca abram a boca para falar mal do padre. O erro é humano, e ele é um santo homem! A Madrinha pedia à mulher que organizava a agenda do cura, para que eu ficasse voltasse mais dias ali na preparação do coro. Reclusa, seria bom para mim e o ideal para ela. Me alimentaria melhor, meditando em meus pecados. Três dias, suando amofinada e morta de medo, enfiada la dentro, esperando por ele na geladeira do quarto de pedra úmida, lá onde le me brutalizava.

     Depois, passadas algumas quaresmas, eu já taludinha, Madrinha me servia em casa ao seu convidado de honra. Oferecia-lhe sopa de caranguejos no dia do acerto de contas das minhas pernas. Sentada no sofá da sala, ela adivinhava a poça de vinho quente no meu ventre. Seria sorvida estendida sobre a mesa do sacrifício. Ela sorria em silêncio, jogando nos ombros o pano de prato amarelo da vergonha com que limpava a mesa para o café do padre. E saía para a cozinha, fritar umas mandioquinhas que não faltavam nunca. Como ele gostava! Uma pequena mesa no canto do cômodo sem janelas. Eu ia sendo lambida, sorvida aos grandes goles junto a bebida gelada. Eu era um grande assado vivo e nu. E grotesca, em vez da maçã enfiada entre os dentes, um tufo de cabelos negros jorrando da minha bucetinha já de adolescente. A grande bunda avermelhada, que crescia a cada dia para seu deleite, era babada pela barba do Basbaque Monsenhor. Terminado o repasto, esperava tranquilo sentado na poltrona da sala, para que me vestissem e me levassem à missa dele. Dormitava um pouco, pestanejando exausto pela madrugada de ladainhas, recobrando forças para uma nova liturgia com a carne das meninas. Um peixe balofo e sinistro no aquário da esmirrada poltrona forrada de chitão vermelho, cheia de lanhos velhos. Por todos os lados portas abertas. Por todos os órgãos, portas de memória. Em todos os momentos, vãos que se abrem cheios de pensamentos. Sou eu que preciso abri-las. E fechá-las num instante de outubro ou do outono, ou noutro. Depois, as deixo entreabertas. Me proíbo de dominá-las definitivamente. Quero viver para sempre, me envolvo em especiarias. Quero me eternizar em cera clara. No silêncio, estarão minhas cinzas brancas junto com as fezes da última hora. Olor de muitos ontens, guardados com os lençóis intocados na gaveta. O cetim do cisne fêmea, que voou com a asa quebrada de telhado em telhado, de cama em cama, ausente de si. Esboço um batom antes de sacudir o suor das penas das pernas para outro voo. Os olhos de pequenas pérolas vermelhas tiritando contra os lábios da estátua de mármore morto. Sentada, suando frio, os pés salgados e sujos. Não consigo parar de rir de nervosa. Faço o que não amo, o pão do amor recheado de medo. As flores enferrujadas crescem. Arranha na garganta a gaveta. Ele atira bombons desembrulhados pelo meu corpo todo, os papeis se desdobram nos lençóis, e nós com fome todo dia. Se não fodo não como. As mulheres de família, fodem e comem, as despensas sempre cheias. Algumas não recebem direito, e as despensas ficam quase vazias. Outras são mortas, como nós. Qual a diferença? Somos iguaizinhas! Mas nós podemos escolher o pinta. Elas, são obrigadas a abrir as pernas para o mesmo cara. E se não abrem? O Juiz desfaz o casamento. Até que a morte nos separe, desde que você foda direitinho toda noite, e a noite toda! A sombra de um homem verde na cama.

     A imagem completa dos pássaros magros que enfeitam a caatinga na seca. Cena de lençóis amassados sobre o fundo infinito das cortinas de sacaria gasta, no calor do fogo. A única coisa que tínhamos era o fogo, quente de matar. A caixa de sabão está fora da pia, eu não sei o que quero. Eu não o vejo na sala, mas ouço minha urina com meus olhos. Nós faríamos abortar o que não produzíamos. Nossas almas mortas, saltariam lá de dentro, das nossas esperas intocadas. As virgens vazias de pecados, viveriam idolatradas nas esquinas. Lá onde moro corrompida noites a fio. Debaixo de marquises esperando sempre ser erguida como estátua, ser levada aos céus pelos anjos da companhia estadual de elevadores do padre. A mão cai sobre a memória da filha morta. O beija-flor azul da dor, molhado beijo enorme e quente na imagem de alguém que se perdeu. O olhar vazio com gosto de velório, cheio de amor, isso é ser mulher! Ser carne circense, pequena princesa, cabeluda e anã, a contorcionista. Lamento apenas a falta de ter tido uma família. Na falta de escolhas, meu desespero é o desprezo. E depois chorei, estupefata, aquela noite finalmente decifrando a chuva pelas gotas nas minhas mãos preparada para pular do parapeito da janela. Não quis ficar toda molhada lá embaixo. Florzinha miúda, pensando numas merdas dentro dos vidros da sua estufa de cristal barato. Não pensar, não pensar, não pensar! A batida do ferro do pássaro dos dias moldando minha alma para a cidade nova. Em novos riscos de desequilíbrios destorcidos. Do chão e da terra, todos olhavam para o alto do palanque. Mamãe varrendo a cabana de palha de barro branco, baixava os olhos. Não queria ver nem ouvir. O vereador discursando em seu carro vermelho, na manhã conversível. Tudo pertencia a ele, tudo ele patrocinava, tudo ele podia resolver. Depois de eleito, fugia das pessoas cheias de bicheiras fedorentas. Eu oferecia de minha parte o papel principal para o espetáculo da cidade: o número da cega equilibrista. Eu estava à venda. Vendada na porta do armazém, e vestida de vual: a bailarina romântica. Mas não abri as pernas naquele passo que me faria valer o prêmio de erótica do ano. A cidade pronta para voltar para as minhas mãos, se eu quisesse. As minhas cadeiras se equilibrando para não cair, lá de cima do fio. Então me abandonei no ônibus para o Rio, sem eira nem beira. Sem trincheira contornando o riacho. Eu seria uma sereia na areia. Tínhamos feito umas fumaças de cigarro. Muitas vezes removia de novo a palha e as cinzas de entre os dentes. A brancura açucarada das minha coxas detrás de vidros de compotas. Se revoltava, porque minha imaginação era fértil e eu tinha a certeza de que formavam flores perfeitas, as minhas varizes. Artes plásticas de gordura na sombra de um pessegueiro maduro. Silhuetas de pássaros nocivos, raivosos, metidos entre os desenhos das cerejas. Miúdas, iridescentes, flores, flores, flores de flores. Como eu, Elvira, Flor das Flores.

     Elvira, grito! Mas minhas lágrimas não. E se derramam grudadas em sufocos, por todos esses lamentos. Intenso espelho de cega. Minha carne está morrendo de fome de luz. Chorei na sala, arqueada de sombras, aquela manhã. Respirava o perfume do buquê com mãos de gesso. Meus ossos, o rosto de amarelo pálido. Morrer de vontade de partir todo dia, nervosa, funesta. Umidade brilhante das flores dos brincos, entrelaçadas no suor. Pendurada em ganchos, por minhas orelhas, eu estou pronta. O carnaval dessa noite será com um rosto magro, fotogênico, imagino. Brilhando que nem fotografia de revista, imagino. Pagou adiantado, quando contratou o barco. Fazia uma espécie de donativo para a firma. Não gostava de acertar contas com uma mulher depois. Aquilo estragava tudo. Eram famosas as suas transações comerciais por debaixo do pano. Um gringo que trouxeram do cais para me conhecer, a novata. Alguém olhou e me disse quando me viu, que o gringo parecia comigo. Só faltava essa para você, Elvira! Vocês parecem irmão. Pensei, não sei. Acho que isso é loucura, mas eu não posso provar. Eu só conhecia o cheiro do chão e o anonimato do barro, debaixo do amianto fechado da fornalha dos telhados. Ninguém notava, pelo meu silêncio, que era eu que estava ali dentro. Eu! Eu! Eu que fui escolhida como deusa para os teus gemidos. Agora o outro cabra com cara de galã de revista veio criticar o meu cabelo. Crinas vermelhas de vento, de tanto correr por aí. Podia ajeitar um pouco, um permanentezinho! Não desespero, eu também me faço parar de chorar, quando quero. E não vou inventar um novo rosto, que apodrece devagar, cochilando quietinha no canto do chão da cozinha. A poeira dos teus sapatos, anda diante do meu rosto, toda encolhida no tapetinho de plástico. Esse engano, esse veneno, me revirando de bruços sem conseguir dormir por toda a noite. Uma curta respiração antes da madrugada. Ele viaja do quinto andar para cá, para vir me encontrar nua, ainda viva. Estatelada no carpete, um sorriso fino. Um segundo andar igual aos outros, só que com a porta destrancada. Quando ele passava pela porta adentro, depois eu pedia a comida no restaurante. Comida de gente, não aquela lavagem de porco da caatinga que eu comia, se eu estivesse com sorte. Sempre viva, seminua, eu aguava e segurava as águas. E depois corriam as éguas, a noite toda, e as anáguas: como no sexto dia da criação do universo. No chuveiro, os abismos do dilúvio caíam com dureza no plenilúnio.

     Uma tristeza profunda de bestas como nunca mais se sentiu no mundo, esta manhã. Eu me vi com essas asas abertas e pousada ao sol, para me enxugar. Possuída nas margens da vida por uma estranha beleza. Algo que voou de você. Depois voltou e de novo se depositou em mim, como insistentes versos que se repetem. No dia seguinte, de novo, penduradas no gancho vazio do roupão no banheiro, as mesmas velhas canções de ninar a tua volta. Quando me banho, escuto ainda a trágica serenata da tua partida. A bagunça que você provoca, no altar dos meus deuses. Derruba tudo que encontra pela frente. Teu vulto gigantesco de sonhos, ocupa o lugar vazio de uma árvore, de uma pedra, de uma flauta. De uma montanha levada pelo ar. Caiu a flor breve do campo. A poeira atrai chuvas de giz, meus dedos riscam os raios, me arriscando. E corro feito rios ao contrário. Caminhos ásperos, suspensos, que espero sentada nas pedras da beira do córgo seco, com lágrimas no vento sem som. Detrás do vidro dos olhos, descubro agora a imagem do sangue que corre do rosto dos santos de barro. A tinta falsa dos meus dias de perfeição. Toda a máscara do mundo, desce da minha face. Os anéis de ouro do Monsenhor, se destacam. Os dedos grossos desvairados de vaidades, varavam a noite, me dominado com perguntas sem respostas. Eu acordo ali pelo meio do inferno, e reencontro o escuro do quarto. Antes do que você pensa, se você quer mesmo fazer a travessia. Agora, Dolores, você tem que correr todos os riscos! A estrada de ferro, depois o ônibus pela mata, de novo o trem debaixo de uma indescritível lua, que me contam.

     Eu escuto sua luz branca e áspera jogada no meu braço. A passageira luta comigo para não dormir e diz. ― Descobri! És aquela a mulher na jaula do circo! Mais uma louca pra dizer quem eu sou. No ônibus, sem sono, roupa laranja e azul. e os olhos de quem dorme em pântanos. Queimei meu rosto no sol da manhã, jogando as faces de lado pela janela do ônibus. A minha fisionomia se iluminou e Lourdes escuta: “Hoje, sinto a minha pele lisa, ontem era um despropósito de gordura, de fritar o porco para ele.” Agora, maquiada para o que der e vier, não é mais como aquele mesmo dia antigo. Quando tive de fugir da primeira vez, para não ser morta por apedrejamento. Tenho peças íntimas de carne crua, avermelhadas. Os que ontem conspiraram contra mim, combinam hoje comigo. Escolho a cor do vestido que ia vestir naquelas tardes, depois noites em claro com eles. Aprecio os corações curvos, mas que sejam curvos de verdade. Perfeitamente curvos, e para sempre! Ele me recebeu como quem cospe um caroço amargo para lá. E depois se adocicou dentro do meu corpo, com o fruto do que eu construí no coração dele. Fui frenética, viva, vulgar, devagar. Vagamente neblina, estive em cada lugar! ali já não havia sangue, nem ossos, apenas algum sonho velho de quem já não dormia, a ranger pela cidade. Eu saí sem comer nada! Um saco de biscoitos, escalda pés de suor na sujeira debaixo do banco. O joio, não o trigo, até agora. As várias faces que não vejo, cheiram forte a essa hora da viagem. Imagino todas elas sujas, me surgem na imaginação com a força das artes das sombras. Os detalhes indesejados recortam perfis tortos nos corpos das crianças. Apesar da fome escondida, a passageira na cadeira ao lado sente o cheiro das minhas frutas cristalizadas. Último presente da Porca Madrinha, para a precaução da matula da viagem. Restos de Natais passados, guardados no móvel de cupins da sala. O marinheiro-eleito voltaria por aqueles novos dias de mormaço e calmaria. O canalha rico de promessas se esticando de beijos no sol. Eu nem me lembro mais direito disso, se já fui amada por alguém. Minhas dolorosas costelas, as costas, o amor de gritos. O velho punhal de estimação atravessado de orelha a orelha. Quando eu nasci me deram festas, e essa faca de presente. E em tudo que vivo, e que não vejo diretamente, ela está sempre fincada, aparecendo por lá. Me inspiro em mim mesma para sofrer sem perfume. Poderia até sentir um rio de perfume gelado, grudado no corpo. E acabo qualquer dia cheirando mal. Tínhamos e continuamos a ter, a fé inabalável de sempre. E o hábito de lutar! Lutar para subir mais alto. Tão alto e tão estonteante, quase até os pés sumindo nas nuvens. Mais alto que o meu tão alto pequeno seio. Mas não se aborreça mais com tanta amplidão, por minha culpa. E com a tanta demora para se chegar ao céu. Chapéu de dobras cor de abóbora como me dizem. Olha que todos os meus dentes foram quebrados! Agora só me resta lidar com as carnes das gengivas, e com as dentaduras bambas. Sem confetes, eu tomo um sorvete seco e escrevo a forma detalhada daqueles dias. Esse poema, esse diário à força que faço, sempre quando ouço o galo gritar. Comecei quando sentávamos abraçados diante da meia de lua da pizza fria que sempre sobrava de ontem. A geladeira que você não consertou. Vinha rir, e reclamar de mim. Mas podíamos ir, se eu quisesse, de preferência, aonde ele quisesse. Onde somos santos e não éramos reconhecidos pelas fotos espalhadas nos armazéns da caatinga. Dois loucos, letradíssimos, cultíssimos, viajadíssimos e armados até os dentes. Dominávamos umas línguas tristes de um mundo do futuro. E mesmo assim seria difícil para todos, e principalmente para nós, mudar o que o povo esperava que continuasse do mesmo jeito. O que esperavam era que o mundo sempre mudasse para o pior. Mas conseguíamos algumas vitórias. Insuflávamos camponeses mais bem informados, que nos compreendiam. A verdade é que escolhíamos a dedo, depois de longas reuniões, onde entrar para sermos idolatrado por seguidores também desdentados. E então revelavam a falta de coragem para se deixar trucidar e morrer. Compreensível. O que não é compreensível é o fato de conseguir lutar até o fim como alguns lutaram ― e o calvário daquela menina que morreu sem os seios, mas não abriu a boca. O que eles queriam era o nome do seu amor. Nome que ela disse durante a vida. E que levou guardado consigo para a sua morte.

     Mas soubemos atravessar as linhas, as crises, a tontura, as torturas. Às vezes, eu pintava os cabelos com o sol. Confesso, raspava o musgo azulado das virilhas e curetava com beijos doces o velho útero de cacimba ressecada. Meu coração de terra, produtor de gente, nordestino. Depois, a verdade é que ele foi o único homem que me fez completamente mal. Antes, éramos felizes em qualquer lugar. Em pé, no banheiro, em todo lugar. Naqueles dias podiam costurar também meus olhos, além de cegá-los. Uma capa de saibro ressecada envolvia todo o corpo. E pisoteavam as carnes, para beber uma sangria doce que surgia da minha alma em silêncio. Tudo era o amor naqueles dias. A tortura dos companheiros, depois da minha, e a morte e a derrota que pressentíamos. Os olhos de vento diante do sertão quebrantado, nua no espelho cego. Meu amigo Zeca, nu, pendurado e ensanguentado. Mas o que era evidente era que ninguém falava na falta de felicidade. Merda! Eu penso, devagar, mas penso. Devagar. Devagar! Devagar! Acho que vou procurar alguma coisa para comer, qualquer coisa. E andar na praia de saiote vinho, esperando as naus da volta, com os porões cheios de homens embriagados, ao invés de negros enforcados com ferros. A caneta provavelmente atualizaria a cor dos meus cabelos para louros, contrastando contra a areia revirada, tomada pelo vento. Eu não choro porque não vejo os teus olhos, choro quando penso em olhar para os teus olhos, se tivesse olhos. Talvez fosse melhor não vê-los nunca ― você, que me deixou aqui sozinha na cozinha, quando voltamos do baile dos cegos. Teus olhos que eu não vejo e que ficam grudados no café, no pão, nas portas, quando você se afasta de mim. Preciso de um cigarro e um revólver! Rever o resultado dos dados jogado por mim, com as mãos à toa. Vem, eu não bloqueio de cera os ouvidos. Pode me gritar! Nem fecho com algodão as minhas narinas ainda. Eu suporto e vivo o odor nauseabundo e masculino dos dias. Da alegria antecipada das flores dos ciprestes da morte, que não dão flores. E que na caatinga são de pura palha de carnaubeira braba. Velamos os mortos com os sons cheios das iaras, que um dia estarão cansadas dos meus chamados. Não! Eu não vou empestear a sala com a nova tinta para a raiz velha dos cabelos louro médio, molhados de mar. O branco dos barcos, das areias precoces da maré baixa dos meus quarenta anos. Bem apanhados ― de resfriados!

     Agora empurro a vida, ajudando com as mãos lá para dentro. O vômito da cachaça forte que eu quase não bebo, volta contra a pia. A julgar pela aparência das unhas, das carnes, das tripas, espero por ele no fundo do quarto sem luz. Vez por outra, a fumaça e o som afiado dos fios queimando carnes. Corpos nus que já tinham se tornado espantalhos, chegam até mim. Cheiro de carniça viva, em nosso macabro ninho de amor. Nada, apenas corpos se debatendo para sustentar suas mentiras. Apenas corpos se debatendo ao vento, um espetáculo que vai do horrível ao trágico. Os voyeurs da equipe de tortura, médicos e militares aprendizes, visitantes do empresariado, do agro negócio, do mercado de capitais, que investiam dinheiro na repressão. Outros companheiros, condenados a assistir o suplício dos outros companheiros. Informantes sádicos, sem ter o que fazer nas noites de sextas, iam ali para assistir tascar o balão, como eles diziam sorrindo com esgares malignos. Todos presenciavam a aplicação dos métodos homogêneos, desenvolvidos e distribuídos pelas Escolas Unificadas do Continente. Ministravam aulas de sofrimento individual e em grupo, em outro lugar do pavilhão. Os mortos vivos esperavam a sua vez diante de uma janela de ensino. À prova de som, não tinham acesso às informações frescas. Não se beneficiavam das palavras e dos gritos recém colhidos. Ontem, a posição da mulher era bastante incômoda. E eles demoraram mais do que o normal, para pôr fim ao seu silêncio com um tiro de pistola. Diziam que era muito trabalho, porque parecia que não conheciam o idioma em que chegavam enrolados os nomes embutidos nos seus murmúrios quase no fim da dor.

     Nós, da cozinha, vivíamos com medo. E você, Gonzáles, podia controlar o nosso medo através de muito mais medo. Marcados em minhas narinas, eu também posso me lembrar do cheiro mórbido do teu cinto, engordurado e gasto. E da frieza da tua arma na minha boca. A angústia das tuas insígnias de animal enlouquecido. No fim, já sem faro, eu me tornei aquela cadela louca de rua, lambendo as tuas botas, quando você exigia. No calor do desrespeito, a tua cachorra assustada e submissa abanava o rabo. E que ficasse alerta, acima de tudo quando você ficava em silêncio. Enquanto me enchia novamente a cara com porradas. Sei o teu nome, Gonzáles. Conheci teu pai desconhecido. Me amamentei na tua mãe, morta de parto. Ou de faca, talvez, tanto faz. Mas certamente morta pelo teu pai enfurecido. Na classificação das gentes, a tua finada mãe é aquela que sempre dá um passo em falso. Aquela, que na sua juventude, o pai a colocou num convento, para que a criança, gerada por ele, não nascesse à luz do dia. E um sujeito oculto logo depois desapareceu com ela. E você, você, meu filho desconhecido, que tiraram de mim desde muito cedo. Terá matado muitas pessoas por aí? Com as próprias mãos? Com as próprias botas, se precisasse? Porque foi treinado para matar e espancar. Não, isso não, não precisa se justificar, eu sei que você foi treinado para trucidar. Foi treinado para bater e rebater, e continuar até à hora que se decidam a te servir. Tens a engenharia humana específica, que te forneceram para o serviço especial ao lado do Major Gonzáles. Você, oficial subalterno, o homem certo no lugar certo. O homem que mata para o seu próprio bem e para o bem daqueles que te pagam mal. Usa perfumes caros, bebidas ricas, recebidos das mãos de adoradoras bonitas. Camisas listradas, lilases de seda, estampadas de amargura. Engomadas de silêncio para o sábado à noite. Vício! Para aquelas festas, onde você que nos faz encolher de silêncio e gemer sem música. Recebemos os choques frios do teu corpo em nosso leito aberto. Flores fracas, submissas do plantão no jardim.

     No seu quartel, ele nos fazia servi-lo sempre que sentia fome. E eu emagreço morrendo ali a cada dia. A cada vez que me dava em alimento. Definhava de medo do oficial Gonzáles. Como todas elas que estavam ali, quando invadiram nosso convento. Essas fomos nós. Exatamente assim como ele tem feito todo o povo temer. Todo o povo, do mais miúdo até aqueles que detém um pouco de poder ao seu lado. É impossível estar seguro ao lado do major Gonzáles, sem temê-lo. Todos temos o medo no corpo. E ali infalivelmente Gonzáles o cria e o instala e o revela. Descobrimos no corpo o azedume da vida, à espera da hora calma da morte. A vitória sobre a dor é para poucos, ser imune à doença universal do medo. Nós dois sabemos que não nos amamos, major Gonzáles! Obrigado pela gentileza, toma isso para comprar um perfume! Que ironia, não se deve oferecer dinheiro a uma mulher depois de ter ido para a cama com ela, querido! Uma mulher não deve se submeter a nenhum tipo de caridade, a nenhum tipo de caridade a não ser a caridade que recebemos de Deus. A caridade do homem, é para nos penetrar e apenas isso. Se for de bom coração. Senão, o que sobra é a satisfação que eles sentem quando penduram as santas nos varais das suas mortes eletrificadas. E ouvimos a pestilência de seus humores, ao perceberem o horror das freiras que tomam choques e são penetradas pela primeira vez.

     Mesas cheias de violetas definham na enfermaria. Ninguém trará flores à Elvira, Flor das Flores. Aqui, neste hospital, é o mesmo que você lutar sozinha pela vida, contra um exército. Lutar contra a minha solidão, de solteirona trintona, infectada por um aborto de casebre imundo. Me preocupam minhas recriminações criminosas, repetidas contra mim mesma. Eu não suporto a minha cara. E digo isso para mim mesma, contra o espelho que não vejo, todos os dias. A solidão religiosa da mesma face que não tenho. Todos os dias, como uma borboleta abrindo as asas e revelando sombras que não conheço. Rostos com maquiagens desinteressantes, que eu adivinho, como vocês me dizem. Você não perde nada, Elvira. Isto sim, é uma mulher na rua da amargura. A famosa marquesa, Tiririca Marquesa da Esquina da Tristeza. Com frases curtas eu deixaria um bilhete. E me enforcaria num lustre bem bonito. E aceso, é claro. Primeiro, na gelatina da morte se coagulando, eu gritaria com asco, todos os palavrões que eu conheço. Nua, na primeira marquise à direita da rua onde faço ponto em Copacabana. Ou vestida à bandoleira, ainda com a lingerie que sobrou dos dentes do velho cavaleiro medieval. Quem você seria ser, se pudesse, Dolores? Que heroína você escolheria para você mesma? De onde eu venho todos são falsos heróis, só pelo fato de serem homens. E terem sobrevivido ao minuto de murmúrio do mundo falso. Meu ressecado coração imaginário, minguando, escorrendo pelo córrego da fossa imunda. Ia encalhar nas barrigas vazias. Por isso, há algo de tão assustador assim mesmo em mim. Também lá estão, tão escondidos, os fios de lã da minha espera. Desprendidos dos lábios das navalhas vermelhas correndo dentro das minhas veias. Noturna, o terço dedilhado as vezes sem conta, que rezo em silêncio sem mexer os dedos com câimbras. Penso nisto e naquilo, e vou repensando e refazendo, e recomeçando o jogo. Sirenes, e ruas silenciosas desse jeito. Jogando as minhas duas mãos nervosas uma contra a outra, as duas arranhando contra o rosto. Solitária, raspo uma face contra a outra, as tripas verdes riscando as têmporas sedentas, batem de encontro aos ossos. O murmúrio ácido do coração em torno do azul das veias, e da imagem quente das velas brancas do velório da criança. Incelênça! Abro as asas de libélula, e voejo no meio das minhas eternas lentes escuras. As pernas largadas, meia pálpebra cansada, os olhos ensanguentados, arregalados às vezes, um som involuntário com a boca. Algo que se quebra semelhante a um coco dentro água. Como um copo que cai na pedra, como um corpo que cai dormindo. Sem querer. E só deixa o seu susto ― o que é isso que eu era antes de dormir? Ele brinca. Como se rangesse com as mãos um chicote preto de pelos, indo e voltando entre seus dedos. Percebo suas unhas trauteando contra as minhas costelas. Carrego a noite em forma de peras frescas sobre os ombros. Tomo a carruagem recém lavada, uma outra carruagem leva Mariana para longe. A dor maior, sem Mariana. Não pegava o peito, porque não. Não era a cegueira que impedia o funcionamento da vida. Já nasceu sem vontade de viver. Hoje, sem utilizar microfone, nem confetes, somente dois dedos, depois do prato principal, escrevi um pouco. O diário diferente, entre o café de dois dia. Não tinha mais medo, eu era tudo agora! No meu canteiro de rododendros, princesa dos barcos de vidro. Marinheiros só meus, como a minha vida. Embaraçados nas tranças que eu percorria nos meus cabelos agora. Todos já sabiam quem eu era! Se adivinhava isso com as narinas. A perfumada Flor das Flores – a famosa Elvira sem olhos ― chegou. Perfume de puta não deixa dúvida. Nos meus sonhos, molho tártaro sobre a eterna meia-lua de pizza no refrigerador. Descansava ali como um porco diante da sua fêmea, sem disfarces. E que me importa isso? Se ele está ali, ainda vivo, morno, com um sol desses! Desses dias em que só me chegam os clarões dos lençóis da areia seca. Dos pastos endurecidos correndo para o longe, e das carcaças se esfarinhando, como esculturas desmembradas e quebradiças.

     Que não nos trespassemos, nem às nossas sombras, com os nossos enganos. Iluminando e cegando, um ao outro! Como todos eles fazem. Que não nos engavetemos, como caixas de depósito, dentro de silêncios plataformas, um no outro esquecidos dos dois. Senão estaremos perdidos e fracos. Nus, completamente nus e solitários, como um no coração do outro, sem saber. Iremos essa noite, para onde seremos os dois, apenas um. Onde já não sobra nada de diferente de nós. Diferente de nós dois, dois territórios acesos de desvios. Mas não passaremos sem nos falar, como desconhecidos, um pelo outro. Nem em nossas antigas fotos, cheias de dúvidas, deixaremos de nos reconhecer. Nós mesmos estamos ali, a espera apenas, sem lembranças. E não saberemos mais nada sobre nós, além do que está aqui. E lá, naquelas imagens sem as margens. Ah, sim ― na rua, a barriga já está ficando um pouco flácida. Não, mas não. Nada é tão difícil como me identificar comigo mesma. De novo, novamente, mais um dia, mais uma vez. Difícil é decidir se tentaremos o impossível, sim isso é o mais difícil. Para poucos. E escolheremos quem passaremos a ser amanhã. Se passarmos por nós e não nos reconheceremos. Então outros passarão, um pelo outro, entre nós. Novos desconhecidos então, na padaria, no caixa, entre as prateleira. E estaremos prontos para continuarmos em silêncio, em direção à rua, disfarçados um do outro. Um de cada lado dos corredores do mercado. Passando um pelo outro, enquanto fazemos compras sem nos vermos. Nos veremos qualquer quinze minutos depois, e voltaremos a não nos ver. Qualquer deslize, qualquer idiota. Passaríamos despercebidos e iríamos embora, sem sairmos juntos. Sem notar nada de estranho em nós mesmos. Sem dar-nos conta da última roupa que usamos quando fomos vistos por nós mesmos, pela manhã, pela última vez. Mesmo que fôssemos totalmente estranhos, deveríamos ter voltado, e nos cumprimentarmos. Mesmo que fôssemos finalmente novos amigos. Se não há mais ninguém em quem podemos nos transformar! E ainda teríamos que ser nós mesmos, de novo. E de novo, nos veríamos como alguém, mais diferente de nós ainda. E se víssemos mais alguém do outro lado da estante das latas de conservas, como nos reconheceríamos? Como não seríamos confundido com nossos rótulos nas prateleiras. E estaríamos completamente cansados. Seríamos consumidos de uma vez, pela fome do esquecimento de nós mesmos. Talvez antes mesmo de termos sido amados. Agora, nada pode ser feito em relação a isso, nem a nós. A não ser, termos sido transpassados pela dor outro. Muito antes de tudo ter acontecido, de tudo ter começado ― sendo um o punhal, ou a flor, do outro.

     Rosa Elvira, Flor-da-Rua, do Asfalto! O suor das nossas mil e muitas cabeças quentes, derretendo nas noites mal dormidas. Os mil e um dias, de caçada e de caçador, ao redor da poesia. E eu ainda sei o meu novo nome numa rua de Copacabana, mas já sei o passado de cor. Cozido numa gota de âmbar pendurada no pescoço suado. O trem nos olhos que atravessa a estrada sem trilhos. Me avisa o sol a sua hora romper e de sempre entregar o dia. Nesse ponto, o som das rodas se esforça uma ladainha forte. Rangente, tangendo a fumaça para trás. A chuva igual àquele dia. O cheiro do meu cachorro morto ― aquela tarde do dia, a escrita, a carta que o porteiro lia. Crato, 11/12/1972. “Querida Prima Rosa Elvira, eu escrevo esta carta para você esperando a chuva. Os pavões encardidos balançam na minha saia. Os cabelos de fuligem amarfanhados, cegos de amor pela falta de espelhos. Sou o pó. Sou o único ser sobre o rosto coberto de lágrimas de comediante. Os seios sugados, suados e pálidos, balançam no pano barato. Remendos nas calçolas grossas irritando contra um outro suor do fato. Outros panos, segurando o sangue nas feridas que não fecham. O trem passa enquanto eu acredito na fumaça, e acendo o cigarro.” Dagmar, poeta da caatinga, minha prima, sempre assim. Até o porteirinho paturi irerê achou bonito a fala da menina. Desejávamos os mesmos moços, Dagmar e eu. Mas não pelejamos por causa de homem. Homem é lixo, cê sabe, né prima. Mós é o ouro! Ou era você que acendia o cigarro, quando o trem passava ao contrário do pó? Eu nunca consegui perceber, eram duas fumaças em uníssono – cigarro e trem. Entravam pela janela como os cílios da mula, você dizia. Quando passava o cigarro para a minha mão, que eu te oferecia. Sempre assim, de uma mão para a outra, como amigas damas, secretas. Aceso, eu sentia o teu cheiro tão perto. Mulher com mulher, dá jacaré! Mas eu não nunca senti o cheiro da mula, que você dizia. Contava, não sabia se existia. Se você inventava? Se existia! Tragava e devolvia. A caixa de fósforos sempre velha com um palito único, para evitar os incêndios no sofá e no meu colo. Agradecidas, sacudindo as três fumaças, o trem, o cigarro e as roupas saindo fogo pelo corpo do calor. As quatro coxas, coladas, os trilhos acesos das novas belezocas rompendo o sertão para amores gratuitos. Um agradinho de ajudar na despesa, era sempre bem-vindo.

     Cobrávamos apenas manutenção da força de trabalho sexual. Um capitalismo do prazer. Dagmar e eu éramos sócias. De todos aqueles anos, de todos aqueles panos molhados de sangue também. Porque estávamos vivas em todos eles, em todos os nosso dias de difícil peregrinação pelos trens do sertão. Recebíamos para dentro dos meus olhos vazios, dádivas de Deus! Então, eles deixavam cigarros acesos no colchão, dormindo bêbados de bucho para cima. E eu pegava fogo com eles. A fornalha do trem. O Sol no Liso do Boqueirão. Outra caixa de fósforos ali do lado, mais incêndios. Os sonhos com o mar pegando fogo que nunca tínhamos visto. Enxofre e betume no pecadores. Os cavalos de crinas de algas que nos levavam aos boques, aos banquete nas grutas de funda maré. Lágrimas de bronze, os animais soltavam chispas gloriosas, fumando, fumegando. A tua imaginação, Dagmar, cheia de perguntas. De onde vinha toda a minha humanidade dentro da vida! Os cavalos de cabelos recortados rente, sorrindo agora dentro do labirinto de ladrilhos brancos espelhados. Janelas se abrindo nos teus eternos olhos, Dagmar, que retornavam as coisas do mundo para mim. Detalhes de um outono devolvido, cheio de lama, com dúvidas sobre as chuvas dos últimos dias estivais. Meus pensamentos caíam com as gotas sobre as primeiras folhas ressecadas. Crivados de vermelhos, de barro, de alegrias de estampados fortes. Caíam as folhas junto com a noite, para um escuro cada vez mais forte. O meu coração de cega me despertava.

     Aos tropeços, na neblina negra da sanfona ― a música, aquelas madrugadas de afogados! Dançando, eu via o que você estava pensando, Dagmar. Sentindo teus dedos grandes nos baixos, vendo o que você falava. Eu adivinhava, adivinhona, Dagmar, a sanfoneira. Eu não enxergava, mas o êxtase de não ter nenhuma vergonha, e de saber o que fazer da vida, me tornava suspeita de um crime. Amava, e eu era amante. Daquele jeito, com qualquer um que eu sonhava em amor. O meu crime culpado de mulheres de contos antigos. Nuas, iguais a mim, corriam pelos telhados com a chuva, resvalando as goteiras em volta das ancas e dos ombros. Se banhando, se flagelando, meio de despeito, meio de prazer. Meio se lavando despudoradas debaixo das poças da água das biqueiras encardidas. As mais belas flores, Rosa Elvira, debaixo das calhas nuas. Sentadas enfileiradas nós duas, Dagmar, sob as quatro águas dos lençóis de telhas da casa velha que agora cobrem o curral, ajuntadas no mesmo cano velho de latão. Dormia acordada, entendendo aquilo tudo. Esperava aquele despudor desde que acordava, imaginado toda manhã ― o que nunca tinha visto antes. Me impelia, tateando para vasculhar os oitões da casas, de onde desejava ver saltar de um trapézio o malabarista que controlava as feras. Pendurava um laço de fita numa mecha de cabelo, e atravessava a cidade pendurada numa bengala, me equilibrando com a imaginação viva de toda a minha nudez por baixo das roupas baratas. Silenciosa, fixada no ar e replicava as palmas. Cheia de mesuras e volteios de dedos e de punhos, como a estrela de uma companhia de borboletas acrobatas. A mulher do atirador de faca odiava a cachaça antes dos espetáculos. Eu respeitava os direitos e os deveres dos homens, que se arriscam e se jogam contra a morte no chão. Num relance distraído que chegava aos meus ouvidos abertos, no lugar dos meus olhos.

     Na plateia, um sussurro de silêncio ― o vislumbre do trapézio vazio. Eu estava quase vendo o morto parado em cruz no chão, sem se mexer de uma vez. Olhava em torno, todo o espetáculo sem ver. Dentro de um vidro quente soprado pelo fogo das minhas imaginações, tudo se passava. O circo chegava num barco de inúmeras surpresas. As minhas carnes faziam os cavalos rodar dentro de uma taça, bem pequena. Como os líquidos passeando dentro das minhas tripas, redondas de galinha. O motorista do táxi se sacudindo não se mexia na volta do parque. Dagmar com as coxas de fora até o alto do morro para poupar a corrida. O velho suava o calafrio doidos vindo de grandes açougues. Os dedos inundados crispados contra o volante. Os pés sumindo nos pedais. Ele sabia que eu não podia vê-lo ali como ele era. Mas ele nunca descobriria que eu lá fosse a bailarina de mentira. Mariana crescendo na minha barriga, depois a faxina, a barriga sumindo. Mariana caindo das alturas para sempre. Apesar de meio fraquinha, ainda poderia gerar uma casa onde nasceriam corpos sadios e vigorosos. Bem alimentados por alguém com dinheiro.

