«O Anão e a Doida»

V - NA CASA ROSA




              18 - ALCEBÍADES
[71] No meio-dia da primeira sexta-feira de gira falhada eu estava pronto. Feio feito um pelintra de assombração, no meu terno de xadrez vermelho ― na assunção da profissão de macaquinho de realejo. A flor roxa das pancadas do desgosto dela sangrando pela boca. Babando a ânsia na pala da lapela lisa do tecido de alface verde. A carne, uma gelada gadanha aberta de vontade só. Tomado o banho, pé limpo, ralado, esfregado de cheiro bão e sabonete forte. Mas o pixé do suor do trem cheio, na madrugada agarrado no couro, ia dormir debaixo das roupas pra sempre. No fundo das peles, até amanhã de manhã.

[72] Não que o Palacete do Prazer fosse já uma ruína mas, decerto, estava em estado de completa decadência. As veladuras fósseis das pinturas de vermelho antigo revelavam braços de reis brancos e moribundos saindo da casca que revestia o monstro de pedras. Entrava-se no lupanar por um portãozinho secundário, ornado de florões de zinabre. O que outrora fora reservado aos escravizados, agora permitia que deslizassem por ali pobres diabos em procissão de satisfação. Barrando a fronteira, estava ali um livre. Filho de ventre autônomo, ocultava o Éden a quem quisesse conhecer a folia sem pagar. O gigantesco leão de chácara usava uma camisa de meia fininha e exibia os bíceps truculentos. Mas depois te abre um sorriso e te dá as boas-vindas. Insone, ele apenas esperava de manhã, a entrega das bebidas. O empreendimento ainda estava fechado.

[73] – Chegou cedo, ou tá muito tá muito atrasado, meu bróder? – Balançou a cabeça como se estivesse com muita pena e sibilou: – A casa ainda tá lacrada. ― Acentuou a última palavra, descendo um dos pés do banco alto. Mas ficou sentado, com uma cara sem pregar olhos e um radinho de pilha colado na orelha. Voltou a estancar em silêncio, e aproximou mais ainda da orelha a largada dos páreos do jóquei. Às vezes os olhos ganhavam ou perdiam. Virou os cavalos para a pista e se esqueceu de mim. – Sou o primo da Conceição, patrão! – eu disse ostentando minhas prerrogativas diplomáticas. Tentava inventariar uma conversa frouxa para disfarçar tanta emergência: – Vim me divertir irmão, tem jeito? – Os cavalos se embolaram na chegada e ele gritou: – O primo da Ilha do Governador, porra! Por que tu não falou logo! – e deu um peteleco na guimba, que levava queimando os dedos da outra mão. – Eu vou chamar ela pelo interfone – gesticulou com um tapa nas minhas costas, me empurrando para dentro da antessala. Eu passava do sonho para a realidade. Sem mover um músculo, apenas estendeu o braço mecanicamente. – Senta aí nesse sofazinho, que ela já vem te atender. – e dirigiu o olhar para o interior da guarita. Ali havia um cômodo para recalcitrantes. Ele apontava a saleta onde eu deveria esperar o Juízo Final. Pendurado no interfone, o porteiro percebeu um raio de luz no rosto do Anão. Ouviu-se o homem palrear numa língua original. Tudo ali devia era falado baixo.




              19 - DORALÉA
[74] Negro de fumo, Alcebíades tentava encaixar seu ancestral falo africano na florzinha poética de Doraléa. A moça era o paraíso sonhado de muita gente letrada que andava por ali. Mas agora era Alcebíades que reinava dentro dela! Quando Doraléa descia as escadas, exibia aquelas coxas de pão fresco! Para o inferno e o céu de quem a olhasse nos olhos. E se enganasse como o seu encanto! Alcebíades descansou o peito maciço contra os seios movediços da mulher. Aquecida e sem palavras ela remexia seu interior Acariciava os dentes brancos do negro e gemia pela própria boca. Bem embaixo dele, mexia as pernas, acariciando com movimentos ondulantes a alma do porteiro. ― Bebê! ― ela disse mordendo a orelha do amante ― Você pode fazer comigo o que quiser! ― O silêncio do homem tornou-se mais pesado. O que acontecia dentro dele era a busca do silêncio original. Sem tentar fingir outra coisa, Alcebíades encontrava-se muito mais perto da verdade agora. Depois dos anos de escravizado e colonial humilhado, o silêncio trazia-lhe a tortura as mortes no tumbeiro. A família deixada para trás na savana, as filhas, a mulher violentada pelo apresador inimigo. Então, o grito de revolta e de liberdade isento de todo medo. Um eco físico ecoou pelas paredes descascadas do lupanar neoclássico.

