«O Anão e a Doida»
II - NO HOSPÍCIO
11 - ORFEU
[33] Orfeu, o noivo, bravo soldado da força pública, era louro como um touro metálico. Laurita subiria o altar num antiquado vestido rosado, usado e alugado nos subúrbios da capital. O traje pediu retoques para ser arrumado a gosto. O que foi feito rápido, para a menina brilhar na cerimônia. O Coronel — que ainda andava com as pernas, naquela época —, sempre cansado, a acompanhava num surrado terno de missa, e bafo de pinga novo. A noiva se chocou com o marido no alto do altar. O besouro macho vinha engalanado no seu triunfo: jaquetão abóbora, encrustado de dragonas e franjas e dourados, para morrer com honra. Tudo amarrado pelos inesquecíveis botões que explodiam de brios e brilhos, acrescentando denodo ao jovem militar. Estaria a algazarra bem acabada, não fosse a tempestade que desmilinguiu os ramilhetes das daminhas e as indumentárias dos convivas. Meia dúzia de gado humano, familiares e amigos de infância, todos molhados e bem comportados, apinhados como ratos, compareceram à cerimônia. A tímida turba acumulada, não fora suficiente para alagar a metade da a Capela dos Leigos: a saudosa Dona Laurentina, esposa do Coronel, era carmelita de berço.
[34] Depois de passar o dia no cabelereiro, a noiva viu-se dominada pelo vestido alugado. Apresentava um defeitinho grande na cava da manga esquerda, o suficiente para que o seio da nubente impedisse o movimento do braço. Poderia errar ao lançar para a prima as camélias brancas, por uma rata da alta costura de aluguel! Tiveram que adaptar mil vezes o repuxado e remendado. Em vão! O defeito era mesmo da anatomia da noiva. Para culminar, Laurita pela manhã sentiu cólicas. Fortes e fora da folhinha da cozinha! Casava-se, tomada pela emoção, durante uma dura intoxicação de Baralgin M. Orfeu, não via a hora de se meter no velho Aero-Willys para sumir dali com a noiva e se jogar na cama do Hotel Pousada Estrada do Céu. Muquifo uma estrela que a família tinha reservado na estância hidromineral, sem gás. Mas a espelunca, verdade seja dita, vinha equipada com um lago verde de limo fosco. Patos encardidos pela pátina grossa, nadavam em círculos diante dos hóspedes ocasionais. Não faltava o balanço velho de madeira rangente, que apodrecia a olhos vistos.
[35] Fardado, Orfeu gastara a véspera do casamento ajuntado com os companheiros numa boate. O noivo fora servido na boca por garçonetes profissionais. A noiva, tomada pela insônia, acordava com os olhos estatelados no dia: perdera a hora da contraprova do vestido. Orfeu, no altar, conforme combinado, receberia a noiva da mão do Coronel. Laurita e Orfeu, depois dos cumprimentos, mergulharam no Aero-Willys, e fazendo muitas curvas em silêncio, foram desembocar numa cama poeirenta e no desinfetante que empestava o banheiro. Sem que lhes passasse coisa melhor, foram morar no subúrbio. Um apartamento conjugado entre dois prédios altos. Dia vai dia vem, Orfeu deu de voltar para casa mais tarde. Tresandava à pinga e à perfumes gritantes. Tempos difíceis, conseguiu um bico para melhorar a renda. Voltava na segunda, a roupa imprestável manchada de barro. Nada lhe sobrara do encanto, encanto que nunca houve. Laurita se movia sozinha. Se lhe perguntassem as horas, ela gemia: “Eu te amo Orfeu.” Uma ocasião, quando Orfeu voltou, ao desmontar o equipamento, Laurita encontrou um bilhete: “Teu marido é uma delícia! Dá ele pra mim?” Orfeu, saindo do banho, foi objetivo com a mulher: “Cuidado com isso porra! É a prova de um crime.”
