«O Anão e a Doida»

IV - EM TERRA




              16 - ILHA DO GOVERNADOR
[58] Ainda revejo o velhos vestidos vermelhos de Vovó. Alguns alaranjados, mas sempre com detalhes em vermelho. Éramos todos remediados. Mesmo assim viajávamos no mês de janeiro para o mesmo sobrado na Ilha do Governador. Chique, mas o que a velha viúva nos permitia era somente o depósito de gente dos fundos do quintal. Tomávamos banho e fazíamos as necessidades aos turnos num banheirinho fedendo a creolina do lado de fora do cômodo abafado. Um barracão com banheiro coletivo. A última vez, fora alguns meses antes da inauguração de Brasília.

[59] Vivíamos em torno de Vovó! A magrela ossuda, sorridente e sem dentes, era calva de pele, maçãs cor de malva e ressecada. Caindo de dores, escorregava pelas camisolas frouxas no cômodo apinhado de gente, com o reumatismo piorando. Indo e vindo na sucata da cadeira de balanço, com os pequenos no colo. Cabeceava naquele canto escuro do depósito, onde as moscas a evitavam: era perita em acabar com elas. Fingia que as comia, e as crianças adoravam. Queria viver! E ali perto da praia, com ela, vivíamos para sempre!

[60] No imponente sobrado da frente, na figura da senhoria, via-se uma matrona gordinha, de verruga no nariz. O que chamava a atenção eram suas pernas curtas, enfeixadas por cruéis ataduras cor de manteiga. Sobre as varizes, vazavam as nódoas de amarelo forte. O cheiro do suor, da amônia e da pomada, esquecia nos cômodos sua presença de múmia fresca. Tinha o rosto comido pela varíola. Os olhos sempre fechados, quando falava, diziam que não valíamos a pena ser vistos na luz jorrada do seu rosto. A cabeça semelhava um pequeno cântaro de bronze velho coberto por fiapos de fumo mascado. Sempre oleosos, os poucos fios iam-lhe soltos sobre os ombros mínimos. Em silêncio, toda manhã no porão escuro do sobrado, contava os dias para receber o pagamento dos pés-rapados do depósito dos fundos. Exigia a prata por semana, para que não fugíssemos na noite anterior ao vencimento do mês.

[61] Fazia-se acompanhar em sua solidão dos ramalhetes de cinerárias e das braçadas de orquídeas secas, do falecido professor. Em sua miséria de acumuladora e usurária, emprestava uns cobre a juros exorbitantes aos necessitados das redondezas. Vivia sempre, desde que o destino lhe amputara o marido, no cubículo inferior, abaixo do andar térreo dos cômodos da frente do sobrado. E suava diariamente, de maneira sempre abundante, construindo com isso um dos seus traços mais marcantes. Expandia-se o licor sagrado pelas axilas e pelo pescoço, e principalmente entre os seios onde dormia o lenço âmbar perpetuamente pespontado de rosas, em seu regaço. Como nas ataduras das batatas das pernas, a mancha maior ao redor das mamas destacava seu volume desproporcional. Toda sua figura era a da aparição inesperada de uma deusa pagã. Estatueta caqueirada, com a validade vencida, carnuda por todos os lados e recém arrancada de um pântano ancestral. O velho colecionador deixara para ela apenas a mísera aposentadoria de herborizador amador. E o imóvel sobrado que construíra durante toda a vida com o suor sobre a prensa botânica e as vendas dos vegetais embalsamados. A presença sensível da proprietária ficara agudamente marcada em todos nós. Seja pelas recomendações austeras que rugia toda vez que surgia, seja simplesmente por aquela figura surpreendente que se erguia do calabouço. Saía das sombras e alertava a repetência com voz metálica: “Que, de uma vez por todas, não se usassem nem se frequentassem os cômodos da frente!!!” Tinha principalmente horror a crianças e a animais. Normalmente seus sermões se dirigiam a Vovó. Mas seus olhos fúnebres, e suas imprecações angustiante me marcavam em cima. Insistentes, fixos, fulminavam o perigoso ser — que nunca iria crescer!