[75] A mansão em ruínas abrigara uma abastada dinastia de barões do café, onde os ancestrais do negro deitaram o sangue. Agora era propriedade de seus ecos, e lucro seu. No âmago da presença física e sensual de Doraléa, Alcebíades reencontrava sua humanidade. O som nauseante da lagartixa roçando a barriga pelas paredes, ecoou nos vidros do quarto. Alcebíades duvidou. Escutou a vozinha fininha, quase um assobio. – Negão... Negão… – repetia o estribilho cauteloso. Olhos verdes de coral, Doraléa vasculhou o quarto. Pousaram sobre o vidro da jarra: ostentava o amarrado de cravos azuis. Era uma sexta-feira com a Léa, então os cravos de fim de feira. Ameaçadora, Léa aspirou entre os dentes do homem: – Quem é esse cara, meu Deus?!!! – Alcebíades não se mexeu. – Um homem dentro de casa depois do expediente? – É o Anão. Tá apaixonado pela Conceição. — Preocupado pelo humor acre de Doraléa, sentou-se na beira da cama. Viu a mulher fechar com classe as pernas bonitas. Doraléa desapontava. Agora ao invés de prazer, o que a possuía era um Anão do lado de fora da porta. Quase asmático, percebia-se que o pequenino não queria estardalhaço! – Ela não quer nada comigo, irmão! Não posso me casar com uma mulher que não me ama! – E depois de uma pausa. —Tem outra? – Num tom que revelava seu total desamparo, o Anão rematou: – Assim fica difícil, Chefe!

[76] ― Quem é esse cara Alcebíades, pelo amor de Deus! — Preparava-se para pegar um cigarro. – Se Madrinha sabe disso, mata nós dois, Bebê! Sem dar tempo para Doraléa Alcebíades foi direto pros cigarros. Bateu dois crivos e enfiou dentro na boca. Disparou o isqueiro estendendo um cigarro já aceso para a mão da mulher. Doraléa, apertando o filtro do cigarro entre os dentes, voltou a deitar-se. ― Viu um anãozinho com um terno de xadrez vermelho. Tomou Coca-Cola a noite inteira? — Doraléa com nojo irônico, soltava a fumaça em direção à janela entreaberta. As duas neblinas se confundiam na luz baça da madrugada. Alcebíades também fumava, parado de cabeça baixa contemplando o chão. Àquela hora do amanhecer, a brisa vinha da baía e inclinava as folhas das fruteiras. A pouca claridade nos entremeios das plantas dava ao pátio de grandes lajes a cor do queijo salpicado de vermes. – Tira ele daqui Alcebíades! – disse Doraléa, cada vez mais agressiva. – Negão! Eu já senti que tai me deixar na mão! – o Anão insistia. Perdia o equilíbrio, não sofreria mais tudo aquilo em silêncio.

[77] Uma sombra violeta turvou a folha entreaberta da janela. Via-se ainda a chama do poste da rua. Finalmente, o Anão bateu à porta, fazendo surgir seu estado de alma. – Ele vai fazer um escândalo aqui dentro. – disse Doraléa, começando a entrar em pânico. Completamente nu como um lagarto ao sol, Alcebíades deslizava de um lado para o outro. – Tô saindo velho – disse finalmente enfiando sem equilíbrio as calças nas pernas. – Deus seja louvado peão, pensei que tu estivesse morto... – Alcebíades ouviu o Anão dizer aliviado. Doraléa percebeu o arrepio de medo corrugando sua pele, quando voltou a pensar nas consequências. Alcebíades abriu a porta com cuidado e num pulo passou para o lado de fora. Dentro do quarto, a textura granulada das paredes ficou mais nítida, diante da solidão da mulher. Doraléa ouviu os passos delicados de Alcebíades afastando-se abraçado com o Anão.