     Quatro de novembro. Não, você não veio. Preciso aceitar isso. Mas não, aquilo é muito pouco para mim! Se entrincheiram, enriquecem, se mentem. Cangalhas presas umas às outras! Com suas lanternas de carnes, cheias de vivo óleo de cheiro pestilento. Então me desabafo, seminua entre os sapatos. Entre os santos que vivem ao meu redor já totalmente mortos. O sol envenenado, enveredando esverdeado, resvalando, se revelando nos vitrais. Os falsos girassóis marinhos, murchos de baixa-mar. Oh! Me pintar para o pinta! Me prender numa corda pela janela, desabando lentamente contra o cair da noite. Quase uma estrela, quase um cometa, quase um eclipse durante o apocalipse. Ao me estatelar no chão, cansada de suspense, me levanto logo. Vestida de estátua de santa, intocada, morta em defesa de mim mesma. Enquanto os cavalos de mármore que me visitam à noite, íntegros, movem os olhos globosos, inchados. E mordem os cochos vazios no novilúnio. Os corpos dos meus, já sem dentes, que se encontram completamente roídos pelos caranguejos entre as pedras da beirinha. Ou, os que se revestem de fortes nadadores, entregues aos seus delírios. Saídos do banho, avermelhados, em suas gorduras de silhuetas pesadas contra a cortina de gaze vermelha. A empoeirada sala da Madrinha. Mais ainda, nada. Moscas, sempre moscas defecando nos fios dos varais, desequilibradas e equilibristas. Sobre o púbis esverdecente, o cheiro indecente de valsas de velhas, me esperam. As andorinhas vem para me levar nas carruagens vazias, relâmpagos que se aproximam. A Rainha! Uh! Uma espécie de aragem em direções contrárias, traz o cheiro e o sabor da amônia. Bica ruim de beber, que mata, deixada num cântaro pelos demônios. Num canto esquecido no lado esquerdo do espelho patinado, o armário de espartilhos. Ela passa de rosto duro, puxada pelo vento. Quando me olha seus cornos ficam mais retorcidos e os contornos dos cascos cantam afiados, fendidos. Ela grita: – Mas o que é isso, meu senhor?! Isso é a carne da felicidade, sua merda! Devagar, pausadamente ela gira a cabeça em minha direção. Cada vez mais minimamente, como a flor que nasce para dentro de si. A adivinhação de papel se desmancha na água. Não terei, o pedaço de pão da tua mão. O pirilampismo dos meu olhos, tá! Tudo se apaga, se afoga e estará bem de novo. E completamente bem de novo, e tão logo, tá. Não, se não fosse isso, o fosso, moço, meus dentes podres ― esse tempo, e só nós dois! Quem sabe um dia

     Sou bastante parecida com uma rosa preta por dentro. Negra, por fora de mim, quando tento me imaginar toda em fuligem. Seda de saco, minha pele de pequenos pontos mortiços, esquecidos. Invisíveis, as unhas de escamas gemem. O pescoço recoberto por um colar de pérolas de lesmas miúdas. Pálpebras túrgidas e úmidas que se esquecem, os seus rastros pelas calçadas. Deixados numa pista do caminho, para o que há de mais humano no destino ― gestos da memória. Expressões do que eu vivia e revirava no meu rosto. Para você, só o meu avesso, e o recheio do travesseiro. Contemplo os dois caramujos que viram a cara um para o outro, escondidos dentro de suas cascas. Apresentam o corpo ausente, deitados de bruços, se esquivando um contra o outro. O amor! Oh! Os dorsos de borco também deixam rastros. Quando se arrastam na cama ― dia a dia vão ficando cada vez mais longe, apesar de tão próximos. O trabalho dos besouros a carregar a bosta dos dias. A pelota rolada pela palma da mão, adivinhando o destino de merda de um em direção ao outro. O grandes besouros que eu mais amava e nunca conseguia prendê-los entre os dedos e colocá-los em caixas de fósforos. Fortes como tratores, quando criança, eu me ensimesmava com os seus chifres revolutos. Percebia o interior deles, seus músculos fazendo força, seus intestinos de paçoca molhada, quando eu os esborrachava pisados de raiva contra o chão. Meus próprios olhos sem querer nada, sem interior me procurando. No espelho cinzento, faço promessa com as mãos para um rosto melhor. Melhorzinha, para andar no alçapão do calçadão do centro da cidade. Mostro o que nunca foi visto, me revelando novinha, coitados! O gesto frágil do dedo pequeno conferindo o botão da blusa, a cor manteiga de seda fria passeando pela praia. Sem medo da meia-noite, sem pensar ou chorar, qualquer dedo do pé se deforma de cansaço quando imagino o longe do fim da rua. Ir e voltar indo e vindo, galopando a bengala. Risco com o lápis de sobrancelha a esperança das estrelas do desejo. Me preparo uma colombina para o próximo carnaval. Falar mais de um minuto seria loucura. Sobre isso, a Madrinha não negava. E eu esvaziava os seios cheios d’água, a gosma sumarenta. Mariana morta, que foi quase uma alga! Mariana. Sem as celebrações dos meus chafarizes leitosos, sem conseguir sugar a vida para dentro da boca, os olhos no meio dos meus olhos, eu sem te ver, você sem me ver, morrendo. Às vezes passava os dias num desses muito tristes mundos ― mulher mergulhada em desastres de trilhos de trens.

     Vestida numa única mão a grossa luva de veludo azul, e com a outra por cozer treinava gestos delicados para usar na hora certa. Com o corpo todo deveria poder devolver aquela raiva do bolo de ontem ― e ele chegava e trazia uma palavra a mais de anis na boca de violetas sortidas. A Flor das Flores, Rosa Elvira ― te aguardam fortes chuvaradas longe do sertão. Aquela janela do lado de fora parecia que tinha mel, o poder de me destruir como os ratos que se afogam em farinha. O ser que se foi e que não se quis ser, mais se afirma ao dizer, eu nunca mais que me achava! O que eu não era, se quiser ser, não fomos. Só a perder de vista, o poder da vida dos outros e da mentira, para ficar vivo. Não havia disputa nenhuma, porque eu sabia, sempre soube, que ainda podia ser aniquilada por mim mesma. Parasse de chover, e eu era a mesma. Mesmo logo voltasse, que eu voltasse a amar. Mesmo assim na sala pronta, inteira, bem vestida, sozinha. Tudo isso nós falávamos, eu e Dagmar. Às vezes, ninguém entendia, nem nós mesmas. Mas deixa estar, falávamos. Falávamos exaustas, exatamente assim mesmo sem ninguém entender. Sem nos lembrar o bastante disso ou daquilo. Ríamos, nós ríamos, e nos contávamos o que não sabíamos. Não comíamos, tão enormes eram os dias de contar e falar aquelas coisas. Tão quebradiços, como meus olhos de marfim de elefantes contra o ar arborescente. A friagem avançando contra os dedos, as gatas cantavam as horas que já vinham se passando. Seus estros de lamentos. Coberta de fuligem em meus pequenos ombros, meus sonhos desapareciam nos bosques. Meus buracos não aparecem nas folhinhas das revistas, nas folhagens das sombra das moitas. Noites, eu só tinha a que eu via, era o que se podia fazer. E fazíamos, paradas, sestrosas, as marcas dos pés cavadas no tapete de musgos. Me dava abafada, afetada, chorosa, lamúrias de lamentos que me tornassem um molde de metal para todo o prazer do mundo, deitada contra a terra dos corpos guardados. No ente ferruginoso existe uma região de luz enrugada, um arrependimento de criança. Eu nunca tive olhos, mas caroços furados por onde passei o fio dos dias. O que contei com os dedos, foi a vida. Se é que se pode chamar assim essas contas vazias. Mas quando vejo que é de manhã, pelo despertar dos pássaros, a coloração laranja que minha alma toda toma, acorda. Na corda de acrobata eu me suporto. Suporto, e despenco. Morro todo dia, quando eu acordo, alguns minutos depois. E mortos, são todos os meus dias. Eu os guardo, recheados de ontens, dentro do armário, num aquário seco. Cheio de casulos de malefícios malfeitos, a cada sete dias por semana. Mas meus outros olhos vivos, sempre vivas da alma, enxergam meus pensamentos cheios de peixes. Depois fico de pé, agarrando a alça do minuto do mundo. Nadando parada para me recuperar para um novo dia, de saber tudo de novo. Tudo igual no ontem e no amanhã.

     Hoje eu vou falando e fazendo descobertas clandestinas, a partir desses falsos teatros. Encontro o verdadeiro cheiro do meu corpo. Tateio o avesso do que não vejo. Descubro uma paisagem de limões-cravo, na qual estarei presa contra os espinhos para o resto da vida. Permanente nesses ciclos de rudes sustos. Ameaças, pancadas, dor, pensamento pensando dia após dia. Sim, eu sei, um dia! Mas não pensei em me matar de verdade, pensando no homem que me abandonou por causa do banho que não tomei na hora errada ― no lugar errado. Aquele cheiro que aumentou tremendamente a distância entre mim e minha existência verdadeira. E ainda aguardava a noite das tempestades cítricas. Essa distância que já era grande e que eu já sinto se aproximando. Fica claro o dia em que todas as coisas se tornarão o evidente insuportável. Já, já, faço parte dos seres que nunca existiram. E já não existem de verdade ― de fato. Isso é o que eu acho, o que eu sempre achei, e foi o que me ajudou até aqui. Na verdade, o que sinto é que todos, menos eu, mantêm distância de mim. Agora, mais do que nunca, vou ficando cega. Ontem ainda era mais ou menos engolida, mas agora com o fim do noivado, cega e puta e desprezada, foi o fim. Eu sei que ficar feliz faz a gente ficar animada. De fato, não o amava, mas o amava, mesmo que eu não me matasse por ele! Preferi assim, não amar ninguém a fingir. E ninguém me amaria assim. E apesar disso, aceito que me desejem. E desejo todos eles. Matar alguém é como um risco ― muito grande. Ainda por cima pior é o morto dentro da gente depois de tudo. Antes achava que ele estava vivo e me faria feliz, mesmo que não fosse nada para mim, como não era, um besouro seco. Um ciclo vicioso entre achar que te matar me libertaria. Depois achava que te matar me destruiria. Sobrevivi depois como um novo conjunto de fêmea e fera. Às vezes mergulhava na consciência clara, era um monstro dentro de mim de que me maltratava e alimentava. Claro, como a água nas biqueiras dos telhados nesses parados momentos solteiros. Simplesmente a vida vivia dentro de mim, a esmo parada fincada no fundo lutando. Me deslocava para não sufocar sem suportar a falta do chão no coração. Minha cabeça de desengonçada desgraça, eu estava definitivamente desgraçada. Não afundava e nem ficava parada, nadava dentro de mim, me sentindo. Ainda podia existir ― ôxe! O que ainda podia, podia! Mas isso já era novo, e ótimo. E já era bom o suficiente para tudo, desde que eu soubesse vivesse, e vivesse e ficasse quieta, flutuando sobrevivendo. Sem me mover, nem deixar de flutuar, nem afundar. Já existia de verdade, com aquelas boias de emergência, como o peixe palhaço que passa de novo na frente do aquário nadando pelos meus pensamentos.

     Eu já tinha passado dos trinta, e não queria noivo nunca mais. Agora eu podia ser puta à vontade! Ainda tenho peças íntimas e odores vermelhos. Porém para isso uso combinações cor de fogo, os mais suaves tons que criam sabores novos: vinhos frescos no matagal. O animal embalsamado onde vivo. Agora perfumada por todos os lados em Copacabana, isso é um exagero, Elvira! Um outro descobriu meu coração turvo e me recebeu com flores brancas ― artificiais mas flores ― e me cuspiu na bunda. Depois adocicou meu corpo novo, curvo, que eu empresto sem juros para quem quero. E construo com ele novos navios cheios de bandeiras coloridas. À noite, estivemos frenéticos, peixes frescos em lugares onde já não há sequer sangue algum. O velho range os olhos pelos meus peitos, indo pelas calçadas. Eu saí da cidade sem comer ― um saco de biscoitos, a bolsa, o escalda-pés da poeira durante toda a viagem. Tudo pronto. Lá em Copacabana eles esperavam a chegada do joio, não do trigo. Até que novas facas surjam das sombras, e recortem as sobras mal devoradas de mim aos pedaços. Para nós, crianças, o coronel dava balas ― e gostava de mim. Gostava! Nuvens de fumaça no fogão à lenha, iam-nos grudando no tom cobre da pele. Mesmo que eu não me lembrasse mais de como era, estavam ali. As marcas, as manchas, o mosqueado dos insetos sempre ali, descansando nos barbantes. Suas fezes iam e vinham para sempre no vapor quente, ainda estão por aqui. Mesmo que eu não me esqueça daquela noite de onde eu vim, habitantes das noites eternas. Aquela era uma vida que se dissolvia, enquanto eu me perdia e partia. Ouvia a música, completamente indefesa, sem os braços brancos. Cansada, atirei todas as pétalas fosforescentes do toucado de volta no aquário. Essa paixão assustadora, nauseante, de folhagens iridescentes, sujas de óleo que voltam à praia. Tão atraentes, suas corolas labuzadas de líquens brotados nas ondas. A esperança de ontem eram essas flores que já não viviam. O céu líquido entre as unhas se dissolvendo removidas com o esmalte vermelho. Dentes, que todas as manhãs eu deveria esperar sorrindo. Carnes, com o mesmo significado do sentimento de que eu voltaria a ser um pote de cinzas. O rapaz de pupilas violetas! Mas não, eu não sentia mais nada por ele. E no entanto um pássaro peixe nos acompanhava, sempre ao nosso lado. Assistia estupefato o nosso rastro do lesmas que largamos na poeira. Depois mergulhava sem conseguir engolir, sem controlar bem meu voo incerto. Não sabia se devia nadar, ao invés disso. Mas fui abaixo, contra o mar, num mergulho errado contra uma pedra. Ondas paralelas, pesadas, paradas por alguns segundo, as pernas abertas. Deixava passar a espuma, fazia isso às vezes, prendia a respiração e voltava a arrebentar. Uma correnteza mortal, um banco de areia salvador, boca e banco, boca e banco! E mostrava o sexo despudoradamente. Finalmente o que ele esperava de olhos fechados. Eu ficava imaginando a espuma se desmanchando na beira, a película molhada sonhadora das visões do homem. Nos meus olhos de santa das veredas, o marfim barato, comum de todos os dias. Vulgar, amarelada, era uma haste de cana. Ao desproporcional desejo, tão ao mesmo tempo, o desprezo do dia seguinte. Quando já não se tem mais banho para tomar. Fome, desespero, a sede tão perto da infância, tão pronta a ruína, já pronta desde muito cedo. Sem escolha desde cedo, e o próprio destino mirrado de quem nasce no Nordeste. A milhas e milhas dali eu mesma, igualzinha a mim, não teria também qualquer chance. Nascida a partir depois daquela serra, eu era sempre uma temporada de ruínas. Uma semana e outra entre vaidades, a noite inteira de perguntas, para adivinhar as respostas que esperavam de mim ― nunca acertava. Uma garrafa de rum, derrubada aos grandes goles durante a travessia da estrada de terra noturna. Na volta indescritível para casa a lua sobre mim, minha sombra com a forma de uma rainha. Fui grande ― aquela noite, também parecia um pouco com a mulher na jaula do Grande Circo do Marciano. Ah! Eu fui sozinha!

     Quem manda em mim! Roupa laranja e azul, e os olhos de quem se veste com peles de tigre. Na porta da igreja estava lá de novo um anjo. O mesmo anjo nu, todo sujo ― e faminto. O ouro diante do fundo, os altares, também estavam lá. Eu não fumava antes do café, precisava me cuidar senão aquilo podia voltar. Sentia terror quando me lembrava. Aquele momento banal, quando se cai como de um estrondo, que estoura por dentro. Aquele dia, feito um outro que fiquei morta diante do noivo. Fui noiva! Estava usando aquela mesma roupa desde o último encontro. A mesma roupa suja pela terceira vez. A roupa de baixo também ― era a mesma dos outros dias. Também naquele dia, como no anterior e no outro, não tinha água nem banho. Não tinha água pra mais nada. Mais não, caráio! Era viver no seco, se quisesse agora, ou morrer. Bebia quando bebia do sumo das plantas grossas que ainda viviam de teimosa, apesar. Por que fui ver o maldito do homem, andando como uma rainha bêba, idiota. Apaixonada e cega, por cima do soalho de rachaduras da estrada? Essa roupa em casa que estava usando pela terceira vez. A calçola, o suor de enxada, a falta d'água, de fundo, a fadiga. O cheiro forte de metal que o trabalho solta dos ossos, escreve a luta do campo no corpo. Enquanto caminhava, foram me soltando as sensações como uma troca de casca. Adivinhava a serpente velha cansada andando sem rebolar. Endurecia de repente que era um jacaré, uma cobra, uma árvore de mangue. Abaixo da superfície da lisa pele grudenta e deslumbrante, o corpo sujo de peixe morto. Eu estava em ruínas. A sereia da água-viva recém saída do meu aquário seco começava a cheirar mal. Estava próximo o fim da feira, quanto a isto não restava dúvidas. O pensamento mais antigo, eu concluí essa manhã, ― desde menina eu me perguntava quantos anjos já existem lá na porta da igreja. E lá no céu. Aqui na terra estilhaçada, abortavam escondidas as virgens defloradas a força. E as que davam porque davam.
     Laurita se casou cedo, quase uma ninfa de peitos chatos, planos e desiguais: o da direita bem menor do que o outro, como os da mãe: apêndices que mais tarde se tornariam avantajados, e de que se orgulhava. Pendurados na frágil caixa cilíndrica, guardavam as leves costelas pontiagudas. Orfeu, o bravo soldado de cavalaria da força pública, o noivo, era louro como um touro, metálico e maciço. Laurita subiu o altar metida num antiquado vestido rosado e usado, que as tias idosas encomendaram numa loja de aluguel de roupas da capital. O traje pedia retoques, e arrumado foi usado para acompanhar o pai na cerimônia. O pai: num velho terno de missa e bafo de pinga desde a manhã. A noiva então se chocou com o marido no alto do altar. O besouro macho vinha metido no triunfo do seu uniforme de gala todo papagaiado: um jaquetão abóbora recheado de dragonas, franjas douradas, e reluzentes botões inesquecíveis acrescentavam ao traje denodado brio militar. Era tudo perfeito, não fosse a tempestuosa chuva que desmilinguia as indumentárias, preparadas com requinte, daquela meia dúzia de familiares e amigos de infância da parelha de gado humano. A tímida turba não foi suficiente para preencher nem a metade da austera capela da Irmandade dos Irmãos Leigos do Carmelo: a mãe de Laurita era carmelita de berço. Depois de passar o dia no cabeleireiro, no maquiador e na depilação, a noiva viu-se tomada de ansiedade fatal pelos últimos retoques no vestido alugado. Na prova daquela manhã, apresentava um defeito grande na cava da manga esquerda. Aquilo era pequeno, mas o suficiente para que o seio maior da nubente impedisse decisivamente o movimento do seu braço esquerdo. Como Laurita poderia segurar e lançar na hora exata para uma prima em primeiro, aquela massa desforme de camélias brancas e pistilos de jasmins alaranjados, com aquele braço engessado por uma rata da alta costura de aluguel! Ainda às pressas, tiveram que adaptar o traje, mil vezes repuxado e remendado, à anatomia irregular da noiva. Em vão, o defeito era mesmo daquele peitão esquerdo de Laurita que teimava em crescer na hora errada, diferente da bem proporcionada mama direita. Para culminar, por um erro da estação da lua, o casamento depois de muito cuidado e contas feitas pelas mulheres maduras da família, fora marcado em hora errada. Laurita pela manhã sentiu cólicas fortes e fora de hora: batata! Casava-se durante um opulento paquete, imaginando se na pressa não tomaria as devidas precauções e veria aquele lanho de sangue acompanhando-a pelo corredor da nave central da igreja e estendendo-se pela cauda do vestido. Era também o presente que a natureza reservava para o brioso militar versado nas artes de abrir a veias dos inimigos: uma lua de mel sangrenta.

     Orfeu, numa ressaca medonha, pela noite passada na contundente e malcheirosa orgia com as primas, não via a hora de se meter no velho Aero-Willys emprestado do tio, para sumir dali com a noiva. Logo se jogaria na cama do Hotel Pousada Estrada, um muquifo uma estrela que a família cotizada em vaquinha tinha reservado num pardieiro de uma estância hidromineral sem gás. Valorizavam a tradição de lua de mel da família nas águas termais, dessa vez frias. A falta de borbulhas na água da biquinha modesta fora compensada pelas flatulências noturnas e infalíveis de Orfeu. Mas a espelunca, verdade seja dita, vinha equipada com um lago verde de limo fresco e patos miseráveis encardidos pela pátina gosmenta, a nadar em círculos por ali, diante dos poucos hóspedes ocasionais. Não faltava o balanço velho de madeira apodrecida que rangia, e fazia medo de que fosse ao chão a qualquer momento. E, escondida no interior do Estado do Rio, no fundo da Baía de Guanabara, ali pelos mangues de Magé, recebia os hóspedes quase totalmente vazia, não fosse o único habitante permanente: um velho cão de fila rajado de marrom e negro com as pelancas desabadas. Orfeu, nababescamente instalado ali – era o lugar mais luxuoso que já havia pisado –, depois do casório, consumaria novamente as bodas já consumadas todo fim de semana num mesmo motel barato da baixada, onde se servia de um zero oitocentos devido a um esquema com a segurança prestada pelo comandante do batalhão: a soldadesca podia foder de graça por conta da grana dos contribuintes do Estado. Mas, de uma vez para sempre, agora dentro da lei e oficialmente, possuía definitivamente a noiva. O que já se dava desde muito tempo, a partir daquela data quando Orfeu cravara os treze pontos na periquita novinha de Laurita, nunca divulgada para o bairro. Aquilo se dera pela primeira vez de maneira bucólica, honra seja dita, pois Orfeu a levara para o sítio do tio, dono do Aero-Willys do casório e sem que a menina conseguisse abrir direito as pernas por pudor e medo de estar fazendo alguma coisa errada, teve que debruçá-la num cocho de bezerro do estábulo e meter-lhe a vara ali, assim mesmo, naquela posição nada romântica para uma primeira vez. Cabaços podem ser coisas complicadas, às vezes! Mas ela só deu um gritinho na hora da violência inevitável do ato. E depois tudo correu às mil maravilhas: a pequena, passado o susto, aprendeu a se arreganhar a contento! O defloramento original se dera numa estrada vicinal do município de Imbariê, famosa pelas desovas de corpos decapitados e sem as mãos. O sanguinho magro de seu hímen jovem, embaçara o viço de sua flor, se desmanchando e se derramando sobre o esterco seco do estábulo, da mesma cor das calças do soldado. O que não chegou a produzir asco no militar, preparado para as carnificinas do dia a dia. Uma tão tímida hemorragia não significaria nada para ele!

     Fardado, Orfeu passara a noite anterior ao casamento ajuntado com os companheiros do quartel numa boate mal falada dos arredores da cidade, também no mesmo pacote do esquema de corrupção do comandante do batalhão. O noivo fora servido na boca de uísque barato e linguiça calabresa à francesa por garçonetes profissionais, só de saiote negro e penteados bem feitos, em cima e em baixo. Sempre que um dos valorosos soldados da tropa se casava, o regimento contratava por um preço razoavelmente em conta, um punhado delas, num acordo tácito com um sargento cafetão. Prostituição não entrava no pacote do comandante, e que cada subalterno assumisse o seu posto! As piranhas gostosas, tudo carne de primeira, bucetinhas quentes, dançaram e fornicaram gratuitamente, incluídas na despedida, com todos os convidados, e por quantas vezes o cabra quisesse se servir. Até que o dia clareasse, a folia correu solta por conta daquele vão no orçamento secreto da força: as festas eram pagas pela caixa dois do pecúlio militar. Enquanto isso, a noiva passava a noite num estado claro revirado, emendando as horas com as colchas da cama, preocupada com as bebedeiras de Orfeu. Tomada pela insônia e por uma enxaqueca selvagem que o paquete pesado sempre lhe trazia, precisou ser acalmada com uma grossa injeção de baraugim, pelas mãos da mãe. As pragas das amantes do noivo não ameaçariam a entrada triunfal da filha no teatro do átrio de igreja simples. Depois do analgésico forte, Laurita dormiu até às nove da manhã: acordava nua de dor, os olhos estatelados no dia: perdera a hora da contraprova do vestido: logo remarcada para as duas da tarde, quando já deveria estar atrasada no cabeleireiro ao meio-dia. Não daria tempo para uma plástica no seio maior!

     Orfeu estão deu o clarim: era vitorioso e estava vivo! Através de telegrama disparado do quartel por um compatriota, diziam que o plantão na casa da guarda, terminava já. E que o noivo Orfeu estaria em casa com a esposa para o almoço da véspera combinado há uma semana. As autoridades pediam desculpa pelo atraso do militar, imprevistos de rotina sempre acontecem, e que as coisas por ali são sempre assim mesmo. Logo se reenquadrariam nas antigas escalas de sempre. Um taturana laranja e verde incandescente queimava as têmporas do militar durante todo o longo curso do almoço. Saboreou com gosto amargo a galinha com polenta que a sogra de cara cada vez mais sorridente fazia questão de requentar para ele. Sabia que o meu filho gostava de frango com polenta. Depois de acertar com o sogro meio surdo e completamente bêbado como sempre de alegria e sangria rala, uns empréstimos que nunca seriam pagos, meteu o quepe debaixo do braço e sumiu. Ainda deu umas espanadas na poeira da farda mais amassada que conseguira, para parecer que esteve de serviço por dias a fio no quartel, antes de dar o esquemático beijo de despedida na sogra: enquanto as coisas estivessem bem entre os dois, ele podia contar que era o dono da situação: a górgona não perdoava palpites nos seus pontos de vista. Orfeu dormiu até o dia seguinte na hora de se meter no terno herdado. Tinham o mesmo corpo, ele e o falecido primo que o comprara quando se casou com a mulher amada mais que tudo, e que o matou envenenado. A família do marido morto, se uniu para corroborar o motivo da causa mortis como suicídio: todos amavam Mariazinha, que era um doce. E o canalha do marido, já fizera poucas e boas com muitas mulheres: mereceu o que precisava: morrer!

     Orfeu, não o primo morto, acovardado por dívidas com o sogro que somavam vários milhares de mil réis, teria finalmente que subir naquele dia chuvoso as escadas da igreja. Nem a fera da mãe de Laurita teria poder para anistiar as dívidas de Orfeu: ela incentivava os empréstimos para ter o papagaio no poleiro para comer milho quando ela quisesse. Papagaio come milho, periquito leva a culpa! E no altar, conforme combinado, Orfeu receberia da mão do padrasto de Laurita, a filha noiva, as promissórias que assinara, e o perdão das dívidas. Era justo, cumprira a palavra e casara-se com a virgem que ele já deflorara tantas vezes, e vilipendiara muitas vezes mais, violando-se naquela posição que ela odiava, mas que ele gostava, né? A puta pudica, que seria sua santa esposa para sempre. Laurita e Orfeu, depois de amargarem longos momentos recebendo cumprimentos, falando nulidades, comendo sofríveis salgadinhos e docinhos ― que as tias da noiva encomendaram num comadre surda do subúrbio ―, mergulharam no carro do tio do noivo. Orfeu mesmo dirigia o famoso Aero-Willys, através do qual o casal depois de muitas curvas em silêncio mortal de desgosto mútuo, foram desembocar numa cama um pouco poeirenta e habitada por bastantes pulgas recalcitrantes ao desinfetante malcheiroso que empestava o banheiro e o quarto. Laurita, nos anos que se seguiram ao casório funesto, quase não falava sobre isso, alegando náuseas. Não gosta de se lembrar daqueles momentos fúnebres. Confessava que não guardava nítidas lembranças daqueles três dias em que foram indiferentes um ao outro. Igual aos três mil e seiscentos dias e noites que passaria na cama, ou de pé, ou ao lado do seu Orfeu. Sem que lhes passasse coisa melhor pelas cabeças, foram morar no subúrbio: num apartamento de sala e quarto conjugado, esmirrado entre dois prédios altos, sem sol e sem ar, e que o padrasto de Laurita pagava. Porque Orfeu não acumulava soldo que fosse suficiente para pagar o aluguel irrisório: tudo ia para a esbórnia. Novas dívidas continuaram a crescer, e ao mesmo tempo as despesas mínimas da casa se acumulavam. O velho nunca cobrava nada do soldado, um tostão, alegando caridade para engordar o soldo que nunca dava para as compras.

     Dia vai, dia vem, Orfeu deu de voltar cada noite mais tarde do serviço. Tresandava à pinga e ao perfume gritante das primas. Generosos tempos difíceis, ele conseguiu um servicinho extra para ajudar à família. Era um bico de segurança numa casa de shows de uma cidadezinha não muito próxima. Mas que lhe renderiam uns cobre, o que se pode fazer? A empresa lhe tomava os fins de semana, os dias santos e os feriados. Valeria o sacrifício por Laurita! Corajoso, carregava um roupeiro pesado: shorts, cuecas, um blusão de lã bão, e calças jeans impecáveis pelas mão de Laurita. Tudo ia milimetricamente arrumado pelas mãos diligentes da esposa numa mochila negra de nylon impecável. Voltava na segunda à noite, a tralha imprestável, toda tisnada de barro e gordura. Com os olhos tão emoldurados por espessas olheiras cor de ameixas secas, e a carcaça sofrida estragada de tal jeito, que Laurita já não tinha nem um resto de gosto de abraçá-lo e beijá-lo. Nada lhe sobrara do encanto, encanto que diga-se de passagem nunca houve de fato. Fazia tudo aquilo como um relógio que trabalha sozinho. Se alguém lhe perguntasse as horas, ela gemia: “Eu te amo, Orfeu...” Quase não se falavam mais. Uma ocasião, quando Orfeu voltou do bico do fim de semana, a mulher, ao desmontar o equipamento que o militar deslocava para a pequena guerra de veraneio, encontrou um bilhete dobradinho com esmero e dedilhado com perfume lemonado: “Teu marido é uma delícia! Dá ele pra mim?” Um lenço de mulher sujo de batom, sustentava a gravura de um beijo demorado e curtido. Dobrado como foi impresso, dobrado estava dentro da tralha suja do marido. Laurita ergueu o lenço e o bilhete e os pôs em cima da mesa, sem levantar os olhos, sem pensar em nada. Orfeu, saindo do banho, ainda se refazendo da batalha, deu de cara com as peças em exposição. Cinicamente e sem perder a razão, foi objetivo com a mulher: “Cuidado com isso, porra! É a prova de um crime. Tenho que levar amanhã sem falta para o perito do batalhão.”

     Laurita contou para a mãe sobre o bilhete e o lenço, e repetiu a inscrição lapidar. A mãe a aconselhou a cuidar da casa e a fazer duas faxinas por semana, três se fosse preciso, e se o banheiro não estivesse bem limpo. Sugeriu, numa certa iniciação de sábias, que a filha retomasse a costura que fazia às tardes, e os pontos em cruz que desenhava à noite. A mãe, desde menina, tinha-lhe ensinado todo um arsenal acadêmico e infalível para suportar desprezo e traição por quanto tempo fosse necessário, ou seja, o intraduzível apetrecho que tinha o poder de atravessar toda a vida que durasse um casamento. Era uma tradição de família, passada de geração em geração desde o tempo dos cultivadores de vinho do Alentejo. Habilidosa, e dotada de forte poder de imaginação, Laurita, além de atender às recomendações do catecismo sinistro da mãe, passou a costurar para fora. Com bom gosto, e atenção com as pessoas, em pouco tempo construiu uma freguesia que lhe rendia os cobre suficientes para pagar o aluguel e estocar os víveres para a despesa da casa. E começou a comprar bugigangas coloridas que arrumava com rigor sistemático em cima da cristaleira da sala. Onde mais fosse possível mantê-las em pé, passou a colecioná-las: bibelôs chineses, panos árabes, xales da argentina e todos os tipos de pratos, talheres, e copos, e taças de plástico azuis, e de rosas falsas que encontrava pelas lojas de produtos de um e noventa e nove do centro da cidade. Orfeu desaparecia cada vez mais de casa. Chegava tarde, dormia no sofá com os coturnos imundos e a desculpa de que não queria acordar môzinho. Antes da mulher se levantar, desgrenhado e roto, tomava um café feito às pressas e se despedia na porta do quarto com um beijo ideologicamente falso e sempre envolvendo operações militares. Hoje seria a resistência à invasão do Território do Oeste por estrangeiros armados que forçavam a fronteira com o Mato Grosso. Esgotados os derradeiros espaços para acomodar a bugigangaria, Laurita comprou um gato, um animal de enorme potencial de crescimento e pelo mais abundante ainda. Vendido por encomenda ao intermediário chinês que o contrabandeava do Camboja, numa loja de produtos da roça ali do bairro mesmo: era a nova sensação da casa e uma boia para os dias de agrura do casamento afundado de Laurita. Logo nos primeiros dias passou a considerar o gato como filho.

     E, como para o filho que nunca teve, reservou para o bichano gordo e patarro, uma cama com cortinado. Um mosquito poderia aleijá-lo para sempre, e o mantinha cada vez mais ao seu lado. Depois de conseguir com uma vizinha e freguesa de costura, por umas ninharias a base de troca, um armariozinho usado e um enxoval de bebê de duas, ela o adaptou para um de quatro patas. E o bichano passou a fazer inveja a qualquer filho de pobre. Colorido, ganhou um nome chinês e sonoro que ela escutou num sonho cheio de paisagens de campos de arroz e chapéus como largos funis invertidos: Gladson, carinhosamente Gladinho. Durante seis meses, o filho que nunca teve habitou o apartamento de Laurita como um califa do Camboja. Orfeu jamais se dera conta da existência do muito felpudo enteado. O soldado pouco tinha tempo para nada, e o bichano o desprezava preventivamente, telepaticamente intuindo a preferência pela servidão voluntária da mãe adotiva. Coisa rara, uma manhã, o militar chegou em casa de bom humor e de folga: trazia num robusto embrulho umas tainhas frescas. De dois palmos de comprimento, foram colhidas no fundo das traineiras que encostavam no cais do Porto de Maria Angu, subúrbio da Penha, sede do Regimento.

     A vista grossa para a pesca de embarcações clandestinas, há muito lhe proporcionavam subornos e pescado fresco que nunca chegavam em casa, mas eram desviados para outras amásias mais competentes em peixadas. Deixando, naquele dia, onde algo nunca descoberto mudara sua rotina, as bichas nadadoras em cima da pia para escorrer o sangue das guelras, Orfeu largou o banquete ali e foi tomar seu banho: logo em seguida mudaria as peças inteiras em postas de artilharia. O bichano felino foi mais rápido: estrangeiro mas onívoro, almoçou a peixada antes que ela se consumasse. E foi flagrado em cena pelo militar que voltava do banho rápido entusiasmado pela fome: o soldado tinha presa para degustar as lagostas que lhe eram possíveis. Enrolado numa toalha branca imaculada lavada, esfregada e enxaguada pelas mãos abençoadas de Laurita, o militar não precisou se despir. Gladinho, distraído com o banquete exótico, foi atingido por um retumbante pontapé do homem acostumado ao coturno: tiro certeiro! Antes de atingir a área interna do cortiço, o animal já estava morto, vítima de ferimentos causados pela unha crescida do bico do dedão direito e que levaram à falência múltipla dos órgãos internos do felino. O bicho se estatelou para sempre ao lado de uma grande lixeira lá em baixo. Orfeu ainda conseguiu salvar intactos alguns peixes intocados, e os já mordiscados foram disfarçados em postas menores. Gato não tem veneno, porra! Imaginou que o ladrão oportunista, que nunca vira antes pelas redondezas, tivesse se esgueirado pela janela aberta para dentro do apartamento pela primeira vez na vida, sem que a cachorrada da vizinha fizesse soar o alarme da fortaleza. Laurita teve finalmente a primeira crise nervosa, que já se anunciava há meses, e era esperada desde que ela nascera: era um tipo de mulher que estava preparado desde o útero para a loucura!

