«O Anão e a Doida»

VI - NO PORÃO




              22 - A AÇÃO
[81] Coberta de fuligem, pálida, metida numa farda camuflada, piscava com dificuldade. A moradora de rua sentava-se na calçada diante do Palácio do Príncipe. Esmolava ao lado do seu cachorro. A crosta da vida acumulada em seus ossos derretia devagar. Girou os olhos para dentro das vidraças de cristal. Chispas se jogavam pelas janelas, refletidas dos lustres importados. Sombras de anis velho avermelhavam o vitral diante do canteiro de tílias. Longe dela, os guardas evitavam o seu cheiro. Ela percebe o movimento dos corpos que bailam. Aguardam a chegada do Príncipe. Aquele é o exato momento para o tiro. O mundo dos imundos donos da vida surgia contra a tristeza dos seus olhos fulgurantes. Tudo se move diante do fixo rosto da mulher em ruínas.

[82] A cantora está nua por debaixo do vestido. Gosta arrastar a pequena cola de babados caribenhos. Serelepe saltita, girando a cabeça e sorrindo, ora para um lado, ora para o outro. Depois lança todos os perfis simultaneamente, esbanjando agilidade. A massa sonora ressoa nas paredes, à sua entrada apoteótica. Todos param, ela era aguardada com lágrimas nos olhos. Agarra o microfone, sincera como quem pega uma flor. E sopra pelos lábios úmidos: meus blues! Todos imaginam os homens que ela já teve. Mas ninguém sabe o que alí, ainda fervilha dentro dela. Nas mesas alvas de linho branco, salvas de palmas regaladas à champanhe e a caviar Beluga. A mendiga examina detidamente tudo aquilo.

[83] Na primeira fila de mesas, o Médico-Chefe, acompanhado de sua mulher morfética. Achacada pela gota, ostenta velhas marcas de varíola. A cruner sorri para a grande dama da sociedade. Sabe-se que ela pedirá mi-buenos-çaires-querido. Ao lado, o Médico roda com o dedinho as pedras de gelo do copo de uísque. O Médico tem a cabeça lírica, típica dos apaniguados do poder. Cansado da labuta, relaxa na bebida. Passara todo aquele dia examinando a resistência dos prisioneiros na tortura. Uma expressão de desprezo se mantém fixa em seu semblante duro. O Médico estende a mão para as coxas da velha matrona, e avança o pescoço como se quisesse dizer alguma coisa para a cantora. Truque mal feito: imediatamente descoberto pela mulher. Uma máscara de pomba enfezada subiu pelo rosto da cônjuge. Mirou a cantora rigidamente, a cabeça como uma serpente despertada pelo pecado.

[84] O médico comia despreocupadamente a sua langosta ― e a cantora com os olhos. Podia-se ouvir o lept-lept-lept sem gume dos seus talheres para peixe. Tudo aquilo repicava nos tímpanos da cantora, que desce do palco. Toma um gesto circular e agarra uma rosa que lhe ornam a cabeça. Joga a flor de chumbo no colo da matrona. Um quente aplauso corre o salão. Afrontada, a velha enfia a cara contra os chifres da lagosta. Saboreia o desgosto de um prato cheio de vergonha. A cruner interrompe a canção, e injeta os olhos nos olhos da mulher do médico. Atira com sabor vermelho, e canta sendo devorada.

Mi buenosçaires querido.

Então retorna para o palco. Uma troca de luz rápida, a respiração curta cresce e faz-se ouvir o burburinho. A noite artificial rasteja no mármore gelado. A Comitiva do Príncipe, precedida pelos batedores entre como um fogo de batalha. Uma gota de suor gelado escorre do alto das coxas da cantora. Circulando a luz baixa da entrada do prédio art-noveaux, carros conversíveis adornam as calçadas sonolentas. A chuva miúda começa a cair lá fora. Jogada num canto da sua sarjeta imunda, mendiga pede suas esmolas. O fartum da noite marítima se eleva nos canteiros de lavanda. A miserável ajusta a colete roto. Um pouco para dentro da manga surge a culatra da Browning nove milímetros. Levanta-se como para catar uma binga de cigarro, e sem cerimônia se agacha na moita em frente à vidraça. Todos os seguranças encolhem o rosto. De dentro do casaco de lã vermelha, ela tira lentamente a pistola. Protegida pelas costas, faz pontaria.