              20 - A LAVANDERIA
[78] Minúsculo, comparado a Alcebíades, o Anão erguia sorridente sua figura heroica no centro da lavanderia. Pequena ave revestida de panos, deslocou o peso do corpo para o outro pé. Pousou uma perna na frente da outra, e meteu as duas mãos nos bolsos das calças largas. Agora, seu ar era de pássaro que pousa numa laguna fresca. Inclinou um pouco o corpo, e disse para a menina gorducha que se acomodava no chão:

– Gosta de ler? – sem olhar para ele, ela manteve o livro aberto nas mãos,

O Anão usava um trêmulo na voz, como um mímico de si mesmo. Tocada pela pergunta, Elvira tirou os óculos. Depositando o livro entre as pernas, fez subir um pouco a minissaia marrom. Deu um longo suspiro filosófico naquele nouvelle vague característico e esticou o queixo na direção do Anão. Falou, dando com uma mão quebrada, como se estivesse cansada de repetir:

– “A rainha sem olhos”, já leu? – Como o Anão não respondesse, ela continuou:

– É melhor que o “O Rei de Barro”! Estou desde a tarde de ontem mergulhada nele – disse tomando um longo fôlego.

Metida num pulôver cinza a menina mordiscava a lã do decote com os caninos miúdos. Acomodou-se melhor na trouxa de roupas sujas que usava como almofadão. Encurralada num canto sem janelas da lavanderia, sua figura colorida destacava-se contra os ladrilhos. O contorno das pernas escancaradamente de fora era rematado por duas botas de camurça. Tinha o ar afrancesado, quase Sorbone-68, e confessava-se completamente apaixonada pelos personagens adoecidos dos romances que lia e relia.

Tentando não ser mais distraída da leitura, Elvira foi reclinando o corpo em direção ao anteparo que lhe servia de apoio de cabeça, e encostou o livro na trouxa. Sem olhar para o lado, acusou a presença do porteiro:

– Não tem um baseadinho Alcebíades? – Antes que Alcebíades tivesse tempo de responder, o Anão tirou algo de dentro do bolso. Rápido, fazendo o gesto do mágico, estendeu a mão fechada para a menina, e disse:

– Eu planto na horta da minha avó – e completando o número, abriu a mão lentamente. A pomba voou e foi cair entre as coxas da menina.

– De que romance você saiu? Um bagulho solto a essa hora da manhã? — Pegou a liamba e colocou entre os seios. Fixou novamente o olhar displicente no livro e prosseguiu. – Alcebíades, não consegue uma daquelas tuas cervejas quentes?

O Anão se adiantou à resposta do porteiro:

– Eu pago uma rodada! Mas, por favor, cavalheiro, cerveja quente só no inferno! – e um gesto de reverência ecoou da parte do Anão.

Elvira baixou o livro e finalmente olhando para o Anão, rematou: – Você é o gênio da lâmpada, habibe?!

– Só um humilde pesquisador —, o anão sofismou com humildade. Elvira fechou o livro, rasgou o invólucro com os dentes e começou a confeccionar o cigarro. Tomando fôlego explodiu:

– Você é filósofo, professor? – e fez-se silêncio.

Alcebíades quebrou o gelo:

– Eu vou buscar as cervejas. – disse, enquanto se preparava para deixar a lavanderia.

O porteiro saiu dando graças a Deus por ter-se livrado do problema com o Anão.

O Anão, balançando-se num banco alto, olhava para Elvira, entretida na confecção do cigarro. Súbito, e de forma afetada, ela disse:

— Não sabia que você frequentava a lavanderia de puteiros, Salatiel!

— Eu posso estar em todos os lugares, Elvira. É um prazer revê-la, depois de tanto tempo — Salatiel Salieri disse, como se não tivessem se passado dez anos desde que vira Elvira pela última vez.