[62] Na sala ampla, as janelas duplas de madeira e cristal continuavam para dentro do cômodo o silêncio da ruazinha tranquila. Abraçando as calçadas salpicadas dos frutos vermelhos, riscavam o cimento as sombras espalmadas e móveis das grandes folhas das amendoeiras. Os quartos assobradados, jogados em varanda sobre o passeio eram guarnecidos com garatujas de ferro batido, comidos pela traça dos óxidos. Seus motivos florais envolviam os barrigudos gradis. As camas, encapuzadas de mosquiteiros azulados, se guardavam com colchas de fazendas finas e autocráticas. Refletiam-se fios metálicos de aranhas invisíveis em platinas esvoaçantes. Pelos espaços vazados daquelas janelas vislumbrava-se a suave viela de traço irregular, descendo das mansões no alto. As grandes lajes rugosas dos passeios eram corridas raramente. Iam e vinham, algumas mucamas pelas manhãs, em busca de peixe fresco para seus senhores. E atrás de conseguir alguma coisa dada, para melhorar seus jantares de servas. Se alegravam, e sorriam uma para a outra, cúmplices, quando chegavam à beira da rampa e pululavam as miuçalhas exóticas, o lixo das redes no borco da canoa encostada na Ribeira. Podia-se vê-las voltando, ajeitando os lenços vermelhos nos crâneos escondidos junto com o cabelo rebelde. O samburá grande com as tainhas para a casa principal e uma cestinha de vime pessoal, com os camarões e os siris fora do padrão do mercado. A prainha que recebia as embarcações era de mergulho manso e areia pouca, de grânulos grossos e amarelos, para onde se podia pisar, além da rampa, em saltos pequenos, quase tombos, apenas pelos gigantescos degraus da pedra cor de chumbo ornados pelos móveis brocados verdes das baratas do mar em busca de comida. Ficava, o ramanso, ali a poucos passos do sobrado.

[63] Aos sábados pela manhã, a locatária conduzia pelas mãos para perto de nós uma mulher esguia de aspecto cinzento e sombras invisíveis. Mais doentio do que o dela e principalmente subserviente. Os lábios finos de mosca, encharcados de batom cor de pedra, debaixo de um nariz de pássaro torto, estava condenada a cantar a mesma cantiga. Anunciava que chegava com ordens da proprietária, para limpar tudo que precisasse ser limpo. Vinha fazer a faxina no território proibido. Mas antes daria uma geral na nossa pocilga! Não gostava que se acumulassem ali os restos de comida que a nossa turba deixava espalhada pelo chão. Mas não limpava nada: apenas fazia a revisão de rotina, bedelhuda da proprietária, e ia-se embora. Depois de homenagear-nos com a pequena profecia maléfica, entrava para o seu serviço. Se ousávamos lhe dirigir a palavra, mugia dois monossílabos hostis que significavam sim ou não. Dependendo de como o freguês quisesse comprá-los Sempre envolviam o codinome da patroa e um inevitável: “Às ordens!” Naquelas condições nos enfurnávamos com o rabo entre as pernas. Era melhor manter a raiva e a vida entre os dentes.

[64] Dela serviçal nunca ouvimos uma verdade ou uma mentira. Uma vontade tampouco. Um olhar mesmo que fosse de desprezo. Aprimorava-se na cera polida com a força mecânica dos enfrentadores de móveis com volutas intrincadas. Uma tal variedade de cristaleiras, louças, porcelanas, e talheres, chegaram lentamente pelas mãos do florista do orquidário empalhado, vindos das Índias Portuguesas. Agora que estavam alí, a serva polia os metais e o corrimão latonado da escada de mármore que subia da porta da rua. Regava vasos de flores e acariciava bibelôs em fantasia de ouro de duas cores. Espancava com fúria cega as tapeçarias incorrigíveis. Então a escravizada branca abria as janelas. Riscava com as unhas o pó e arrancava com nojo as marcas das artes das moscas. O cheiro forte de naftalina nauseava o almoço. Vovô tinha estômago sensível para jaca, e mormente para aquele demoníaco derivado do petróleo. Então saía para dar uma volta na beira da praia.