[36] Laurita contou para a mãe, e repetiu a inscrição lapidar. Dona Laurentina a aconselhou a cuidar da casa. Sugeriu que a filha retomasse os trabalhos manuais. Habilidosa, Laurita passou a costurar para fora. Com bom gosto, em pouco tempo o serviço lhe rendia o suficientes para pagar o aluguel, estocar víveres para a despesa da casa, e comprar bugigangas coloridas. Onde mais fosse possível mantê-las em pé, passou a colecioná-las: bibelôs chineses, panos árabes, xales da argentina e todos os tipos de pratos, talheres, e copos, e taças de plástico que encontrava. Orfeu desaparecia cada vez mais. Esgotados os derradeiros espaços para acomodar as bugigangas, Laurita comprou um gato. Um animal enorme, e de pelo mais abundante ainda. Logo nos primeiros dias passou a considerar o gato como filho. Reservou para o bichano uma cama com cortinado. E o bichano ganhou um nome: Gladson, carinhosamente Gladinho. O soldado pouco tinha tempo para nada. E o bichano o desprezava. Coisa rara, uma manhã o militar chegou de bom humor: trazia umas tainhas frescas. Deixando as nadadoras em cima da pia, foi tomar seu banho. O bichano felino foi mais rápido. E foi flagrado. Enrolado numa toalha, o militar não precisou se despir. Gladinho foi atingido por um pontapé acostumado ao coturno. Antes de atingir a calçada, o animal já estava morto. Laurita teve, finalmente, a primeira crise nervosa.
12 - OS CHOQUES
[37] Laurita precisou ser internada imediatamente. O militar ia visitá-la quando a escala permitia. Levava biscoitos da padaria da esquina. E revistas das estrelas da tevê. Entre um e outro choque elétrico, e muitos soníferos fortíssimos, esperava que tudo voltasse às mil maravilhas. A filha exagerava em sua sensibilidade ofendida! Era só uma merda de um gato! Os pais de Laurita em júbilo também confirmavam a certeza de que Orfeu era um ótimo marido. A exigência de amor incondicional só poderia levar a essa ruína, que Laurita cavara com as próprias mãos. Quando a mulher deixou o hospício, os pais passaram a vigiá-la de perto. Para prevenir algum funesto mal, a mãe passou a morar com a filha. Passados dois meses de calmaria e remédios fortes, por conta de um programa de tevê que denunciava maus tratos a animais, Laurita teve outra crise. A mais forte de todas as crises: precisou ser internada novamente.
[38] Viva, ela atravessou seu calvário e saiu do hospital de mãos dadas com a mãe, numa manhã de Finados. Pouco depois desse retorno à rotina, Laurita, foi sobressaltada pela campainha da porta. No corredor mal iluminado, dois militares fardados carregavam, cada um, um envelope. Atingido no peito em dois lugares por fogo amigo durante tiroteio com bandidos Orfeu veio a óbito. A viúva não esboçou reação. Tomou com as mãos firmes os envelopes, e ofereceu café aos homens. E, disse com voz firme, que eles poderiam sentar-se e desfolhar algumas revistas. Ela não iria incomodá-los. Tomaria um banho enquanto isso, porque precisava sair para ir às compras.
13 - SEGUNDAS NÚPCIAS
[39] Viúva nova, Laurita passou a fazer parte das preocupações da mãe. Vasculhando a memória lembrou-se de um compadre que tinha umas vaquinhas de leite em Cataguases. Nem pobre nem rico, era um tipo honesto. Cartas trocadas, o velho falava alto. Canivete no lugar da cartucheira, chapelão branco, embebido em lavanda, o matuto tinha um ranchinho simples — mas um rancho honesto! Passava os dias batendo o pasto, cortando o trato, rapando curral. E tirava um leitinho pra despesa. Um pequeno aleijão de nascença repuxava a perna esquerda. Lorita não pensou duas vezes. Casados num certo cartório, comeram galinha com quiabo e juntaram os panos numa missa simples. Três meses depois, Laurita engravidou das gêmeos. Apesar de todos os cuidados. só Elvira sobreviveu.