     Bem orientada pela mãe, Laurita perdoou Orfeu: – Como é que ele podia saber, minha filha, não é? --- E precisou ser internada imediatamente. O militar ia visitá-la, sempre que a escala das arriscadas operações que exigiam coragem, permitia. Sinceramente, se dedicava àquela internação bem-vinda: Laurita podia ficar louca para sempre e deixá-lo em paz com suas dívidas de uma vez. Enquanto isso, demonstrava afeto sinistro e gratidão falsa que ainda não tinha fingido. Levava religiosamente biscoitos amanteigados, arte culinária de uma alta padaria da esquina do Hospício Mira Flores: a sogra adora biscoitos amanteigados! Coisa que Laurita odiava e não podia nem ver, porque lhe causavam náuseas, pioradas pelas náuseas já piores dos remédios. Ah! E revistas da vida privada das estrelas da tevê, que a paciente quando lúcida não conseguia desfolhar, pois eram devoradas avidamente pela mãe que não as largava. Laurita era educadíssima, jamais demonstrou sequer interesse pelos noticiários diante do encanto da mãe pelas casas e carros das beldades enriquecidas pela ignorância do povo e a ganância dos anunciantes e dos proprietários das emissoras. Por ali, cotidianamente, do outro lado do fausto e da riqueza, rosquinhas de fécula e reportagens fajutas entre um e outro choque elétrico. E muitos soníferos fortíssimos, em um largo período de dias, para que tudo voltasse às mil maravilhas como era antes. A filha exagerava em sus sensibilidade ofendida! Era só uma merda de um gato. Os pais de Laurita, em júbilo, também confirmaram a certeza de que Orfeu era um ótimo marido: a vida de um militar é sempre muito dura e às vezes exigia um sacrifício heroico principalmente por parte da esposa. A exigência de amor incondicional dentro do casamento só poderia levar a essa ruína que a própria Laurita encontrara e cavara com as próprias mãos. Ruína que, diga-se de passagem, pautava-se pela falta de compreensão por parte da mulher, ao estar envolvida com uma instituição que se pautava pela compreensão mútua e a abnegação.

     Foi assim, baseados nessas falhas de Laurita em relação ao casamento, que quando a mulher deixou o hospício, alguns meses mais tarde e muitos quilos mais gorda, os pais passaram a vigiá-la de perto. A mãe, que normalmente recebia a visita da filha em casa, para não se meter na vida dos outros, resolveu agora retribuir preventivamente, e foi até o apartamento do casal: descobriu que a sala, o quarto, a cozinha e o banheiro tinham-se transformado num enorme museu de embalagens achadas no lixo. Além das quinquilharia asiáticas e paraguaias, Laurita passara a colecionar tudo o que se relacionasse com mercadorias e que encontrava nas latas de lixo das redondezas. Sempre que podia, levava as tralhas para casa, carregando-as às vezes em viagens repetidas à mercearia, entre uma e outra madorna causada pelos remédios fortes: quase já não se podia encontrar lugar para botar os pés dentro daquele apartamento. Orfeu, alocado numa base de treinamento para ações no Haiti, não precisava acampar por ali. A mãe precisou de uma semana, em sucessivas idas e vindas entre o apartamento e as lixeiras do conjunto habitacional, para despejar todo o lixo que a doida trouxera para dentro do muquifo. Junto com o lixo, também resolveu se livrar da bugigangas trazidas na primeira leva da onda de consumo. Escolheu como destino das inutilidades, possíveis receptadores e possíveis necessitados desafortunados moradores de rua e habitantes de asilos de velhos, e de uma creche de crianças órfãs das redondezas. A casa precisava estar em ordem para ajudar na recuperação da sanidade da filha! Conseguindo pôr fim na multidão de tralhas e trecos sem valor de uso, e, por fim, deitando alguma arrumação naquele caos, a mãe tinha agora uma nova preocupação: as frequentes referências da filha ao fato cru da morte inevitável. Para prevenir e sanar tão funesto mal, a mãe passou a morar com a filha. Orfeu levava meses de embrenhamento pesado na selva, ficava no quartel na volta por questões de segurança, assinava o ponto e só ia em casa para pegar umas roupas íntimas que a Força não fornecia. E beijava as duas. O vínculo com a sogra se fortalecia diante do estado de vegetal da esposa. A mãe de Laurita o amava cada vez mais. Passados dois meses de calmaria e remédios fortes, por conta de um programa de tevê que denunciava mal tratos a animais, Laurita teve outra crise mais forte. A mais forte de todas as crises: precisou ser internada novamente e com mais pressa.

     Ajudado pelo fato da nova clínica ser agora próximo de casa, o padrasto veio morar também no apartamento da família. Trouxe com ele a primeira de uma grande manada de gaiolas que acondicionavam pintassilgos cultivados em casa. Como a doença de Laurita se agravasse e a voltagem dos choques se tornasse cada vez mais pesada e perigosa, tornavam cotidianos os cuidados inevitáveis para que ela recuperasse logo o equilíbrio e o bom senso. O pai, diante da necessidade de prover as tarefas diárias que os pássaros demandavam, trouxe temporariamente todo o zoológico particular para dentro do apartamento, abandonando a casa no bairro vizinho. Protegido agora de toda a faina da doença de Laurita, por conta da guarida da sogra que sempre o acobertava alegando que o rapaz tinha trabalho perigoso e precisava manter a cabeça fria, Orfeu passou a participar da mania do pintassilgos penosos engaiolados. Apresentou ao sogro, um famoso ornitólogo amador, terceiro sargento graduado de artilharia, que também criava as aves canoras num sítio no interior do estado. Os três passaram a viajar juntos todo final de semana, para a glória da pesquisa passarológica e infernos dos pintassilgos ainda sobreviventes em extinção.

     Laurita ficava entregue aos cuidados da mãe, que ia e vinha religiosamente do hospício, carregando na grande bolsa de plástico branco com motivos de florões berrantes, uma farta caçarola com bifes de panela desfiados: única iguaria que a menina conseguia engolir com os dentes que lhe sobraram, quebrados pelo impacto dos choques. A mãe já salteava de cor todos os plantões de todos os enfermeiros e médicos, que tratava indiscriminadamente, sem distinção hierárquica, de meus amores. E, como era de se esperar, passou a ter intimidade com a sala de choques: em algumas semanas de treinamento, já segurava os eletrodos. Podia prever, pelo andar da carruagem durante o percurso da noite, quantos volts a filha ia precisar naquele dia. Batata! Recebia exatamente aquilo que a mãe lhe prescreveria. Aquela medicina toda dependia apenas de reconhecer o estado de agitação da paciente e fazer a média proporcional com o volume dos choques. À noite, na roda das vizinhas na calçada diante do apartamento de Laurita, orgulhava-se da suas narrativas e prognósticos, com requintes de amor, cuidados e crueldade. Não deixava de detalhar sempre as carícias no rosto da filha, quando já aliviado da carga, sua expressão ainda apresentava convulsões voltaicas. Mas, acrescentava, a paciente melhora a olhos vistos, transformada numa nova pessoa pelo trabalho paciente dos médicos. Agora era alimentar bem a menina: Laurita, quando podia, se entupia com a sopa de entulho que a mãe trazia numa garrafa térmica velha e encardida, dentro da bolsa estapafúrdia: reforçavam os desfiados bifes de panela. Depois da sopa, Laurita pálida, mecânica e macilenta, e metida num andrajos hospitalares como mortalha, era medicada. Dormia até o meio-dia do dia seguinte, quando se levantava para nova sessão de tortura. Isso já durava dois meses: período que a medicina prescrevia para a cura da gravidade de tal estado mórbido em que se encontrava a paciente 209346.

     Viva, ela atravessou seu calvário, e saiu do hospital de mãos dadas com a mãe, numa manhã de Finados, marcada pela chuva de domingo de raios e clarões. As duas passaram sob pingos grossos por debaixo do pesado pórtico do hospício onde letras góticas diziam "Aqui se cura ou se mata." Um sol forte e inesperado inundou as ruas, rompendo as nuvens quando as duas botaram os pés na calçada que levava ao ponto ônibus. Aquilo proporcionou-lhes um bem estar inesperado e a mãe viu a mão de Deus no fenômeno meteorológico: a perfeição da ciência comemorada com um buraco no céu como um milagre do Criador. Não fosse uma arte do maligno para iludi-las! E benzeram-se. Foram juntas de mãos dadas para a padaria, antes de embarcarem no coletivo que as deixaria dois pontos depois: não convinha fazer esforços inúteis. Laurita nunca mais mergulhou naquele estado de manicômio que lhe estragava a vida e contaminava a alegria da família. Reconciliada com a saúde e com os afazeres do dia a dia, o casamento voltava ao normal. Os pais rumaram de volta para casa. Orfeu viva com Laurita como um anjo ― quando tinha tempo! Sócio cinquenta por cento da criação de pintassilgos do sogro, que se dividia ente os dois imóveis aumentando sempre o número do gaiolas no apartamento da filha.

     Numa manhã, pouco depois desse retorno à rotina, numa manhã como outra qualquer em que acordara inesperadamente deprimida ― se lembrava bem disso porque teve medo sem saber de quê ―, Laurita foi sobressaltada pela campainha da porta. No corredor mal iluminado do prédio pobre, contando dezesseis apartamentos por andar, pode perceber dois militares fardados carregando, cada um, um envelope. Pela expressão austera que usavam, Laurita pode perceber perfeitamente que havia complicações. Atingido no peito, em dois lugares, por fogo amigo, durante tiroteio com bandidos, Orfeu veio a óbito. Ainda chegou a ser socorrido, mas os médicos do Hospital Central não puderam fazer nada devido à gravidade dos ferimentos: morreu antes dar entrada na sala de cirurgia. As balas partiram da arma do amigo terceiro sargento que participava, como o pai de Laurita, da paixão pelos pássaros. A viúva não esboçou reação. Tomou com as mãos firmes os envelopes, e ofereceu café aos homens: o que não poderia ser aceito, nos desculpe, pelo protocolo da justiça militar. Então, disse com voz firme que mesmo que eles não pudessem beber alguma coisa, poderia entrar, sentar-se e desfolhar algumas revistas até que aquele calor escaldante do dia passasse. Ela não iria incomodá-los: tomaria um banho enquanto isso, porque precisava sair para ir às compras. Recebera a notícia com resignação, esperava por aquele envelope com esperança muda durante os poucos anos que se manteve casada com o soldado. É um grande alívio, sempre que perdemos alguém que mais amamos, pensou consigo. O pai, comunicado, também não demonstrou surpresa: desistiu dos pássaros que também poderiam lhe trazer a morte as asas. O diabo era acalmar a mãe! Devota do santo genro, que proporcionara um casamento à família, precisou tomar baldes de água com açúcar até se acalmar e sentar-se no sofá para ver se passaria na televisão a tão temível tragédia. Só conseguiu dormir à noite, a poder da Maracujina que uma vizinha sábia trouxe já temperada num copo de plástico com canudinho. A mãe sugou toda a mistura e dez minutos depois dormiu. Maracujina não falha, minha filha!
     Punia-se com a morte as violentadas, nossos sonhos de justiça não chegavam para elas. Viviam ali de mãos dadas com o medo, onde a lei da mãe cai sobre a filha. A mãe mandava matar. Era puta feita a força, mas puta. O beija-flor azul do céu, cor d’água molhada, voava para longe. Namoro proibido, um beijo quente e o olhar vazio de amor – seria logo uma mulher então. Pequena princesa de carne na jaula circense. Apenas faltava uma escolha para quem me oferecer. Meu desespero não, não foi dessas, a quem só faltavam pretendentes. Foi meu desprezo depois. Estupefata aquela noite toda chorei, finalmente decifrada. Eu fedia, e era só isso. E não olhava mais as batidas dos ferros desenhando cada silêncio na cadeia dos vasos. Equilibrava os vácuos entre as pálpebras ― minha alma, ninguém mais ali além de mim. Corri para os longes, para os fundos da torre da igreja. Uma cabana de palha vestida de barro branco se cozia numa capoeira ali por detrás. E crisântemos amarelos esquecidos nas suas soleiras, esperam novas mortes. Era a casa miúda e bem cuidada do jardineiro do cemitério. Em seu carro vermelho a manhã passava finalmente. Gritou o sol, batia na minha cara. Eu tinha passado a noite encolhida num canto de guardar côncavas pedras ainda vazias. Flores duras que resistem, suculentas, cactos pequenos, violentos, escondiam a menina com os olhos vendados com a fita da bainha do vestido magro. Eu era uma mendiga miserável vestida de bailarina rosa romântica, na beira duma vereda cinzenta de covas abertas esperando os vivos. Estendidas, as pernas voltadas para a saída da cidade. A estrada estava pronta para mim. Para me livrar daquilo tudo eu precisaria montar nas minhas mesmas cadeiras pouco amplas. Me abandonar de uma vez a esse pensamento. Eu seria como a palha, rodando entre vento e o vento, presos nos pneus do ônibus negro e branco. Sem eira nem beira, Ó Deus único, sem segundo! Se eu chegasse fumando um cigarro em Copacabana! Uma sereia na areia ― eu tinha visto na folhinha, sem me voltava essa imagem. Estava feita! Olhava para as poeiras do pó, rodavam muitas vezes entre as moitas ressecadas de lua.

     Removia a sarro do fumo de entre os dentes amarrando o cigarro. A brancura das minhas coxas que eu imaginava, enfeitavam os cabelos cor de ferro. Duro, aquele pó subindo detrás dos vidros encardidos da Viação Aurora. A Balada da Porca Madrinha! Sacudindo os parafusos na estrada, os orifícios, a boca, o pescoço suarento. Com o nojo nojento do fitilho de sujeira grossa no pescoço. As pernas parecidas com as da tia ― que ela que dizia, eram de família. Estou indo, dona Solange! Estava destruída como um circo dos miseráveis ― meus prediletos números de enterros. Mas tinha as mãos ainda lindas e doces, com esse esmalte fulgurantemente verde. A manicure me mostrou um tom abacate, ela mesma colhia para a viagem. A minha correspondência com a companheira da poltrona ao lado: Achou lindo! Em Copacabana ela me garantiu poderiam me cobrir com panos diferentes e maquiagens estudadas lá fora. Quando nua me ensinariam a me proteger das partes piores do corpo. Eu aprenderia a me virar sozinha, de um lado para o outro, com as poucas sombras que enxergo. Já havia escolas modernas para putas cegas! Minhas mãos massageadas por especialista. Eu serei experta em leitura de paredes, enquanto trepo em pé. Só continuaria suando um pouco demais nas horas erradas, como sempre. Isso ninguém dará jeito ― mas lá havia água em abundância, não é mesmo, comadre? E no caso de seca de todo aquele mundo, poderia me banhar no mar, que não ia secar nunca. Ainda não, não é mesmo, comadre? Sem banho na cidade também poderia ser fatal. Com tanto pano de falsa donzela, suor de bicho pesado. Onça zonzando de calor ― assustada com o trânsito das veredas. De estouro das boiadas de motor. Perseguida pela cangalha, massacrada pelo trabalho. Os olhos grandes e submissos ― dois gudes baços, eu sonhava. O coração fúnebre rebateu seu dobre outra vez, forte. Amassei uma mão na outra imaginando a vizinha. Como seria? Um sorriso miúdo, ela sofria porque eu não enxergava? Tem desses ― a Cega! ―, e eu só queria puxar assunto do variado trivial. Suas mãos são lindas, ela disse. Ontem eram. Lindas nada, eu penso. ― Todo mundo acha. Eu digo. Esconder o nome do que se sente conservando ainda a frescura da verdade nas pontas das unhas ― esse é o truque. Por aqui, somos todos um pouco assassinos, gostamos de devorar nossos filhos, sofistiquei. Por uma semana no máximo, os amamos, mas é tão pouco, não acha, o amor, minha filha? ― Que temos por eles, não? ― Eu disse.

     Como você me deixou abalada porque eu não conseguia falar. O que eu queria mesmo era me acostumar com você. Séria e silenciosa mesmo, fedida. Mas como você não se acostumava comigo, não precisa me ver nem me perceber. Não tenho mais o que dizer. O que você acha, você que é meu senhor? Tá bom assim? Você quer saber mais? E o que seria saber mais? De que? Eu esperava o amor, claro, como todo mundo. – Quase todo mundo, ela atalhou. Esperava, cantando baixinho. Cantarolado debaixo da roda gigante. Porque nós já íamos ainda nos cavalinhos, ele foi dar uma volta sozinho na roda. Eu não fui, porque sentia medo. Cega, girando nos ares. As pernas pra cima, tá doido? Eu queria ir nos cavalinhos! Porque eu sentia paixão pelos animais subindo e descendo. A roda gigante podia despencar de coxas para o ar. O Carrossel no Parque de Diversões, cinco réis, depois fui. Foi tão bonito, o vento nas fuças dos brutos! Não ia deixar aquele homem sozinho, tonteando no meio daquelas tropas. Feira do Jequitibá do Norte! Sentia uma agulha passando pelo fio da garganta. Era primeira vez que ia ao parque, com o marinheiro da Costeira. Nem grego, nem argentino, maranhense. Toda a viagem do ônibus, eu sonhava com o que eu realmente era. Queria, querida, ali mesmo montada no cavalo sair do lugar. Eu ficava quieta dentro do ônibus. Me amassava no banco, de um lado pro outro. Não precisava ninguém mesmo vir nem ir falar comigo. Mas parti no mesmo dia. Em Espelunca de Copacabana voltaram minhas insônias ― e as saudades. O noivo, menina pronta para casar ― fedida. Nem um tostão de ninguém pra ganhar a vida mais fácil. Ninguém foi com a minha cara, eu não sei? A verdade é que eu não era bom negócio para ele. Ou se ele era bom negócio para mim, não sei, mas servia. Como qualquer coisa serve pra toda mulher. Depois são mortas, no descarte do que escolheram. Depois me explicaram o que eu sentia. Me contaram em detalhes, no espraiado. Ele achava que amar era a coisa de uma piada sem graça por dentro, contada rápido, Elvira. Eu entendi na hora, era assim mesmo. Mesmo que sem graça servia pra fazer um número de circo. Uma coisa qualquer, coisa alguma. Talvez mesmo que seja de mau gosto! ― Mas eu me arriscava, dona, gostava. ― Não precisa me chamar de senhora, filha! Dele e de todos os outros, senhora, de todos os lados. Ele não, não gostava nada de mim, nem toda. Só de algumas partes. Algumas partes sempre ficam de fora do cesto do mercado do amor, filha. Na sexta-feira, após fazer a volta na parada da praça, tinha um pedaço de broa na primeira hora da noite, quer? Broa, é tu. Vou tomar uma pinga. A estrela cantadeira movida a motor morria entre nós. Meus olhos sentiam frio. Ia embora cedo antes das nove ― tomá outra pinga, pastora? Na cidade grande não haveria espinhaços. Fuço com os pés os velhos chinelos de corda debaixo do assento do banco da frente. Palavras cansadas com a vizinha, ônibus velho. Seios pontudos, duros, suados. Usados no calor do sutiã cansado, vagabundo e duro.

     Farelos de biscoito derramados do saco plástico choviam do assento da perua faladeira. Lourdes era o nome dela naquela hora, depois não sei. Estava novamente rindo e mexendo as mãos e bebendo a tequila de uma garrafinha feita de pelo de casco de cavalo, que tirava de uma bolsinha pequena. Pelo visto, de couro, também de cheiro. Aceita um trago? Quando acabar, acaba. Nada! Tem mais meia dúzia na mochila pra viagem toda ― é longa. Contrabando dos cargueiros de farinha, tangerinos. Eu tenho os olhos grandes, e quando eu bebo eles ficam mais grises e arregalados. Às vezes, a pálpebra não estava no lugar, como naquela hora não devia estar mesmo. Sob as folhas decíduas ventando pelas horas nas amendoeiras avermelhadas ― o outono querendo dar. Ainda mais original é quando as coisas azedam por aqui, ela me disse. Que estivéssemos sempre prontas! Queria alguém para amarrá-la, um camarada disposto, com as mãos para trás. Para trás! Diariamente, e só soltá-la no domingo. Ela disse. Quando eu canto é legal ― o tempo desativa mais rápido. Perguntei o que era aquela sirene ― desastre? Dois carros, um oficial, e uma escolta. Motocicletas armadas, ela disse, cruzando nosso caminho. Fizeram um gesto para o ônibus ― no mesmo tom. Na rota, uma operação policial do exército. Caçam terroristas, ela disse, o chefe deles anda por aqui, era real. Subiram no ônibus, a polícia sempre traz uma desgraça. Ela é cega, ela disse. Eu era. Uma estranha, eu me identifiquei. Abri os olhos bem e eles não acharam nada. Não era errado, nada, era cega ― e examinaram as minhas mãos. A boca, os dentes, um olho de cada vez, o hálito. Bebeu? Um gole. Estava cadavérica como sempre. Depois os dois olhos, mandaram eu olhar pra cima, pra lá pra cá. Lá dentro, para a direita e para a esquerda. No oco fundo, o policial divisou o mar. E, uma por uma, as sete trezentas tralhas do meu quarto ― desarrumado durante a seca. Peixes, flores, facas, fenos, farsas fosforescentes. A areia das estrelas de dependurar no pescoço. A lâmpada ― forte e azulada ― era o que eu deixava acesa durante a noite do meu sono para imaginar o dia dentro do quarto. O teatro entrava pelo cinza duro dos olhos. Duas escuridões pesadas demais, a noite toda escura. As trevas transformavam o chão num cenário de correnteza. Eu tinha horror a acordar naquelas horas, sabia que estava tudo escuro agora ― e em paz. Depois que se foram, meus olhos assustados revelavam os mangues fétidos. Ressecados e cheios das crianças abortadas na infância. A passageira adivinhou as visões. Pressentiu, fica calma, não aconteceu nada. A passageira entendeu o vento ― também respirava sonhos sobre os tempos antigos.

     Se cravaram mais duras, as minhas unhas nas duas lindas fundas olheiras. Eu sentia as duas silhuetas se movendo como asas escuras. Ainda descendo do ônibus, já desceram? Se revelavam agora através dos vidros esverdeados do aquário do ônibus. Ela disse. Minhas mãos, apesar de todo o medo, continuavam perfeitas. Sociáveis, mas sedosas não. Eram apenas os restos das minhas muito antigas mãos. O resto de tudo aquilo que todo dia sobrava de mim. Tudo bambo, soltando as porcas. O ônibus reagiu aos meus solavancos e sobressaltos. A faladeira ficou de pé na poltrona, e me obrigou a sentir o cheiro dos fundilhos da calcinha dela. Verde alface ― eu imaginei pela pinta braba da figura. Ela me explicou tudo, falou quase de tudo dela, do hímen difícil. Às vezes com as palavras pesadas da mesma cor das unhas ― aguçadas suposições. Era elástico, o seu purgatório. Tinha matado o noivo, o Roberto Carapina, da Flor do Engenho. Eu soube, como eu mesmo tinha que dizer? Arrastou da mochila, agarrada no bagageiro, uma garrafa ainda maior que todas as outras ― a garrafa mãe. As que tínhamos esvaziado na estrada, pititinhas, iam ficando cada vez menores. Falava pela garganta. Os buracos, sim ― todos no lugar. Não, não tenho lepra, ainda não, por favor de Deus, ela disse. Por enquanto só o corpo ausente de fadas. Alegres, a falsa ardência dos sorrisos e as curiosidades pelo demo, presas no seu labirinto. Esperanças da merda nua da vida, você tem? Ela perguntou. Teve mãe ou você nasceu do cu de uma jumenta, sua faladeira, eu perguntei? Esses anos de asno, de pasmo, debruçada sobre meus quatro quadris, pateando num pé só, vergonhosa. Nunca ir ao atos, quando muito fugir dos fatos. Me vestir quando quero, mas não. Não quero nunca, nem me vestir nem tirar a roupas para existir. Ficou por aqui uma semana ou duas ― ia e vinha no bar, enquanto isso. Deixei-me ver toda nua por trás. Toda nua, três noites seguidas. Seguia seus rituais. E as linhas das minhas dobras de ondas, eu sabia. Por que essas coisas? Nada sobre isso, nada, ela dizia. Existem coisas, sobre a existência dos abutres que nós nem imaginamos. Eles prosperam dentro de organismos, bem alimentados ― por nós mesmo. E nos convencem. Com nomes estranhos se dizem, fofinha, como se fossem coisas normais. Eles nos lembram os terríveis de nós mesmos. E indecentes, até, depois de alguns dias, ficam. ― Às vezes no mesmo dia, existem mesmo, minha filha! O mesmo cara dos três dias nua, quase sem comer diante dos seus olhos vidrados. Me contou que o homem que matou minha colega também gostava de cadáveres frescos. Ele apenas me via como um cadáver, mas não me matava. Também, porque ele também gostava de mulheres vivas ― mas não ia fazer isso comigo. Porque então eu era melhor viva. Tinha curvas de chocolate que obedeciam aos melhores desenhos que ele queria lembrar depois. Ficava olhando. Só se fosse de chocolate branco, minha filha, quase derretido, podre. E principalmente porque eu não tinha olhos, para não ver a minha própria morte ― que era disso de que eles mais gostavam. Ele e o melhor amigo dele. Cada uma devia saber exatamente como e de que estava morrendo. ― Ele achava, eu disse ― eu não sei nada sobre isso, senhora. Ele acreditou. Quando os dois foram presos e mortos, não foram levados para a geladeira. A nossa cidade achou por bem que eles fossem estregues aos nossos Sete Cachorros do Purgatório, sedentos de sangue. A senhora leu sobre isso? Mas por que estou te falando de tudo isso, agora? Você percebe, o que acontece quando eu bebo ― a minha senhorita fala sem cerimônia?

     Lourdes, nestas curvas íngremes da estrada, quase morta do vinagre da viagem, novamente rindo e bebendo tequila, pestanejava e pressentia meus olhos ágeis. Minha pálpebra não estava mais no lugar, de novo. Ela percebia, se recompunha e claramente se desculpava com frases chochas e mal cozidas, porque ficava olhando. Alegava que sabia que estava errada, que eu deveria compreendê-la. A miséria de seu tronco seco nunca haver florescido. Apesar de pobre e de não poder ler, era a árvore de que eu dependia para viver. Que nunca e nunca, por ela não, e muitas e muitas outras coisas. Eu acho que esse monte de momentos, ela falava só para poder encontrar outro motivo para beber. Naquele dia chovia e ela ia se reencontrar com o seu antepassado. Sentada, inclinada no sofá diante da vidraça quebrada, daquela maneira embriagada. Depressiva, dissimulava uma branda melancolia. Um malmequer qualquer, mameluca e despudorada. E pensar que até deitada no chão eu já tive que lhe dar comida. Depois, dei-me para comer toda, e foi toda merda do mundo que ele engoliu. Foi o que ela me disse, no dia em que saiu pela porta afora. Com o casacão vermelho rasgado pela chapa solta da fechadura. Resignada eu me enfiei no chuveiro, tentando me afogar com a garganta aberta para cima. Só consegui engasgar e ficar com as mãos enrugadas. E minha tristeza cantava dentro, como lesmas lentas escorregando de um vaso de vidro branco. Os cães atônitos de madrugada, me olhando em silêncio, chorando em silêncio. As outras madames, cada qual no seu apartamento, diferentemente decorados. Nem se mexeram para vir saber o motivo, porque não ouviram o choro. A cada noite, de acordo com o gosto do cliente, eu atravesso a porta de um jeito. Após uma almofada, um travesseiro, um sutiã, um sofá. Então surgem as borboletas obsoletas. Uma a uma, elas se evaporam de si mesmas como uma volta premeditada ao seu estado de crisálida. Como escamas que nascem das pedras das paredes, elas emergem. Depois, uma violeta morta numa travessa de metal esquecida em cima do tanque. Dentro da pizza, a grande rodela de tomate, o pó do orégano salpicado, pede pule, quase de madrugada, pra matar a fome antes de dormir. Amanhã de novo me reencontrar de braços dados com os avestruzes de cada dia. Um dia a dia só para você no meu apartamento. Bolas de encher penduradas pelas paredes, no mês do meu aniversário! Flor, mas a Flor de Verdade, Elvira, do jeito e maneira que ele queria, não, nunca fui. Agridoce agrião, me confundo com a vala das lágrimas. Vermelha, me disseram, a menstruação abundante me faz sentir o cheiro dos meus vermes e dos teus versos. Meus dentes falsos, feios, cinzentos, para fora, me disseram. Ele também achou que devia ser horrível. Eu podia ver pelos seus dedos surrados, devido a ficar brincando com a bolinha de carne do meu corpo. Jogando comigo de gato e rato.

     Ninguém mais não escutava nem ouvia meus gritos. Mas ouviam, eu sei o que diziam depois. A cega maluca. Se não ouviam! As suas mãos brancas como luvas de cirurgia de mágicos socavavam a pele do meu rosto. Ainda virgem e já quase morta, ele me arrastava pelo chão sacudindo minha cabeça tonta de menina nas pedras. Eu dizia o que ele queria, só para lhe dar prazer. Se ele me beijasse rápido, eu chorava um pouquinho. Quanto mais lento mais bonito seria. Eu acreditava. Me esbofeteava então rápido, encurralada entre dois armários entupidos. Os cabides pesados de suas carcaças de roupas velhas, caindo aos pedaços lá dentro. Imprensados com nós, uns contra os outros. Estúpidos cupidos cruéis. Sendo penteada pela Madrinha, eu sonho beijos que nunca voltaram. Recentes queijos frescos, esquecidos chupões roxos, cor de mortos, com a alma que eu desejava que meu corpo tivesse. Os bombons sem as embalagens espalhados pelo corpo cheio, ele adorava isso. As marcas negras de bordas arroxeadas, reflexos da tortura e do trucidamento, como sempre. As flores mastigadas, cuspidas. Tudo arrumado sobre os ocos seios achatados, bastardos. Enquanto isso, ele ria e bebia. Esperando que eu surgisse como uma estrela pela porta da sala. Por detrás da cortina, eu mergulhava no mar do aquário, antes de aparecer toda molhada no palco. As rosas de plástico, ofertas votivas a uma deusa marítima, cheias de óleo ungido, boiavam à flor da água. Seriam para mim? A Flor das Flores, Rosa Elvira do Martírio! O murmúrio emaranhado de corpos elásticos que eu atravesso antes de pegar no sono. Vou metendo as mãos devagar nas gentes, para romper aquela gigante geleia quente. Do interior dos meus ossos, retiro cada espinho. Surgem dos caules, eu nunca soube de onde. Me obrigam a ficar viva. O sangue e o vinho, mais doce e quente. O espetáculo do meus moinhos de memória, agora soprando um vento branco e seco. As imagens escorrem e logo estarão muito perto da boca. O trabalho delicado desses gostos ideais. Mãos de passamanaria, gestos de detalhes que eles sempre pedem. Eu apenas me limito a imitar uma fêmea qualquer. Nunca experimento exatamente aquelas poses que eles imaginam. O macho tinha feridas na boca. Eu as transformava em borboletas de celofane. Tequila, confetes, mulheres engolindo facas. E medo daquele homem. Protrusão luminosa e abundante de trevas do mundo. Envolvendo as minhas mãos pesadas, eu via asas incrustadas. Sobre as garras traseiras, esmalte laranja. Há aquelas de nós que pintam os cabelos antes de se matar. Decoram as banheiras tristes onde se afogam. Lanugem com sabor de suor e massagem de baunilha. Como um samovar de vinhos tinto cheio de cabelos sujos..

     Outra princesa com olhos novos na praça, novidades. A companheira da poltrona ao lado urina toda hora sem cerimônia, abrindo e fechando a porta do banheiro do ônibus. Noite adentro, logo assim que termina, volta. Lhe chega um jorro mais vermelho e mais ameaçador. Ela disse, queria ter certeza de que você ainda estava viva a essa hora da madrugada. Enfim, urinar infinitamente é a única coisa que nos é permitido fazer por aqui. Ali está o nosso hábito mais delicado e ingênuo. Estarão lá também para o estio e durarão o resto da noite. Essas idas e vindas malucas e mal dormidas. Merda de dias e tardes, aos solavancos. Pouco sono, bocas velhas boquiabertas de bocejos e saliva salobra escorrendo. Tudo na mesma hora, tudo se fecha no ônibus. Os meus olhos de ovelha, o motorista com o hálito quase dentro das minhas virilhas. Olho sem ver a janela negra de noite me espreguiçando, cansada da cor de água de rosas. A madrugada me reencontra com os passarinhos sem luz, ninguém pode prever o quanto eles cantam suas novidades. Estão na memória esses pequenos pássaros daqueles dias que fui. Porque fiz o que queria. E quem me conhece logo diria. Quem duvidasse, teria certeza, ao perceber que me perfumo. Para apanhar sereno no pescoço, isso é! Deixo a janela um pouco aberta. Esquecida de todo de nós duas, toda as flores das damas daninhas, sozinhas dormindo no vidro de compotas. Ninfeias lindas e desajeitadas, acordadas vivas em peles de plástico. O aquário aceso no centro da sala. As mesma plantas sobre o móvel mudo. A mesma planta noutro vaso sobre outro móvel, simples e em silêncio. Espero ter colhido um príncipe naquela joaninha no meu joelho. Príncipe da vida, me encontra com essas luvas de lavar louças. As unhas bem feitas como de um cachorro de rico. Lábios que amadurecem com o gosto de uvas gregas. Açafrão suave no verniz das bochechas. As pálpebras jambo cor de refresco em pó, desmanchando sozinha numa jarra gelada. Eu também sinto sede, eu também me lembro de mim. Eu também mato a minha sede sozinha. Eu me tornava uma ameaça evidente para a sociedade, um pesadelo para as mulheres dos vizinhos. Fêmea instantânea, comprada barata, dissolvida na sua própria taça. É só bater na minha cara, na minha janela, que ela se abre e se desmancha na tua boca. Aparição sonambúlica, espalhafatosa, momentânea como a ilusão de ótica de uma flor natural presa no vitral dos óculos. Existência dupla, caminhando pela cidade. Pelo jeito como as flores foram largadas na minha porta, seriam do prefeito, que já viria à noite. O manganão louro usava uma camisa aberta de seda vermelha para dirigir seu velho caminhão amarelo. Eu fazia uma oposição desleixada diante das flores na jarra! Como a arrumação da casa da esposa do vereador careca. Ela que arruma, e adivinha quando faltam algumas. Já sabe para quem ele roubou. Minhas contorções circenses na cama não precisam ser olhada com carinho. O fingimento de que fodia com a esposa velha. Na cama, eu usava meus versos de nascença, ao lado de pintas, sinais e velhos seios secos de menina flagelada.

     Como a sufocação da violência materna. Os olhos opacos, de peixes porcos passados da hora. Meu ímpeto sexual, beijos árabes guardados para as horas de vagar. Desafio e submissão com o vapor que sobe do meu umbigo. O navegar sem rumo das ondas de entrega. A supressão da alma, quando queria ser perversa, podia bem ser se eles pedissem. E ao contrário quando esperavam que mostrasse minha essência, eu abria os olhos, como se pudesse ver. Eu estava ali, só que não via nada, então, era como se nada existisse. E os videntes por mais que quisessem não poderiam enxergar com detalhes o que eu não via. Não, não era nem poesia, o que eu produzia com meu corpo surrado. Aquilo era o que eu queria, suando. Nem melancolia, mas aflita uma sensação de refresco ralo. De envelope, para rimar com as minhas unhas de caroços de mío. Eu já disse, era só abrir e sacudir. Misture bem e beba. A água que jorra do alçapão, já vem de dentro de mim fresquinha. Desde as poças salobras de menina, minguando na caatinga. A mim sempre me vejo novinha, nua, num banhado seco. As grandes aves em fuga. Os braços com a distribuição de gravetos secos. E o equilíbrio um pouco estabanado das caveiras das mulas, carregando a cacimba quase vazia. Quadris distorcidos, ancas quadradas, descendo capengando numa ladeira para a morte, que sempre andava antes de nós. Distraída com os dias, brincando com as estrelas rápidas, os vaga-lumes na beira da estrada paravam e eu sentia seus silêncios. Suas pulsações invisíveis, criavam a sugestão de que logo, eu seria uma sereia esquecida na areia. Minhas mãos miúdas cavavam cada vez mais fundo. O perto do fundo final, aquele lugar, fim do horrível túnel. O buraco por onde passo para o outro lado dos olhos. As fantasias fúnebres que brotam da água misturada com a areia no aquário. Me pego rápido com a outra mão do outro lado, antes que escorregue para sempre. Com a mesma mão luto, contra as paredes de areia para não me desmoronar dentro das saias. Na crespa pele onde devoro a lua, me sinto de novo como uma menina. Esse estranho assado de vísceras e sangue que se cozinhava sem fogo na seca da caatinga. Eu já o esperava dedilhando dentro de mim, me umedecendo sempre que podia me ver nua no espelho das águas do poço. Eu me imaginava ali, encurralada contra a parede, aprendendo com os santos os sacrifícios que levavam aos êxtase. E em pouco tempo, e por alguns cobres, eu também comecei a fazer milagres ― para aqueles que o solicitavam com fervor. O meu corpo refulgente de bênçãos estava ali, pronto para saciar um santo pecador. Esse era sempre o meu único pródigo milagre. E não havia quase mais novidades a oferecer. Sejam todos bem recebidos de braços abertos. Uma nova madona te espera na nova sacristia durante a beatificação fatal. E eu apareceria morta na manhã seguinte, jogada e violentada no átrio sonolento dos mármores amarelados e pisoteados da abadia. Meu rosto apareceria mesmo muito parecido com o de um morto, com minhas unhas longas e verde musgo. Losangos vermelhos reluzentes surgindo da soma de todas as chibatadas no meu corpo magro, e de pés chatos. O peso da arquitetura arqueada em pedra achataria contra o solo as minhas ancas desengonçadas. Tudo se esborrachava no solo, esmagado pela queda sem asas inesperada do alto do coro. Os vitrais fazem o vento frio vibrar nos vidros. Emoldurados por tantos divisórias de chumbo grosso e por tal profusão de luzes coloridas, os santos viraram o rosto para a cena. Enxergavam com as mãos nervosas dobradas sobre as barbas. Na bainha da minhas saias, as falhas dos desenhos nas folhas enormes. Bordadas contra o tecido gozoso das anáguas violetas armadas, eram levantadas quando eu as segurava, me mostrando ansiosa. Folhagens frescas farfalhando, apontando para o céu e rebatendo nos meus olhos. Dentro do meu tato, em minha vida toda, sempre fui essa figura amassada. A cabeça aberta, morta no chão de mármore da entrada da capela, ainda segurava as saias levantadas.