[65] Era sempre assim: quando entrava a ave sinistra, Vovô batia asas até que passasse o perigo! Mas nem tudo era submissão: todas as tardes contrariando a viúva aristocrata Vovô voltava da padaria com uma mortadela cortada fininha. Do cesto de vime surgia uma batelada de pães que titia esvaziava dos miolos e enfiava em seu lugar manteiga e o embutido perfumado. A matilha em silêncio invadia em fila, pela escada dos fundos, a sala proibida. Nos refestelávamos. Era a nossa vingança de arraias-miúdas. Por conta de um aluguel barato vivíamos escorraçados para uma cozinha suja a que tínhamos o direito – além do banheiro e do velho e amplo cômodo de guardados que nos cabia por aqueles alguns minguados trocados. Um piquenique no salão de arte. Coalhada de quadros raros, pintores famosos retrataram antepassados portugueses. Todos de barba e bigode, filhos, netos, cachorros. Gatos, cavalos de estimação, paisagens lá da terrinha. Abríamos um lençol encardido no chão e fazíamos um colonial banquete de pirraça sobre os tacos ilustres. Todos vestidos à praiana, refrigerante barato e sanduíches de presunto de pobre.

[66] Meu avô, de óculos sempre e seus livretos de cruzadista nas mãos, sem saber se a morte da mulher viria para a semana que vem ou para essa noite, girava intrigado pelo cômodo amplo e polido. Olhava em torno como um cientista. Com zelo agudo, analisava as antigas gravuras de plantas exóticas penduradas nas paredes do território proibido, onde não podíamos pisar. E nós o invadíamos furtivamente. A tia solteira afundava os dedos nas cortinas de brocados brancos, como espuma de barba, que dançavam nas tardes da beira-mar. Eu, o Nanico, apreciava inebriado o padrão regular dos tacos jogados pelo soalho. O tabuleiro de xadrez recobria o território preservado dos famigerados inquilinos. O mortadelão da Flor da Ilha quase nos denunciava com seu perfume nauseante. Admirávamos e criticávamos baixinho, como toda aquela corja corrupta e exploradora era feia e mal-encarada. Enriqueceram sobre o sangue dos nossos antepassados. A mesquinhez estapafúrdia agarrada no rosto de alguns, a volúpia, a frieza monetária avara e o semblante duro nos olhos dos outros. Agora isolados, no pó, não lucravam mais. Estavam reduzidos à sobrevivente viúva, ameaçada economicamente pela nossa classe social emergente ― os remediados que se escondiam nos tugúrios dos fundos e que lentamente colocavam a cabeça para fora da carapaça de tatus novos ricos.




              17 - NA GIRA
[67] Concepción ― meu avô cantava em seu ouvido ― dormia sozinha no quartinho dos fundos e tomava conta do Centro. Dois seios soltos debaixo das rendas brancas armavam sua figura. Revestida de saias e música e gestos, suas palavras soavam originais. Gingava à brasileira, revelava dois mamilos grossos sempre eriçados, olhava intensamente nos meus olhos. O fato é que eu ficava mais velho e Conceição se tornava cada vez mais encantadora. Quando me via, agitava as ancas grandes tisnadas de sol e estalava os dedos, chamando um cachorro de brincadeira, mas séria, porque que ela sabia que eu obedecia. É claro, eu queria ter ela por perto, para poder lhe apalpar com os olhos! Quando Conceição percebia, então arrepanhava a saia para cortar um fiapinho da renda. Fazia que ia, para voltar logo e se sentar — devagar — mais de vez. As coxas grandes gritando dos panos, eu ficava por ali feito um tonto. Dia chegaria e eu teria o meu osso. A pessoa verdadeira aquela que se escondia debaixo dos panos da Maria-Pomba, eu só conheceria depois. E quando me vi rapazinho, dei pela coisa, e apaixonei-me. Começou com uma conversaiadazinha boba, entremeada de jabuticabas e tapinhas. Os braços pra lá e pra cá, roçados, beliscões, que ela pedia já desculpas. Mas tinha essa mania desde criança! Assunto para perguntar e o que responder. Se eu ia melhorando da asma? Ou, cadê a tua bicicletinha, Japonês? Sempre que ela parava, parava na frente da casa, e entrava por um tamarindozinho furtivo. Aquele lá enorme, cê já viu? Ou o jamelãozinho que tinha caído do pomar. Por isso, ela também dava a volta! E ia fazer o seu refresco debaixo do zinco dos ícones do Centro. À tarde florescente, eu a via incorporada, caminhando sobre os assoalhos. Depois, na rua, dobrava a calçada, e esquecida, gostava de rir sozinha. Precisava, falava como um homem. Chamava Joaquim pelo nome. Desculpa, eu já nasci assim! E não é que aquilo ficava bem nela? Novinha ainda, depois da comida mastigava um palito entre os dentes, feito um portuga. Enfatizava outro assunto, cuspia no caráter ilibado da fofoqueira. Era pouco mais que uma criança. A ela se perdoaria tudo. Mas, deu-se no auge do meu amor — quando os rios correm vivos e plenos: vieram me contar. Concepción sem avisar ninguém, nem colocar placa na porta, tinha virado puta.