[40] Braços à mostra, saias arrepanhadas, Laurita varou a porta da cozinha. Jogou a galinha no chão e pisou com força as suas asas desgrenhadas. Notou as unhas crescidas do seu pé esquerdo. Iam comidas pelos fungos das valas. Alcançou a lança presa acima do fogão, e deu três pancadinhas no pescoço da franga. Arrancou um pequeno tufo da penugem, e assoprou. Num movimento brusco, antecipou o final. O jorro viçoso se espalhou pelo coité ao lado dos pés. Seus grandes olhos encararam a cara feia da ave, que agonizava. Ajeitou a panela avermelhada pelo fogo. Usando um pano grosso, equilibrou a pesada cacimba de ferro. O vasilhame acumulava bastante água, e borbulhava. Com um sacolejo brusco mergulhou o corpo ainda quente na água fervendo. Os resíduos da roupagem do animal cor de terra se desmanchavam dentro da panela. Arrancou com raiva a pelagem fumegante da franga. Depois a soltava na lata ao lado do fogão. Laurita ia enchendo com aquela massa o velho depósito. Depois que as penas desapareceram, tirou a panela do fogo. Pegou o animal pelo pés e pelo pescoço e chamuscou ali mesmo o que sobrava agarrado no couro arrepiado. Deitando a franga gorda sobre a tábua escura, a mulher com golpes rápidos decepou-lhe as garras arremessando-as pela janela. Ouviu o crocitar das mandíbulas do cão paqueiro.
No fogão primitivo as labaredas ainda dominavam o ambiente estúpido do cômodo. A caliça fina descia do teto e polvilhava os lábios brancos da criança. Guardada num caixote debaixo da mesa, Laurita debruçou-se sobre a filha. Rabiscou com o olhar triste o envolto do rancho. Tentava empurrar esse silêncio para longe. Retornou os olhos para o rosto de menina morta. As partes visíveis do rosto, exibiam as bochechas vermelhas. Ela ainda estava viva. Envolta num xale espesso de papel crepom cor de mostarda, Laurita notou o rosto de Elvira, e seus lábios, que respiravam sem lamentos.
[41] O macho ainda dormitava de barriga para cima. Surgiam seus pesados pelos prateados pelos furos falhados na camiseta parda. Adivinhava-se o exagero da sua carne engordada pela preguiça. Fracos fios de barba deixavam escorrer o ranho de baba rala. Na fronha de chitão pobre delineava um rio sem curvas. A roupa de trabalho fedia a curral, que ele não tirava nunca. Dormia sem banho, sarnento, atravessado de morrinha como um marinheiro bêbado. Ainda balançando entre um dia e outro, grunhiu algumas coisas. Virou, e puxou o travesseiro para o meio das coxas. Esticava em solavancos a perna, chutando o cachorro que lhe abocanhava o sonho. Laurita desviou os olhos daquela cena nojenta de um homem dormindo. Esticando o braço alcançou o bule de café. O metal esmaltado fumegava na trempe. Depois de desprender a caneca do gancho, encheu-a da bebida quente. Estendeu o braço surrado em direção à cama. Sem olhar para o corpo que se contorcia disse: – Hum! ― Ainda lutando com o travesseiro o homem tateou. Adivinhava onde Laurita estendia a caneca. ― Levanta-te! Vai sujar a merda da cama! Depois eu que tenho que limpar. ― Com uma mão, o velho arrancou o travesseiro das pernas, e o colocou debaixo da nuca. Arrastado, apoiou a cabeça contra o espaldar da cama. Com a outra mão, equilibrou a caneca diante da boca. Soprou lentamente, enchendo o quarto de uma fumaça doce e pagã. Fincou os pés no meio do colchão, e lutou com a cama, tentando encaixar a cabeçorra para cima do espaldar. Aproximou a caneca da boca e antes de levá-la aos lábios abriu finalmente os olhos: duas grandes olheiras negras de cachorro velho. Grunhiu novamente: ― Deixa esfriar... ― Não posso me mexer agora! ― Laurita disse. Fechando novamente os olhos o homem exibiu as bochechas flácidas manchadas pela barba sem fazer. Esticou mais ainda a atenção para fora da janela, e contraiu o cenho:
― Meda de garoa! Nunca que para!
