«O Anão e a Doida»
III - NO MAR
14 - O SAVEIRO
[43] Meu barco vai pela maravilha do mar. No dorso da quilha, a nave desliza como um atum pelo espelho duro de sol. Quando desci para o primeiro porão da embarcação, sustentada pelo braço voluptuoso de Urko, tive a oportunidade de contemplar os palácios de Bizâncio: beatífica orgia alí, onde ali todo mundo estava em todos os lugares de todo mundo ao mesmo tempo. Uvas, vinhos, crepes, perfumes derrapavam sobre os corpos dos seres de um dia. Efêmeras estátuas de templos em ruínas. Ninfas, ninfetas e ninfeias. Matronas, centauros, poetas e arautos. Sacanas, uns contra os outros todos, a favor de todos. À capela, uma negra nua, cheia de ramos de videira nos cabelos dourados, celebrava com ditirambos a barbárie no convés inferior. Percebendo que fui tomada por comoção mística Urko me faz descer para a próxima jornada. No segundo porão mais fundo, e daí por uma escadinha para a despensa onde se amontoavam latas de arenque, garrafas de uísque e ânforas romanas de onde brotava a cannabis índica. Eu vislumbrava todo o traiçoeiro Mediterrâneo naquele cômodo escuro.
[44] O convés da embarcação de madeira clara era sustentado debaixo daquelas sutilezas por um potente leque de cavernas simétricas. Pela força das grandes velas abertas deslizava na água. Os dois mastros vibravam contra a pressão do vento. As duas velas triangulares surgem como pássaros oscilantes pousados prontos para mergulhar no abismo. Passeios marítimos de saveiro escuna e iate, um barco à vela sempre ancorado na praia mais próxima de você. No convés superior serão servidos canapés e drinks. No porão profundo a animada equipe de festas no batidão constante. Paradas nas ilhas da costa para mergulho livre.
[45] O saveiro se desloca sobre o velocino do mar. Corta a baía com delicadeza gigante, e as velas no gozo da espuma branca sorriem contra seu sopro sólido. O vento vazio nas cordas do velame dão ao brigue a firmeza daquelas embarcações sonoras. Depois, os passageiros vazarão os rochedos confeitados de gaivotas e o albatrozes gritarão do mar contra a calma enseada. Naquele dia impossível intensos azuis possuem a pequena multidão. Todos se refazem no convés de assoalhos iluminados. As vigas penetram profundo no casco, na base dos mastros. Adornos de mulheres nuas as suportam, com imagens de seios e belos sexos florescentes. São sensações do barco, frutificações dessa alma do mar, em desejos que sempre retornam e tudo esperam, como ondas. Entalhes rebuscados de esporões viris, acrescem à decoração vazada das colunas a contraparte masculina da amurada que não poderia faltar. Toda a intenção da nave é o primordial perigoso prazer. Em seu nome, ergue-se o centro de tudo a roda do timão: o elemento patriarcal presente no comando das ondas.
Apenas Jaqueline me acompanha, porque mamãe confia nela. Se mamãe soubesse o quanto Jaqueline pode ser tão perigosa! Ela é magra, ossuda e carnuda ideal para uma mulher de más intenções, como ela. Olhos fixos e de viés, sempre orientais ― o esquerdo um pouco estrábico ― te fazem o convite. O babaca imagina palavras que ela nunca vai dizer, com açúcar demais. Então ela dá vontade de ser agarrada pelos braços e esbofeteada, para que nunca mais fixe os olhos em ninguém. Aí, ela fala com aquela sua vozinha de boneca mole imitando gente ― faz sempre isso com os homens. E sempre dá certo! Começa se confessando idiota, com uma conversinha mole, os ombros submissos, arrepanhando o cabelo grosso para cima da testa branca, como uma menininha de colégio do interior. Ai, amor! Se você quiser, então, eu também, quero. Mas só se você quiser muito, tá? Mas eu tenho medo. Eu já vi isso acontecer muitas vezes. Já ouvi isso de Jaqueline um milhão de vezes. Na hora mesmo que a coisa acontece, ela mostra quem é. Ela transforma. O babaca é que fica com medo! Porque ela pula em cima do cara como uma onça! Aquilo rosnando que sai da boca dela desperta ânsias de medo em mim. Tenho inveja do grande poder de sedução de Jaqueline, sem falar nada, calada, de olhos fechados.