     Não posso enxergar minha face sem as mãos. Essa mancha ficaria invisível para sempre, toda essa manhã, sem os meus dedos sobre ela. Eu não sinto nem a metade de mim, se não tocar na seda preta da combinação. Por debaixo do vestido, e nos berloques branco e preto presos entre cabelos, reconheço as cores pelo cheiro que deixam nas unhas. Ir com os fósforos na direção do cigarro, batucar a bengala em direção ao bar mais próximo, surgir como mosca na agitação incomodando os homens em flor. A mesa da sala com um sanduíche de presunto desde ontem, rachado ao meio de fastio. No porta-luvas sujo esqueci uma calcinha nova, limpinha, e depois durante a subida no elevador do prédio, esqueci o número do meu apartamento. Escolhi um andar qualquer, e batia com a bengala pelas portas todas que ia achando no caminho. A ceguinha tá bêba! Fui uma noiva desapontada, senhor! Bêba, é uma ova! Minha cara diz tudo, nunca tive permissão para refletir com o rosto o que eu queria dizer. Não dizia, e então pedia a Madrinha para me contar como foi. O que foi que aconteceu comigo. A Porca-Madrinha ― minha amada rainha principal do conto de núpcias, seu rabinho no fim da espinha já nasceu assim! Mas como eu também nunca escondi de ninguém, foda-se! Nunca se sabe até onde os olhos deles vão, quando nos põem nuas no espelho do chuveiro. E o que podem descobrir, ou precisam procurar esquecer por ali. Grunhem bem alto, perto do meu ouvido, uma espécie de valsa azul correndo pelos vales do chiqueiro. Minha audição perfeita reconhece suas raças ― porcos brancos ou caipiras. Enxergo com o nariz desde menina, conversando comigo mesma. A onda de nuvens acumulada na festa da palha de buriti, sob o céu seco, ventava na terra pura. Sobre o verde do pasto, com um homem dos céus, nas águas, ele fumava, casado. As asas de um frio e misterioso animal se levantava cedo dentro de mim. Toda suja por dentro, esfregava a toalha nas manchas que eu imaginava empestando a alma. Mas não podia enxergar. Desde o pequeno almoço dos últimos dias sem fome, era a espera armazenada o que me consumia. O meu ar de onça, meu batom cheirando a flor. O éter de vez em quando aspirado. O material pegajoso no soalho da língua.

     Cinco de novembro. Entre os dentes, o que fedia sempre era o álcool, e a gordura da muxibas. Quando tinha alguma para mastigar. Os lábios da minha flor, digo sem vergonha alguma, são como o papel de arroz ― quando molhado se desmancham e revelam segredos. Amei e aceitei as maquiagens extravagantes que me impuseram. Um homem sem barba só serve para fazer dinheiro, não sei se me entenderam? Aqueles que enxergam não sabem a diferença entre um homem com barba e um homem sem barba. Mas entre as minhas pernas eu vejo tudo. Narrar meus medos, meu fogo diário, todos os temperos, os temporais, as faces, meus punhais. Os que morrem e se movem devagar, e os que guardam os vermes profundos fincados. Todos os dias, não ter medo de anotar as porradas. Golpe a golpe, sou eu quem sabe como escrevo, a sua escrava comprada a peso. Eu sou minha senhora e minha religião. Olho no olho, dente no dente. Meus olhos pelos teus olhos, os dentes que eu perdi pelos teus tão bonitinhos. Eu não vejo, mas você não enxergava! ― Não via? Não havia amor, levando o mofo ao centro de tudo, para dentro do quarto. Se livrando do meu corpo já morto antes que apodrecesse. O padre – não o monsenhor da saliva grossa, mas o nosso, que bandeou para o nosso lado – depois de tudo foi torturado como um homem comum. Oh, Jesus-Deus! Se ele tivesse ao menos me deixado o cheiro do perfume dos seus dedos de círios. Mas seu tato de escamas de peixe, se manteve virgem durante toda a campanha. Seus dedos de jasmins cheirando a defuntos. O que era um padre para eles? O incenso ainda aceso, derramado no recipiente de lata. Agora os fios esfumaçando, naquele corpo sem bálsamo. Considero, padre, hoje depois do teu calvário, a tua alma capaz de se transformar em pássaro! Ah! Entre os santos humanos, de verdade! Mesmo com todos os teus pecados, que eram bem poucos. Mas quem nãos os tem? Nós, os criminosos do dia a dia! Com todos os pecados humanos, era mais sincero do que os santos, Como as mentiras prontas e justificadas, daqueles que vieram para me matar, depois da prisão no convento. Não! Eu, a cozinheira Dolores, era demais conhecida na cidade. Decidiram que iriam fazer com que eu mesma me matasse.
     Potente, o saveiro se desloca contra o velocino dourado do mar. Corta a baía com ternura com as velas no máximo gozo da espuma branca que empurra, e ao contrário de seu sopro sólido. O vento dialoga num tom intenso com as cordas do velame, e dá ao brigue encorpado em madeira, a navegação e a firmeza que recompensam o investimento naquelas embarcações bem construídas. Logo os passageiros atravessarão os rochedos lisos recobertos de gaivotas esmaltadas e albatrozes sombrios separando a calma enseada do alto-mar bravio. Fustigadas horas de folga daquele dia impecável, oito da manhã sob sol impecável, fortes e intensos azuis entusiasmam a pequena multidão alegre. Todos se divertem nas algazarras do convés de madeiras e encerados assoalhos bem tratados e reverberados. Na base dos mastros, as vigas dormem, vigorosamente penetrando profundo no casco, enquanto são adornadas por imagens de mulheres que as suportam, nuas de seios e sexos opulentos como florações da alma do barco que a tudo deseja e penetra. Entalhes rebuscados de espigas viris acrescentam à decoração da amurada vazada de colunas a contraparte masculina que os entalhadores do porto não poderiam faltar para a intenção primordial da nave: o perigoso prazer entre homens e mulheres. No centro de tudo, ergue-se a grande roda do timão, representação fálica da presença do elemento patriarcal no comando da nau. Uma espécie de pênis onipresente esguichando para todos os lados, e absoluto, que a todas as coisas dirige. O barco segue para onde ordena sua vontade poderosa e assustadora.

     Apenas Jaqueline me acompanha, mamãe confia nela. Se soubesse o quanto Jaqueline pode ser tão mais perigosa do que eu! Magra e carnuda, ideal para uma mulher. Olhos orientais, o esquerdo levemente estrábico, fazem o convite. O babaca imagina palavras de alento com pelica e açúcar, palavras que ela nunca vai dizer. Então dá vontade de agarrá-la pelos dois braços e esbofeteá-la para que ela fixe os olhos em algum lugar. Aí, ela fala com voz de boneca, imitando gente ― ela sempre faz isso, e sempre dá certo. Se confessa com uma conversinha baixinha, submissa, arrepanhando o cabelinho para cima da testa como uma menininha de colégio interno: se você quiser, eu também quero. Mas só se você quiser muito. Mas vai devagar, tá, porque eu tenho medo. Eu já ouvi isso tantas vezes. Na hora o babaca é que fica com medo! Porque ela pula em cima dele como uma onça no cio! Aquilo melado que sai da boca dela desperta ânsias na pedras e em mim. Mas, eu não. Eu só fiquei olhando, ela deixa, mas nunca tive coragem. Tenho inveja do grande poder de sedução que Jaqueline joga em tudo, sem falar nada, mesmo calada, de olhos fechados. Nos banhamos juntas, a mamãe nunca soube. Ela me explica as manobras e os lugares, eu treino com ela para a hora em que tiver que fazer de verdade. Ela me diz que é quase igual, mas completamente diferente. Eu que descubra sozinha, porque ela não vai estar lá para me dizer o que eu tenho que fazer, e o que eu preciso deixar de fazer. Ela me deixa tocá-la. É um sabugo úmido e carnoso, totalmente diferente dos homens, ela jura. Me ensinou a beijar ela ali, como os homens vão querer beijar em mim, ela jura. Tem gosto de pia vazia, mas eu gostei. Nunca deixei ela me beijar ali, o nervosismo e o medo são muito grandes. Quando eu quiser, ela beija, me disse, uma coisa de cada vez. Eu já sou boazinha demais de beijar ela e deixar ela ir até o fim. Às vezes quando ela demora, eu fico com o pescoço duro, e quase perco a respiração. Mas quando ela consegue, é um alívio para nós duas. E descansamos juntas, abraçadas na água morna da banheira. Eu ganho sorvetes. A putinha depravada me paga por isso, eu confesso. Mamãe nunca soube que Jaqueline me deixa tocá-la. E o que fazemos juntas, mamãe nunca vai saber jamais, nem morta.

     Sons de rolhas macias espocadas na coberta da proa! Aquelas velas imaculadas do barco sagrado se refletem nos copos cristalinos. Champanhe! Açoitadas pela passagem do saveiro, como pequenas nuvens brancas, as aves dos borralhos de pedra se erguem num único movimento e circundam o céu. O estreito se derrama contra o mar aberto, e centenas de gaivotas acotovelam-se como ilhas flutuantes por cima do saveiro. Contrastando com o decorado das bandeirolas festivas cavalgando os mastros, enchem de alegria nossos olhos de marinheiros de primeira viagem. Personagens da lenda sobre a superfície do convés, desfrutamos da alegria de podermos balançar nossas pernas do lado de fora da colunata de madeira truncada. Contra o corpo, o impacto dos pesados pedaços de mar é agradável surpresa para as peles assadas pelo sol. Jaqueline me serve uma taça de espumante. Seu dedinho mindinho arrebitado enfeita a borda da bebida e dá ao vinho um sabor exótico, quase de mistério. Somos um grupo animado de rapazes e moças, conversamos sonoramente sobre todas as coisas, menos filhos, sob o toldo colorido. As bebidas e as tulipas dos baldes de gelo decoram e ornam as iguarias. Camarões grandes, canapés miúdos, cachalotes em postas quadradas vindo do mar do Japão. Todos são mais velhos do que eu. "Quem trouxe a filha maluca da Bruaca da Salina?" ― alguém pergunta. Jaqueline se justifica com uma atitude caridosa, dizendo que eu precisava me divertir e estava deprimida. O assunto morre aí, mas eu ainda ouço uma das meninas mais velhas cochichar alguma coisa, uma com a outra. Fico com vergonha de estar entre eles. Minha roupa de banho é antiquada e fora da moda. Um short usado e uma camiseta de malha por cima do sutiã de funil. Só tive coragem de tirar o vestido, que joguei por cima, porque Jaqueline me garantiu que ninguém ia reparar. Principalmente na minhas pernas cheias de cabelos, que eu nunca raspei! "Junte-se a nós!" ― escuto alguém gritar. O espumante é doce como os sonhos doces e as bolhas se misturam com os relâmpagos da espuma que a maré alta levanta. Gaivotas mornas cortam o ar, e com a primeira taça já me sinto feliz e corajosa. Sou diferente, mas sou ótima! Nunca bebi antes, nunca vi de perto um homem com roupa de banho, nunca beijei na boca. Mas sou diferente e ótima! Só o que me chama a atenção um pouco é que tenho seios pequenos, e se alguém se der ao trabalho de reparar, um deles, o esquerdo, é menor que o outro, como os de mamãe. Prefiro ficar balançando as pernas entre a colunata da amurada, pra não ter que ficar de frente pro crime. Posso ser acusada de ser aleijada e ser jogada ao tubarões.

     ― Junte-se a nós, gritam de novo! ― Vem! ― Jaqueline acena, dando com a mão. Seu gesto quente me desinibe. Estou acostumada com aquela mão. Camponesa burra e sem graça, ouço alguém falar. Reparo que a voz vem de um golfinho macho, que olha para o meio das minhas pernas. Vai ficar aí parada? ― ele repete. Talvez salte contra mim. Eu vou. No centro da embarcação, como no trono de um imperador, a roda do timão é comandada por um homem descomunal. Um grande besouro dourado de calças de sarja branca, tronco de argila cosida. O peito nu lembra um belo bronze refletindo o sol. Na cena linda sob o céu azul, seu corpo escultural está fixado ali sob o mastro principal. O imediato recebe ordens, adequando as velas com os olhos às mudanças do vento. Num relance displicente para se certificar do horizonte, o comandante navega a luneta para o meu lado da nau. Percebo pela primeira vez as duas conchas que guardam os grandes mexilhões dos olhos verde-alga de Urko, o Turko. Arpoador de orcas, assassino brutal, já deixou estendidos dez corpos sem vida no chão imundo de uma taberna clandestina de famosa cafetina Asunción Miraflores, em Palma de Maiorca. Talvez pense em mim de noite e de dia mesmo sem nunca ter me conhecido antes, assim é o destino. Urko não precisou tirar os olhos do mar para vir numa lufada do vento em minha direção. Pousa sua mão engrossada pelas cordas sobre a minha mão de bailarina de caixa de música de veludo negro e escutamos o horizonte girar sua cançãozinha. Me sinto espremida até a alma por uma garra de gaivota macho, sua pegada me transforma num rochedo. Enquanto ele se move numa volta de carinho amigável roçando pela minha pele, escuto o ranger da minhas tripas sendo manuseadas com a habilidade de um velho marinheiro. O famoso abraço de boas-vindas à bordo. Me puxa contra seu peito cheio de orgulho pelos pelos grisalhos de ovelhas velhas das ilhas gregas. ali emaranhado repousa todo o mistério dos homens do mar. Imediatamente ele faz com eu me sinta vestida de bailarina: tchu-tchu romântico, corpete azul, os cabelos pintados de ruivo ouro puro caído maravilhosamente lisos sobre os ombros. Quando dei por mim, estava com as unhas crescidas, pintadas de cor de abóbora, usava um refulgente broche de amarílis frescos que ele me presenteava, junto com o diadema de ouro branco com incrustações em brilhantes por bravura a bordo. Eu era a sua predileta! Eu era a sua noiva desde aquele dia em diante para o resto da sua vida. Eu era uma tonta, pro resto da minha vida. Mas jamais o esqueceria.

      O convés da embarcação de madeira clara e de casco suave, era sustentada debaixo daquelas sutilezas por um potente leque de cavernas simétricas, e pela força das grandes velas abertas deslizava na água. Os dois mastros vibrando contra o pressão do vento do alto mar, me lembravam a árvore de flores brancas que vejo da janela do meu quarto, quando consigo acordar de manhã. As duas velas triangulares surgem como pássaros oscilantes, pousados na beira de um precipício, sempre prontos para mergulhar no abismo. Passeios marítimos de saveiro, escuna e iate, um barco à vela sempre ancorado na praia mais próxima de você. No convés superior serão servidos canapés e drinks. No porão profundo, a animada equipe de festas no batidão constante. Paradas nas ilhas da costas para mergulho livre.

     O barco joga cada vez mais, à medida que nos afastamos da praia. Jaqueline me alertou que eu podia marear. Não quer uma cerveja? ― Urko me oferece, e sua mão forte me estende uma tulipa fervente de cristal plástico. A espuma de madrepérola branca explode nas ondas contra as madeiras do costado do barco. Não quero misturar o espumante com cerveja, eu dou uma risadinha amarela, e acrescento num miado para não ser ouvida por ninguém, não estou acostumada a beber, e eu sou de menor. E emburrei com uma vergonha que quase me joga aos tubarões. Aqui nesse barco, todos nos misturamos com todos e somos velhos e crianças ao mesmo tempo, Urko filosofa, numa pose de comandante, enquanto emborca um canecão de hidromel. A fumaça vertiginosa da cannabis a sota-vento ajuda a impulsionar o brigue. A boreste um grupo animado passa o cigarrão de boca em boca. Se destacando da tribo, Jaqueline vem ondulando em minha direção: É uma especiaria, o comandante planta no armário do porão. Trava destrava não solta senão não faz efeito. Urko tem o corpo de ilhas cercadas de músculos por todos os lados. Estende seu arquipélago atravessando braço em volta da minha cintura. Não quer ouvir o batidão do funk no baile pesadão no fundo do convészão? Levantei de um salto com o convite que eu esperava, para fazer parte do mistério dos iniciados. Urko me elevou mais ainda no ar com a delicadeza que só dedicava às madeiras do timão. Descemos musicalmente as escadas que levam aos Infernos. Enquanto coreografávamos os degraus, Urko deixou escapar um silvo longo e dois breves, num tom casual que só encontramos nos filósofos marítimos. A tristeza abjeta que se apodera de mim quando penso e vejo todos aqueles seres amorfos e sem vida, vestindo roupas comuns, vivendo vidas comuns, morrendo mortes comuns, sem tréguas, nem trágicas nem dramáticas, apenas vidas em branco passadas umas depois das outras. E continuou sussurrando sofismas e existencialismos nos meus ouvidos enquanto nos aprofundávamos no conhecimento para o fundo da nave.

     Meu barco vai pela maravilha do mar. Na espinha da quilha a casquilha desliza como um caranguejo pelo espelho duro de sol. Quando desci para o primeiro porão da embarcação, sustentada pelo braço vaidoso de Urko, tive a rara oportunidade de contemplar uma cena digna dos palácios de Bizâncio: beatífica orgia onde ali todo mundo estava em todos os lugares de todo mundo ao mesmo tempo. Uvas vinhos cremes perfumes deslizavam derrapando sobre os corpos solícitos daqueles seres de um dia: efêmeras estátuas de templos em ruínas, ninfas, ninfetas, ninfeias e matronas: centauros poetas arautos e sacanas, uns contra os outros, todos a favor de todos. À capela, uma negra nua de ramos de videira nos cabelos, em dourados e cheios, celebrava com cânticos o ditirambo da barbárie no convés inferior. Percebendo que fui tomada por uma forte comoção mística e aceita pelos deuses, Urko me faz descer para a próxima etapa. Mergulhamos para o segundo porão mais fundo. E daí, por uma escadinha secreta, para a pequeníssima despensa onde se amontoam latas de arenque da Sardenha, garrafas de uísque clandestino de Chipre e, sanctum sanctorum, ânforas romanas de onde brotam espécimes saudáveis e viçosos da especialíssima cannabis índica. Eu vislumbrava todo o traiçoeiro Mediterrâneo naquele cômodo escuro. ― Posso começar? ― Urko me perguntou de supetão. ― Que?! Ah, sim, eu disse! Sim, claro, Urko, meu bem... Eu sou uma das suas orkas, arpoe-me como você quiser. ― E depois de uma pequena pausa: ― Não quer convidar mais dois dos seus companheiros para lacrarmos velho selo turco? Imediatamente respondendo a um assobio em linguagem criptografada, surgiram das ondas dois outros Urkos. Todos mamelucos, todos berberes, todos turkos. E assim, juntos os quatro, combatemos pela primeira vez e demoradamente, em pé e de quatro, pela libertação dos mouros de Veneza. E depois, numa estratégia marítima militar, que só Urko sabia comandar, surpreendentemente, invertemos a guerra, vencendo no último cerco de Bizâncio contra os turkos, nada mansos. Assim fui a heroína do Bósforo, na minha primeira vez de menina.
     Sem tocar em nada, seria o mistério da versão oficial. Seria o fato do meu corpo já estar morto, sozinha em casa, há três dias. E o cheiro de éter, que na hora certa em que a porta fosse aberta, lançariam perfumando na cena inicial do crime. Três dias sem banho ― mas não se morre de fedor! Meu fim por minhas próprias mãos. Poderiam chamar esse um fato, um ato de coragem? Se eles pretendiam ter o meu corpo como alimento apodrecido! Os detritos que sobraram eram servidos para os pobres soldados. Não há carne, nem olhos que sobrevivam a determinados ataques do Poder Central, numa escala pessoal. Nunca vão acabar os meus dias. Eu estava plena mesmo destroçada. Foi você quem disse isso? E o que ele falou? O major Gonzáles gosta de você. Nuvens de fumaça do fogão à lenha. Uma película de caliça sobre a pele, os tiros de armas pesadas. As paredes balançavam como louças bordadas de vermelho. Eu estava sozinha e completamente indefesa. Cansada atirei todas as balas. E quando tive certeza que o fim estava próximo, atirei as últimas pétalas das flores guardadas, diante dos altares ainda com as velas acesas, perfumadas. Esta paixão nauseabunda, tão transparente! O amor líquido de ontem, incandescente. Esperança de noivados, de novos buquês, que jamais viverão para sempre. E que nunca virão a mim. Dentes de feras que as manhãs devolvem multiplicados. A carne nos ossos, os mesmos sentimentos de antes da derrota. Voltar a ser uma ponte entre o ódio e a injustiça. Os mesmos dentes assim quebrados ― pétalas, alma de corpo inteiro de pé diante das velas acesas. Entre mim e o rapaz de olhos vermelhos despedaçado, o que corria era a vida, feito quando chove pelas calhas. Mas um dia só, uma só vida só, não foi o suficiente. Os biscoitos se despeçam voando pela boca, próxima parada ― almoço, trinta minutos. Se precisasse voltaria a viver a antiga ruína. A intimidade calorenta e solitária dos camundongos do mato num nicho quente debaixo da mãe. Vivia esfaimada, mas não precisava gritar. Se tivesse que escolher, escolheria novamente a situação antiga ― ninguém entenderia nem acreditaria! Para sobreviver, o meu estômago escolhia as piores coisas. Escolhia vestidos com sabedoria, vivia achando que estava de volta do trabalho, bêbada como uma merda. A cachaça barata revelava todas as minhas parte ovais. A fome e os efeitos da bebida me transformavam num monstro. O mostro que eu via toda hora diante de mim. As visões salgavam as veias e me lembravam de cada tiro, atravessando as paredes. Me imaginava recolhendo as balas do chão, como se fossem frutos doces que tivessem caído da árvore da vida no quintal. Mas a fome não lava o ódio amargo, que se renovava no meu estômago. Por isso eu faria tudo de novo! O desejo de matar, mesmo porcos, não é nosso. É como um osso diante de um cão, a fome balança as paredes de tanto ódio. A escura morte do corpo cria sombras dentro da minha pele. Sinto sua presença focinhando no fundo de mim. Agora eu fumo, estendida num sofá vermelho e longo. Um cigarro oval com piteira comprida num apartamento conjugado profissional de Copacabana. Olho a foto de quem eu gosto de pensar que está na foto, quando fico sozinha. E dobro as pernas devagar, quase dançando parada, com os joelhos me aconchegando na almofada em concha de cetim verde. Giro a cabeça de um lado para o outro, contra o encosto de espuma macia, tentando descobrir novas belezas louras no rosto da foto que imagino. Ele sempre tem os olhos vermelhos na foto, como um coelho. Tento proteger minha carne do sol do deserto ― mas raramente vou à praia. Se orientar naquela areia! Me lembro de algo antigo, olhando com os dedos para a foto. E fico extasiada, fascinada, enluarada, quando durmo, bebo e me lembro.

     Depois escuto um pássaro cozinhando o dia, acinzentado. Essa música aguda me abala. Escolho uma saída ente as nuvens pesadas, fisicamente. Como precaução contra o mofo, arrisco e vou à praia sozinha. Os pés aos trancos e barrancos de novo nas curvas que ondulam meus passos com toda aquela areia. Aquelas minúsculas dunas se rompem e rangem. Mas elas me engolem lentamente, como os condenados a morrer enterrados no sol. Escorrego para o chão junto com o chapéu cheio de flores. É difícil me orientar na areia. Todos os deslizes vão em direção às ondas. Sigo de volta, no sentido oposto do horizonte. Quando toco a calçada me arrependo ― deveria ter ido sempre em frente, andando leve pelo fundo do mar. Agora, vislumbro novos homens, menos atônitos. Sambas à noite, gafieira, assobiar para você um pouco bêbada. A tua boca nos meus braços de poemas escondidos, a salsa que eu dancei para você e você não olhou. As tuas melhores peças que você me pregava, eram versos fragmentados. Que não queriam dizer nada, e que você nem me deixava ouvir direito. Frases esfarrapadas que levavam uma leve maquiagem dramática. Passo rouge, crio sonhos, escolho canteiros. Cheiros, viandas, lavandas e vinhos novos. Meu coração de leite bate aquela canção nostálgica. Eu ouvi você cantando no banheiro, lembrando da última ode da minha perdida noite de noiva. Uivos vivos. Depois removi todo lado esquerdo do meu rosto onde você beijou pela última vez. E os roçares antigos, as calúnias, os calundus e os cafunés. Meus cílios flutuantes paralisados, contínuos pela seda vermelha. O outro lado do rosto na sala da lua-de-papel, olhando fixo, uma paralisia que a minha boca tinha que imitar. Aquela boca de foto de revista, que você me explicava em detalhes como era, e os seus gestos preciosos de mãos. Linda, já sei lidar com o cigarro da atriz. Disfarço meu medo de ver morte na televisão, reflexões sobre pequenas mudanças nas minhas sílabas soltas. Treme meu coração e explode de novo, então, a faca fina e longa dentro do meu peito. Os meus melhores dias! Eu amo aquela merda que vou levando na aventura, os jasmins paralíticos caídos sobre o pano velho. Eu cheiro a jarra, a língua branca lambe a gravura esmaltada, nuances de amarelo contra o perfume do velho mobiliário do quarto vermelho. Não brotam sozinhas, como você pensava, as imagens. Meus olhos simplesmente tem fome. Sem sons, se movem dentro de uma caixa preta. Ou então, eu me viro de costas estirada no sofá e espremo as coxas. Uma contra a outra, agarradinha, deixando a grande bunda e o jardim vermelho com seus pássaros à solta. A planta sobre a escultura de mármore, pede para ser mordida ali devagar. Dois ou três mugidos de música no meu ouvido e eu faço qualquer coisa que o cafajeste quer. Benzinho, o suficiente, o suficiente! Sussurros se despedaçam, voando saindo pela janela.

     Tento proteger a carne dos lábios com lambidelas rápidas. Na travessia do ônibus, me lembrava. Uma sinistra violência, um sinistro esquecimento. E eu sinto o tom melado da fala abalando os trancos. Fisicamente, minhas curvas de barrancos desabam ondulando sobre toda a areia das dunas. Mais avalanches me engolem, e lentamente me rompem. Eu escorregava para o chão com as flores secas da véspera. As vísceras misturadas com o sono do vento, inexplicavelmente me envolvem num desejo não classificado, de ver minha senhorita numa renda branca. Uma manhã, ele me faz esquecer o passado. No outro dia, quase ao mesmo tempo, me faz ficar presa sem sair do pesadelo. Passo da samaritana à bêbada nua, e raspada sobre um cavalo de chapéu que come margaridas. Faço outra maquiagem, a número cem, para dançar boleros. Ontem, apliquei aos pedaços pássaros amarelos no cabelo negro. A fina serragem que surge do couro cabeludo se mistura às penas e aos pelos dos meus cachos emaranhados. Eu continuo parada. As pernas abertas na frente da pia, esperando. E nada, de uma vez por todas, ele vai embora. Percebo a movimentação do escuro pensamento nos seus olhos. O homem resvalava a atenção do meu sexo para os meus olhos, dos meus olhos para o meu sexo. A vida iluminava toda a minha pele, eu estava um despropósito. Aquele final de semana eu tinha cozinhado para ele. Hoje, já não é o mesmo para mim, aquele exato momento. Ele piscava com olhos de noivo, eu piscava com luxúria. Esticava o pescoço, cheia de dúvida, gemendo um pouco como uma galinha velha. Ele ficava parado, tentando afundar mais os olhos em mim. Delicadamente eu afastei o homem amarelo de perto de mim, de perto da janela para longe da cortina. A ilusão ingênua da interrupção do vento que vinha da rua me controlava. E que o meu cheiro diminuísse fechando a janela. Agora ele flutuava, a cortina envolvendo tudo do perfume de mim mesma. O cômodo velho mergulhava em meu corpo insondável, forte, imóvel ― insensível. Diante da sanefa empoeirada, bordada à chinesa, Elvira, você flutuava no teu fedor! Essas palavras ― Flor das Flores, flutuar no fedor ― não pertence ao reino das coisas que se podem controlar. É melhor evitá-las!
     Escolho o batom cor de tomate cereja para ir à igreja. Um disfarce de flor de manacá, pra me esconder com você. ali, nos tombos nos lombos nos ombros dos banhos, entre os bambus das salgas das sebes de verão. Durante o dia, adiante, o lago largo das marrecas brancas. As minhas pernas fortes em comoção, se entortando. As minhas conchas grossas, macias de frente e de costas. Eu te ofereço manjar e guerra, e alegria. Revejo tua presença de um monstro de homem bão e feliz. Zukko! Toda a minha vida de menina na espera, jogada nos teus braços ali nua numa cama de tábuas. Vícios me vendo. Nas moitinhas da macegas, as florezitas brancas entrando pela minha bunda, miúdas de pespontos frescos amarelados e vermelhiços. A tua toda fêmea salpicada das pintinhas pardas das samambaias, nas sardas das tardes que você saboreia. Você gosta, beijando uma por uma, e falando aquilo que eu gosto: a tua putinha. Me chupando toda cheia de tesão. Zukko! O sol vai nascer pra mais tarde essa noite. Laurita cheia de carnes fartas, fala sozinha, ainda torcendo as roupas no escuro da grota da goteira. Como uma égua clara urinando, as pernas brancas abertas para ajudar no esforço. Os joelhos dobrados, lembrava-se do seu quintal de pouca terra, na casa do primeiro casamento, nos fundos da linha do trem da Central do Brasil. A construção de tijolos rubros, de lâmpadas de rubis falsos, eram os diademas do primeiro sofrimento, com Orfeu. À memória de Orfeu, Orfeu! Orfeu! sempre se seguiam a imagem do vaqueiro morto, e a cabeça clara esmagada pelos pés da rês. Mas que remédio! As viuvezes eram suas sina. E voltava à lembrança a imagem do militar canastrão: colhendo uvas mirradas na parreirinha do quintal no Méier. Eram mínimos frutos, mas por todos anos que moraram ali, cada estação dava crias a filha da putinha da parreira. Alugaram os dois, de feliz acordo, porque era mais barato ainda ouvir o esporro das rodas do trem e dormir sacudindo. Depois então, com o caipira Tião Zito, o já meio velho e preguiçoso coxo, a carga da besta da casa toda recaia sobre os ombros dela.

     De moça ainda quase flor na sua primeira viuvez agora torcia as roupas mijando como égua. Todo dia se passava contorcendo os panos junto com a vida enrolada nas próprias saias enroscadas nos dias que já faltavam para a sua própria morte pouco se sabe dos bichos vivos dos seus mojos dos seus motivos dos seus nojos dos seus verdadeiros gozos mas seus interesses pequenos isso sim ninguém sim isso ninguém se esquece isso sim além do fato de que eles existem e não se pode esquecê-los mesmo porque tão arraigados tá arriscado a não acabar mais e não acabar vivo antes vivem como fetos de vacas paridas adiantadas e o que se pode afirmar é que antes de morrer todo dia um sono canino religiosamente se atravessa no seu caminho nos seus ossos nos seus rostos amassados e todos os dias principalmente a caveira suja dura e feia dos ossos pesados de pedras se soltam das carnes dos seus corpos no sono solto de Zé Tião.

     Junto da parede, o homem adormecido virado para o lado, só a procurava quando tinha a fome da carne. E a casa velha e só diante do pântano de juncos eriçados e de mimos de capins magriços e de caniços orientais se sacudia em silêncio de grunhidos e tímidos gemidozinhos femininos. As mariposas mimosas, plantas horizontais, plátanos em forma de pratos de doces frescos, ondulavam em uníssono diante de seus olhos. Orquestras conduzidas por insetos cansados invadiam o ambiente miserável e enxameavam a morada mal acabada. Entre uma margem e outra do pântano, vorazes imensidões. Laurita tentava se distrair da nuvem de gafanhotos de mal agouro. Ajeitou a grande panela na trempe avermelhada de fogo, e com a mão grande e dura, usando para se proteger das chamas um pano cinzento e surrado, rompido da velha colcha imprestável, dobrado quatro vezes, mantinha equilibrada a pesada cacimba de ferro. O forte vasilhame acomodava a água do poço para ferver e borbulhava. O fogo era de boa qualidade, essa lenha boa, essa fervura forte! As achas acesas crepitavam como crianças alegres, aos gritos, com essa algazarra toda. Saiu para buscar no galinheiro a franga nova que alimentava com ração dobrada por uma semana inteira. E logo já vinha voltando, já trazia agarrada na mão agarrada pelos pés. Ora a ave cantava sua morte, seu mote último. Lúgubre e fúnebre, gritava a singela sabedora do que ia acontecer.

***


     A matrona acabara de pegar na costureira a saia de oito gomos. Imaginada e executada com esmero para o encontro daquela noite. Passara lá na volta do cabeleireiro. Corte chanel com a nuca em meia lua para parecer mais nova. Louro médio e luzes. Depilação de buço e virilhas. E meia coxa. Se vestia com o sensual provocante azul turquesa de seda pura. Sempre gostou de se vestir bem naqueles dias de ansiedade que antecediam ao encontro para se sentir empoderada quando a hora chegasse e tivesse que se apresentar para a função fatal. Gostava de ser violentada. E assim, regozava a ansiosa alegria da espera de ser surrada naquela noite. Os grandes brincos de falsos brilhantes em fusão com a tarde clara de verão jogavam com os reflexos do lenço de seda verde, casualmente pendurado no pescoço e disfarçando um pouco o volume dos robustos seios. Grandes manchas berrantes vermelhas com motivos de pessegueiros floridos conversavam com as estampas japonesas da seda da echarpe e realçavam seus inclinados olhos orientais apertados ente os cílios falsos e os lírios espalmados das sobrancelhas pintadas cor de madeira clara. Exibia pupilas cor de limão, aclaradas pelas lentes de contato que o namorado novo empresário casado sugerira quando declarara seu tipo preferido de mulher – morena de olhos verdes – e que ela prontamente encomendara na ótica do povoado da capital: era uma surpresa para a próxima noite de amor e violência. O nariz fino e sempre preparado para a fuga, como o de uma pequena raposa assustada, saltava por cima do marfim belo e bem entalhado das faces brancas. Há algumas horas surgira negra do portal do amplo salão do casarão, carregando em direção à luz fraca sem foco a elaborada cesta de arranjo floral com papoulas vermelhas de papel crepom que realizara na aula de artesanato pela manhã, antes de passar para a tarde no cabeleireiro. O corpo algemado pela cinta, delgado e carnudo, vivera o dia guardado no tecido fino do vestido. Fazia com que a silhueta da mulher, ao entrar em casa, estivesse recortada numa sombra escura pelo halo de luz iridescente que descia sobre o capinzal roxo, pendoando e cheio de vida. A alegria de estar ali, ondulava por detrás da sua expressão gloriosa desde que chegara.

     Então, a mãe viu a menina ao piano. E imediatamente apertou contra o peito o embrulho que trazia preso debaixo do braço, titubeando e apoiando-se no batente da porta. Laurita lutava contra aquelas velocidades e ímpetos que lhe surgiam sempre que via a filha, e que nunca conseguira dominar. A imagem de Elvira, tirando notas do instrumento musical fez com que todas as superfícies dentro da sala se tornasse silenciosas e plana. Decerto, seriam esquecidas de uma vez, e não precisariam nunca mais que alguém se recordasse delas. Novamente, acreditava que tudo acabaria ali, e que não teria jamais dificuldade com aquilo tudo que a envolvia. E, à medida que as imagens, encolhidas por sua retina, atravessavam todos os níveis de sua carne ― os ossos, o couro cabeludo e as mucosas ―, a mulher aguçava o olhar sobre o mundo em torno dela, mundo que mais uma vez voltava a se desmanchar. A imagem da filha ao piano tinha um poder sobre-humano e sempre dominava a sua alma. As notas tocavam-na em silêncio. Faziam com ela percebesse as minúsculas fendas e os grandes defeitos de sua própria ilusão. Revelavam ausências internas extremamente dolorosas e irreparáveis: faziam Laurita mergulhar com pavor para dentro de si mesma.