Naquele exato momento, o Cangaceiro saboreava uma requintada taça de champanhe. A bala vara o cristal da vidraça. Antes que alguém tenha tempo de perceber, a bala estraçalha a taça. Debaixo do caixilho da janela, se derruba o champanhe no colo do soberano. Nenhuma gota será perdida, sua roupa beberá por ele.




              23 - A INVASÃO
[85] Num ataque surpresa, toda o esquadrão já havia passado para dentro do casarão. De frente para a laguna, olhando as montanhas, o cômodo recebera gaivotas nas paredes. A doente era acometida por delírios com viagens em barcos à vela. Motivada por tal cenário, o Coronel esperava que Elvira acreditasse na própria felicidade. Picotados entre os quadriculados sinistros das grades deslizavam patos na superfície da laguna viva. ― Eu sou militar, abaixem as armas! ― gritou o Coronel para a tropa. ― Girando diante da Comissão em sua cadeira de rodas, Eustáquio arrotava a patente de coronel da roça: senhor da menor salina do município. ― Os senhores podem entrar ― disse num rapapé submisso. Desnecessário, estavam todos lá dentro! ― Mas muito cuidado, ela está furiosa hoje ― e arreganhou os dentes, imitando um cão danado.

[86] Distribuídos em torno do catre, maravilhados pelo fausto da decoração a Comissão de Saúde começou o interrogatório: ― A doente tem carteira de saúde? ― inquiriu o Tenente de Polícia. ― Qual a justificativa que o senhor apresenta para manter uma pessoa nesse estado? ― acrescentou o Escrivão. ― Ela apresenta sintomas de banditismo e mania de esmolar na porta da igreja ― disse o avô acusador. ― Já bateu carteira, se embriagou em dia santo ou xingou o padre? ― acrescentou o Delegado. Agenor olhou para o Delegado e cuspiu no chão. O Delegado voltou-se para o Escrivão e disse secamente: ― Tome o depoimento da menina. ― Eu falo por ela, atalhou o Coronel. ― Não pode afrouxar a mordaça, assim ouviríamos a própria falar? ― acrescentou o Escrivão. Arriscava-se a contrariar o herdeiro da salina. ― Só vai registrar palavrões. Se esse é o caso eu mesmo posso lhe xingar ― rematou o Coronel com desdém. ― Não posso encaminhar nada ao Juiz sem que haja ao menos um pronunciamento da própria ― insistia o Delegado. ― Eu já não disse que falo por ela! ― engrossou o tom o Coronel.

[87] Distribuídos em torno do catre, maravilhados pelo fausto da decoração, a Comissão de Saúde começou o interrogatório: ― A doente tem carteira de saúde? ― inquiriu o Tenente de Polícia. ― Qual a justificativa que o senhor apresenta para manter uma pessoa nessas condições? ― acrescentou o Escrivão. ― Ela apresenta sintomas de banditismo e mania de esmolar na porta da igreja ― disse o avô acusador. ― Já bateu carteira, se embriagou em dia santo ou xingou o padre? ― acrescentou o Delegado. Agenor olhou para o Delegado e cuspiu no chão. O Delegado voltou-se para o Escrivão e disse secamente: ― Tome o depoimento da menina. ― Eu falo por ela, atalhou o Coronel. ― Não pode afrouxar a mordaça, assim ouviríamos a própria falar? ― acrescentou o Escrivão. Arriscava-se a contrariar o herdeiro da salina. ― Só vai registrar palavrões. Se esse é o caso eu mesmo posso lhe xingar ― rematou o Coronel com desdém. ― Não posso encaminhar nada ao Juiz sem que haja ao menos um pronunciamento da própria ― insistia o Delegado. ― Eu já não disse que falo por ela! ― engrossou o tom de voz, o Coronel.