[46] Nos banhamos juntas. A mamãe nunca soube. Ela me explica as piores manobras e os melhores lugares. Eu treino com ela, para a hora que tiver que fazer. Ela me diz que é quase igual, mas completamente diferente! Eu que descubra sozinha, porque ela não vai estar lá para me ensinar! Ela me deixa tocá-la. Um sabugo úmido e carnoso, totalmente diferente dos homens ela jura. Está me treinando para beijar ela ali, como os homens vão querer beijar em mim, ela jura. Tem gosto de pia vazia, mas eu gostei. Nunca deixei ela me beijar, o nervosismo e o medo são muito grandes. Quando eu quiser, ela beija, me disse, uma coisa de cada vez. Eu já sou boazinha demais, e espero ela ir até o fim. Às vezes quando ela demora eu quase perco a respiração e fico com o pescoço duro. Mas quando ela consegue é um alívio. E descansamos juntas abraçadas como nuvens, na água morna da banheira. Eu ganho sorvetes. A putinha depravada me paga por isso, eu confesso. O que fazemos juntas mamãe nunca vai saber jamais. Nem morta.
[47] Na coberta da proa, sons de rolhas macias espocadas! Aquelas cortinas imaculadas do barco se refletem nos copos cristalinos. Champanhe! Açoitadas pela passagem do saveiro, as aves dos borralhos de pedra se erguem num movimento que circula o céu. O estreito se espreme contra o mar alto e as centenas de gaivotas revezam como ilhas flutuantes acima do saveiro. Jaqueline me serve um espumante. Seu dedinho mindinho arrebitado enfeita a borda da bebida. Dá ao vinho um sabor de mistério. As bebidas e as tulipas nos baldes de gelo ornam as iguarias. Camarões grandes, canapés miúdos, cachalotes em postas quadradas, vindo do mar do Japão. Todos são mais velhos do que eu. "Quem trouxe a filha maluca da Bruaca da Salina?" ― alguém pergunta. Jaqueline se justifica, com uma atitude caridosa ― dizendo que eu precisava me divertir e estava deprimida. O assunto morre aí. Mas eu ainda ouço uma das meninas mais velhas cochichar alguma coisa sobre a minha roupa de banho. Fico com vergonha de estar entre elas.
[48] Minha roupa de banho é antiquada e fora da moda. Um short usado e uma camiseta de malha por cima do sutiã de funil. Só tive coragem de tirar o vestido porque Jaqueline me garantiu que ninguém ia reparar. Principalmente nas minhas pernas que eu nunca raspei! ― "Junte-se a nós!" ― escuto alguém gritar. O espumante é doce que nem veneno, como nos sonhos. Gaivotas mal encaradas cortam o ar. Com a primeira taça eu já sou feliz e corajosa. Diferente, mas ótima! Nunca bebi tanto na minha vida. Nunca vi de perto um homem com roupa de banho. Nunca beijei na boca. Sou ótima! Só o que me chama a atenção um pouco é que tenho seios pequenos. Prefiro ficar balançando as pernas entre a amurada pra não ficar de frente pro crime. Posso ser acusada de ser clandestina e ser jogada aos tubarões.
[49] ― Junte-se a nós, gritam de novo! ― Vem! ― Jaqueline acena dando com a mão. Seu gesto quente me desinibe. Estou acostumada com aquela mão. Camponesa burra e sem graça, ouço alguém falar. Quem que trouxe ela? Reparo que a voz vem de um golfinho macho que olha para o meio das minhas pernas. Vai ficar aí parada? ― ele repete. Talvez salte contra mim. Eu vou. No centro da embarcação, como no trono de um imperador, o leme é comandado por um homem descomunal. Um grande besouro dourado de calças de sarja branca, tronco de argila cosida. O peito nu lembra um belo bronze refletindo o sol. Na linda cena sob o céu azul seu corpo escultural está enquadrado ali sob o mastro principal. O imediato recebe ordens adequando as velas, com os olhos argutos às mudanças do vento. Num relance displicente, para se certificar da curvatura do horizonte, o comandante navega a luneta para o meu lado. Percebo pela primeira vez as duas conchas brancas que guardam os olhos verde-água de Urko, o Turko-Arpoador. Assassino brutal, já deixou estendidos dez corpos no chão de uma taberna em Palma de Maiorca. Talvez pense em mim de noite e de dia, mesmo sem nunca ter me conhecido. Assim será o destino, entre mim e o famoso matador de orcas.