     ― Eu tinha lá meus quinze anos, entendeu? Nos meus quinze anos, minha mãe não sabia, entendeu? Eu fui escondida. A Jaque? A Jaque era filha da costureira da mamãe. Mais velha que eu. Tinha um amigo lá que tinha um barco no Charque do Sul. Era do outro lado da rua do Charque do Norte, que era a nossa rua, entendeu? Jaqueline ia lá sempre, tinha me dito tudo sobre sexo, me falou do barco. Eu falei pra mãe que a mãe dela tava com gota no pé. Que a Jaque tava cansada, não tava nem conseguindo dormir direito de tanto serviço na casa. E eu já tinha ido lá ajudar a Jaque três vezes. A mãe sempre acreditava em mim. Mas o tempo virou e o barco não pode fazer a volta na Ilha. A mãe assustou que eu demorava. E demorei pra voltar pra casa mesmo. A mãe aproveitou, foi na casa da Tia pegar a costura. Sempre pegava roupa lá. Tava voltando da aula de artesanato, quando não me viu. A tia, não era tia nada, era modo de falar de tanto conhecer nós. Entendeu? A costureira, a mãe da Jaque entregou tudo. Cantou pra Mãe que nós tinha ido fazer um passeio de barco na Ilhas das Cabras. Até o fundo do mar, lá longe, naquela ilha onde as bichas brancas andam sobre as pedras. A mãe da Jaque falou que a Jaque tinha ido fazer um serviço no bar, mas que eu, ela não tinha visto, nem desde ontem, nem há uma semana, não sabia mesmo. Mas a mãe sabia dos passeios. A mãe sempre sabia tudo sobre essas putarias do mundo. E o que ela não sabia, ela adivinhava, certo? A mão foi, calou. Foi em casa e voltou. Ficou sentada na pedra do portinho com a dois canos do Vô, esperando passar o vento por ali. E o amigo do Urko, da Guarda Costeira, que ganhava dinheiro pra liberar os passeios com as menores e a muamba, avisou pelo rádio que a mãe ia matar ele. Desembarquemo numa prainha do outro lado do porto. E eu vim, como quem vinha da casa do outra tia da Jaque, Sinhá Elena, a bordadeira da mãe, lá na praia do Meio. Mãe não abriu a boa, em silêncio estava em silêncio ficou. Mas tava branca que nem um fel. Falei que a gente tinha ido lá arrumar um porco na Sinhá Elena, que o tio Quim tinha matado na madrugada. A Mãe como quem não sabia de nada me levou pra casa quieta. Mas eu sabia que ela sabia. Ela só andava com a dois canos à bandoleira quando tinha alguma coisa, muito, de muito séria pra resolver. A mãe sabia que a Jaque ganhava dinheiro no barco. Não tinha nada com isso porque a Jaque arrumava um dinheirinho pra ajudar em casa, e nunca deu problema. O que ela fazia lá no barco, era problema dela. Sabia. A mãe sabia, já disse pra senhora. A tia com gota, quase não costurava mais. Um dinheirinho, entendeu? A mãe sempre foi realista com o mundo. O farmacêutico disse que a gota da tia era por causa do susto de ficar sem marido de uma hora pra outra. Foi quando aquele vento matou ele afogado por causa de ter jogado o barco contra as pedras depois que virou. Depois a Jaque começou a fazer faxina pro Urko, na casa dele. O Urko chamou ela pra servir bebida no bar do barco. Mas não era bar nada, servir com o corpo. Putaria da grossa, a senhora entendeu? Era! Era! Era com os convidados do passeio. Eu não. Não senhora. Não, nunca cobrei nada. Não, não senhora. Não. Ó, a senhora acredite se quiser. Por que? Só porque o meu corpo me pedia muito.

     ― A Mãe ia calada o tempo todo do caminho da casa. Não gostava da mãe calada. Ela ficava perigosa. Andava pelo cais armada com a doze desde o caminho de casa lá longe na várzea. A Mãe tinha uma salininha, nem grande nem pequena, a senhora sabe. É, sim, dessas muitas miúdas que tem por aí. Nós morava lá naquela época. Coisa dos parentes velhos lá dela, que tinha deixado pra ela, caindo aos pedaços e cheia de dívida, mas dava pra produzir um salzinho pra despesa. O Vô vivia na cadeira de rodas, fazendo planos de que só ele sabia como resolver. O aleijado não fazia nada pra ninguém, vivia enfiado no porão, nós que labutava no sal. Ele se dizia meu pai. Meu pai, mesmo, o marido da minha mãe, morreu quando eu era pititinha. Já tinha ficado viúva uma vez antes. Coitada, nem casou de novo com o rapaz caolho que ela gostava. Estranhei as janelas fechadas quando nós chegamos. A Mãe não fechava as janelas nunca. Entremo. Mãe me mandou tomar banho. Depois, vem jantá, Elvira! Fui. Voltei do banho e fui tirar a comida no fogão à lenha, que a mãe tinha deixado pronta. Lá no alto do caibro da cozinha de telha vã, tava lá minha mãe pendurada. Tava lá com os braços pra baixo espichada, balançando com a saia de oito gomos novinha que ele tinha tirado na costureira. O vento baixinho estufava as pregas, sim, de amarelo sim, amarelo não. Não, não, vermelho sim, vermelho não. Isso, o forro dela é que era amarelo. O forro que a tia tinha botado quando ela cozeu a saia da Mãe. Novinha, sem sujar nem lavar ainda. A mãe sempre fazia saia balão, mania dela. Essa, desse dia, a mãe encomendou porque nós ia no circo, e ela queria ir bem bonita nos meus quinze anos. Nós ia até levar o Zukko, o rapaz que cuida dos nossos porcos. Mas não. Olhei e vi aquilo tudo por um par de segundos, um por um, devagar mesmo. Não acabava mais, e eu sentei pra descansar. Na mesma mesa que ela subiu, debaixo de onde ela estava, quando pulou, eu sentei. Parecia que eu não ia mais me levantar dali. Mais nunca. Ia viver sentada ali para sempre. Daí, foi! Foi daí foi que eu me levantei, entendeu? Pra quê? Ôxe, pra quê, dona?! Fui chamar os vizinho pra tirar a Mãe de lá, doutora. Ou a senhora acha que eu ia deixar a Mãe lá pra sempre?

     ― Enquanto as plantas crescem os meus dentes caem no abismo. Um novo amanhecer de trevas se ergue a cada dia no horizonte. As coisas que eu vivi, as pessoas que eu conheci, depois eu descobri, que elas nunca existiram, que elas nunca aconteceram. As coisas estão lá, as pessoas estão lá. Eu as toco, toco, eu as toco muitas vezes. Mas nunca as atinjo como quem atinge o Sol. Meus braços não são suficientes para chegar até elas. Minha cauda não consegue impulsionar meu veneno. Meu serpentear não tem calor para aquecer meus olhos. Minhas escamas ressecam, desbotam e caem. Logo serie pele nua, superfície lisa. Me verei embaçada num espelho escorregadio entre dois silêncios. As imperfeições que eu acumulei dariam para encher um desses nossos caminhões de sal. Isso fui descobrindo aos poucos, tardes contra tardes. Depois de um pequeno fracasso, um fracasso depois de outro fracasso. Comecei me achando uma pessoa que tinha um monte de defeitos. Cheguei ao ponto de sentir asco de mim mesma. Não conseguia chegar perto de ninguém de tanto nojo que eu sentia de mim. Passei a evitar as pessoas, porque achava que elas tinham todos os defeitos do mundo. Então, descobri que quem tinha todos os defeitos do mundo era eu mesma. Que fulano e sicrano eram bons até debaixo d'água. Que eu estava ali por interesse, só por interesse. Pelo corpo dele, pelo dinheiro dele. Pelo conforto que namorar ele me dava. Pelo conforto que namorar ele podia me trazer.

     ― De noite eu me encharcava. Me embriagava, fumava, fazia sexo. Passava, era nada. Quando acordava de manhã, não tinha um coração para dar para aquela pessoa que estava do meu lado. Que esperava alguma coisa de mim, que esperava tudo de mim. Agora os raios de sol entram por debaixo da minha pele, e vão até o seco dos meus ossos. Correm por mim tudo, e saem pelos meus olhos. Por isso enxergo agora. Cheguei a casar, tive filho, mas deixei prá lá, com avó dele. Que que eu ia fazer com aquela criança? Com aquela gente toda do lado do pai dele? Nem conhecia eles direito! Meu filho, coitadinho, o pequenininho, não tinha culpa de nada. Um dia eu acordei de manhã e não sabia o que era aquilo que estava do meu lado. De onde ele tinha saído, pra que que ele existia, que que eu tinha pra dar para ele? Por que que eu tinha mesmo que dar alguma coisa para ele? Foi uma coisa horrível, uma confusão muito grande na minha cabeça. Aquilo me fez muito mal, me deu medo de estar ficando louca. Foi. Depois eu pensei em matar a criança. Pra ela nunca mais me olhar daquele jeito, esperando que desse amor para ela. Eu ia ser presa, é claro! Mas ficava livre daquilo. A pior sensação que eu já senti na vida, alguém esperando amor de você e você não ter nada, absolutamente nada para dar praquela pessoa. Foi... Depois eu pensei em me matar também, mas não consegui, porque eu não sou uma assassina. Se matar é matar alguém, a senhora não acha?

     ― Não sei. Nunca consegui responder essas perguntas, nunca consegui deixar de pensar nelas. Então?! Então eu descobri que já estava morta há muito tempo. Foi uma descoberta difícil mesmo. Vivo com esse cachorro dentro da minha cabeça me dizendo o que sinto quando penso se estou viva ou não. Não sei. Não, não acho que estou morta, porque os mortos não pensam, só os vivos, a senhora não acha? Um tipo diferente de morte! Ah, sei lá. Acordei agora, vou comprar pão para tomar café com meu marido. Levar o pequeno pra escola, voltar para tomar a lição do grande antes que ele seja reprovado. Não, eu não sou como as outras pessoas, assim. Não, isso não. Meus pais eram pessoas boas. Meu pai, meu padrasto, né, meu pai eu não conheci. Meu padrasto era uma pessoa ignorante, quase não falava comigo, mas nunca me bateu nem gritou comigo. Eu também nunca dei motivo. Tive, tive muitos namorados, mas agora eu não namoro mais, não senhora, nunca mais. Tenho muitas cicatrizes no corpo que não quero que ninguém veja. No corpo, sim, no corpo todo, sim senhora. Não posso mais fazer isso com as pessoas. Sinto, sinto uma cobra subindo pelas minhas pernas. Quando chega perto do meu coração, ela perde as forças e volta de volta para a sua toca. Ah, cobra grande, sucuri, muito tempo. Cachorro é sete anos, cobra eu não sei. Foi depois de uma festa que eu fui e não quis dançar. Aquilo era coisa de quem não tinha o que fazer. Que que aquela gente toda tava fazendo ali? Não, senhora, o menino ficou com o pai. Depois que o pai morreu, com uma tia lá deles. De vez em quando via, mas depois não quis mais não. É melhor não. Dói muito, sabe? Eu faço gaivota de papel quando eu fico assim, depois passa. Não, não é gaivota de soltar! É um bichinhos de miolinho de pão que eu faço e coloco em pé em cima da cômoda. Minhas colegas pegam prá levar pros namorados delas. Diz ao menos que fui eu que fiz, poxa! Sei lá se elas dizem.

     ― Posso parar um pouco? Tô ficando cansada. Sim, estou ficando triste, a senhora foi perguntar do menino. Não gosto disso a senhora sabe. Começa a queimar aqui dentro. Queima, queima sim. Sim, eu sinto alguma coisa. É diferente de não sentir nada. Sinto, sinto muita raiva, é verdade. Mas não sei se é isso que me afasta das pessoas. Não senhora, nem gente, nem planta, nem bicho. Nem sei direito se eles existem. Como eu posso provar isso? Eu? Eu posso morrer a qualquer momento, doutora. Se não existisse, não achava que podia morrer. É… Às vezes, eu sou um bocadinho inteligente, brigado. Mas agora, acho que não sobrou mais nada nem pra contar a história.

     ― Mas se a senhora insiste, não sou de correr da raia…
     A janela fechada faz o cheiro forte ficar mais forte. Delicadamente, reclamei do calor. Com o pé esquerdo, novamente a janela para fora. Percebi que o homem percebeu, olhou para o lado oposto. Alguma coisa tinha saído errado. Muito errado, entre nós dois. Não, eu preferi não matá-lo depois. Nem mais ia morrer antes. Me lavando, banhando, pilando, mastigando conchas junto com o café da manhã. Sonhos tão brutais com esse desjejum com flores brancas. A manhã manteiga fresca em meu todo corpo, a mesa de versos bordados que busco no fundo da cesta do túnel de areia. E saboreio um velho tomate massacrado. Os últimos do pequeno pomar da chapeuzinho vermelho da feira de xepa sobre a mesa, quando volto a mim. No fim da noite, ontem, sonhei com ovos, pães, massas, bacon. Lábios bonitos debaixo de olhos. Tortos e cegos, que sejam. Mas comi angu quando teve, e um homem com roupa amassada e tudo. O homem todo rasgado que jantava na minha mesa às sextas. O homem que trazia alguma comida. Ele que trazia os últimos pássaros assados, que ainda viviam em seus voos. Ele que trazia a bebida gelada, cerveja e genebra também. Era educado e belo como um capado. O amante ideal da Porca Madrinha. Madrinha que era a dona dele! Mas eu comia da janta, também! E eis, eu e o mistério do meu próprio amante me violando na sacristia! Foi o que sobrou pra mim. Envolvida na reminiscência olorosa da presença do filho de Deus. O puteiro, um seminário pagão de subúrbio de cidadezinha do interior. A presença de Deus, um desejo sonâmbulo e eterno. Durante todo o dia que fez, me escondendo nos campos de milho, com medo do que ele ainda ia fazer. Disfarçava o nariz ensanguentado, nunca mais pensei em resistir. Se resistisse, era só querer para ser espancada. No mesmo romance, pelo mesmo homem, num capítulo igualzinho. Depois, fugitiva da casa de Deus, fui bem tratada e paga no inferno. No reino do mercado do pecado de barriga cheia. E ainda acarinhava solteiros solitários, que sonhavam com o amor de uma puta. Olhos fundos inventores do amor, sobre as espinhas abundantes. A carne salpicada de máscaras, fantasiada de todos os dias. Uma peruca lisa, de palhaço do circo, uma pequena bolsa de vermelho real, da mulher das romarias. Me derretia com o corpo contra os ossos, alheia. Cheia da esperança de encontrar o amor por acaso. Como uma moeda de ouro na areia, apenas que com um investimento mínimo. Enchia a boca de desejo e rimava a língua por onde podia. Cuspia um pouquinho na boca deles, quando beijava, para eles acharem que eu estava gostando muito.

     Os muitos lábios como luvas encardidas, encharcadas com a tintura dos panos escarlates da cama. Bem lavados e com poucas manchas. Fazia confissões íntimas, mostrando os dentes. Dizia que ontem não escolhi o esmalte certo. Mas amanhã estaria melhor. Poderia voltar para ver as unhas que faria, ao acaso. Não pedia ajuda para ninguém. Confesso que às vezes não dava muito certo. Como também não dava certo a escolha que eu fazia para os futuro dos meus três buracos de bala. Para aquele dia, quando ia à guerra com o meu corpo. E ele tinha dor de cabeça de paixão, e nós fazíamos tudo ― bebíamos juntos a tinta escura dos frutos do amor, e do pote de louro médio dos cabelos canelados. Quietude é melhor, quando ele fica desnecessariamente bêbado. Desde aquela hora do parto, tonta. O coração que não sabia, se abria e eu suportava, batendo dentro do peito ramos de absinto. Nunca que se podia esquecê-la! Achava que ia morrer quando toquei a menina morta ― de náuseas, me sentia. As vísceras soltas por dentro, prontas para rolar com o chão. Em comparação com os dias fáceis, moles como ramos de esquecimento. Osa dias de antes, em que cresceríamos e andávamos juntos. Aos trancos suaves agora, longe dos assassinatos. Era só o que o corpo dele queria, e o meu permitia. E pedia ― era jogar um tom natural na voz, para passar o dia todo do jeito que ele precisava. Quando eu frequentava o território geral do medo, me precipitava. Lá não havia lugar para os fortes acessos de paixão, como aqueles desses dias. Minha cabeça, mesmo por mim e contra mim, eu ainda pensava. E paguei o preço do medo, do que ele me fazia sentir. Eu podia ser morta a qualquer momento. Por qualquer fera vulgar que entrava ali de repente. Se não tivesse dinheiro para pagar, que não pague, foda-se. Não vou morrer espetada por uma faca! E, ao menos, que eu morra aos poucos, como morro todo dia. Mas que ninguém não me mate. De qualquer maneira, eu continuava viva. Mas meio-viva, simplesmente. Somente um pouco assim mesmo, vinham bater à minha porta. Os pobres necessitados de corpo e sonho. A ilusão da imaginação é do que eles precisam. Eu já havia sido duramente advertida pela Porca-Madrinha, porque não me esforçava o suficiente. E os milagres diminuíam junto com os cobres! Agora ela cobrava por fora, as visões que eu provocava. E eu escolhia, quando provocava, e se provocaria. Para quem queria me provocar ― era aquele um preço a parte. Que tinha que ser negociado comigo. O cliente podia querer se imaginar num deserto. Um santo, sendo alvo do demo e salvo no último momento. Ou no mar, preso aos pés de uma ave que o levaria dali para o alto, para sempre. Minha alma catatônica e potente era sempre reconfortadora. Almas leves na minha missa canônica, que eu mesma inventava e rezava. Com os olhos cegos, eu via desastres para o mundo. Deuses arregalados, eu os narrava. O altar dos peixes secos, lacustres, invadido por antífonas cantadas baixinho. Murmuradas num meu rum rum, de mim para mim mesma. E as pernas abertas para o nascente, como uma mancha de água negra de óleo no mar salgado. Nos acusam de ter faltado com a verdade, a mim e à madrinha. ― Sim os longos solos de órgão, que eles ouviam, era eu que soprava com a boca. E o nariz e os gemidos que produziam nas manifestações o transportes possessivos, era os meus temores diáfanos.

     Meus brancos horrores falsos e meus exorcismos fajutos. ― Santa chorona de molho de tomate derramado em gesso, incluindo no preço. Não sei quem disse que servíamos sanduíches de mortadela barata aos fiéis. Não, eles era conservadores e sempre preferiram a carne de sol. E quando eu tocava no assunto para apavorá-los, fugiam da ideia. Nunca iriam responsabilizar o Pai por não ter feito nada para evitar o assassinato do Filho na Cruz! Foi Madrinha que inventou isso, de entregar Jesus à Cruz, para culpar o padre. Quando ele já não nos privilegiava com a confirmação dos nossos milagres. O que é real é real, não é mesmo, Lourdes? Mas eu posso nem pensar nisso! E passo sempre a mesma ideia para eles. A ideia de vou desaparecer na quaresma, sem deixar vestígios. ― Toda semana santa ele voltam, e eu estava lá ainda, era a mesma. Fuinha, milagreira, magrinha, com os dentes podres. Todos conhecem afinal a ânsia de assassinato, quem nunca sentiu? ― Tanto do Pai, como do Filho! Será que não seria sublime, isso mesmo que a morte da pessoa amada traz? Era um pensador que sempre voltava para as lucubrações das escolas depois do ato. E é mais forte, a morte, que a palavra falada? - Querido, quando estão dentro de mim, é o meu fim que anda por ali naquele vãos, eu dizia. Inteligentíssima. ― Mas não é esse o melhor meio, e por que não ir e frente? eu falo! Matar-me, seria uma grande perda de tempo. Em meus ouvidos, dizia essas coisas inúteis! Todos desejam matar numa hora ou noutra ― por que não vamos matar então? Outras mulheres virão até você, algumas vão viver, outras não. Um dia você resolve matar uma delas, por que não eu? É melhor eu fugir, enquanto é tempo. Então eu criava na mente deles um labirinto. Um bueiro enorme de peste, onde os ensinava a pensar. Balançavam entre a vida e morte, que buscavam em mim como santa. E a minha destruição como puta ― para que pudessem acreditar em mim para sempre. E era como se olhassem para o meu cadáver quando já me possuíam. E eu pedia baixinho, para eles não me assassinarem. Eram dois espelhos, então. Num deles se envolvia, se escutava, a música da missa. E no outro, eu fingia que me equilibrava como uma garça no fim do mar. O mar que ia cair sobre eles. Eles me ouviam, bebiam tequila, jogavam confetes. Tinham olhos de bagre. ― Morriam de medo de mim, quando Madrinha queimava umas folhas de mato e soprava para dentro do quarto. ― Vai ser agora, durão! Difusão, efusão, profusão luminosa e abundante da fumaça do outro mundo invadindo o coito. Sobre as minhas mãos negras de fuligem surgiam desincrustadas asas. Sobre as garras brancas, umas extraordinárias extremidades de unhas dentro de luvas vermelhas, cresciam. Havia estrelas, calafrios, estalos de relho, tilintar de estribos polidos. Havia aqueles que pintavam os cabelos antes da irradiações, para me ver. Colarinhos tristes com o sabor do sabão e dos pelos sujos. Lanugem de suor castanho ouro na barba mal feita para visitar a Princesa sem Olhos.

     Pés-de-galinha unidos, nos encontrávamos nos braços dados. Nós, os avestruzes de um dia depois do outro. Um me queria só para ele, porque era dia do seu aniversário. Outro, o que trazia seus cachorrinhos magros amarrados em cipós, queria me manter trancada num armário, também só para ele. Todos me queriam só para eles. Teriam um lugar especial para um penduricalho humano, balançando num cabide de osso. A estola de visom da carne viva enrodilhada no pescoço da milagreira encantada. Bom para o mundo, é se você quer mudar a forma com que nasceu. Eles te matam como a um velho cão que quebra a pata. Você fica igual a ele, vive caindo sem equilíbrio. Eles te odeiam, e odeiam principalmente o teu desequilíbrio diante deles. Que mostra o tempo todo o desequilíbrio deles. E te matam mesmo antes da tua morte. Aprende a voar para morder os ossos dos outros mais fácil! Lá do alto ― para mim isso é uma espécie de ignorância. Mas uma nova ordem seria mesmo poder contar com outras mãos, além das minhas. No lugar dos meus dedos, esfregando as unhas novas na roupa no tanque. Gastando a maquiagem raspando a gordura que se acumula e gruda em cima do armário da cozinha ao lado do fogão. E se tivesse alguém que aliviasse a minha dor de cabeça rangente e suave. De tanto ouvir o alheios altos e baixos dos roncos do meu estômago de gato. Mas quem vai querer uma rapariga tonta e cega, e sem banho. Eu de fato já passei dos trinta. Tomo banho todo dia, ôxe! Foi só naquele sábado do estúpido episódio. O dia que faltou água na cacimba do governo, o dia do desgraçado do noivo. O dia que secou a bica com o vento da chuva que não veio, entre dois dias de trabalho. O dia de tudo seco, as pregas, os olhos. Ajudante de desmontadora de costuras, na facção de calçolas do povoado. Aquela máquina cantora de manivela, as bainhas mal feitas. Se você comparar a minha altura em relação aos meus seios sempre sem leite. O meu peso em água, à gordura das coxas irritadas. As ilhargas agarradas de elástico às marcas dos bancos de madeira na bunda. O dia de serviço mal pago, ao tempo sentada num tamborete mínimo. Veria que eu ainda tenho um bom balanço. E um bom banho resolveria tudo. Era só tomar um café com a madrinha e voltar no outro dia. Ficar sem banho três dias não era um problema tão sem solução assim. Tão grande ao ponto de ele chegar a se livrar de mim. Então, eu ando assim pelas calçadas da vida para me equilibrar nas facas do meio-fio. Que se foda o noivo!

     O amor são olhos vadios, eu sou meus vazios olhos, de botões de ossos. Eu podia te esbofetear por causa daquele silêncio enquanto examinava meu cheiro durante aquele tempo todo. Você era apenas um reles noivo, um noviço de um homem de merda. Que nem homem era! Não sabia nem enfiar a mão direito em mim, o que se diria do resto, que nunca sobrou. Em comparação com meu peso, com meus ossos, naquele momento, eu reagi bem. O teu olhar de perfil, olhando meu espelho. Eu queria cortar a luz de onde você me olhava, e andar embora. Evitava pelo quarto a minha presença, o meu núcleo suado. Tive medo de explodir de uma vez. E você em silêncio, aquelas músicas antigas, teu medo de tudo. As palavras familiares na tarde de domingo, que nunca diziam nada. Por que viestes, estrangeiro? A boca vazia, cogitando no âmbito da revolução abortada. Eu via tudo aquilo por dentro, de novo da janela do ônibus. Os biscoitos passavam por dentro de mim. Eu tremia, e meu coração explodia sem luz mais uma vez. Mais uma vez sentindo o ácido que me jogaram nos olhos. A sirene levando o prisioneiro embora, a boca seca, os farelos do biscoito, a poeira da estrada. O cigarro, o carro capotado no chão, molhado com o sangue dos estilhados dos vidros furados de balas. Ouvi! Gritos! Ouvi os gritos! Gritos! Outros gritos, sempre comigo. O primeiro homem gritando para que eu ficasse nua na sacristia. Nua, queria ver os meus pecados de perto. Quis ver com os dedos ― por dentro da minha alma pura. Furava, enfiando dois, três dedos, lá dentro de mim. Primeiro ele umedeceu o dedo em mim, depois foi enfiando tudo. Rodando devagar, morrendo de êxtase por profanar o meu cadáver ainda vivo. Não tinha medo das imagens dos santos e do mártir guerreiro que montava o cavalo empinando ao meu redor. Nem do seu patrão pendurado na cruz. Eu fiquei toda sua sem saber, senhor. E senti uma coisa voraz que me procurava sempre. Era um crime contra mim mesma, e eu gostava. Ficava pálida, entregue a ele. Ia lá quando ele precisava, e já não tinha vontade de gritar. Para pôr à prova a minha bondade, ele exigia que a minha alma nua e pura fosse oferecida a ele. Ele era um miserável à espera da minha caridade. Eu ficava de lado para a janela encarregada de avisar se viesse alguém. Atravessada por lembranças que sempre voltavam depois, e por lanças fincadas em uma mártir menina por um homem santo. Tomados pelo pecado, já fazíamos uma dupla perfeita.
     Não sei se para você foi assim, mas para mim tudo aquilo não passou de um sonho, de uma farsa. E aconteceu comigo mesmo, rápido demais. Apenas alguns dias e acabou, e nunca mais nos vimos. Foi! Foi assim desse jeito. É cruel, mas é verdade! Por isso, tudo me vem de maneira confusa, e vou relatando ao sabor da memória.

     Alguns meses antes da inauguração de Brasília, isso eu me lembro bem, posso afirmar com certeza porque ainda vejo o velhos vestidos amarelos de Vovó, daquele tempo. Alguns alaranjados, mas sempre com detalhes em amarelo. Como ela tinha tanta raiva de azul! Como ela amava os cítricos! Eu e todos os outros adorávamos a sua figura como ela ficava naqueles vestidos que ela ganhava no bingo do clube de idosos. Não precisavam mais perguntar qual era sua escolha. Vovó era craque no bingo e adorava os tons puxados para o pardo. Estávamos todos ainda jovens e mal nutridos. Fudidos e metidos a besta, endividados e luxando. Mas, mesmo assim, viajávamos sempre todos juntos, no mesmo mês de janeiro, para a mesma casa de veraneio na Ilha do Governador. A mesma cachorrada magra de sempre, a mesma farofada alegre fazendo vaquinha para pagar o aluguel! Sempre o mesmo sobrado chique, mas que era barato, porque de sobrado e de chique, a nós não tocava nada. O que a velha viúva nos permitia, era um depósito de gente nos fundos do quintal. Barato, para os raquíticos metidos a veranistas. Tomávamos banho e fazíamos as necessidades, aos turnos, num banheirinho fedendo a creolina, do lado de fora do cômodo abafado. Um barracão com banheiro coletivo. Nós, todos, vivíamos em torno de Vovó, claro! Dizem que o matriarcado nunca existiu, claro que não, mas eles não conheceram Vovó! A magrela, ossuda, sorridente sem dentes, era uma velhinha calva de pele cor de malva ressecada. Caindo de dores, escorregava pelas camisolas frouxas, se estabacava no chão toda hora com o seu reumatismo piorando. Mas sempre indo e vindo na cadeira de balanço, com os pequenos no colo. Cochilando diante da janela, cabeceava naquele canto escuro da sala, as moscas a evitavam: era perita em acabar com elas: fingia que as comia e as crianças adoravam. Queria viver! E ali, perto da praia, para sempre!

     Meu avô, resoluto, esclarecido, sempre de óculos, sem saber se a morte da mulher doente viria para a semana que vem, para este ou para o próximo verão, o velho girava pelo cômodo amplo, e olhava em torno para tudo como um cientista. Esmerado, com zelo agudo, analisava as antigas gravuras de plantas exóticas penduradas nas paredes imaculadas do território que não podíamos pisar, quando o invadíamos sorrateiramente. A tia solteira afundava os dedos delicados no bálsamo dos tecido de asa de mariposa das cortinas de brocados brancos que dançavam com as brisas salgadas das tardes na beira-mar. Eu, o Nanico Cabeçudo, como era carinhosamente chamado pela bandidagem, devido à minha pouca estatura e ao volume generoso de meu crânio, apreciava inebriado o padrão regular dos tacos ziguezagueantes num claro-escuro estendido pelo soalho. Aquilo estonteante que se derramava e se alongava como um imenso cabedal inacabado: o tabuleiro de xadrez deformado recobria com reflexos sem peso o território reservado, interditado para nós, os famigerados inquilinos de ossos proeminentes.

     Na figura da velha senhoria, uma matrona gorda e feiosa, verruga no nariz aquilino de bruxa, o que chamava a atenção eram aquelas desagradáveis pernas roliças e curtas, enfeixadas por ataduras cor de manteiga sobre as varizes, e que vazavam nódoas de amarelo forte. O cheiro do suor, da amônia e da pomada que ela usava, deixava nos cômodos sua indubitável presença de múmia fresca recém eviscerada quando passava por ali. Tinha o rosto comido pela varíola, e, dizem, também os mamilos: contraiu a forma rara que atacava as tetas das vacas de leite que ordenhava quando solteira. Os olhos, sempre fechados quando raramente nos falava, diziam que não valíamos a pena a pouca luz jorrada do seu rosto. A cabeça miúda era masculina, macilenta, um pequeno cântaro moreno coberto por poucos fiapos de cabelos cor de fumo mascado. Sempre oleosos e despenteados, os fios iam-lhe soltos e sempre úmidos sobre os ombros pequenos. Marcada por uma água do banho ou de suor eterno, nunca se soube, uma gordura indelével se grudara nela, com o passar dos anos de reclusa na masmorra do porão. Cozinhava uma sopinha rala com os ratos, que capturava, para não gastar dinheiro com carne no açougue. Por isso, muitas vezes vimos os animais limpinhos sobre a sua pia ― dizia que ganhava preás de uma comadre: ratos de pura estirpe, isso sim, ela comia. Em silêncio, toda manhã no porão escuro, contava os dias para receber o pagamento do depósito dos fundos. Fazia-se acompanhar em sua solidão mesquinha no cômodo úmido das braçadas de orquídeas secas da coleção de fósseis vegetais do falecido professor. Em sua miséria de acumuladora e usurária, emprestava uns cobre a juros exorbitantes aos necessitados das redondezas. Vivia sempre, desde que o destino lhe amputara o marido, no cubículo abaixo do andar térreo dos cômodos da frente do sobrado. E suava diariamente, sempre abundantemente, um dos seus traços mais marcantes.

     Expandia-se o licor salgado pelas axilas, pelo pescoço, principalmente entre os seios, onde dormia para sempre em seu regaço infértil o lenço âmbar, miúdo e amassado, pespontado de rosas mariquinhas, cor de esmalte de unha. Como nas ataduras das pernas, os líquidos férteis lhe alagavam grandes nódoas mais escuras que a roupa. Mais escuras que o eterno vestido acetinado cinzento. Mais escuras que a poeira grudada no seu corpo, de que nunca se desgrudava: evidentemente a velha não tomava banho! A mancha maior ao redor das mamas, destacava seu volume abundante. Toda a sua figura tinha a aparência de uma minúscula deusa pagã. Estatueta caqueirada, ainda úmida, carnuda, cadeiruda e coxuda, sempre recém arrancada de um pântano ancestral. Lá, onde dormitara por séculos a sua eterna e potente radiação maligna. A nanica alugava, desde a tragédia da morte do marido, para sobreviver, o cômodos dos fundos da parte de cima da casa. O colecionador sonhador de plantas, deixara para ela apenas uma mísera aposentadoria de florista, e o sobrado que construíra durante toda a vida com os niqueis que as vendas dos vegetais lhe rendiam. Na sala ampla, com decoração mourisca afetada, as janelas duplas traziam para dentro do cômodo a ruazinha tranquila. Abraçavam as calçadas salpicadas pelos frutos vermelhos, mordiscados pelas aves da manhã. Riscavam os cimentos camurçados, as grandes folhas das amendoeiras, da cor do sangue dos polvos. Os quartos assobradados eram guarnecidos de varandas com grandes grades de garatujas de ferro batido. As figura indecifráveis, em motivos florais, envolviam os barrigudos gradis com o volume de barris exagerados. Sua função principal era proteger a quem se aproximasse demais do pequeno abismo, que dava para o chão da calçada. As camas encapuzadas de mosquiteiros azulados guardavam as colchas finas e autocráticas. Refletiam-se fios metálicos de aranhas douradas em platinas esvoaçantes. Pelos espaços vazados daquelas janelas, se vislumbrava a rua plácida.

     As grandes lajes rugosas que recobriam seus passeios eram pisadas raramente pelos poucos transeuntes. Iam e revinham apenas às tardes e às manhãs, em busca de peixe fresco, de siris azulões, de camarão sete-barbas. Pululavam as miúdas bestas no borco da canoa encostada bem cedo ou de tarde na rampa da Ribeira. A prainha era de mergulho manso, metade do corpo jogado na areia graúda, para onde se baixava pelos regulares e gigantescos degraus da pedra cor de chumbo dos matacões amurada. Ficava ali a dois passos do sobrado. Bem ali, onde eu pesquei a minha primeira cocoroca roncadora, sob a orientação do arpoador-mor da nossa baleeira Moby Dick, o Vovô! A presença sensível da proprietária ficara indelevelmente marcada em todos nós. Seja pelas recomendações austeras que rugia toda vez que surgia do seu porão, seja simplesmente por aquela figura surpreendente, que se erguia do calabouço. Saía das trevas e emergindo do ventre da terra, alertava a repetência com voz metálica: “Que não se usasse nem se frequentasse os cômodos da frente!!!” Tinha principalmente horror a crianças, e a animais. Normalmente seus sermões se dirigiam a Vovó, mas seus olhos fúnebres e suas imprecações me marcavam. Insistentes e fixos, fulminavam o perigoso ser: que não iria crescer! Certamente um diabrete!

     Uma vez por semana, normalmente aos sábados pela manhã, conduzia pelas mãos para perto de nós, uma mulher de aspecto doentio. Mais doentio do que o dela, e subserviente. Os lábios finos encharcados de batom cor de vinho velho debaixo de um nariz de pássaro cego e raivoso. Condenada a cantar sempre a mesma cantiga, anunciava que chegava com ordens da proprietária. Vinha fazer a faxina no território proibido. Mas antes daria uma geral na nossa pocilga! Não gostava que se acumulassem ali, as fezes e os restos de comida que a nossa turba de aborígenes certamente deixava espalhada pelo chão imundo. Mas não limpava nada: apenas fazia a revisão da recomendações semanais da sua patroa disfarçava e ia-se embora como tinha chegado. Depois de homenagear-nos com a pequena profecia, entrava para o seu serviço sem mais se dar conta da matilha. Naquelas condições, nós sempre nos enfurnávamos com o rabo entre as pernas pela nossa furna do cômodo dos fundos adentro. Era melhor não contrariar o monstro e manter a vida e a raiva entre os dentes. Se ousávamos lhe dirigir a palavra pro mode duma gentileza educada, mugia um ou dois monossílabos hostis, sempre secos e roucos, que bem significavam tanto sim ou não. Dependendo de como o freguês quisesse comprá-los, sempre envolviam o codinome da patroa. E um inevitável: “Às ordens!”

     Dela, serviçal, nunca ouvimos uma entrevista honesta, um verdade ou uma mentira. Uma vontade tampouco, um olhar mesmo que fosse de desprezo. Fazia a limpeza impecável, sem levantar a cabeça. Aprimorava-se na cera aplicada com a força mecânica dos braços nos móveis de grandes volutas macias. Cristaleiras de vidros espelhados. Louças finas, porcelanas procedentes das mais distantes partes do mundo, vieram pelas mãos do florista fundador do orquidário empalhado. Antes de bater nas nossas costas fora explorador nas Índias Portuguesas. A serva polia os metais e o corrimão latonado da escada escura que subia da porta da rua. Regava vasos de flores e acariciava talheres lavrados em fantasia de ouro de duas cores. E num auge de prazer espancava com fúria louca as tapeçarias persas incorrigíveis. Pré-históricos, seus grifos e suas águias, as gárgulas e os elfos, surgiam revoluteando das águas salobras do Tigre e do Eufrates. Pavoneava, e apavoravam os meus olhos perseguidos. Então a escravizada branca abria as janelas. Riscava com as unhas o pó e arrancava com nojo no nariz torcido as marcas das fezes das moscas nas cortinas. Nos dias exatos, o cheiro forte de naftalina nauseava o almoço. Vovô tinha estômago sensível para jaca e para aquele demoníaco derivado do petróleo. Então saía para dar uma volta na beirada da praia.