[88] ― Eu preciso fazer um boletim de ocorrência. ― E procurou nos bolsos a caneta que guardara antes de sair. ― Confere, Comando? ― Sim, claro, disse o Delegado. ― Sem ocorrência não haverá boletim, e sem boletim não haverá a ocorrência. Esta é a máxima do direito penal complementou o Comando. ― Afinal, Coronel, qual é o problema com a menina? ― insistiu o Delegado. Usava um chapéu simplório que ajeitava involuntariamente. ― Ela tentou me matar ― disse o velho cinicamente. Falava como se espantasse uma mosca nos pães velhos. Ajeitou-se na cadeira de rodas para parecer mais alto e gritou para o fundo da cena: "Zé Bedelho, traga a dois canos!" Voltando-se para o Delegado, acrescentou: Vou lhe apresentar a arma do crime, Doutor. — O Delegado sussurrou: “Essa merda desse psiquiatra que não chega!” ― Isso é caso de polícia ― disse o Tenente perdendo a calma. Tentando prender a atenção do Velho, o Tenente atacou de novo: ― Ela chegou a atirar em vosmicê Coronel? ― Acariciava a peça metálica que surgia do coldre. Como a resposta não veio acrescentou: ― Há marcas de projéteis nas paredes? Caso se confirme, já posso encaminhar o caso. ― Vendo-se deslocado, o Delegado não quis ficar para trás: ― Há ainda que se fazer análises precisas da real situação do fato ― disse matematizando a questão. ― Preciso incluir isso no boletim, senão o Juiz nem olha pros papéis ― sofismou o Delegado e continuou. ― Estupro, assassinato, desinteligência? ― Eram as últimas tentativas para solucionar o caso. Fez-se um duro silêncio de botas que se moviam umas contra as outras.

[89] O Clínico Geral finalmente entrou pela porta. Tão estapafúrdio, teria entre trinta e trinta e cinco anos, cabelos lustrosos à brilhantina, exalava uma desmedida assepsia. Óculos grandes, envergava um terno de gabardine branca. Medalhas de prata sobre o peito significavam o poder da medicina. A cara zarolha e feia como a de uma górgona, zunia maldições no seu silêncio impenetrável. Ouviu-se o entrecortado baticum de seus saltos. “Doutor Ramiro Saraiva Freitas dos Guedes” — Cirurgião Plástico de Hemorroidas, como o povo chamava. Um dos Saraiva Freitas dos Guedes, pertencia ao ramo que tinha entrado em peso para o cangaço. Na delicadeza republicana de rifles e jagunços, transformara, sem problemas, seu quintal num vasto império. O Coronel Agenor, por outro lado, tinha um único problema: a neta louca. A solução viria de um inimigo político — o médico, que varara como uma alegoria do poder pela sua casa adentro.

[90] Dr. Ramiro fitava a menina temeroso e surpreso. ― Como é o seu nome minha filha? ― Elvira Natália Juliana Solange ― disse num tom seco. O médico retornou outra pergunta preocupado por ter de avaliar alguém que só tinha nomes próprios. O Coronel salvou a situação: ― Ela não foi batizada. A falecida mãe não quis. E quando as duas vieram morar comigo, essa daí já tava desse jeito. Agora piorou de vez. ― E como é que eu chamo a menina, Coronel Agenor? ― o Delegado inquiriu. ― Assobie que é melhor, ela atende na hora ― disse o avô num tom agressivo. O Chefe da Junta recebeu a ofensa do adversário político. ― Você quer um refrigerante minha filha? ― inquiriu o médico. Elvira retorquiu, estalando a boca: ― Não, paixão, prefiro uma dose de gim. ― Vai beber de novo? Ó Elvira o que que tu já arrumou com a bebedeira de sábado à noite! ― Zefa explodiu. Virando-se para o Doutor Ramiro, que impassível deixava as cenas correrem no palco, Zefa confessou: ― Ela só tá presa assim Doutor, porque ficou bêba! O Coroné teve que enfiá um remedinho no caldo dela! O médico ia dizer alguma coisa, mas Zefa atacou de novo: "O que é pra ser dito, doutor, que seja dito ela é terrível! Otro dia, bateu na cara do Coronel e derrubou ele da cadeira de rodas. Eu tava no curral e ele ficou aí no chão estrebuchando todo nervoso. Estatelado como um cachorro se mijando com o rabo entre as pernas. Eu é que tive que vim consertar o homem." Zefa interpretava a cena teatralmente. ― Vou pegar teu gim agorinha minha filha. Quer que eu bote um gelinho? Zefa saiu às pressas, corria e levantava as saias, sugando a poeira do soalho com seu corpo servil e vilipendiado.