[50] Numa lufada do vento, Urko não precisou tirar os olhos do mar para vir em minha direção. Pousou sua mão engrossada pelas cordas na minha mão de bailarina de caixa de música, e escutamos o convés girar sua cançãozinha. Enquanto ele se move numa volta de carinho amigável, roçando pela minha pele, escuto o ranger da minhas tripas assustadas com a habilidade de um velho marinheiro. Então, o famoso abraço de boas-vindas à bordo. Me puxa contra seu peito vestido de pelos de ovelhas das ilhas gregas. Eu era a sua predileta! Eu era a sua noiva, desde aquele dia em diante. Eu era uma tonta, pro resto da minha vida. Mas jamais o esqueceria.
[51] O barco joga cada vez mais, à medida que nos afastamos da praia. Jaqueline me alertou que eu podia marear. Não quer uma cerveja? ― Urko me oferece. Sua mão forte me estende uma tulipa fervente de plástico cristal. A espuma de madrepérola branca explode nas ondas contra as madeiras do costado do barco. Não quero misturar o espumante com a cerveja, e dou uma risadinha amarela. Acrescento um miado para não ser ouvida por ninguém: não estou acostumada a beber, e eu sou de menor. Aqui nesse barco todos nos misturamos com todos. Somos velhos e crianças, ao mesmo tempo Urko filosofa numa pose de comandante, enquanto emborca um canecão de hidromel. A fumaça vertiginosa da cannabis, a sota-vento, ajuda a impulsionar o brigue. A boreste, um grupo animado passa o cigarrão de boca em boca. Jaqueline vem ondulando em minha direção, se destacando da tribo. “É uma especiaria, o Comandante planta no armário do porão. Trava, não destrava, senão não faz efeito.” Urko tem o corpo de ilhas, cercadas de músculos por todos os lados. Circula seu arquipélago, atravessando o braço em volta da minha cintura. “Não quer ouvir o batidão do funk no baile pesadão no fundo do conveszão?” Levantei de um salto, com o convite que eu esperava para fazer parte do mistério dos iniciados. Urko me elevou mais ainda no ar, com a delicadeza que só dedicava às madeiras do timão.
[52] Descemos musicalmente as escadas que levam aos Infernos. Enquanto coreografávamos os degraus, Urko deixou escapar um silvo longo e dois breves, num tom casual que só encontramos nos filósofos marítimos. “A tristeza abjeta que se apodera de mim, quando penso e vejo, todos aqueles seres amorfos e sem vida, vestindo roupas comuns, vivendo vidas comuns, morrendo mortes comuns, sem tréguas, nem trágicas nem dramáticas, apenas vidas em branco, passadas umas depois das outras.” E continuou sussurrando seus sofismas de existencialismos nos meus ouvidos, enquanto nos aprofundávamos no conhecimento profundo, para o mais fundo da nave.
[53] ― Posso começar? ― Urko me perguntou de supetão. ― Que?! Ah sim eu disse! Sim claro, Urko, meu bem... Eu sou uma daquelas suas orkas. Arpoe-me como você quiser. ― E depois de uma pequena pausa: ― Não quer convidar mais dois dos seus companheiros para lacrarmos o velho selo turco? Imediatamente respondendo a um assobio em linguagem criptografada, surgiram das ondas dois outros Urkos. Todos mamelucos, todos berberes, todos turkos. E assim, juntos os quatro, combatemos pela primeira vez no último cerco de Bizâncio. Desse modo, fui a heroína do Bósforo, na minha primeira vez de menina.