A menina fixou os dois olhos verdes no pequeno ser que balançava ritmadamente no banco à sua frente. Aquele era o homem a quem ela sempre amara, e admirara como mestre. Enquanto esperava o retorno do cigarro, o Anão tomou fôlego: voltando-se para a janela girou a cabeça procurando as nuvens já despidas do cinza e que agora traziam para dentro da lavanderia o rosa transparente da aurora. Escolhendo os pensamentos na sua maneira inconfundível, sopesou a cabeça de um lado para o outro e acrescentou com sabedoria dramática:

– As artes plásticas e os jogos de poder! – parou e olhou sem disfarçar para as coxas de Elvira. O Anão balançou afirmativamente a cabeça sussurrando em tom íntimo: – Da minha parte, daqui para frente, nos depararemos apenas com a execução de pintores inocentes! – Fez um gesto com os olhos grandes e num sussurro de nojo, arrematou: – Frutos podres de uma geração que articulou a morte da arte!

Elvira devolveu o cigarro a Salatiel, que o pendurou entre os dentes. Esticou a mão para fora da janela e experimentou a chuva. Seguro do seu estio, disse como um cigano que treinasse pulgas:

– Talvez um grau mais afastado da verdade. – Desdenhando a plateia, fez uma pausa dramática. Ajeitou delicadamente a piteira e levou o cigarro próximo do bigode. Aspirou com volúpia a fumaça pelo nariz. Seus olhos se encheram de calor humano. Esticou os músculos da face, se protegendo da ventania e voltou todo o corpo para fora da janela. Soprou lá para fora, reparando nas montanhas circulares que acordavam. Seu tom azulado denunciava a proximidade do mar.

Acrescentou: – A arte deixou há muito tempo de ser assunto de juízo estético para ser conhecimento puro. – Voltou-se para Elvira, esticando o cigarro de novo para ela. Falava para dentro, com os pulmões cheios de fumaça: – Ao menos para aqueles que se dedicam a salvá-la.

Então a chuva, anunciada pelo gesto do Anão, chegou. Veio como galhos que se quebram sob pés em fuga. Fartos seios balançavam a enxurrada.

[79] Súbito, uma mulata corpulenta fugindo do aguaceiro, estava estatelada de pé no centro da lavanderia. A trouxa de roupa debaixo das costelas escondia um calhamaço de panos sujos. Elvira vislumbrou os cabelos anelados da mucama e imaginou ser tão bela como ela. A serva, sem ligar o mínimo para a presença de Salatiel, soltou a carga com força diante de Elvira. Depois sugeriu um carinho:

– Parece que vai ter um quarto vazio pra você hoje. Parece que ouvi Madrinha dispensando Emília – forçava o “parece”. Jogou um beijo safado lambendo o corpo de Elvira com visgo fresco. A notícia que por tantas semanas esperara, jogada ali naquela lavanderia gelada. – Você vai no meu lugar – disse Elvira para a baianinha que a olhava com os olhos arregalados.

– T’esconjuro Elvira! Não nasci pra puta! Entrei como faxineira e vou sair como faxineira.

A chuva estiara. Salatiel continuou sentado entre a porta e a máquina de lavar. Acabou de consertar o baseado que Elvira confeccionara e que se apagara durante a conversa com a mucama. Acendeu-o com calma com o pequeno isqueiro de plástico que tirou do bolso e fumou ― enquanto saboreava o silêncio causado na alma de Eusébia pelas palavras de Elvira. Silêncio só interrompido pelo arrastar dos chinelos da mulata, que se retirava sem dar adeus. Salatiel voltou o rosto para Elvira e de novo levou o cigarro à boca. Deu outra baforada e estendeu-o para Elvira. Disse, olhando para a mulata que se afastava:

– Essa é uma decisão difícil Elvira. Entre o lucro, o pecado e Deus! Talvez fosse melhor acabar com as três, e trabalharmos para um governo central que não nos oprima. Que nos liberte do capitalismo, da prostituição e do idealismo hebreu.