[68] Prostituta profissional, é, de casa de comércio de porta aberta pra rua — do corpo. Desafeto seu, Maria Januária, sabia que a outra, mais nova, inimiga, era minha predileta. E agora estava lá bem sendo deixada prá trás, pela pomba-gira. E tocou a sirene do alarma. Me alertou na cara, durante uma cervejinha preta que a gente derrubava antes da janta. Nunca falhava, pra arrastar a conversa e ver no que não dava o nosso xodó de verão, que não tinha começo nem fim, e já estava pronto para se acabar. “Soube ontem de manhã, por um pinta do sorvete da praia. E quando ouvi, não me espantou, Japonês! Quer saber? Era a cara dela! Na subida da Ladeira da Santa Tereza, pras bandas das Laranjeiras, ela vende o corpo. A Casa Rosa, já ouviu falar? Mas tem que ser nas sextas falhadas, quando não tem a gira das pombas aqui na praia. Te mostro o cabra, já pagou uma vez. Quer que te traga ele aqui?” Nem esperou uma semana para me dar a notícia. Na hora, foi uma tão espantosa memória dela, aquela! O fato foi que muito achei graça. Dois risinhos amarelos, e os nervosos descendo pela pernas. A mulata deu de soltar rizada. Depois de consumar o assassinato, ria. Mais uma das maluquices de criança de Conceição, eu disse, amuado. Sempre teve um jeitinho de piranha mesmo, ela retrucou. Sempre achei, eu arrisquei, quase calado.

[69] Gelado de rir, a menina doce, se enxovalhando, com o primeiro pinta, que chegasse com o ouro. O seu mel saboroso de mulher nova, não era pouco pudor não. Profissionalismo bruto de cartório do ofício, pecado de papel passado, grudado no corpo nu da mulher na cama gemendo, Januária acrescentou. Enquanto a cerveja quadrava na goela, já não tinham caminho não. De volta não. Não, não tem perdão, é verdade, acrescentei. Eu falava sem rir, de frio, quase chorando. Ela bebia a cerveja mais devagar do mundo, satisfeita. Além de perdida e condenada entre um e outro cálice amargo eu me lembrava dolorosamente de que a puta, a filha da puta da prostituta inesperada, era o amor da minha vida. A mulher que me trazia alegria aos meus sonhos. Piegas, a única mentira da qual eu vivia. Quem me tinha quebrado a pedra de sal do meu coração. E eu acreditava nisso!

[70] A tal da cerveja começou a queimar a minha língua, tanto que me enchi de um ódio que Maria Januária viu na hora. Ficou com medo de mim, aos olhos vistos de tão feios. Medo satisfatório, se lixando para a minha vingança! Muito menor que a tua de mulher covarde, que só se entrega quando tem alguma coisa pra receber por baixo do pano! E não tem nem a coragem nem de se vender honestamente, como a pura da Conceição! Mas diante daquilo tudo, o meu rosto tão medonho, não sabia do que eu era capaz. E também, se sabia que o serviço já estava feito. Se assustou e não imaginava no marimbondo frito que tinha mexido. Achou que Conceição fosse só um brinquedozinho sem graça. Uma rival do outro lado da rua das calçadas das pedras. Ficou em silêncio por mais um minutinho. Meio tonta da cerveja que eu lhe pagava, Maria Januária viu o que não era pra ter feito. E foi preferindo sair de fininho. Tirou de dentro do meia taça uma nota de cinco mil-réis, dobrada muitas vezes. E jogou a prata em cima do balcão. Nunca tinha dado um tostão! Só dessa vez. Escorreu umas frasezinhas chochas, de um peixe pra limpar, quase cantando pelo meio da língua bífida. Faço questão de pagar essa Salatiel. Desculpa se eu vou te abandonar amor. Não fica chateado. Mas tá na minha hora de servir o jantar da patroa. Arriscou, com o que lhe sobrava de coragem. Tchau, paixão! Fica com Deus, tá! O bocado molhado queimando na minha garganta. Arrependida ou não, eu nunca trairia Conceição.