     Era sempre assim: quando entrava a ave sinistra para dentro de casa, Vovô batia asas e voava para longe, até que passasse o perigo! Mas nem tudo era submissão covarde. Todas as tardes, contrariando a viúva aristocrata, Vovô voltava da padaria com uma mortadela cortada fininha. Do cesto de vime, surgia uma batelada de pães, que titia esvaziava dos densos miolos e enfiava em seu lugar manteiga e o embutido perfumado. A matilha, como a velha turba que abriu os portões da Bastilha, mas em silêncio, invadia em fila rigorosa e cúmplice, a sala proibida. E nos refestelávamos. Era a nossa vingança de arraia-miúda. Por conta de um aluguel barato, vivíamos escorraçados para uma cozinha suja a que tínhamos o direito – além do banheiro e do velho e amplo cômodo de guardados que nos cabia por aqueles alguns minguados trocados. Um piquenique no salão de arte. Coalhada de quadros raros, de pintores famosos, retratando antepassados portugueses. Todos de barba e bigode, filhos, netos, cachorros. Gatos, cavalos de estimação, paisagens lá da terrinha. Abríamos um lençol encardido no chão e fazíamos um imperial banquete de pirraça sobre os tacos ilustres lustrosos. Todos vestidos à praiana, refrigerante barato e sanduíches de presunto de pobre. O mortadelão da padaria Flor da Ilha quase nos denunciava com seu perfume nauseante. Admirávamos e criticávamos baixinho, como toda aquela corja corrupta e exploradora era feia e mal-encarada. Enriqueceram sobre o sangue e as vidas dos nossos antepassados. A mesquinhez estapafúrdia agarrada no rosto de alguns, a volúpia monetária, avara, e o semblante duro dos outros. Feiura, frieza e crueldade, dançavam nos lábios dos mais velhos. Agora isolados no pó não lucravam mais. Estavam reduzidos à sobrevivente viúva ameaçada economicamente pela nossa classe social emergente: os remediados que se escondiam nos tugúrios dos fundos, mas que ascendiam lentamente.

     Concepción ― como meu avô dizia baixinho em seu ouvido ―, tomava conta do Centro e dormia sozinha no quartinho dos fundos. Dois seios soltos, erguidos como varais e sempre volumosos debaixo das rendas brancas, decoravam a sua figura maciça de fêmea do povo, colonizada. Revestida de saias amplas, coloridas, e decotes bem dosados, realçava a sua graça com dedicada música de gestos e medida nas palavras originais. Gingava à brasileira, gemia gesticulando numa conversação excessiva. Revelava os mamilos grossos, opulentos, debaixo dos panos. Sempre eriçados, várias vezes olhavam densamente nos meus olhos. Ela podiam voluntariamente, como uma Orixá, fazer arder os bicos dos seios duros e agudos. E me enfeitiçava a impressão voluptuosa e enganosa, de que eu a estava tocando com meus pensamentos. O fato é que eu ficava mais velho. E a cada verão, Concepción se tornava cada vez mais encantadora. Para mim era melodiosa. E quando me via, agitava logo de um lado para o outro as ancas e as mãos de mariposa, grandes e tisnadas de sol. Estalava os dedos, me chamando como um cachorro de brincadeira, que ela sabia que eu obedecia, e era a sério. E ia logo para ela.

     E ouvia encantado a Dama da Noite falando sobre a infância no São Francisco. Fazia bailar com malícia um corpo aprumado e fragrante. Era a própria Cabocla da Beira d’Água. Espetando aqueles olhos que tonteavam qualquer um, abria o sorriso espalhafatoso. Sustentava duas sobrancelhas crespas, negras, arqueadas. Típicas das mulheres que se alimentam do espanto de seu próprio veneno. E eu, claro, queria ter ela cada vez mais por perto! Quando Conceição percebia, então arrepanhava as saias para cortar um fiapinho da renda, que descobrira de mentirinha fora do lugar. Fazia que se ia, e voltava para se sentar mais de uma vez. As coxas grandes a ponto de explodir provocavam a mulher sobressair do chão sobre aquele banquinho de madeira tosca no quintal do terreiro onde eu agora tinha acesso privilegiado. Eu ficava por ali como um tonto. Como uma âncora querida, apreciando aquela estatura africana possante e bem distribuída de bunda. Conceição balançava com ritmo que ninguém sabia igualar ou imitar. A pessoa verdadeira, aquela que se escondia por detrás da Maria-Pomba, essa eu nunca conheci de verdade. E, com os meus dois ou três pés atrás, virou, mexeu-se, quando me vi rapazinho, apaixonei-me.

     Começou com uma converseiradazinha besta, entremeada de tapinhas. Os braços pra lá e pra cá, beliscões, que ela já pedia desculpas. Mas tinha essa mania desde criança! Assunto para perguntar e responder. Se eu ia melhorando da gripe? Ou, cadê a tua bicicletinha, Japonês? Sempre que ela parava na frente da casa, entrava por um tamarindinho maduro. Aquele, ali, enorme, cê viu? Ou o jamelãozinho que tinha caído do pomar. O Jardim do Éden jogava para os seus muros, que eram altos e que mesmo que tivesse permissão, eu não conseguiria pular. Por isso ela também dava a volta! E ia fazer o seu refresco pro calor debaixo do zinco escaldante dos ícones do Centro Espírita. À tarde, florescente de folhas que se desdobravam das amendoeiras para o chão, eu a via caminhando como uma deusa sobre o soalho. Dobrava a calçada esquecida, gostava de fazer rir. Aquela alegria desbocadamente educada. Precisava, falava como um homem. Um tom abaixo nas cordas, dando nome às coisas, chamando Joaquim por aquele apelido que lhe deram de batismo. E não é que aquilo caía bem nela?

     Novinha ainda, meio sem jeito, se desculpando às vezes com o que dizia. Mas tinha sido criada daquela maneira! Valia a pena acontecer de ser assim, continuava pura com aqueles falados olhos verdes e aqueles ditos espirituosos. Mastigava um palitinho de fósforos entre os dentes, depois da comida. Enfatizava outro assunto, cuspia no caráter imaculado da fofoqueira da vizinhança. Primitiva, era pouco mais que uma criança. A ela, se perdoaria tudo Mas, deu-se no auge do meu amor quando os rios dos sonhos correm cheios e vivos, e a relva da margem da coragem está dobrada pela lua, e mais verde e mais tudo: vieram me contar: Concepción, sem avisar ninguém, nem colocar placa na porta, tinha virado puta.

     Prostituta profissional, de casa de comércio do corpo. Desafeto seu, Maria Januária, vizinha da outra quadra, mulata escolada, mãe solteira, sabia que a outra, inimiga, era minha pretendida. E estava lá bem sendo deixada prá trás pela pombagira. Percebeu isso muito bem, e estratégica tocou a sirene do alarma. E me alertou durante a cervejinha preta que a gente derrubava por vez antes da janta. Pra arrastar a conversa e ver no que dava o nosso xodó de verão, que não tinha começo nem fim, e já ia se acabando. “Soube ontem de manhã por um compadre. E quando ouvi não me espantou! Era a cara dela! Na subida da Ladeira da Santa Tereza, pras bandas das Laranjeiras, ela vende o corpo. Mas tem que ser nas sextas, quando não tem a gira das pombas aqui na praia. Te mostro o cabra que já pagou. Quer que te traga ele aqui?” Nem esperou uma semana para me dar a notícia. Na hora foi uma tão espantosa estrepitosa despropositada coisa, a memória dela! O fato muito que achei graça. Os dois risinhos amarelos e nervosos que a mulata deu de soltar. Depois de acabar o assassinato, ria. Mais uma das maluquices de criança de Conceição, eu disse. Tem um jeitinho de piranha mesmo, ela retrucou. Sempre achei, eu arrisquei de nervoso também por dentro.

     Gelado de rir, a menina doce, se enxovalhando com o primeiro filho da puta que chegasse com o ouro. O seu mel saboroso de mulher nova, com o pior dos homens por dinheiro! Não era pouco pudor, não! Galinhagenzinha gostosa de sexta-feira. Pecadilho, safadeza, a boca na coisa ― era o próprio demo! O profissionalismo bruto de cartório do ofício, pecado de papel passado. Grudado no corpo nu da mulher na cama, perdida pra sempre, Januária disse. Enquadrava a cerveja na goela. Já não tem caminho não. De volta, não. Não, não tem perdão, é verdade! eu falava sem rir. Frio, quase chorando. Ela bebia a cerveja satisfeita. Além de perdida, e condenada, entre um e outro cálice amargo, eu me lembrava dolorosamente de que a puta, a filha da puta, perdida e condenada que a gente malhava, a pecadora sem perdão, era o amor da minha vida. A mulher que me trazia alegria nos meus sonhos. A mentira única da qual eu vivia. Que me tinha quebrado a pedra de sal do meu coração, eu acreditava nisso!

     A tal da cerveja começou a queimar na língua. Tanto que me enchi de um ódio tão violento, que Maria Januária viu na hora. Ficou com medo de mim. Medo satisfatório, se lixando para a minha vingança! Muito menor que a tua de mulher covarde, que só se entrega quando tem alguma coisa que receber por baixo do pano! E não tem nem a coragem de se vender, honestamente, como a pura da Conceição! Mas diante daquilo tudo, o meu rosto tão medonho, não sabia do que eu era capaz. E também, se sabia o serviço já estava feito. Se assustou, e não imaginava no marimbondo frito que tinha mexido. Achou que Conceição fosse só um brinquedozinho sem graça. Uma rival do outro lado da rua, das calçadas de pedras. Ficou em silêncio por mais um pouquinho. Meio tonta da cerveja que lhe pagavam fácil, Maria Januária viu o que não era pra ter feito. E foi preferindo sair de fininho. Tirou de dentro do meia taça rendado vermelho fogo uma nota de cinco mil-réis dobrada muitas vezes. E jogou a prata em cima do balcão. Escorreu umas frasezinhas chochas, quase cantadas pelo meio da língua bífida de cobra coral verdadeira. Faço questão de pagar essa, Salatiel. Desculpa se eu vou te abandonar, amor. Mas tá na minha hora de servir o jantar da patroa. Ela tá por aqui hoje… Arriscou com o que lhe sobrava de coragem. Tchau, paixão! Fica com Deus, tá!

     O bocado molhado queimando na minha garganta. Arreganhada ou não, eu nunca trairia conceição!

     A Senhoria vivia achacada de erisipela num porão abafado, para não gastar os móveis dos cômodos e do salão principal do sobrado. Precisava alugar os piores alojamentos dos fundos para esse nosso bando de bugres. Que, diga-se a verdade, enquanto a estrutura econômica não mudasse de vez, ia-se aguentando como podia sobre as pernas bambas e cansadas do trabalho, e frouxas de equilibrar-se como podia. Mas que já davam-se fumaças de novos-quase-ricos! Iam gastar as férias de Dezembro, como franceses endinheirados das águas azuis do Mediterrâneo, numa ruazinha sem saída da Ilha do Governador! A praia castanha de lodo e petróleo do novos tanques instalados nas ilhotas de pedra do fundo da baía, confirmavam o progresso e o orgulho nacional. Ainda há pouco tempo, éramos todos pobres. Bem pobrinhos vivendo indo e vindo nas classes exploradas da sociedade. Mamãe nasceu num porão do subúrbio! Seu povo era a arraia miúda, sofridos. Vítimas de peste, alcoolismo, assassinatos, suicídios, loucura. No entanto, por esses dias, papai já era um remediado. Mamãe casou com ele, o velho já tendo algum de berço. E depois do casamento melhoraria rápido. Decorreu de uma oportunidade que surgira para negociar com as carnes secas do Charque do Norte. E exportava a muamba para Portugal. Refazia assim, de cabeça para baixo, a circulação das riquezas que atravessaram nosso país no passado. E o dinheiro agora, pelas artimanhas do velho matreiro, ia dar direto no bolso do brasileiro. Ficávamos com o tutu para cá. Papai o distribuía largamente pela penca de filhos, sogros, cunhados e amigos. A toda hora, presumivelmente, alguém precisa de algum para um reforço no orçamento do bando. O Pai tinha até um carro! Um Sinca Chambord cinzento, zero bala, orgulho da indústria automobilística nascente. E eu, o inesperado caçula temporão, com minhas pernas curtas e minha cara de coelho japonês, no primeiro Natal em que o velho embolsou a grana, pedi uma bicicleta pra Papai Noel. E ganhei! Com rodinhas, confesso, que só foram aposentadas quando consegui me equilibrar em cima do monstrengo, e desabalar muitos tombos pelas calçadas da amurada da beira-mar da Ilha do Governador.

     beira-mar oi'eu beira-mar beira-mar oi'eu beira-mar ……………………………… beira-mar oi'eu beira-mar beira-mar oi'eu beira-mar

     Fazendo limite com o muro dos fundos da nossa miserável sesmaria alugada, estendia-se até a outra rua paralela à nossa, o imponente Centro de Umbanda “Luz do Luar”. Em função do batuque, da cachaça e dos charutos, o pequeno palacete, já decadente por falta de manutenção, era evitado pelos veranistas de maior poder aquisitivo. Desmembrado de suas carnes nobres, era por isso alugado para a nossa gentalha por um preço muito barato. Um preço que o comerciante de charque, em ascensão, o Pai, podia pagar. E quem sabe um dia até comprar a pequena mansão. Verões e verões, enquanto a velha viúva foi viva, e vovó ainda podia andar, acampávamos ali. E já crescidinho, mas não como eu queria, é claro, numa sexta-feira, a meu pedido, pelas mãos do Vô, frequentador assíduo do babado, fui parar no meio da Gira das Marias Pombas.

     Fascinado pelos saiões vermelhos e suas roupas coloridas, assistia pela primeira vez o axé e ouvia seus cantos. Nunca podia imaginar aquelas suas deslumbrante maneiras de se meter nos corpos e nas mentes de seus cavalos humanos, com trejeitos licenciosos. O Vô, apesar de italiano legítimo e católico apostólico romano, que graças a Deus nunca ia a igreja como todo italiano, não tinha nenhuma simpatia pelos fascistas, nem pelo Vaticano. Muito pelo contrário, era fascinado pela mística da nossa terra. O interesse de Vovô, decididamente, era o feitiço de uma sedutora pombagira que baixava naquela bela e fornida mulata de olhos verdes. Um pedaço de mulher, que não podia se chamar senão, Conceição.

     No meio-dia da primeira sexta-feira de gira falhada, o Anão estava pronto. Feio feito um pelintra de assombração, no seu terno de xadrez vermelho, na assunção da profissão de macaquinho de realejo. A flor roxa das pancadas do desgosto dela sangrando pela boca babando na pala da lapela lisa do tecido de alface verde. A carne, uma geladinha gadanha aberta de vontade só. Tomado o banho, pé limpo, ralado, esfregado de cheiro bão e sabonete forte. Mas o pixé do suor do trem agarrado no couro marrom debaixo das roupas, ia dormir pra sempre no fundo das peles até amanhã de manhã.

     Não é que o Palacete do Prazer fosse uma completa ruína. Mas para mim, era. Para ser generoso, sincerão, na lata, no mínimo estava em estado de completa decadência. Você podia constatar isso facilmente através de um exame minucioso das paredes. Eram recobertas e recobertas de frágeis veladuras fósseis das antigas pinturas negras, gregas, vermelhas e brancas. Moribundas, algumas já mortas, seus braços finos de meninas expostas pelos reis poderosos saíam por debaixo da pele que revestia o monstro de pedras. Com a velha técnica do afresco sobre cal não se brinca! Iam surgindo daqui e dali, ora pelas magrezas das mãos de tinta, mal aplicadas, de última hora – ora por um sopro ou um sopapo que um móvel ou um corpo que em queda provocara ali. Mas isso não são detalhes de viciado em estética, são verdades, ou seja, são coisas que não interessam a ninguém. E com as quais eu não devo me importar. O que precisa ser dito é que se entrava no lupanar por um portãozinho de grades de grandes e grossos florões de zinabre. À direita da velha garagem principal, mergulhava-se rápido pelo fundo vão estreito. O que outrora certamente fora reservado aos criados, e aos escravizados, agora permitia que deslizassem por ali pobres diabos livres em busca da satisfação de seus desejos ― coisa impensável para os submetidos a um regime tirano escravocrata. Ou em qualquer regime, diga-se de passagem ― submetidos são sempre submetidos cotidianamente em qualquer forma de governo. Agora, lembrando, barrando a passagem, estava ali um livre. Filho de ventre autônomo, ocultava, ainda que por um salário de fome, a paisagem lá dentro. O horizonte sonhado, que quem quisesse ver, contemplaria, mas deveria pagar. O gigantesco leão de chácara de bronze, vivo, descomunal, lembrava uma daquelas cenas de filmes de gangsteres, de histórias em quadrinhos. A camisa de meia de jersey fininha, exibia os truculentos bíceps metálicos. Uníssonos, seus músculos sonoros suavam raiva e te olhavam de cima. E se você, porra, meu irmão! – Porta algum tipo de arma ou bebida alcoólica, maluco? – Ele sabe de antemão! – Alemão, se liga! – Mas nada, tá limpo… Depois disso, te abre um sorriso daqueles de flores esparsas, jogadas no chão de um cortejo. Gigantesco de alegria, na luta, ele dá as boas-vindas, amigão. Vamo entrando, irmão! Mas não era o caso. Ele apenas esperava na recepção, na entrega das bebidas do funkão, de toda tarde rojão. O puteiro ainda estava fechado.

     – Evoé! Tu chegou cedo meu bróder! – E riu: –Tá di pressa, meu branco! A essa hora as primas tão tudo dorminhoca. É o batidão da noite... O pesado... O pesadelo! Meter com o que aparece pela frente... Não é mole não... Cansa... – E balançando muito a cabeça, como se sentisse alguma pena de alguém, sibilou. – A casa ainda toda tá vazia. ― Fechou os olhos. ― E fechada! – Acentuou, descendo um dos pés do banco alto, como se fosse embora pra sempre. Mas ficou onde estava, sentado, parado com uma cara de ranho sonolenta, sem pregar olhos, e um radinho de pilha menor que uma pulga no colo. Voltou a estancar em silêncio, e levou à orelha as barbados dos seus páreos do jóquei. Às vezes, os olhos ganhavam ou perdiam. Virava os cavalos para a rua, e se esquecia de mim. – Sou o primo da Elvira, patrão! – Eu disse, ostentando minhas prerrogativas diplomáticas. Eu tentava inventariar alguma conversa frouxa, para disfarçar a paixão frustrada. E tanta emergência: – Vim me divertir, irmão, tem jeito? – Os cavalos se embolaram, e ele gritou: – Aaah! – E me encarou. – O primo do subúrbio, porra? Cara, por que tu não falou logo! – Ela fala quase todo dia mesmo em você, gente boa! – disse o porteiro dando um peteleco na vinte, que morria no cinzeiro por falta da atenção, ora dedicada aos beiçudos. A bituca, já na menor, se esfarelava depois nas brasas que lhe sobraram pelo meio-fio adentro. – Vamos entrando é agora, pião! Que eu vou chamar ela pelo interfone oficial. – Com um tapa nas costas, quase me para dentro da antessala do território proibido, e me passou do sonho para a realidade. Sem mover um músculo do corpo, voltou a ouvir o páreo que corria. Pelo interesse, devia ter a mumunha de alguma grana alta nele. E apenas estendeu o braço, mecanicamente naquele gesto que fazia desde que viera trabalhar ali. – Senta aí nesse sofazinho aqui, filhinho, e espera que ela já vem te atender. – acrescentou, enquanto dirigia o olhar para o interior sombrio da guarita. ali havia um cômodo secreto, espécie câmara de tortura para recalcitrantes. Ele apontava para uma saleta lateral, onde eu deveria espera o fim do julgamento e o veredito do Juízo Final. Pendurado no interfone, o porteiro percebeu um raio de luz esvoaçando no rosto impecável, mas enrugadinho, do Anão. Ouviu-se o porteiro silabar um som seco, palreando numa língua indecifrável pelo interfone afônico. O que precisava ser falado dito ali, devia ser dito bem baixo. E o que não podia ser dito, era melhor que se calasse. E tudo em poucas palavras.

     Negro de fumo, Alcebíades tentava encaixar seu original falo africano na florzinha miúda, poética e apertada de Doraléa ― nome de guerra de Cremilda. Apesar dos dez e tantos anos de confissão, cansada de guerra nas coxas e nas molas, de tanto amassar colchão e colhão e costas de homens, ainda e sempre fornicava cheia de fogo verdadeiro e gritinhos: “Ar, ár, ár!” Tanto é verdade que às vezes incomodavam as colegas nas baias ao lado. Madame gostava de silêncio na casa de respeito e a repreendia severamente quando recebia reclamações dos seus escandalozinhos reverberando nas paredes do puteiro decadente. Mas, honra seja feita, a verdade era que a mulher, que herdara da mãe a profissão e a pouca compleição anatômica do órgão que lhe garantia a vida, ainda sofria e se lamentava (gostoso, aquilo era uma delícia, como depois vim a descobrir!), e gemia a cada penetração dolorosa. Doraléia tinha, de parto, a flor infantil. Uma rosinha miúda como rubi, pintalgada de delicada ramagem negra e fina. Rodeada pelos três lados por dois lábios grossos e entumecidos, cheios mesmo, a faziam se assemelhar ao nenúfar carmim das meninas brincando no pequeno canteiro da casinha de boneca do Proust jovem de Paris, que ele contemplava embevecido e atônito. Era o paraíso sonhado e dedicado de muita gente letrada que andava por ali. Mas era de Alcebíades, que agora, reinava dentro dela! Por tudo isso, o tão pouco ou muito que eu disse, o fato é que Doraléa era requisitada mais que qualquer outra santa do puteiro. Mesmo as mais diligentes, as mais idosas, acrobáticas e imorais meretrizes escoladas, as putas velhas, faladeiras de porcarias para quem gostava, como se diz no jargão técnico com todo o respeito ― insuspeitadas na valorização do investimento, elétricas na hora certa ―, perdiam os mais assíduos frequentadores quando Doraléia descia as escadas. Ela exibia aquelas coxas de pão fresco! E o cheiro vivo do prazer invadia o ambiente lúgubre. E as fatias cheias de miolo sobressaíam da bainha da minissaia vermelha, afivelada com cinto de couro de onça viva! Ela vibrava, e salivava, e escondia no seu resvalo o demorado e mimoso brinquedo ovalado, sempre renovado e cruel: para o inferno e o céu da dor de quem a olhasse nos olhos: e se enganasse ao seu encanto! ― Esganados!

     Alcebíades descansou o grande peito maciço e roliço, sem pelos, antes tenso, agora relaxado, contra os seios movediços da mulher. Em silêncios entrecortados, e gemidos curtos ondulantes, a fêmea ia se ajeitando como podia com o negro dentro dela. Numa torção mais ousada da nuca, bem desenhada e molhada do suor dos cabelos claros, dirigiu o queixo para o rosto do homem. Lambia a parte de baixo de seus lábios. Foi assim, foi assim, até que enfiou toda a língua lá para dentro de sua boca. Aquecida e sem palavras, ela remexia seu interior, circunvizinhando as mucosas de Alcebíades. Acariciando seu grandes dentes brancos, ela gemia com a própria boca. Enquanto isso, bem embaixo dele, esparramada para todos os lados, mexia as pernas acariciando com lentos movimentos ondulantes o falo cada vez maior do porteiro. ― Bebê! ― ela disse, mordendo a orelha do amante. Puxou a perna esquerda por cima das costas dele. Encostou o pé no lóbulo da sua outra orelha e repetiu: ― Bebê! Você pode fazer comigo o que você quiser, Bebê! ― O silêncio do homem tornou-se mais maduro e pesado. Ajeitou o pescoço taurino no ombro delicado e magro, em forma de concha, de Doraléa. E calou-se mais ainda, como se precisasse esconder alguma coisa de seu tirano. O que acontecia dentro dele, era a busca do silêncio original. Sem tentar fingir outra coisa, cada pedaço de silêncio, cada lasca de silêncio que saía dele, era brusco quase agressivo. Alcebíades encontrava-se muito mais perto da verdade, agora, do que em qualquer outro momento da sua vida. O silêncio fazia-o lembrar-se do seu calor africano. Depois dos anos de escravizado, colonial e humilhado, lembrava-se da tortura, das mortes no tumbeiro. Da família deixada para trás, as filhas, a mulher violentada pelo apresador inimigo e pelo português seu amigo. Lembrava-se de antes, da guerra, do apresamento e do exílio. Então o grito de revolta e de liberdade, veio. Isenta de todo medo, aquela substância física como uma resina, ecoou pelas grossas paredes mofadas, e pelas abóbodas descascadas do lupanar decadente e neoclássico.

     A mansão quase em ruínas abrigara uma abastada dinastia de barões do café, em cujas lavouras milionárias os ancestrais do negro deram a vida e o sangue. Agora era propriedade de seus ecos de prazer, propriedade sua. Hoje, ele reinava ali, por tudo ali dentro. Dava porrada em branco malandro que se metesse com ele. E fazia um movimentozinho de maconha para os amigos. Ia preso nunca, mané! Quem dava cobertura? Ele sabia, não era otário. E gozava dentro de uma branca. Sarará, mas branquinha, quer ver? O pentelho lourinho. No âmago da presença física e sensual de Doraléia, Alcebíades reencontrava sua humanidade. Sua vingança orgânica e a liberdade da sua verdade. Sua história partia de um silêncio absoluto, de ser assassinado, e atingia o grito hostil, da revolta do prazer.

     Com o som nauseante de uma lagartixa roçando a barriga pelas paredes descascadas ecoando nos vidros do casarão, Alcebíades rumorou. Escutou a vozinha fininha, fininha, quase um assobio. – Negão... Negão… – repetia o refrão, o estribilhozinho cauteloso. – Negão... Negão... Negão… – Olhos verdes de coral, Doraléia vasculhou os oblíquos cantos vazios do quarto. Num repente, rapidamente, pousaram para o vidro da jarra sublime: ostentava o amarrado dos cravos azuis. Meninos pobres, vinham misturados com os velhos ossos dos emblemas alaranjados dos defuntos. Olhos um pouco amassados, que olhavam de sua cama, a eternidade que ela percebeu. O porteiro largou as flores no fundo da saca, sem cuidado, depois que pagou barato no refugo do fim da feira no Largo do Machado, para aquela sexta-feira com a Léa. E então viraram presente caros para ela. Ele mesmo colocou na jarra, cínico, como um duende, as imponentes orquídeas de Jardim Botânico da xepa. Numa estratégia para esconder os danos, os enquadrara de lado, meio tortos, quase despercebidos, diante da cama que receberia Doraléa: e seu falo nela enquanto fosse tempo. Enquanto a visão das flores esfrangalhadas dançasse na frente dos dois. Trouxera como prova de prazer com a miúda trabalhadora do mundo.

     Arregalada, espalhafatosa, ameaçadora, Doraléa aspirou entre os lábios ainda anestesiados pela saliva e os dentes do homem: – Quem é esse cara, meu Deus?!!! – Alcebíades não se mexeu. – Que porra é essa, Bebê? Um homem dentro de casa depois do final do expediente? – Calma, Léa. E o Anão. Tá apaixonado pela Elvira. Acabou ficando meu camarada. ― Alcebíades disse, contorcendo a respiração. Preocupado, principalmente pelo humor acre de Doraléa, abandonou sem cerimônia a mulher, ainda quente e arreganhada. Sentando-se na beira da cama, viu ela fechar com classe as pernas grossas e bonitas. Doraléa amargurada desapontava aquele fechamento. Um momento antes, estava preparada para cumprir o seu voto de castidade. Agora, ao invés de prazer, na realidade, o que a possuía é que do lado de fora da porta, um Anão maluco resfolegava.

     Sem ar, áspero, baixinho, quase asmático, percebia-se que o pequenino homem não queria estardalhaço! Mas, ao mesmo tempo, não conseguia conter a ansiedade: uma premência de deslocamento de um lado para o outro. Ágil, elevou a voz para o camarada do lado de dentro, num sussurro confidencial: – Ela não goza, irmão! Não posso me casar com uma mulher que não goza! – Fez a clássica pausa da angústia, que sucede as grandes confissões. Os dois amantes que acabavam de se separar por causa daquele intruso inoportuno do lado de fora, se entreolhavam. Esperavam. Mas nem de um nem do outro, a solução veio. O desapontado Romeu, retomou: – Tem outra? – E o Anão acrescentou, num tom que revelava seu total desamparo e desespero: – Assim, fica difícil, chefe!

     ― Quem é esse cara, Alcebíades, pelo amor de Deus! – disse Doraléia, arrematando as pernas contra o queixo com os braços fortes. Preparava-se para se levantar, ia Iá pegar um cigarro do maço do mata-rato que a olhava da mesinha à mão da cama. Tudo ali, camisinha e papel higiênico. O resto do que era preciso estava dentro dela. Observou o antúrio chorão em flor excitada, também presente de Alcebíades. Esse sim, vivo e novo, bem melhor do que os amarfanhados cravos gratuitos dos defuntos que passaram sem eles! Cenário que admirava em silêncio, quando se entregava ao prazer dos outros, o antúrio ereto. E se lembrava do carinhoso amante africano. Sua flor erétil, agora serviu para uma funesta meditação: – Se Madrinha sabe disso, mata nós dois, Bebê!

     Sem dar tempo para Doraléia, Alcebíades deixou a cama. Saltou, foi direto pros cigarros. Bateu dois crivos, e enfiou lá de dentro na boca. Disparou o isqueiro de fagulhas, estendendo um cigarro já aceso para a mão de Doraléia. A mulher, apertando o filtro entre os dentes, voltou a deitar-se. Repuxava contra o corpo com a mão fria a colcha de chenile surrada. De um preto fosco desbotado, o pano barato criava uma onda de sombras e contra sombras, que surgiam ora para cima dos seios branquelos, ora para dentro das coxas cheias. ― Viu um anãozinho encostado no balcão. Tava com um terno de xadrez vermelho. Tomou Coca-Cola a noite inteira? – Um raquítico com cara de sacristão? – É, é é é. É ele mermo! – Ele é apaixonado pela Elvira. Quer casar com ela. Agora parece que deu alguma coisa errada, Alcebíades acrescentou. ― E ele ainda quer que a gente goze antes do casamento! – disse Doraléia com nojo irônico e cínico. Soltava a fumaça num jato contínuo em direção à janela aberta. As duas neblinas se confundiam na luz baça da madrugada no pátio coberto de goiabeiras ressecadas. Alcebíades, parado de cabeça baixa, fumava, contemplando o chão. Parado ficou.

     Àquela hora do amanhecer, a brisa constante vinda da baía soprava e inclinava as poucas folhas das fracas fruteiras magrelas, e erguidas como um negro veludo gasto no espaço de sombras em branco ainda, detrás da casa. Soprava em direção ao Sul, como sempre. A pouca claridade dos entremeios das plantas, dava ao pátio de grandes lajes de pedra a cor do queijo salpicado de vermes brancos. Uma harmonia simétrica de paladar e esquiva de luz de trevas. Os galhos das árvore semelhavam mãos de pássaro moribundo. Verde, partia, mas ainda estava pousado na pequena praça de barro vermelho, onde sugavam as suas raízes. O silêncio distante da noite foi substituído pelos ruídos miúdos da solidão. Um espantalho, o dia. Típica manhã comum, fresca antes do trabalho no paço espanhol. – Tira ele daqui, Alcebíades! Agora! Isso vai dar uma merda dos infernos! – disse Doraléia, tornando-se cada vez mais agressiva e assustada. – Negão! Negão! Vai me deixar na mão, Negão? Eu já senti! Vai me deixar na mão!!! – o Anão sussurrava, quase aos gritos, do lado de fora da porta. Começava a alterar a voz. Perdia o equilíbrio. Plácido antes, não sofreria mais tudo aquilo em silêncio. Desde agora!

     Uma sombra violeta claro e esbatida com uma espátula, turvou a vidraça na folha da janela quase fechada. Mas entreaberta, via-se ainda a claridade do poste da rua. A nuvem pesada de chuva que ensombrecia a recém-madrugada, criava uma veladura quente e mal agourenta sobre a penumbra do quarto. – Porra, Negão! Tu vai me deixar na mão, eu já senti! – O tom de voz do Anão, quase gritando, subiu mais um pouco. Já se podia ouvir a sua respiração ofegante e seu coração desesperado vazando pelo vão da porta. – O cara é gente boa, Dôra. Calma! Ele tá apaixonado! Todo homem apaixonado por uma puta deve ser levado a sério! – disse Alcebíades pegando as calças de sarja creme em cima da cadeira ao lado da cama. Puxando o chinelo de reserva que guardava por ali, pode ouvir novamente o lamento do animal ferido, súplice. – Negão, tá acordado ainda? Me arruma outra mulher ai, cara!

     Finalmente o Anão bateu à porta, fazendo surgir seu verdadeiro estado de alma. Mesmo que a paixão arrefecesse, precisava saciar a força do instinto. – Ele vai fazer um escândalo aqui dentro, você tá vendo? – disse Doraléa, com ar de pânico. Completamente nu como um lagarto ao sol, com as calças jogadas ao ombro, Alcebíades deslizava de um lado para o outro do quarto, sem se decidir a coisa alguma. Parou detrás da porta maciça, imponente e bem construída em madeira de lei. O cômodo de luxo do antigo solar, agora estava corroído pelo caruncho. Era a podridão física do puteiro, aliada à uma tipo especial de moral com a qual ninguém se importava mais. Alcebíades falou baixo pela fresta do encontro da madeira do caixilho com as folhas do batente: – Tô saindo agora, velho. – disse finalmente, enfiando sem equilíbrio uma perna na calça clara, amarfanhada, que agora segurava com a mão esquerda. – Deus seja louvado, peão! Pensei que tu estivesse morto, irmão! – Alcebíades ouviu o Anão dizer aliviado.

     Doraléia sentiu o pixé bom que vinha do corpo do negro. Do seu pescoço, do seu tórax, dos suas pernas. E percebeu o quanto ela cheirava também como ele. Alcebíades tinha deixado nela, em seus braços, em sua carne molhada, em sua boca, o mesmo tipo de cheiro que incendiava o quarto. E fazia passar para dentro das asas das suas narinas a certeza imortal daquele encontro, com alguém que a fazia sentir-se viva! Percebeu o arrepio de medo corrugando a pele fria, quando voltou a pensar nas consequências do gesto camarada do porteiro. Era falta grave, que, se descoberta, seria punida com rigor.

     Alcebíades abriu a porta com cuidado, para não deixar a nudez da cama com a mulher revolta à vista. E, num pulo, passou para o lado de fora. A textura granulada das paredes emboloradas, diante da solidão e do sobressalto da ameaça inesperada, ficou mais nítida e dura aos olhos da mulher sozinha dentro do quarto. Doraléa, de uma hora para outra, tinha ficado tonta e viúva, quase à morte! E ouviu os passos delicados de Alcebíades, evitando fazer ruído e arrancar gritos das tábuas velhas. Afastava-se da porta do quarto pelo longo corredor, escuro abraçado com o Anão. Algumas palavras sussurradas e murmúrios de cabeça baixa, foram ouvidas, e que já não se podia decifrar pela distância o que diziam. Tudo era um silêncio de outro tipo, lá longe agora. O seu homem, novamente se calava. Mas um calar diferente, dolorosamente outro. Não haveria depois aquele grito que ele tirava de dentro de seu corpo. Aquele grito que fazia também o corpo da mulher uivar, antes de explodirem juntos, no velho clamor de guerra africano. Pelo qual ela tanto lutava com ele.