Elvira esquecia a mão com o cigarro, parada no ar. O pito índio era de primeira!




              21 - AS GARÇAS
[80] As garças gritavam nervosas, chamando. Voltavam da fuga noite para a floresta. Descreviam exóticos arabescos no ar. Dentro da construção maciça nos fundos do casarão, escutavam-se suas gargantas contra a azulejaria portuguesa. A chuva, por fim, passara de vez. Esgaravatando as nuvens, o sol insistia. Rasgava com os dentes uma escotilha no casco azul. Lavava os telhados vermelhos, sujos de musgo tinto. Elvira arriscou outra tragada, engolindo a fumaça. Como o Anão, falava sem voz:

—– Sol e chuva, casamento de viúva!

Olhou fixamente para o Anão. Só então ele pode perceber, por detrás das costas da menina dois pequenos cães amarelos. Um fiapo de língua respirando do lado de fora, enfeitava os delicados lábios cor de açafrão. Embora já tivesse trinta e seis anos, e houvesse passado os últimos dez fechada num hospício, Elvira descobrira que os sentimentos que nutria pelos cãezinhos eram os primeiros laços que firmava com um ser vivo desde que nascera e fora lançada no mundo. Eram a sua vida aqueles bichinhos. Era o que Salatiel vira de novo na menina, que procurara por tantos anos. Os dois cães haviam resgatado sua humanidade. Ela disse suavemente para o Anão, que calado assistia o fim da chuva:

– Essa sou eu. Eu vira lata. Elvira vira-lata. Essa sou eu... – repetiu meigamente para o Anão. E acrescentou com brilho nos olhos: – E você Salatiel Salieri, o Mágico! Tem pintado?

O Anão entregou definitivamente o cigarro para Elvira. Andava coreograficamente pelas lajotas de losangos frios da lavanderia. Foi deixando correr os pensamentos à deriva, sem esconder um profundo tom comovido:

– Extremos livres, pinceladas cheias de luz evanescente. Construo uma poesia, trágica tão anacrônica quanto cenográfica. [segue]

E, quando terminou, parecia que de seu peito encimado pela encardida gravata borboleta fosse surgir um par de ensinadas pombas bruscas.

Parou, deu uma piscadela para Elvira e fez uma mesura circense com gestos largos. Elvira aplaudiu, acostumada com aquilo desde a adolescência, quando completamente louca assistia embevecida àquelas as preleções estéticas de Salatiel Salieri. E o quando ainda precisava deles!

De novo o velho mar voltou a rugir entre o Anão e sua protegida. Vez por outra, seus olhos se encontravam, oblíquos, e se tornavam macios com apelos brilhantes. Os cãezinhos de grandes olheiras os espreitavam com as patas cruzadas. Os quatro respiravam ritmadamente, no ar ainda limpo da manhã. Elvira olhou novamente os cães, e jogou a cabeça para trás. Fitou o vazio, descansando as costas contra a parede.

Um par de luvas negras acenava para os dois pendurados no varal do fundo da lavanderia. Escorregando pela parede, Elvira deitou-se, e tocou com as botas os sapatos do Anão. Uma fita de barriga branca surgiu entre a mini blusa e o cós da saia. Seus seios esparramados debaixo da malha quase desapareceram, espremidos contra as costelas. Deitada no chão olhou fixamente para os pés do anão. Disse com uma voz de mistério:

– Sabe que dia é hoje Salatiel?

– Dois de Novembro! – Salatiel disse sem tirar os olhos de Elvira.

Um espelho cego abandonado ali, exibia a verdadeira face das pessoas, misturada com a sua própria decomposição. Refletia o livro marcado na página onde Elvira se interrompera: a orelha envolvia a contracapa: a “Princesa Sem Olhos” estaria sempre ao alcance da mão.

– Feliz Dia dos Mortos, Salatiel Salieri! – Elvira disse.

– Feliz Dia dos Mortos, para você também, Elvira! – o Anão retribuiu.



Quando Alcebíades voltou com as cervejas, colocou-as discretamente no chão, ao lado da porta. O que via era tão bonito, que não teve coragem de interromper.