15 - A SAIA BALÃO
[54] "Eu já tinha lá pros meus quinze anos, entendeu? Foi nos meus quinze anos. A minha mãe não sabia. Eu fui escondida. É. E a Jaque? A Jaque era filha da costureira. Mais velha que eu. Tinha um amigo lá, que tinha um barco no Charque do Sul. Era tudo perto. Jaqueline ia lá sempre, tinha me dito tudo sobre sexo, me falou do barco. Eu falei pra mãe que a mãe dela tava com gota no pé. Que a Jaque tava cansada, não tava nem conseguindo dormir direito de tanto serviço na casa. Eu já tinha ido lá ajudar a Jaque três vezes. A mãe sempre acreditava em mim. Mas o tempo virou, e o barco não pode fazer a volta na Ilha. Mãe assustou com a demora. Eu demorei muito pra voltar pra casa. A mãe surpreendeu, aproveitou, foi na casa da Tia pegar a costura. Tava voltando da aula de artesanato, quando não me viu. E foi lá. A costureira, a mãe da Jaque, entregou tudo. Contou pra Mãe que a Jaque tinha ido fazer um passeio na Ilha das Cabras. Até o fundo do mar, lá longe. Mas que eu não ela não tinha visto. Nem desde ontem, nem há uma semana. A mão foi, calou. Foi em casa levá a saia balão e voltou. Ficou sentada na pedra do portinho com a dois canos do Vô — esperando passar o vento por ali. E o amigo do Urko da Guarda Costeira avisou pelo rádio que a mãe ia matar ele. Desembarquemo numa prainha do outro lado, e eu vim como quem vinha da casa do outra tia da Jaque. Mas a mãe não abriu a boa. Em silêncio estava, em silêncio ficou. A Mãe sabia. Mas como quem não sabia de nada, me levou pra casa quieta. A mãe sabia que a Jaque ganhava dinheiro no barco. Porque a Jaque arrumava um dinheirinho pra ajudar em casa e nunca deu problema. Sabia. A mãe sabia, já disse pra senhora. Mas não era bar nada, servia era com o corpo. Eu não! Não senhora. Nunca cobrei nada. Ó, a senhora se quiser, me acredite. Só porque o meu corpo me pedia muito. Só de fazer aquilo, eu já tava paga."
[55] Então! Não gostava da mãe calada. Ela ficava no rumo errado, perigosa. Andou pelo cais armada com a doze, desde o caminho de casa até a vargem. A Mãe tinha uma salininha, a senhora já deve ter ouvido falar. Estrela do Sal. Nem grande nem pequena, a senhora sabe, uma salininha. Coisa dos parentes velhos dela lá que tinha deixado pra ela. Caindo aos pedaços, a casa e cheia de dívida. Mas dava pra produzir um salzinho pra despesa. O Vô vivia na cadeira de rodas fazendo planos. O aleijado não fazia nada pra ninguém. Vivia enfiado no porão, enquanto nós que labutava no sal. Ele se dizia meu pai. Meu pai mesmo, o marido da minha mãe, morreu quando eu era pititinha. Mãe já tinha ficado viúva uma vez, antes. Coitada, nem casou de novo com o rapaz caolho que ela gostava.
[56] Vou continuar. É que eu fico triste com a mãe viúva duas vezes! Mas então. Estranhei as janelas fechadas quando nós chegamos. A Mãe não fechava as janelas, mais nunca. Entremo. Mãe me mandou tomar banho. “Depois vem jantá Elvira!” Eu fui. Fui, voltei do banho, e fui tirar a comida no fogão. Quando fiz o prato, levantei a cabeça pra espiar um vento estranho. Mãe tava lá no alto do caibro da cozinha. Nas telhas vã, minha mãe lá pendurada. Tava com os braços pra baixo espichada, toda dura. Balançava ainda, com a saia de oito gomos novinha que ele tinha pegado na costureira. O vento estufava as pregas de amarelo sim, amarelo não. Novinha em folha, sem sujar nem pôr. Mania dela, a mãe sempre fazia saia balão. Esse dia, nós ia no circo. Ela queria ir bonita nos meus quinze anos. Nós ia levar o Zukko caolho, o rapaz que cuida dos nossos porcos.
[57] Olhei aquilo devagar, e vi tudo por um par de segundos. Segundo por segundo, e não acabava mais de passar. Então, eu me sentei pra descansar um pouco. Na mesma cadeira que ela subiu, eu sentei. Prá nunca eu ia mais me levantar dali. Foi daí que eu me levantei sozinha entendeu? Ôxe, pra quê, Dona?! Ou a senhora queria que deixasse a Mãe lá pra sempre?