[91] O Tenente magriço atalhou a tempo de alcançá-la: — Zefinha, o meu pode ser sem gelo. Mas não precisa correr querida. ― Eram primos e amásios, Zefinha tinha sido dele e ele dela. Sem se deixar impressionar o velho se revirou na sua cadeira de rodas. Abriu os botões da camisa, estendendo para o Delegado um labirinto de fundos arranhões. ― Sabe o que é isso, Saraiva? ― interpelou o coronel, chamando o médico pelo nome de batismo. O médico precisava mover sua peça, e escapou com brilhantismo casuístico: ― Se não conseguirmos nada mais concreto contra ela, podemos usar a mesma estratégia de Rembrandt contra Geertje Dircx ― disse o médico. Demonstrava uma cultura que calava a iletrada plateia. A jogada espetaculosa do Coronel fora em vão. Elvira exibia um ar de grande júbilo, misto de gozo sensual e deboche. A empregada voltou com a bandeja e a bebida foi servida para a menina e o Tenente. O Velho, vendo os ódios de família acendrados, baixou a guarda: ― Deixe essa bandeja aqui, Josefina. E traga uísque para todo mundo. Na minha casa ninguém sai sem beber. Ele sabia que logo todos estariam embriagados.

[92] Todos suavam na tarde das salinas. Um pouco embriagado pelo uísque barato, o Médico Chefe ocultava seu nojo por tudo aquilo. Lançava olhares e demonstrava um temor que ainda não tinha revelado. O doutorzinho da capital sentia medo quando bebia. Desmontava-se pela primeira vez a farsa daquela pose onipotente. ― "Ela se comporta bem quando lhe retiramos os arreios?" ― sussurrou. ― Sim, no geral ela é mansa ― disse com desprezo o Coronel. ― Gosta de conversar e de cantar. E se derruba uns tragos é possível que dance o flamengo.” Zefa, já prevendo o número, entrou no quarto carregando no braço o vestido negro e o pesado xale de viúva espanhola. Na mão direita uma escova e uma barra de sabão em pedra. ― Hoje é sábado Elvira! Vestido de baile e xale à espanhola ― Zefa disse. ― Quem sabe não damos uns passos para nossas visitas? ― O sorriso forçado de Zefa nem de longe convencia, mas estava feliz por ver a menina livre das correias. Elvira exibiu os dentes: sujos rododendros sofridos.




              24 - O REPASTO
[93] A pesada noite circular ameaçava cair sobre a mesa que o Coronel fizera montar pelas mãos exaustas de Zé. Os homens da Comissão se empanturravam com as viandas e quitutes. Sentada na cadeira onde a ama costumava contar-lhe suas histórias, o olhar inclinado para o chão, Elvira se deliciava com as invenções dos convidados. Ouvia com deleite estático um rádio que nem com as pilhas poderia lhe dizer alguma coisa. No rosto do profissional responsável pelo laudo, ficava claro que todos esperavam uma solução para o caso. E davam mostras de uma embriaguez que aumentava de gravidade a olhos vistos. O Delegado pediu licença ao Coronel para afrouxar o cinto. O Tenente secundou o Delegado no pedido de abrandamento do protocolo. O Escrivão, homem de olhar seco e depreciador, contemplava aquela bagunça com estupor estoico. Sob o disfarce de cumprirem suas funções esperadas pelo Estado, se refestelavam na esbórnia de uma tarde de bebelança e comilanças. [95] Elvira deitou a cabeça para o lado, e numa expressão que visava o ouvido do Avô disse: ― Se o tema do nosso banquete for o Amor, precisamos chamar as Flautistas. ― Dispense as flautistas Elvira, e venha tomar seu banho. O Doutor quer examinar você ― retrucou Zefa num tom casual. O fato era que desde que a menina fora libertada dos arreios, o Coronel já não se atrevia a encará-la. Percebendo que o motivo, todos constataram que o Coronel era de fato um covarde! Os homens da Comissão apesar de comerem e beberem à sua mesa não tiveram como evitar essa constatação. Eles, que também temiam a menina louca.