― Pra quem fica na cama até às sete, tanto faz que se chova ou que se pegue a fazer sol! ― Laurita disse com desprezo, sem se importar se seria ouvida ou não.
― Vou tomar meu banho ― disse o homem. Sorveu o café em pequenos e despreocupados goles, e levantou-se. ― Só tenho serviço prá segunda. Esse fim de semana fico em casa pro mode d’ajudá vosmicezinha. ― mentiu.
Erguido, jogou a caneca dentro da pia, e tentava encontrar o diabo do chinelo velho. Reclamando da neblina, do pasto negro, e do gancho cego, sumiu no banheiro. Laurita ouviu o ruído cricrilante da urina no fundo da fossa. A água gelada caindo da mangueira presa nos caibros do teto anteciparam os gritos. ― Diabo de Julho, que só entra a esfriá! – falou mais alto para impressionar Laurita. ― Pegando o pasto do João da Dinei pra roçá, mando botar uma serpentina nessa merda. Tô injuado de tomar banho gelado feito capivara. ― Laurita riu em silêncio, e enfiou a faca com ódio na virilha da galinha. Enquanto trinchava, cantava, elevando o refrão:
Óia só seu moço
O que se deu pra lá
Nas Minas das Gerais.
Entre as roças
De feijão guanduuu
Depois de beijar uns tais
Aquela moça da quirina russa
Quem diria!
Tá mojaaanduuu...
Tá mojaaanduuu...
Tá mojaaanduuu...
Mojandú
[42] Na falta de capim novo, as rês escorria para as beiras dos bréus. Buscavam as praia de pouca água dos barranquinho. O homem reclamara com Laurita: ― Julho era o pior tempo da estação para qualquer gado. Tiãozito partiu nessa situação. Ia veiáco, pois se prevenia dos atolamentos. Já, já, encontrou o que procurava: a rês adiantada. Chegadinha a produzir, estava mergulhada na berberia. A saia do juncal pesado bordava seu corpo, em toda a barriga. Envolvida até o bucho por aquela cipoada brava, era impedida de seus movimentos. Abafava uns mugidinhos frouxos, roucos, canção de socorro e misericórdia. Depois de tantos esforços para livrá-la do pântano, o homem voltou ao curral para buscar ajuda. Com uma corda e a mula de carga, na volta passou os modo que trouxe bem por debaixo dos sovacos da vaca. Amarrou a outra ponta na cangalha da mula, que esperava parada no seco. Em hora de serviço, olhava tudo com calma. Depois de várias tentativas Tiãozito, resolveu amarrar também os chifres da diaba. Para além de tudo, num derradeiro esforço – o sangue congela com o frio! – meteu-se ele também na espécie de arreio. O animal de tração, o homem, a corda e a mula eram agora uma roda a fiar. Começavam a puxar. Então, a novilha aproveitou, fez firmeza no pé de apoio, e deu um salto sobressaltado sobre o Zé Tiãozito — inteiro. De um chofre o desequilíbrio forte jogava ele no charco. Por todo o lodo do bréu, com a barriga pra baixo, com a cara pra baixo, com a vida pra baixo, Tiãozito caçou a morte com as próprias mãos. Tá lá as marca até hoje, prá quem teimar, é só ir lá olhar! A vaca caiu por cima da perna ruim dele. Ressuscitada pisou fundo, tudo. Homem finado, mula, vaca, agora era tudo uma comédia só. Na ânsia da morte, Sinhá, puxou mais forte os laços da canga no pescoço do Zé! Se findava o noivo. Sem espécie alguma de volta entre as cordas boas que o prendiam, num mergulho no borco do lodo do bréu. Afundava afundando, e a respiração total sem vida. A mulinha, cinzazinha, fumaça, com aquela fita bonita descendo dos ombros, liberta por si mesma da canga, voltava cabisbaixa, sem receber o milho de todo dia. Laurita correu dando alarme de morte. Zé já tava gelado, há muito tempo respirando lama. Boi velho, atolado no bréu.