     Minúsculo, na frente de Alcebíades, a figura do Anão erguia-se sorridente no centro da lavanderia. Como uma sólida garça de bronze em desequilíbrio, deslocou o peso do corpo para o outro pé. Pousou uma perna na frente da outra e meteu as duas mãos nos bolsos detrás das calças. As mesmas calças largas, como as de Alcebíades, e que enfiara às pressas ao se levantar da cama da falsa Elvira. Para que suas palavras a tocassem mais de perto, como pássaros que pousam juntos num galho fino da laguna fresca, inclinou um pouco o corpo e disse para a menina gorducha que se ajeitava numa esquina do chão: – Gosta de ler? – Ela mantinha o livro aberto nas mãos, sem olhar para ele. O Anão usava um trêmulo tom na voz de mímico sedutor. Tocada pela pergunta do Anão, Elvira tirou os óculos. Depositando o livro entre as pernas que acabara de cruzar, fez subir um pouco a minissaia marrom estampada. De tudo aquilo, o que mais chamou a atenção do Anão foi, dentro da impecável calcinha azul celeste, o monte fofo de seu sexo. Um pouco lisonjeada com o evidente escrutínio, Elvira relaxou o corpo. Suas virilhas se afrouxaram e empurrou com cuidado o volume para o lado. Quase teatral e despudorada, recruzou as pernas na posição de lótus transformando-se na faquir da lavanderia. Ostensiva, agora deixava a reluzente roupa de baixo à mostra. Deu um longo suspiro filosófico, nouvelle vague, e esticando o queixo em direção ao Anão, falou, dando de mão quebrada, como se estivesse cansada de repetir a mesma coisa em apinhadas conferências acadêmicas: – Ah! Sim! “A princesa sem olhos”, leu? – Como o Anão não respondesse tão enfarruscada questão, ela continuou: – É muito melhor que o “O Rei de Barro”! Raul Carvalho atinge n’A Princesa a perfeição da narrativa truculenta e pulverizada. Estou desde as quatro horas da tarde de ontem mergulhada nele. – disse, tomando um longo fôlego. Elvira compartilhava com gosto, conhecimentos sobre aquelas literaturas que a envolviam. O Anão lhe fizera a pergunta chave, a pergunta certa que sempre lhe destrancava a língua: – No ambiente de uma epidemia de fome, é a história de uma criança cega, acorrentada pelos pais por compaixão, no quintal dos fundos da casa, para que não comesse os ratos dos esgotos. Enquanto isso, eles planejam se matar, e a ela, com ervas venenosas, enquanto fazem sexo. Até que moscas carnívoras comem os olhos da menina. A criança então começa a falar numa língua estranha, que o povo havia abandonado há muitos anos. Apenas os anciãos que ainda sobravam da aldeia ancestral conseguem decifrá-la. A criança fala sobre os motivos da fome, a culpa do atual rei pela epidemia. É o apogeu do romance antropológico africano. O retorno à noção do devoramento na origem da linguagem, ou da linguagem na origem do devoramento. – Elvira escolheu uma passagem marcada pela dobra da quina da página e leu: – “Todo encontro deve ser verdadeiro. Mesmo com as moscas que te comem os olhos. A criança se entregara inteira ao seu destino. E assim reencontrava as fontes da sua comunicação com a morte ancestral. E como consequência inevitável também com a vida do seu povo.”

     Metida num grosso pulôver cinza escuro de gola bufante, a menina mordiscava a lã com os caninos miúdos, enquanto equilibrava nas mãos o pesado volume. Acomodou melhor para dentro da trouxa de roupas sujas em que se recostava. Encurralada num canto cego e sem janelas da lavanderia, sua figura colorida e circense, destacava-se contra os ladrilhos brancos e geométricos da parede. O desenho das grossas pernas escancaradamente de fora era rematado por duas elegantes botas de camurça castor. O rosto da jovem, viçoso e enfeitado com brincos artesanais em tom de verde vivo, esboçava um perene sorriso de autocontentamento. Os adereços em perfis quadrados chamavam a atenção para os dois olhos cinzentos, em uníssono com o agasalho. Complementava a cena, uma forte dissonância provocada pelos lábios cheios de batom goiaba. Aquela aquarela requintada lhe dava a aparência de um pequeno sátiro sonolento, saindo de dentro de uma gruta sagrada com um copo de vinho na mão. Tinha o ar afrancesado, quase Sorbone-68. E confessava-se completamente apaixonada pelos personagens maníacos do romance que lia, e relia.

     Tentando não ser mais distraída da leitura pelos importunos visitantes, Elvira girou o torso para dentro de si, o mais que pode. Encolheu-se em direção ao ângulo da parede, e ocultou a visão do próprio rosto com a capa do livro. Já tinha falado demais, e agora forçava os próprios braços para que agarrassem firmemente o livro. Com essa manobra abrupta, realçou os dois peitos cheios, adquirindo a fisionomia de uma mulher madura e provocante. Recolheu um pouco as pernas e compôs-se, abraçando os tornozelos com a mão livre. Enrodilhou-se ainda mais, como uma leve serpente humana, e praticamente confundiu suas escamas com a azulejaria da parede. A massa amarfanhada da trouxa de roupas que fazia de almofadão, quebrada pelo peso de seu corpo, amolgou-se, e afundou-se mais ainda. Elvira moveu os dedos dos pés dentro das botas, como se fosse agarrar uma presa, ou fizesse força para se empoleirar e se equilibrar no galho mais alto e precário de um arbusto. Foi reclinando o corpo lento, lasso, suficientemente macio em direção ao anteparo que lhe servia de apoio no cômodo úmido. Apoiou a cabeça de lado, encostou o livro na trouxa contra o tecido branco do lençol de seu último folho, e sem olhar para o lado, acusou a presença do porteiro que assistiu toda a palestra em silêncio:

     – Não tem um baseadinho, Alcebíades? – Antes que o negro tivesse tempo de responder, o Anão tateou algo no bolso. Tirou de lá de dentro, rápido como uma raio, um embrulhinho em papel-celofane. Estendeu a mão fechada para a menina, e disse: – Esse é solto. Eu planto junto com os tomates, na horta do quintal da minha avó. – E fazendo um gesto mágico, abriu a mão lentamente. Soltava no ar, como uma pomba inesperada, a trouxinha que foi cair entre as coxas da menina. – De que romance psicodélico, você saiu, parente? – Elvira disse por cima do livro, voltando-se com espanto para o Anão, mas ainda sem encará-lo. – Um bagulho solto a essa hora da manhã? Caramba, como a humanidade é difícil, amigo! Li a noite toda, e ninguém aqui pra me salvar até agora! Foi só você chegar!

     Elvira pegou a liamba, e colocou entre os seios. Fixou novamente o olhar displicente no livro. Ajeitando-se melhor no ângulo da parede, mesmo sem olhar para o Anão que a admirava, dirigiu-se suavemente ao negro:

     –- Alcebíades não me consegue uma daquelas cervejas sem gelo, horríveis, que caem bem de manhã? – E forçando o tom de voz: – Posso te pagar com o corpo mais tarde! Se conseguir uma meia dúzia. Você pode fazer comigo o que você quiser, Bebê! E riu, humana e desastrada, desdenhosa de si mesma, aproveitando-se do que em poucos dias já lhe ensinara Doraléa. O Anão arregalou os olhos, espantado e maravilhado, prevendo o Jardim das Delícias ao Amanhecer. E adiantou-se à resposta do porteiro: – Eu pago uma rodada! Mas cerveja gelada por favor, cavalheiro. Sim, por favor, cerveja quente só nos infernos! – Risos gerais, aplausos, e um gesto grandioso de reverência por parte do Anão. Elvira baixou o livro, e finalmente olhando-o de frente, rematou:

     – Você é o gênio da lâmpada, Habibe?! Agora vai me oferecer cerveja gelada!

     – Sou só um humilde pesquisador, na oficina de prazer de vocês. – O Anão rematou com humildade. Elvira soltou uma longa e sonora gargalhada estridente, muitas vezes experimentada. Fechou e depositou o livro entre as pernas, enquanto tirava do entresseios a trouxinha de maconha. Rasgou o invólucro com os dentes e começou a destrunchá-la com as pontas das unhas bem-feitas, modeladas em verde vivo. Tomando fôlego, explodiu:

     – Oficina? Dos prazeres! Um puteiro xexelento e meia-boca. Você é filósofo, professor? – E fez-se silêncio. Talvez Elvira tivesse usado um calão baixo demais para tão sofisticada plateia.

     Alcebíades quebrou o gelo: – Eu vou buscar as cervejas. Tenho uma caixinha guardada no frigobar da recepção, – disse, enquanto se preparava para deixar a lavanderia.

     – Você vai me deixar aqui sozinha com esse psicopata? E se ele me matar? – Arremedou Elvira. O branco dos olhos do Anão adquiriram a cor do fogo de um assassinato. E uma cólera de forja teatral começou a tomar conta de todo seu rosto. O porteiro e Elvira desataram numa debochada gargalhada.

     – Ninguém pode me matar! – disse Elvira, batendo na carne das coxas cheias para demostrar sua incorruptibilidade. – Eu sou imortal, acrescentou cheia de júbilo, fazendo um gesto incompreensível com as mãos.

     O porteiro saiu, dando graças a Deus por ter-se livrado do problema do Anão.

     Equilibrando-se num velho banco alto de balcão de bar, largado na lavanderia por falta de uma perna, o Anão adquiriu um tom profético. E, balançando-se, balançava-se e olhava para Elvira, que entretida com a confecção do cigarro, novamente ainda não olhava para ele. Pigarreou alto, e de forma afetada disse: – Agora, trata-se de conhecer melhor os crimes dos homens que atentaram contra os Soberanos da Arte. E não mais de segui-los. – E consertou com uma das mãos o cós das calças em grandes xadrezes vermelhos, sobre o fundo cor de vinho escuro. Os panos excessivos lhe escorriam em sanfonas velhas como salgueiros chorões e úmidos pelas pernas. Com a outra mão, levou até à boca miúda o cigarro que a mulher lhe estendera já aceso. Bicou como um pássaro vivo o pequeno charuto que fumegava de suas brasas. Aspirando com gosto a fumaça, e prendendo a respiração, acrescentou sem fôlego:

     – É necessário que se mergulhe nas estruturas básicas da relação entre a estética e a revolta. Só isso acrescentará algo de novo à superfície já tão conturbada da tela. Ali, sim, é o lugar ideal para esse grande exercício criminoso: o sagrado regicídio plástico. ― O Anão deu outro tapa e novamente escondeu com esforço a fumaça para dentro dos pulmões. Seu rosto, maciço como uma torta recheada com as passas das pequenas espinhas inevitáveis num glutão, ganhou um colorido violáceo, quase cor do céu poente. Não suportando mais a falta do ar, explodiu o sopro com raiva entre os dentes da frente, desgastados pelo alcatrão e pela cachaça. Passou o cigarro de volta para Elvira.

     A menina enfim lançou os dois olhos grandes de ovelha sacrificial para o pequeno ser que balançava ritmadamente sobre o banco cambaio na sua frente: aquele era o homem a quem sempre admirara como um mestre. Enquanto esperava o retorno do cigarro, o Anão tomou fôlego: voltando-se para a janela, girou a cabeça procurando as nuvens, que já despidas do cinza noite de quando chegara na lavanderia, adotavam o rosa transparente da aurora: mas ainda pesadas do temporal de ontem, causavam uma leve náusea no Anão. Escolhendo os pensamentos por seu peso inconfundível, balanceou a cabeça de um lado para o outro, acrescentando com velocidade dramática: – As artes plásticas e os jogos de poder! – Parou e olhou suavemente sem disfarçar para as coxas grossas de Elvira. Os mármores marrom claro que o Anão tão docemente admirava, terminavam no triângulo convexo e miúdo da calcinha celeste. Mal escondida pela minissaia, a flor íntima de Elvira ainda dormia àquela hora. E o Anão balançou a cabeça, sussurrando em tom íntimo, quase um assédio: – Da minha parte, daqui para frente, nos depararemos exclusivamente com a execução de pintores inocentes! – Fez um gesto forte com os olhos grandes e arrematou num sussurro gritante e cheio de nojo. – Frutos podres de uma linguagem que articulou a morte da arte!

     Elvira acreditava piamente na verdadeira magia do ato criativo revolucionário, que o Anão preparava diante de seus olhos. Devolveu o cigarro. Salatiel pendurou o baseado entre os dentes, e esticando a mão para fora da janela, experimentou a chuva. Ainda não chegara. Seguro do seu estio provisório, disse com a perspicácia de um cigano velho que treinasse pulgas:

     – Talvez! Talvez um grau mais afastado da verdade, no autêntico sentido platônico. – Sem olhar para Elvira, desdenhando a plateia e o que alguém pensasse dele e de suas ideias, fez uma pausa dramática de mínimos segundos. Ajeitou delicadamente a piteira do porrongo. Levou a brasa do cigarro próximo do pequeno bigode com as pontas torcidas em arco para cima. E aspirou com volúpia a fumaça pelo nariz. Seus olhos se encheram de compassivo calor humano. Esticou os músculos da face, como protegendo-se de uma forte ventania, e voltou todo o corpo para próximo da janela. Soprou um resto de cinza da ponta do cigarro lá para fora, reparando nas montanhas circulares que acordavam. Seu tom azulado denunciava a proximidade do mar. Acrescentou.

     – Se é que a verdade ainda consegue de qualquer maneira se manter sobre as pernas. – Considerou o próprio desgosto, e revelando condescendência, disse: – A arte deixou há muito tempo de ser assunto de juízo estético, para ser conhecimento puro: intuição do vir-a-ser: miragem para ser digerida imediatamente em sua intragável massa malcozida. E da maneira que nos for possível, e se nos for possível, engoli-la! – Voltou-se para Elvira, tragou, e esticando o cigarro de novo para ela, acrescentou enquanto novamente falava para dentro com os pulmões cheios de fumaça:

     – Ao menos para aquele que se dedica a salvá-la, porque a encontrou moribunda ao lado da linha férrea. Alguém que, diante disso, senta-se imóvel e desesperado, com a cabeça entre as mãos sobre os trilhos do trem. Ou a sua radicalidade descarrilha a composição, ou deverá ser também eternamente atropelado pela próxima locomotiva!

     Então a esperada chuva, agourada pelo gesto repetido do Anão, chegou. Veio cataclísmica, primeiro indecisa como galhos que se quebram sob pés numa fuga. Cega depois, em fartos seios enlouquecidos balançando a enxurrada. Primaveril, brincando irresponsável nos seus momentos de menina. A silhueta delgada magriça e esquelética do galo de flechas de vento do anexo, recortada contra o janelão colonial, girava e espalhava um halo branco detrás das suas costas. Frutos dos primeiros raios de sol, os lampejos azulados da chuva acendiam o telhado vermelho, sujo e alto. Sob aquela luz fresca, viam-se as cobertas vulgares de taipa vermelha do anexo. Caverna requintada onde os antigos senhores guardavam os coches engraxados de negro, polidos por mãos humanas e servis.

     Súbito, uma mulata corpulenta, fugindo da chuva, estava estatelada de pé diante de Elvira e do Anão. Com a trouxa de roupa encravada debaixo das costelas magras, erguia sem esforço um calhamaço de pano sujo. Amarrava entre seus dois braços fortes a tralha, e forçava o corpo para dentro da lavanderia. Amiudando os olhos para se defender dos pingos que atravessavam a janela aberta, revelava, pela contração dos músculos, o esforço que fazia para se aguentar de pé com aquele peso por cima do corpo. Elvira vislumbrou os cabelos anelados, bem tratados e reluzentes da mucama. Contemplou seu rosto, com gosto de madeira, e imaginou que gostaria, se Deus tivesse lhe dado a graça, de ter sido tão bela como ela. Sempre se achara miúda e mirrada: meio gordinha, coisa feia daquele jeito mesmo. Apesar de ter pernas bonitas, disso ela se gabava! A escravizada, sem ligar o mínimo para a presença de Salatiel, soltou a trouxa de roupa diante de Elvira, como quem se livra do corpo de alguém que acabava de matar. Imitou fixamente o olhar que a menina lhe lançava, forçando o rosto para frente numa mímica medonha. Depois sugeriu um carinho:

     – Parece que vai ter um quarto vazio pra você hoje. Parece que ouvi Madrinha dispensando Emília. Parece, mas não sei, que a próxima da fila é você! – Forçava o “parece”. E acrescentou rigorosa, – Vê se não me suja muito os lençóis. Sou eu que lavo, e você sabe muito bem disso. – Jogou um beijo safado, lambendo o corpo de Elvira com visgo fresco de desejo maduro. A menina se encolheu diante da notícia, que por tantas semanas esperava e temia, jogada ali naquela lavanderia gelada. Dormia apenas protegida por uma manta sobre as trouxas e os ladrilhos decorados do piso.

     Finalmente, era aquilo: ela entraria em ação. Talvez, parece, ainda naquela noite. Quando a Madrinha dispensa alguém, é bom que suma dali rápido. Também, não se esquecia, precisava pagar a dormida e as marmitinhas que a Madrinha mandava para ela. E que já contavam um mês de serviço, por conta da casa. A mulata, que lhe trazia a boa notícia, era bela como um rapaz, quase um homem. Chegada há poucos meses dos cafundós da Bahia, fora criada numa grota dum mato, onde quase não se aprendia mais a falar o português. Tinha encantado Madrinha nos primeiros meses, pelo trato fácil e a capacidade de atrair e agradar os clientes. O que fez chegar até os ouvidos da cafetina elogios rasgados sobre a virgenzinha do interior. E que não se entregava a ninguém! A Madrinha sabia dar tempo ao tempo, quando queria. Mas, de lá pra cá, cresceu-lhe o nariz, empinaram-se as ancas, e sem dar mesmo para ninguém! Entre uma e outra limpeza dos quartos, ela deu para contrabandear bebidas caras. E, aos que voltavam à casa, pedia presentes encomendados em tais e tais lojas de Copacabana, que ouvira no rádio e confirmara com as colegas. Mimos que aprendera a valorizar. Mas o gostoso mesmo, nada. A flor da juventude à ninguém fazia graça. Agia assim, de forma desonesta no estabelecimento comercial de Madrinha, como se estivesse na sala de visitas da sua própria casa. Abrira para si, sem nenhum esforço, um negócio lucrativo. E sem retorno para os clientes. E principalmente para Madrinha! O que jamais a Casa Branca, como era conhecida, consentiu!

     – Você vai no meu lugar. – disse Elvira para a baianinha, que a olhava com os olhos arregalados. – T’esconjuro Elvira! Não nasci pra puta! Tô aqui sem saber pra onde vinha. Entrei como faxineira e vou sair como faxineira. Eu, de jeito nenhum! Desisti, não quero mais saber nem de benfeitoria de homem. Andei fazendo umas besteiras, Madrinha me alertou com carinho e depois eu encontrei Deus pelas mãos de uns crentes lá no Largo do Machado. Bendita a ira do Senhor!

     – Ninguém nasce pra puta, Eusébia. A gente se defende, se cria, se faz, do que foi feito da gente. Vai lá e faz com quem te escolher pra noiva de um momento, e quiser gastar um dinheiro, o que você faz com teu namorado no final de semana naqueles hoteizinhos baratos da rua do Riachuelo. Quem sabe não arruma alguém que te dê alguma coisa a mais que o teu Romeu? Oh, meu Deus, a ira do Senhor!!! Aqueles sanduichinhos de mortadela velha que vocês comem de madrugada na Mem de Sá, quando saem do hotel! Vai, cara! Por que não experimenta? Eu te dou minha vaga.

     – O mal não tem gosto de nada Elvira. Deus não vai permitir isso.

     – Que que Deus tem a ver com a tua vida, Eusébia? Tu nasceu da barriga da tua mãe, como um cachorrinho nasce da barriga da cadela da mãe dele. Madrinha te alertou, porque você jogava sujo. Enganar homem é sacanagem. Fingir que dá mas não dá, só pra arrumar dinheiro. Isso é golpe! Mas vai lá. Se arruma, joga limpo. Mete a cara e vai em frente. Vai ganhar dez vezes mais! Ter perfume, roupa nova, poder comprar um carro. Arrumar um cara pra te levar pra dançar na Barra da Tijuca. Ir até à Argentina, quem sabe, conhecer o tango. A vida é isso, minha filha não desperdiça. Aproveita!

     A chuva estiara. Salatiel, que tinha encostado o banco bambo na parede, continuou sentado em silêncio, no vão entre a porta e a velha máquina de lavar. Acabou de consertar o baseado que Elvira confeccionara com esmero oriental, e que se apagara. Acendeu-o com calma, com o isqueiro de plástico que tirou do bolso, e fumou, enquanto saboreava o silêncio causado na alma de Eusébia pelas palavras de Elvira. Silêncio, só interrompido pelo arrastar dos chinelos da mulata, que resolvendo não retrucar, se retirava sem dar adeus. Salatiel, não pode deixar de perceber as carnes de Eusébia, e voltou o rosto para Elvira, como se desculpando pela falta de diplomacia. De novo levou o cigarro à boca. Deu outra baforada, duas tossidinhas e, estendendo para Elvira o cigarro, disse, olhando novamente para a mulata que se afastava pelo pátio molhado.

     – Essa é uma decisão difícil, Elvira. Entre o lucro, o pecado, e Deus! Os homens já sofreram muito por isso. Talvez fosse melhor acabar com as três ideias de uma só vez! E trabalharmos para que o povo tenha um governo central que não nos oprima. E, que ao mesmo tempo nos liberte do capitalismo, da prostituição e do idealismo hebreu.

     – Nem a Bíblia, nem o Capital, Salatiel! Apenas uma mulher que abre as pernas por dinheiro. E ainda mia gostoso, se precisar! Nunca ouviu falar nisso? – disse Elvira, baixinho, quase sensual. E esquecia a mão com o cigarro parada no ar, enquanto pressentia os primeiros efeitos da liamba rodando dentro da sua cabeça, bem-feita agora. O pito índio era de primeira.

     As garças gritavam revolutas, revoltando da noite na floresta. Descreviam no ar azimutes exóticos em direção ao pedregal das ilhas fronteiriças à orla. Dentro da construção maciça, nos fundos do casarão, escutavam-se suas vozes magriças, reverberando, e zunindo várias vezes contra os ladrilhos brancos. Nos ninhais da origem, ocultas, aguardaram durante a noite seus destinos de ir e vir. A chuva passara de vez. Aos poucos e por detrás das nuvens o sol insistia: tentava rasgar com os dentes uma escotilha de carne: lavava um por um os telhados. Elvira arriscou outra tapa. Engoliu a fumaça e, como o Anão, falando sem voz, revelou os pensamentos geniais que lhe atravessavam:

     – Sol e chuva, casamento de viúva! Chuva e sol, casamento de espanhol. E riu. Riu um pouco, sacolejante, uma risadinha frouxa do que só ela achou graça. Encantou-se com um passarinho que era uma folha amarelada, do lado de fora. Fixou sua atenção no canário dourado ensimesmado sobre o fio do próprio pensamento. Reluzente de orvalho, ampola pulsando contra o fundo do trigal cinza infinito. A imagem que lhe ficara da mulata pudica e carola, agora era quase negra. E tinha os cabelos cor de cebola. Imaginava-a esticando seus doces olhos para Elvira. Quase pedindo perdão por ser muito mais pura e mais bela, e mais virgem do que ela.

     Sim, agora sim. Ela vê a minha alma. Ela chega, e me olha como aquele pássaro que levanta a cabeça do seu ninho alto e poeirento. Acredita que Deus só existe, para os que n’Ele levantam voo. Mas não sabe que ao carregar Deus nas minhas asas, perdida, eu também encontro êxtases. Encontros coincidências súbitas, raros silêncios, flores miúdas, aragens insuspeitadas, canteiros e pomares. Aqui tudo reluz, desde antes de ser cultivado e para sempre. Longos, vivos e vistos, como quando sonhados, os córregos, os riachos, os rios e o mar, me transportam. As chuvas me fecundam. E a primavera me faz gozar, e celebra os meus olhos! Na verdade, hoje eu sinto um alívio imenso e nenhum sofrimento. No lugar da dor, um sentimento de leveza, de pertença: à vida, aos amigos, às relações da minha nova família. Assim como àquela antiga, onde pousei pela primeira vez, entre livros e conversas afetuosas. E que me marcaram para sempre e escreveram em mim, milagrosamente, o eterno romance da vida. Antes de ser entregue à tortura do meu padrasto. E ao amor doentio e ameaçador da minha mãe. Minha vida! Minha vida é uma longa e demorada pedra que rola, rola, rola ladeira abaixo. E ninguém, nem nada segura. Como aquele enorme navio negro que surgiu uivando detrás do rochedo do fim da praia. Entrava gritando pelos meus olhos, e nunca mais saiu. Saiu, sim. Me lembro agora, naquele sonho que sonhei no carnaval passado. Eu estava dentro de um saco de carne sangrenta, jogado fora na beira da praia. No mesmo saco onde, junto comigo, estava guardado o sexo sanguinolento da minha mãe, e meu crânio esfolado pelo fórceps, quando eu nasci.

     Elvira assustou-se com aquilo e firmou novamente o pensamento na mulata que poderia substituir-lhe na nova jornada da sua vida. Olhou fixamente para o Anão. Só então ele pode perceber, envolvidos em uma toalha vermelha e escondidos pela trouxa por detrás das costas da menina, duas cabeças heráldicas: pequenos cães amarelos. Um fiapo de língua do lado de fora enfeitava os delicados lábios cor de manteiga. Estava tornando-se claro que os dois animais e Elvira tinham construído uma amizade duradoura. Embora já tivesse trinta e seis anos, e houvesse passado os últimos dez fechada num hospício, como a mãe que se matara, ela descobria que esses sentimentos que nutria pelo cãezinhos eram legítimos. Os primeiros laços que firmava com qualquer ser vivo desde que nascera, e fora lançada contra seus pais, e seus pais contra ela. Eram a sua vida, aqueles bichinhos. Estava ali, o que Salatiel vira de novo na menina que procurava por tantos anos. Desde que chegara não conseguia entender nem explicar aquilo: os seus olhos brilhantes de ternura, e afáveis. Os dois cães haviam salvado sua humanidade. Ela disse, suave e elegantemente, para o homem que calado assistia o fim da chuva:

     – Essa sou eu. Eu vida, eu vira, Elvira lata, a encurralada. Encurralada Elvira, vira-lata. Essa sou eu... – repetiu meigamente para o Anão. E acrescentou com brilho nos olhos: – E você Salatiel Salieri, o Mágico! O que você tem feito? Tem pintado? – O Anão entregou definitivamente o cigarro para Elvira. E com seu gesto extático, deixou claro que estava tranquilo. Andava compassadamente pelas lajotas de losangos frios da lavanderia. Foi-se deixando escorrer os pensamentos, à deriva, sem esconder um profundo tom comovido:

     – Extremos livres, pinceladas cheias de luz evanescente. Construo uma poesia trágica, mesmo tão anacrônica quanto cenográfica.

     Então ele exulta. E parece que, de verdade, de seu peito encimado pela velha gravata borboleta com o babado de limo verde e respingos de saliva, enfeitada por um broche de madrepérola em forma de mariposa, fossem surgir um par de ensinadas pombas bruscas.

     – Agora - concluiu – espero a Ressurreição das Ninfeias! Aquelas flores nauseantes e belas, que murcharam e afundaram no solo pantanoso do lago de Giverny. Espero lírios furiosos, negros, com o poder de me fazer sentir o horror que dorme dentro de mim. Uma força movediça que pode avolumar-se a qualquer momento. E me puxar de volta para o fundo do lago. Lá onde dormirei meu sonho de morto. Sem pintura, nem excrementos. Existirei somente na memória daqueles que me culpam. E no inferno das minhas próprias culpas. Preso entre o ser e não-ser do meu duplo gigantesco de eternidade. Naufragado nas enormes telas da Orangerie!

     Parou, deu uma piscadela para Elvira, e concluiu bombástico e sacana:

     – Que vão finalmente enfeitar canecas e camisas de estampa a quente nas feiras de artesanato e presentes kitsch. Fez uma mesura, circense, com gestos largos e excessivamente lentos. Elvira aplaudiu, gemendo como quem goza várias vezes, acostumada, principalmente na adolescência, quando completamente louca assistia embevecida àqueles discursos inflamados de Salatiel Salieri. O único ser vivo de fato naquele casarão decadente onde fora criada. Fazia tanto tempo que não os ouvia. E o quando ainda precisava deles!

     De novo o velho mar e as tempestades abruptas voltavam a rugir entre o Anão e sua protegida. E vez por outra, seus olhos se encontravam e se tornavam mansos e oblíquos, com pelos brilhantes quase incestuosos. Os cãezinhos, de grandes olheiras como as marcas da maré na praia do mangue, os espreitavam com as patas cruzadas. Respiravam ritmadamente, no ar ainda limpo da manhã. Elvira olhou os cães, e jogou a cabeça para trás, descansando as costas contra a parede, abrindo naturalmente as pernas diante do homem, já acostumada a ele. Encarando Salatiel, disse, num tom casual. – Os assírios consideravam o sexo uma atividade isolada no contexto da personalidade. Esse é o significado de seus cavalos alados. Pégaso, o animal grego, tem o mesmo sentido. Um desejo que se evola, levanta voo, se revelando ao evaporar, e deixando no chão seu cheiro de estrume. – Ela parou, e massageando a parte de trás da cabeça contra os ladrilhos, acrescentou: – A dor, a dor é uma testemunha da carne, na guerra entre o desejo e a cultura.

     Um par de luvas negras acenava para os dois, pendurado no varal improvisado no fundo da lavanderia. Elvira rastejou a bunda em pequenas ondulações, e puxando o corpo com os pés escorregou as costas. Descendo pela parede, deitou-se e tocou com as botas os sapatos de bandinha do Anão. Uma fita de barriga branca, com uma penugem quase dourada descendo em direção às virilhas, surgiu entre a mini blusa e o cós da saia. Seus seios esparramados debaixo da malha quase desapareceram espremidos contra o peito. Deitada no chão, olhou fixamente para os pés do anão, de pé ao seu lado. Arregalando os olhos, disse com voz de oráculo:

     – Sabe que dia é hoje, Salatiel?

     O anão viu, refletida nos olhos violeta da menina, a mariposa amarela que jazia quase fossilizada sobre o ladrilho branco ao lado de seus pés. Uma asa em cada olho. Diptóptero. Kalidoskopia, Kinematógrafo, Blow-up. Lânguida, desengonçada, a mariposa estertorava. Os olhos de Elvira fixavam o inseto. E seus pensamentos batiam as asas junto com ele.

     – Dois de Novembro! – Salatiel disse, sem tirar os olhos da mariposa.

     A ampla fita de azulejaria portuguesa com motivos florais desencontrados e simétricos dividia as paredes na metade da sua altura. Persistente em toda a orla do aposento, interrompia-se somente na parte inferior da janela, e entre os batentes da grossa porta de ferro para deixar passar o vazio e a paisagem e as gentes. Um cego espelho abandonado ali não se sabe por quem nem quando exibia a verdadeira face das pessoas junto com a sua própria, e imensa, lepra ferruginosa. Compunha fisionomias estranhas, formas inventadas pelo passado, possíveis decadências futuras. Mal se refletiam nele, jogados no chão, um envelope plastificado de fumo negro inglês importado, um maço de papel de seda espanhol e um velho isqueiro niquelado Ronson ― presentes de uma enfermeira amiga que Elvira recebera antes de deixar o manicômio em Japeri. Estavam largados ali ao lado do cinzeiro artesanal de casca de coco, e do livro fechado ainda marcado na página onde Elvira se interrompera: a orelha envolvia a contracapa: a “Princesa Sem Olhos” estava sempre ao alcance da mão. A mariposa enfim terminara seu estrebuchar.

     – Feliz Dia dos Mortos, Salatiel Salieri! – Elvira disse.

     – Feliz Dia dos Mortos, para você também, Elvira! – o Anão retribuiu.
     Bêbada nua raspada sobre o cavalo que come margaridas não me maquio mais. Na palidez infernal de ontem eu era uma mulher injusta. ― Para alguns eu era assim, para outros a própria justiça. Flutuava sobre uma torre sem olhos agora. Estou em pedaços e me vejo no futuro toda remendada. – Bem-me-quer, malmequer. ― Pássaros em pó, cabelos se desmanchando, fina maquiagem na pele crespa de serragem em volta da minha barriga. O segredo é ocultar as imperfeições. Diante dos meus olhos fechados surge uma multidão de mulheres prenhes. Todas vestidas de couro preto, são as mãe do mal. Um brusco animal marrom e dourado de expressão assustadora, vem na frente do brando. A sua cauda, um longo véu de noiva. Eu era a única, depois de ser baleada, que ainda esperava por uma quente noite de amor. Aquele andar lento, de lado, oscilando para a cela das prisioneiras, era o meu. Tremor e solavancos em meu catre. Não perdia a esperança de uma nova presença. Guardava meu núcleo de amor para ele ― o meu amor. Um núcleo molhado por dentro. Eu não tinha medo de explodir de amor. Essas músicas antigas, meigas, me lembram o rio magro dos dias secos, cheios de desvelo. As palavras familiares, minha última noite de noiva, antes de removerem o corpo. Todo o lado esquerdo do rosto desfigurado, seus cílios flutuavam fora da pele, cintilantes. A seda branca sobre a sela vermelha do cavaleiro debaixo da lua de papel. O sangue lavando as coxas em rios cor de malva, os pés banhados em unguentos. Olhos ingênuos inundados de orvalho. Barro cru, o corpo com as mãos ainda se mexendo. Quem mandou se meter comigo?

     Me ergui, me contorci e espremi as carnes para elas me darem mais algumas imagens. Algumas retornam, eu reconheço. Mas é difícil, depois de tanto tempo, pesquisar entre elas. Achei lá dentro, suave, achei o silêncio, de qualquer maneira. O meu rosto sem medo estava lá no fundo, perto dele. Uma massa pesada havia se movido, e agora escorria parecida com minhas memórias, mas não era. Tentei morder a barriga, ver se teria gosto de alguma coisa diferente. Para trazer algo novo que me desse mais satisfação. Quero dizer, satisfação vinda de mim. Mas não, precisei pensar em coisas melhores. Mas não, e desisti. Quando me abaixei, as pelancas mornas quase se descoseram da minha barriga. De uma maneira tão engraçada, balançam, que me fazem rir! Apesar da minha antiga desgraça, ainda vivo frita, embebida e guardada em banha, pensei. Ah, meus felizes frenesis! Macabros, lascivos e lúgubres frenesis. Vivemos juntos, agora como num sonho. Dois cavalos que se mordem, os pescoços nós os mantemos entrelaçados. E os dois sexos num mesmo corpo. Uma para cada lado do rosto, duas bocas. Dois vulcões correm e correm, sobem e descem por tudo isso. Todas as minhas veias, passam pelas do outro cavalo, noites seguidas. Depois, tive que ter um prazer súbito, subterrâneo, sucessivo. Como se escapasse aos poucos de mim. E fluísse, e eu não estivesse vendo, e não estivesse percebendo. Teria perdido toda essa minha memória em excesso, isso me deu a imensa esperança da alegria, finalmente: a imagem inteira dele.

     O maior esforço que já fiz, não tinha a menor importância, mas não tinha sido em vão. Era só um sonho e meu corpo estava amarrado daquele jeito ente dois cavalos. As estacas, algumas, sim, eram de verdade, estavam lá até agora. Presas para sempre naquele chão com a medida dos nossos braços estendidos, e das nossas pernas bem abertas. Não, nem sempre mostrava a mesma coxa, mas de preferência a outra, a melhor para ele ver. Me estendia de lado com a lâmpada acesa, jogando sua luz suave entre as minhas pernas. Ele me entendia. Havia um acordo entre nós, ele não me olhava nunca durante todo o meu caminho de volta do banheiro. E estava eu lá, sua senhora sentada sobre aquelas minhas coxas muito brancas. Naquele ângulo, as duas pernas agora pareciam bem torneadas. O abismo que me sugava ― eu supunha ― estava chegando em casa. Estava chegando devagar. E se deslocava com passos firmes, curtos, miúdos com aos saltos de um tambor. Vida sobre a areia, um lagarto deslizando nas paredes mais íntimas de meu vestido. Eu tinha mandado construir um aquário! Imaginar peixes dentro da minha cabeça vazia, era o meu sonho de menina. E quem ia colocar água lá nele? Enfiava a mão no espaço vazio, cheirava as algas imaginárias, respirava fundo. O mar como eu queria escorrendo pelos meus dedos. Mas não queria tanto assim, eu temia o risco de me afogar no fundo do aquário. Uma vez, eu não sabia nadar, eu já sentia a falta de ar. Eu afundava e me sufocava, então prendi a respiração. No vestido balão eu mergulhei de fato, mas sem perder o controle.

     Algumas pessoas apenas tem a ilusão da vida. Vontade, achando que estão vivendo, às vezes é coisa que dá e passa. Mas viver, alguma coisa de verdade, quem é que vévi? Não é mesmo? O homem finalmente sentiu o meu cheiro forte de trabalho forçado. A cinzas dos dias dentro do imenso vestido balão, eu sufocava rápido. Eu era o peixe do aquário vazio, eu envolvia os vidros das janelas em tafetás cinzentos. A casa da patroa era perto ― e muito quente. Sob aquela lua faltavam pedaços, mastigada pelo monstro. Lembrei as lágrimas em lascas de cascatas miúdas, a máscara mais quentes da minha vida. A morte daquele cão gelado. Aquele dia que eu queria empurrar a Madrinha porque ela queria enterrar o bichinho. Não quero mais sofrer essas dores dos meus pequenos cães mortos! Essa memória do bicho frio! Queria de novo a solidão alegre daqueles dias sem dores. Nenhumas, entre nós dois, velhos mudos, de um outro mundo. A chegada alarida das cabras tocadas ― lembrei ― pelo meu primo sem chifres. Na outra banda da serra, seu osso duro, metendo entre as minhas pernas. Uma mulher que começava ali, gemendo com a pontada de um homem, entre as cabras. Mas não vão se preocupar com você. Perdida ou não perdida, você, tanto faz para eles. Não vão, nunca, não. Como se preocupam com os santos e os mártires, e com a pessoas comuns da perfeição. Por tudo isso eu também adivinhei porque gostava de me esconder detrás dos santos do altar. Nunca me esquecia daquelas imagens coloridas e sem vida ficando de noite na minha cabeça dormitando. Vivia naquele aquilo, falando. Com o tempo, Madrinha mandou mergulhar santos de plástico no aquário seco. Que eu dizia os nomes olhando a cara deles com os dedos. E peixes azulados entrando e saindo de uma pequena igreja erguida no centro da areia lá do fundo. ― Zé Manézio que fazia a catedralzinha de cactos e uns bagrinhos de umas sobras de osso de cabeça das rês ressecada. Madrinha decidiu que aquele era o cômodo da devoção e da adoração a mim mesmo. Eu devia agora ser a nova santa de todo os dias. Mas só ela via aquilo, meus milagres. Gostava de imaginar como seria o aquário da santa. Era um jardim de convento, emparedado ― onde ela e eu foi uma vez, saracotear com o padre, amasio dela, no Crato ―, no fundo do mar. Como uma cela de monja, singela simples, com uma cama e uma mesa pura, sozinha. Único sinal, um missal da liturgia das horas, que sabia de cor e já podia recitar, se abria num banquinho na frente da minha cama, onde havia os pecados enumerados e nomeados. Ela torou seu cabelo com a faca da cozinha, e deu de usar uma toca de criança, a mode de coifa de Madre Superiora, daquelas que falam, minhas filhas. Um beleza ― na hora ela tirava a coifa e eles dava de cara com a sua cara de pinto pelado, marcada da bicheira da varíola. Oferecíamos Madrinha e eu para prazer e devoção, por qualquer meio tostão. ― Naquela seca, no meio do liso, era uma fortuna! Madrinha também labutava duro e se precisasse também fazia seus milagres. E me oferecia para eles ― os retirantes. Podiam devorar o meu corpo, a saber, e beber o meu sangue. Se tivessem fome e sede de vida, na descida até o litoral. E o sofrimento da minha alma, era angústia garantida. Alimentaria os destinos dos que morava nos outros corpos, também cheios de muito mais sofrimento. Eles, fiéis na realização do meu calvário cruento, mergulhavam em mim. Diante do aquário iluminado por velas, um fervor enlouquecido. Eu oferecia amor em danças de possessa, e loucuras. Iguais às mulheres loucas que me contam, das capitais. Imitando também ciganas de circo lendo as mãos. Aprendi sarabandas sujas, de ouvido. E no fim eles ficavam limpos, lavados dos involuntários crimes silenciosos de outrora.

     Os meus fiéis me recomendavam a outros fiéis. Que não deixassem de passar por ali. Mesmo quando estivessem sofrendo a fome e a sede, na fuga da morte seca eterna. Tudo daria certo na sua caminhada, se viessem visitar a puta cega milagreira da seca, e sua tia empoeirada. Uma ruinazinha de prazer e milagres, perdida no chão do Liso do Jacarezão. Depois, só precisava passar perto, e vinham me enxergar de longe. Para andar bem as coisa, a Madrinha só cobrava um dízimo. Um corrupto dinheiro por um milagre sem corrupção alguma. Uma visão distante ― era eu menina, puta e pura. Não pensava em nada, e não via nada desse mundo, porque era cega. Seja lá o que eu estivesse fazendo, fizesse por não saber. E estava livre do pecado. Era como se a minha falta de vontade própria, e o uso intenso do meu corpo pela criminalidade dos outros, me perdoasse de tudo. Quem não sabe o que faz não pode ser punido, pergunta o doutor? Essa era a explicação teológica que Madrinha dava para justificar a eficácia dos milagres e a perfeição do serviço na cama. Eu ― só esperava que tudo aquilo acabasse rápido. E os meus tremores de êxtases vinham sempre quase ao mesmo tempo que os milagres. Aquilo tudo dava surpreendente certo para todos. Para Madrinha, eu sempre fui um personagem de uma página em branco. Que ela podia escrever livremente, na imaginação da freguesia.

     Lambo as migalhas que desabam calmamente enquanto escuto a chuva sorrateira escorrer pelos meu sovacos sem barbear. Copacabana! Uh, uh! Minha filha, afilhada em apartamento de debutante! Viva a maquiagem da vaidade. Sou igual à menina que jogou o seu chapéu para o alto e ele nunca desceu. Olhando para a parte inferior da beleza do meu corpo, ele costuma fumar um cubano puro. Eu envio sempre para a Madrinha o dinheiro para comprar o pão de cada dia. Mudança de ar, de paisagem, obras do governo! Lá na seca as obras continuam como sempre ― todas inacabadas, ela disse. Um bom cafetãozinho de olho verde é o que eu procuro agora. Depois do trabalho duro, destroçada, nós dois debruçado sobre sobremesa no travesseiro. O padre da paróquia me cavalgando sobre os panos de linho bordado com inscrições em latim ― falações agudas durante o coito, ele não calava a boca naquela língua de profetas. O pior da vida, as mesmas palavras mortas no meu ouvido, todos os dias. Todas as vezes a mesma ladainha. Se eu falasse, ninguém ia acreditar. E ele tinha o poder de me comprar uma passagem paro o inferno, na mesma hora. Depois me dava um pão duro, duro como o dedo dele. O pão de santo Antônio, que sempre voltava a encher a despensa da Madrinha. Agora em Copa eu dou porque quero, e cobro o que quero. O dinheiro ganho com o meu xibiu, padre algum vai me ver de esmola! Já vai longe o tempo de pobre da seca, das curras de sacristia. Dos abortos de filho do coronel, coroné-Zinho. E de milagres fajutos da monja descabelada da minha tia. Saboreio sofisticados alimentos, farinhas grossas, salaminho em fatias finas, e aqueles franceses cardápio da burguesia ― farofa de ovo e lasanha no domingo. A revolução eram os fantasmas do passado, “cada um com uma bala na testa”. Lasanha sim, que é o prato que ele mais gosta. Antes e depois de invadir o meu pensamento. Mas, alienada, eu vivo agora, vilipendiada e expulsa de mim, exausta de saborear o molho de carne à bolonhesa. E lhe agradeço a gentileza, Doutor, devolvendo em troca, as minha embalagens de favores, abertas de frios fatiados. Mas isso, isso não. Não ouso isso, Doutor ― de maneira nenhuma. Nada não vai conseguir me convencer a fazer isso pro senhor. Seu dinheiro é seu, mas o meu corpo é meu!

     Naquele ano, não! Não houve mais nunca não, o então de sempre. E foi logo tudo aquilo, de uma vez. O longo estertor de terra e céus, e mais nunca mais de novo. E então nunca mais. Não, naquele ano não, não houve. Mas agora era apenas os homens, um colapso brusco deles todos. Loucos furiosos, um colapso, covardemente ofuscando os olhos de quem assistia da janela. De nós todos, da gente, sabia, e do bicho? Um morcego branco fininho focinhando lambendo a mama da mamãe na lama. Ela que não sentia, nem que sabia, era de tanto sono. Comigo no colo, uma comichão, ele chupava mais era o sangue dela. Eu via, via, Elvira! E via. Depois uma aragem. O vento forte, a Senhora sabe? O que ele quer comigo? Ele que trouxe as decepções e as deformações no rosto do Anjo. Aquilo que já não existia antes, era demais tudo em mim. E os sorrisos dos animais, fora de mim, zombando nas baias. Depois o conjunto dos redemoinhos remarcados nas palhas, quase que vinham dos outros homens, passando empoeirados para os cabelos das crianças. Sim, Senhora! Oxalá! Era dali que saíam as vespas e as lêndeas aos montes: de tanto encher os panos esmigalhados sobre seus ombros. Os pescoços branquinhos. Sim, Dona Senhorinha, estendeu-se gente, naquele dia. A maquiagem branca de morte sobre todos nós! Os muitos lábios foscos de toda a minha gente pequena. E os que já eram pequenininhos. E os de já endurecidos de tanto amargor. E agora sim, nesses dias mesmo de hoje, todos juntos de uma vez. Mas naquele ano não. Não, Senhora. Não houve mais. Nada, mais nunca. Como aquilo não! Acredite, Senhora. Mais nunca não. Não Senhora!
     Ombros largos e magros, ossos de giz, uma pele de onça vibrando tons de amarelos e negros, completavam a indumentária fantástica da mendiga. A prata lunar rebatia no grande broche de lata vermelha e a tinta velha que a recobria contrastava com o volumoso colar de gigantescas esmeraldas de plástico. Os dois seios esmirrados eram valorizados pela joia de brinquedo num contraponto perfeito para a consequência do salão. O mundo dos ricos, dos poderosos, dos donos do mundo e da vida, se amplia na tristeza dos seus olhos vagamente mórbidos e injetados. Um espécie de película das pestanas das galinhas, da membrana acumulada pela fome, esconde suas córneas. À contraluz, lá dentro, tudo se denuncia, e tudo a tudo ofusca. Tudo aquilo se move, em fragmentos, diante do rosto da mulher em ruínas. A cantora nua por debaixo da pele do vestido lima da Pérsia. A seda dos seus pés descalços sobre o mármore chocolate, riscado por veios claros mal traçados profundos ou brancos. Exuberante fêmea de meia idade, ela se exibe tentando fazer-se passar por apetitosa garota casual. Gosta de se mostrar à francesa, arrastando a pequena cola do vestidinho de babados caribenhos. Ao caminhar serelepe saltita saltitantemente girando a cabeça e sorrindo de um lado para o outro de um lado para o outro de um lado para o outro como uma atleta dançarina. Depois lança todos os perfis para todos os lados simultaneamente, com um pássaro que esbanjasse música, ritmo e agilidade. A famosa artista da náite, cruner de churrascaria aos sábados à tarde, especialista nas letras em inglês macarrônico, atravessa a salão em direção à orquestra. Bem equipada com metais e cordas, a massa sonora ressoa nas paredes à sua entrada pitoresca e apoteótica. Todos param, param, param para olhar: o seu olhar: dois brilhantes de pedras molhadas que se derramam dali pelas maçãs do rosto moreno: aparição grudada na retina: aguardada com deleite e lágrimas nos olhos.

     No momento em que, chega ela agarra o microfone sincera como quando pega um pau cheia de tesão. Antes de colocá-lo na boca, olha para o falo e sussurra com violência hipnótica: mái-méns! Encara a plateia, e sopra pelos lábios babados: mái-blús! Ouve-se um ah lamentoso e cheio de apelo correndo por sua pele suada, negra, marcada pela vida. Todos imaginam os homens que ela já teve, outrora, noturna, tomando porrada cotidianamente. Sendo violada e enrabada, encostada na porta aberta de uma geladeira desligada, e cheia de mofo, numa masmorra imunda. E novamente espancada. Mas ninguém sabe o que ali ainda fervilha, dizendo baixinho dentro dela. Exausta, debaixo da seda sedenta, as gotas de amor se acumulam jazendo no seu corpo, como mariposas mortas, grudentas de pó e dor. Mariscos duros rasgam e cortam seus entresseios, o suor surge e ela o estanca: o minúsculo lenço azul surge das profundezas do sutiã. Ela estende o lenço como que atestando o sangue de uma virgem, e a prova da sua temperatura. Meus homens! Meus blues! Então sente a umidade gosmenta invadir os entrededos dos pés. A um olhar crítico, percebe-se os sapatinhos de cristal um pouco desproporcionais para a sua altura pouca. Adivinha-se também o esmalte da unhas grandes, ainda fresco, colando dentro do blindado escarpin de verniz vermelho. Nas mesas alvas de linho branco, puríssimo, salvas de palmas regaladas no champanhe e no caviar Beluga. Nos arranjos do címbalos e dos tímpanos, entre as samambaias mudas, fecundam os jasmins do ócio, diante da fina flor da sociedade do Charque do Norte. A mendiga examina detidamente tudo aquilo.

     Entre ovalados pistilos brancos e cálices concêntricos amarelos, o Cangaceiro está sendo aguardado. A cantora sabe que ele vem do Palácio do Sal, só para vê-la! Na primeira mesa na frente do palco, o Médico-Chefe do Plantão, acompanhado de sua mulher velha, gorda e morfética, formam a fila da Guarda da Tribuna de Honra do Baile. A baranga ostenta achacada pela gota, velhas marcas de varíola espalhada pelos cornos. Toda artificial, veste uma pele de castor, apesar do calor. Mas a gola de visom a mantém livre do suor por conta de um preparado importado que o médico mandou vir da Suécia. Novidade no Mercado Comum Europeu, que impede a transpiração do pescoço do rico do primeiro mundo, desviando por meio de dispositivos conectados a um satélite, todo o suor para os trabalhadores braçais assalariados. No dedo, um diamante do tamanho de um ovo, e brincos de casca de avestruz que um famoso emir das Arábias envia de presente para o marido, por conta da gratidão pelo médico ter salvado a vida de um dos cavalos de raça do potentado. Ameaçado, o cavalo não o árabe, por tristeza asiática. A cruner sorri para a grande dama da sociedade, e sabe-se que mais tarde ela pedirá mi-buenos-çaires-querido. Ela, a cruner, não a baranga, cantará com a voz saída do melhor lençol de cama quente. E ela, a dama-vagabunda, não a cruner, chorará lágrimas de crocodilo, se lembrando do amante jovem e sedutor que tocava bandoneon debaixo da sua janela. Precisou trocar o argentino canastrão pelo bisturi do médico de família renomada, por ordem do pai que mandou matar o fanfarão argentino. Ao lado da gorda diabética, o Médico agora assiste seu show. E como se não imaginasse o perigo de uma bomba explodir na portaria do hotel, roda com o dedinho mindinho as pedras de gelo do copo de uísque. A Vanguarda Armada Revolucionária sabe que estarão todos reunidos ali hoje. O Comitê Central decidiu que seria uma boa oportunidade de mostrar poder de fogo. Os homens da repressão sempre contam com isso. Fazem uma varredura fina e rigorosa no local: latas de lixo, canteiros, carros suspeitos, cães farejadores. Fazem o melhor possível, ainda que tudo seja possível. Mas o Médico tem a cabeça leve, lírica, leviana, típica dos apaniguados donos do poder. E a repressão não levou fé na mendiga.

     Cansado da labuta diária, o Médico relaxa na bebida. Passara todo aquele dia de calor examinando a resistência dos prisioneiros num afamado centro de torturas do regime do Cangaceiro. Apesar da rotina cansativa, sua missão é simples: como todos sabem, orienta as equipes durante os interrogatórios, no que toca à capacidade dos resistentes permanecerem com vida, até que se possa extrair deles tudo o que sabem. Depois desse ponto, já não se precisa preocupar com mais nada. O Médico raramente se engana. Durante todo o período de terror do regime do Filho do Cão, que já dura trinta anos, jamais perdeu um revoltoso para a morte, antes que as necessárias descobertas fossem realizadas. Mas, claro! Sim! As execuções são previstas: coincidem exatamente em número com a cota para aqueles que se recusam a falar. Entram mudos e saem mortos. Assim, senhor dos seus dias, o Médico bebe seu uísque com fria calma. Gestos musicalizantes balançam comedidamente corrupios rigorosos distribuindo o gelo por toda a qualidade da bebida, tomando o cuidado para não torná-la aguada. Uma expressão de desprezo pelo mundo sem mantém fixa, como um carimbo de ferro, em seu semblante duro. Gestus que se notabiliza pela crueldade do nariz em forma de pera dura, excessivamente afunilado em seu gargalo. Se agudiza ainda mais no vazio oblíquo dos olhos amareliços, grandes e inequívocos como caroços que jaca que acabaram de ser chupados e cuspidos. Intensifica tudo o amargor da boca, um pouco deformada pelo uso obsessivo dos charutos. Um colarinho branco e duro, apertadamente constrangendo o grosso pescoço em forma de manilha de cimento cinzento. Encimando os ombros, um pouco afrouxada para significar intimidade com o ambiente, a grande gravata cor de vinho amarrada no alto do peito como um garrote de luxo. Uma camisa fina da flor da seda francesa veste de babados o corpo espaçoso: aparição de estátua de praça esquecida e cagada de pombos. Debaixo dos omoplatas desiguais curvados pelo peso dos músculos das mandíbulas cerradas, um amplo peitilho de filó amarelo sobressai do paletó marrom cravo, repleto de medalhas de todos os tipos. O Cangaceiro faz questão de debruar as caixas torácicas dos seus torturadores com os mais variados tipos de insígnias memoráveis, com nomes pomposos com a Ordem do Brio Sangrento, Estrela da Morte da Nossa Pátria. Quando cansa a mão, troca de braço: o copo então se estica e uma perna gorda surge ao escorregar por debaixo da mesa. Seu olhar mais desequilibrado parece que diz: "Não aguento mais essa mulher que vou ter que carregar pelo resto da minha vida." Quem olha para aquela figura de crânio desajustado e imponente, logo percebe que são pequenas demais as duas orelhas de abano em forma de asas de açucareiro que orlam as margens da cabeça bovina. Enrolada naquele couro cabeludo já cansado de caspas e calvície, nem para escalpo serve mais o velho traste. Nem para fazer uma peruca já não serve. Surda, que nem uma velha bola de futebol que girasse no centro de um vórtice de cabelos falhados, seria melhor tê-la jogado fora. Não fossem os unguentos milagrosos e a constante atividade das mãos da cabeleireira que ele encontra às quintas, na parte da tarde, e que lhe alisa toda semana aquela cabelada minguada, já estaria completamente careca, o ridículo. E aquele rabo de burro! Que ele usa para disfarçar o narigão que cresce a cada dia como consequência do aumento pleno da testa. Inexoravelmente o pinta sai à rua de bengala de bambu. Toda manhã sempre enfeitado com a mesma fatiota. Enfeitado como um boneco mau de personagem de teatro de feita barato, se esmera em parecer ridículo. O filha da puta!

     Ali estavam assim entre todos os seus costumes reunidos os principais notáveis do baile. O Médico estendeu a mão para as coxas da velha matrona para disfarçar, e estendeu languidamente o pescoço em direção ao palco. Fazia com o rosto uma mímica, como se quisesse dizer alguma coisa para a cantora. Truque mal feito, imediatamente descoberto pela mulher: ela não se acostumava mais com carícias nas coxas. Conhecia todas as tramoias do canalha. Meu amor: uma máscara de pomba raivosa grisalha, enfezada, subiu pelo rosto da cônjuge. Comia sua langosta com regozijo de ódio. Mirou a cantora inclinado rigidamente a cabeça como uma serpente despertada pelo pecado, prometendo uma vingança de que nunca se esqueceria. O médico comia despreocupadamente também a sua langosta ― e a cantora com os olhos. Podia-se ouvir o lept-lept-lept sem gume dos seus talheres para peixe. Tudo aquilo repicava nos tímpanos da meia luz ambiente. Sem demostrar qualquer outro pudor diante da austeridade da comilança oficial, a cantora desce do palco, desce do Olimpo, desce aos infernos das mesas. E tomando um gesto circular agarra uma das tantas rosas platinadas que lhe ampliavam a cabeça de Diana Caçadora, e joga a flor fragrante num impulso duro e pesado como um soco no colo da matrona. Um grande aplauso percorreu, num uivo cáustico, o salão frenético de ironia. Iluminaram-se as faces da raposa, da esposa e das uvas cor de rosa. Afrontada, a velha ovelha enfia a cara contra os chifres da langosta, e saboreia o desgosto de um prato cheio de vergonha. A cruner soberba garbosa gostosa molhada para sempre interrompe a canção que interpreta e olho por olho dente por dente injeta os olhos nos olhos da catraia. Langorosa atira com sabor vermelho de langosta sendo devorada.

      “Mi buenosçaires, querido.”

      Então retorna para o palco, e rebola lentamente revolcando por três vezes o chocalho que já pulsava camuflado na ponta da cauda do vestido de lamê nacarado, que engloba as duas ancas da inveja. Um troca de luz rápida, a respiração curta, uma pausa mínima, ela desperta quase num flash retumbante. Crescem, e fazem-se calar em silêncios, as estrelas do burburinho. A noite artificial desce, rastejando pelo mármore gelado e branco do hall vestido de cortinas negras do Hotel La Haine. Trombetas e servos se desdobram e retiram das douradas portas os gonzos gosmentos de ébano maduro da entrada do salão principal. Tapetes enrolados, pífanos, flores compradas: Mrs. Dollaway, a festa é sua! A Comitiva do Cangaceiro, precedida pelos Dragões do Charque do Norte, entra como um fogo de batalha pelo ambiente a dentro. Uma gota de suor gelado, quase pedra, quase sangue, escorre do alto da coxa esquerda da cantora. Bem ali no lugar onde o Príncipe sabe que gosta de começar a sua beijação. A chuva cospe miúda, e começa a cair lá fora. Cospe lembrando o pó de confete na boca de um morto por enfarte de tanto engoli-lo durante seu último carnaval no Baile do La Haine. Lacrimejam as vidraças, e o cristais que não se assustam com chuva pouca, e as memórias macabras de antigos cordões esticados por aqueles salões. Deitados na entrada do velho cassino, os dois galgos galegos cor de carne esperam nas sombras. Descansam, pedindo pela alma de seu incestuoso dono. Enquanto o potentado caminha, eles dormitam amarrados a uma das macieiras do pomar. Suas caudas abanando circulando a luz por toda a entrada do prédio estilo art-noveaux falsificado. Carros conversíveis, berlindas, berlinetas, corvetes, bicicletas, e blindados sob comando, adornam as calçadas sonolentas. Um negro amputado faz malabares incandescentes, equilibrando-se precariamente em uma das suas muitas muletas, debaixo dos dois braços. Exibe-se na sua solene atração para as altas autoridades que iam e vinham e se alinhavam em seus linhos e pinhos silvestres. Entrando e saindo esperavam cargos que nunca viriam.

     Jogada num canto da calçada, quase sumida, próximo à sua sarjeta imunda, a velha de rosto redondo, olhos nativos inclinados e estreitos, as faces deformadas pela peste, os cabelos caídos em franja curta sobre a testa ampla maquiada, pedia também suas esmolas. Cavoucava as grandes feridas que se esparramavam sobre sua perna esquerda, lambida escrupulosamente pelo vira-lata de pelo curto amarelo salmão. O Sujito sempre a acompanhava no seu arrastar purulento de coisas e trouxas e andrajos. No seu disfarce teatral, Taturana era exigente com o realismo socialista. Aquele homem desconhecido que viram hoje com ela no caminho para a mendigaria no hotel, o Negro Louco que usava dragonas e fantasia de motorneiro de carnaval, que dormia bêbado no banco da praça, e que agora se exibe com seus malabares ― é o seu superior na ação.

     O fartum da noite marítima se eleva dos canteiros de lavanda, geometricamente arranjadas em ângulos curvos. Nas aleias retorcidas das jardineiras na frente das janelas, o salão de festas cristalino é iluminado pela lua vertical. O som da orquestra retira do chão o prédio de pedras. A música transtorna todas aquelas arquiteturas ogivais em fantasias loucas. Garças e lagartos, aparições de carnes e fantasmas de verdade, espontâneos, surgem no meio da multidão de folhagens expostas à lua. A velha justa ajeita a colete de lã roto e vermelho. Um pouco para dentro da manga esmolambada junto a peluda axila esquerda, surge a culatra metálica da Browning nove milímetros. Fatal, armada e perigosa, amanhã a mendiga será a testemunha que suportará dobrada sozinha os choques elétricos. A testemunha que sofre a dor insuportável. Quando não consegue resistir, sucumbe em gritos de loucura durante o martírio. A testemunha que sabe que está perdida, que não tem nenhum caminho a seguir, e sofre em silêncio, até que seu silêncio não esteja mais ao seu alcance. A testemunha que espera o fim da tormenta ― a esperada morte ― como a única salvação possível. Que sente a fome insuportável e o frio terrível. O calor que incendeia os membros dos prisioneiros, e traz o horror da hora da experiência maior. No corpo rasgado, lacerado, nos seios amputados, vem a consciência exata do momento preciso, antes do grande sofrimento. O pântano escuro onde deságuam todos os sonhos e todos os rios de esperança do mundo, e que será o dia que então verá nascer a Revolução. Um dia que precisa ser refeito desde a hora que a manhã começa, desde a madrugada de seu início, dormindo na neblina.

     Luzes, panos, comidas, cortinas, sabões, banhos, cães, e o amadurecimento dos mamões. Os novos pintos marrons. A obra lenta do coalho dentro do sangue. A descoberta escandalosa da negatividade da recusa. O ódio gratuito, banal, pelas coisas mais preciosas. Pelas coisas mais belas. A recusa absoluta. O afastamento radical. A negação bruta, concreta, depois da grande destruição. Os olhos azuis de metileno elétricos do cão cegado pela língua da cascavel. Os esteios rompidos da cerca elétrica. A iminência do choque. As toalhas coloidais estendidas no varal respiram o vento quente e dançante. Enfim, a opção pelo mais obscuro, torna as sombras figuras e as figuras mártires. Tudo inverte a ordem da percepção em sua escala de valores dos objetos. Impressionismo às avessas, de fato a opção sempre pelo mais escuro, tanto em termos de luz quanto em termo de sujeito.

     A mendiga se dedica ao seu trevoso interior, para daí extrair seus motivos de vida e de morte. A sombra como figura narrativa de outros romances de sombra. Modelados de escuros, deixando em segundo plano a ilustração das imagens. Destaques adicionais, as figuras mudas surgem dos desenhos e das estruturas que o mundo da luz implica contra o mundo das sombras. A vivência ingênua dos que se movimentam nas claridades, como se não estivessem condicionados e determinados por suas sombras, numa inversão histórica de certezas e de conhecimentos. Águas, fluxos e cinzas flutuam em seus olhos que se arregalam cada vez mais, para deixar passar a nítida noite. Velozes mastros e cordas e barcos acesos na distância. A quilha aberta contra todos os ventos, o destino agarrado pelos dentes. A mendiga se levanta como para catar uma binga de cigarro no meio fio. E sem cerimônia se agacha na moita de lavandas em frente à vidraça que resplandece o salão onde toca a Caliente Orquestra. Ela ouve o mambo frenético, todos os seguranças da porta do Hotel dobram o rosto para não ver a sua pequena figura abjeta mijando. Ela tira lentamente de dentro do casaco de lã vermelha a pistola, e protegida pelas costas por onde ninguém vê, faz pontaria. Naquele exato momento do tiro, o Cangaceiro saboreia uma requintada taça de champanhe francês. A bala vara o cristal da vidraça. Antes que alguém tenha tempo de perceber o barulho dos estilhaços se derramando no chão de mármore, a bala estraçalha a taça. Debaixo do caixilho da janela, se derruba o champanhe no colo do soberano. Nenhuma gota será perdida, sua roupa beberá por ele. A bala irá dormir na madeira do balcão do bar no fundo do salão. A Primeira-Dama degusta, sempre de costas, a torta sacrapantina embebida em rum. e não percebe nada. Imaginou que o tirano por excesso de tesão pela cantora tivesse quebrado a taça onde bebia por artes de visões premeditadas, com dedos másculos demais.

     Uma gota da bebedeira resvalou no paetê nacarado do seu peitilho. O garçom albino, estrábico, com uma grande cicatriz da orelha esquerda ao lábio direito, correu em direção à mulher, para babar a barra do seu decote. O agudo da cantora e o silenciador da pistola abafaram o coração do estampido. O tarol da bateria fez confundir a bala com o contratempo forte de um compasso. O estrepitoso mambo envolveu ágil, e imediatamente recobriu tudo. Um corpulento anão de casaco de pelo de girafa novo em folha esgueirou-se rastejando por debaixo da mesa. Com um espanador de penas com cabo de rabo de crocodilo e uma minúscula pá de cerâmica dourada catou sussurrando entre os dentes os únicos cacos da noite rompida, que amargavam sobre tapete rombudo do salão. O mâitre d'hotel incendiava a fanfarra. Os braços erguidos exalavam um suor nauseabundo e ordens claras. Todos tocavam mais forte com entusiasmo suas flautas. Ouviu-se um ataque especial em honra do Último Cangaceiro Vivo. Entre os limites e as possibilidades, o mâitre sussurrou: "Las langostas están buenas, señor?" "Sim, ótimas. Mas peça mibuenosairesquerido outra vez, Arnaldo. Por favor." O mâitre sorriu. Podia matar e matava pelo latifundiário usurpador. Era um dos homens de confiança do Homem, talvez o mais próximo. Fazia parte do Serviço Secreto das Salinas, a temida SSS. E acompanhava o potentado aonde quer que ele fosse. Havia rumores, sim, sempre rumores. O mâitre era encarregado de fato de foder a velha jabureia. E o Cangaceiro, era um bufão de gravatinha borboleta que ficava olhando a cena e brincando de boneca. Mas tudo isso sempre de acordo com as história que Vovó contava para Mamãe. E que Mamãe me recontava sempre com os olhos arregalados. Nunca ninguém conseguia duvidar de Mamãe quando ela arregalava os olhos. Se você quiser, que duvide. Eu não.
     O casamento é a forma mais perigosa de um humano existir. Em seu nariz fino de flocos e fotos e flores posadas, crescem ciprestes com brotos jovens e agudos, precocemente envelhecidos, e adornados com mofos azuis. Espelhos secos de imagens passadas, se equilibram como teias de aranha nas suas minúsculas rugas. Dos casamentos e seus fardos crescem alegres sedutores e felizes meretrizes a soldo fixo, assassinos e assalariados, fetos malformados, e mártires e martirizados. Crianças que caem dos telhados, leporinos, xifópagos, adúlteros e mal castrados. Curetados e abilolados. Mortes súbitas, encomendadas, e a facadas. Idosas abandonadas, crianças sequestradas, cabras, cachaças, e amputados. Indivíduos indesejados e endividados. Suicidas e vilipendiados.

     Na volta do banho, Elvira farejou para ver o que vinha na maresia enjoativa de Agosto. Ofereceu-se como uma vítima sacrificial ao vento quase morno da praia. Tornou-se mais uma vez nova e pura, e a menina que sempre fora: foi e sentou-se às margens secas do mangue. Com a chegada do Outono, esses dias, essas marés, trouxeram novos pressentimentos, como gansos que traziam consigo as memórias da estação passada. Uma velocidade de voos em queda, de silêncios, de inesperadas aberturas das flores: as auroras se movimentavam como crianças. Outros deslocamentos não se viam ainda, mas se adivinhavam: Elvira acreditava que vinham caminhando escondidos pelo mato. E abruptos despejavam silvestres ninfeias amarelas supersensíveis derramadas pela superfície do lago negro. Um espelho de dois lados, um brocado fino e exigente entremeados de relevos construídos com sombras, e profundidades claras. Crescia a água no seu reflexo de luz. A menina se metia ali com os seus pés leves aprofundados no limo fino do meio do emaranhado de tecidos verdes e mortos. Seus pensamentos atravessavam o capim baixo, orgulhosa da própria coragem. Sentou-se no velho banco de madeira esculpido pelos vivos passados: um pequeno reino só dela. Viu os tufos de ato alto que a rodeavam inclinados para todos os lados como os cabelos espetados de um louco ao vento: a plena fúria dos eleitos entregues aos êxtases. Diante daquele coágulo de cores, a natureza a recobria, ente entre entes celebrado num punhado de flores. Miúda entre elas, ela se tornou perplexa de tão repleta. A corrente viva de todas as coisas vibrava em torno dela. Tremeu com os olhos, sonhos acordados: ela era a própria madeira onde se sentava. Os dedos pequenos de unhas negras se metiam entre as ferpas de orvalho. O musgo miúdo ondulava e a tornava mais curiosa de tudo. O verde claro circulava as enormes poças lotadas de marrom profundo. Terras queimadas, sienas claros, vermelhos, ocres, cinzas leves vindo dos azuis. O que a imaginação lhe faltava, tirava da memória como uma aranha mágica. Fiava as imagens das grandes bacias rotas enferrujando no quintal. Corria veloz com a paisagem entre os dedos de bordadeira. Ágeis, os olhos destacavam borboletas fininhas famintas lambendo o sal na margem esquerda da poça rasa. O chão ia subindo tomando o tom de argila clara aos poucos naquela poça à direita. Secando os cabelos molhados abertos pela exposição preguiçosa ao sol enfrentava a paisagem excessiva como um pintor ao busto da sua amada exuberante. O que ela representava, o que dizia, o que esperava, eram já as imagens que surgiam entre seus dedos. Os olhos atrás das costas lhe diziam como as coisas deviam ser de verdade, sem as nossos vistas sofrendo com elas: a árvore enorme, o flanco aberto, as folhas espalmadas, as sombras frondosas. O seu poder de criar realidades atravessava as pedras e ia vislumbrar as águas escondidas no fundo do açude. Ostras se abrem cheias de vermes. Barcos inundados, moribundos de tanto ócio no lodo esquecido. Abutres brancos, esqueléticos, revirando as algas na sarça da areia negra da restinga. Outras crianças condenadas assistiam, em busca também de vísceras espalhadas pelo chão. Os olhos excessivamente grandes, meigos, doces, a barriga inchada, a boca semiaberta, contemplavam o porco esquartejado. Ela também soube daquela morte, e inventava novos pesadelos para muitas noites, diante do que via. As duas mãos de mamãe cobertas de coágulos frescos. Com uma ela segurava as tripas para as linguiças, com a outra o velho cutelo de foice quebrada. Seu gesto abissal e eterno dos braços duros montados numa espécie de quadrado autoritário se apoiavam sobre os quartos. Logo abaixo da linha da cintura, prosseguia com o corpo reto, enraizado naquela aparência de açucareiro de metal. Cópia fiel do outro utensílio sempre pousado sobre a mesa da cozinha para o café das visitas. O guardanapo em motivos de xadrez avermelhado e bordado, pespontado em lírios brancos, se enfiava como a sua blusa entre a tampa e o bojo de rajadas de ágata azul. Era preciso proteger firmemente o aparato da formigas voadoras, o doce roubado esvoaçaria com elas. Como a alma de mamãe: sempre protegida por um cutelo de foice velha. Verdade! Entre as ninfeias de cores várias, possuídas por meus fortes alentos, longe dessa coisa ameaçadora que são os outros, eu me lembro de tudo. Me lembro sim, estórias sobre os antigos barulhos que ouvi de mamãe. Antes de dormir ela me beijava e me entremeava os sonhos, contando lendas estranhas, e canções de ninar sobre fracassadas revoluções cantadas por vovó.
     Entre o caos do meu quarto nas noites chuvosas, ouvindo o silêncio que vem do escuro, ainda pressinto a mamãe no quintal. Cambaleia sem ruído entre os ramos da arruda brava. Se metamorfoseia no que foi esquecido. Seus seus grandes chifres expostos. Os pés deformados descalços pisam as goiabas brancas. Ela conserta o gorro de lã e me observa com aquele corpo cheio de ameaças. O mar detrás dela reverbera o inesquecível. Os velhos mariscos de bronze recendendo sobre o lençol do areal. Depois, ela vai se tornando cada vez mais madura. Nesses dias, muda os penteados e as unhas de acordo com a idade que apresenta. Os farrapos de cabelos fracos e lisos completamente curtos vão se tingindo com aquele vermelho de fungos. Mesmo assim, sempre bela: o ar de pássaro de fogo sobre pessegueiros chineses em flor. A pele com matizes de musgo nos ombros marcados pelo trabalho como os das mulheres que exibem os seios sentadas na soleira dos bordéis à beira-mar. Despida, despudorada, dentro do vestido aberto, deitada num leito de urzes mamãe, se vicia fácil nisso e naquilo. Os pensamentos dentro das mornas carnes lhe rondam as noites silvestres. Debaixo das roupas, sentada no degrau da escada, é comovida pela hera que balança e invade e abraça e rasga os muros e as pedras do pátio. Com cheiros corporais premeditados, medita horas a fio seus momentos de requinte. Deixa as louças na gordura e o trabalho na cozinha por fazer. Deitada aos pés da cama, os olhos cor de âmbar, o corpo envolto numa pele de carneiro negro, às altas horas da noite se abre com uma faca. Nua em pelo, se arrasta em ondas permanentemente mansas pelas pedras do chão. Num murmúrio, a expressão animal reforça o excelente par de coxas. As mãos, decoradas entre o jade e o rosa, as pérolas barrocas espalhadas no rosto, passam entre seus lábios o colar de contas que ela saboreia com volúpia. A boca úmida entreaberta, ela arranca os grandes brilhantes azulados do porta joias e os experimenta com a língua bífida. Ao acaso, tudo passa por seus olhos. Em seus dedos tudo se torna mágica antes de voltar a assumir de novo sua função bestial e ordinária. Antes disso, ela gira a pequena violeta de ouro branco entre seus dedos. As unhas cheiram a anis novo, como ela diz. E assim rencontra o que procura. Seu corpo agarra o velho alfinete de marfim entre os dentes primitivos. Enquanto ajeita os cabelos para mais uma vez prendê-los, delicia-se consigo mesma, antes de fechar os olhos. Nas rugas de vidro de seu rosto cansado, passa um anjo num sonho mofado. Dois anjos. Três anjos.
2015/2026