A roleta girava a favor da menina. Pressionada pelo patrão e temendo aborrecer Elvira, Zefa aproximou-se dela. A menina, fechada num mutismo de pedra era vista por todos como um animal perigoso. Tomando todo o cuidado, a ama transpassou a mão pela cintura da protegida. Enlaçou-a, como se a convidasse para uma valsa dogmática. E a ergueu da cadeira onde jazia mortiça. Assim que percebeu o envolvimento, Elvira jogou-se lânguida nos braços de Zefa. Inclinou a cabeça como um cachorro que se coça, e revirou os olhos quase lúbrica. Zefa conhecia aquilo bem. Afinadas cantaram o mote composto por Elvira, no registro metálico dos loucos.

Num minueto de matar
Encontrei meu par
Era um homem
Era um homem
Era o forte homem
Que ondula o mar.


[96] Solfejavam esganiçadas e não saíam do lugar. Zefa passou a mão carinhosa no rosto da parceira. ― Tá com ideia de se meter com fogo, Elvira? O Coronel quer que você vá tomar banho, fía. Os doutores precisam ouvir você e querem te examinar. Ajuda a amiga Zefa vai.” Desta vez Elvira cantou sozinha:

Enchova sardinha
Corvina tainha
A sereia mais bonita 
Serei euzinha?


[97] Zefa pesou o quanto seria difícil o trajeto até o cômodo, onde lhes esperavam a banheira e o trocador de roupas. Perdeu a paciência, e puxou a menina com mais rigor. A menina, trazendo a cabeça para frente e desequilibrando, Zefa debruçou-se sobre o ombro direito da serva. Levou os lábios bem próximos da orelha da mulher e sussurrou no tom que usava quando queria irritar o Coronel:

Vermelhos bois de canga
Empunham chifres de alabastro
Soando sinos de ouro
Nos inchados testículos de couro


[98] As duas se derramaram numa larga gargalhada, que provocou um acesso de tosse no Coronel. ― Josefina me leve essa menina para longe daqui! ― Zefa soltou um muxoxo, bufando um ôxe! Novamente abraçou-se com Elvira. A menina não se movia, fincando com mais teimosia os pés no chão. Elvira cacarejou alto, imitando os trejeitos da galinha:

Cocó cocó cocó...
Quantos circos
Se revezam nos meus sonhos?
Cocó cocó cocó...


[99] Zefa fincou os olhos com força contra a menina. Num tom que usava quando precisava implorar-lhe, disse baixinho: ― Dândár! Ô! Pra ganhar têm-têm? ― Quero, quero, quero! ― exultou a menina. Trepando um pé sobre cada pé de Zefa, foram as duas como aqueles comediantes abraçados com uma boneca de pano. Desapareceram na luz difusa do fundo da sala. No número de teatro popular, Elvira deixava-se levar pela ama, enquanto cantava.

Dân-dár! Ô! Pra ganhar têm-têm!
Dân-dár! Ô! Pra ganhar têm-têm!
Dân-dár! Ô! Pra ganhar têm-têm!






              25 - MAIS UMA RODADA
[100] ― Mais uma rodada de xerez, Coronel? ― gritou o Médico. Agenor limitou-se a dar de mão e dispôs a garrafa. Movendo os olhos injetados, atirou para o médico: "A garrafa está em cima da mesa, Doutor! Que todos bebam até se fartar!" Ramiro pegou com delicadeza o frasco e o rolou derramando nos copos dos seus subordinados. Tentando o melhor tom de voz, o Médico ergueu o copo e disse: "Acho que posso compartilhar com vocês minha alegria. Não é todo dia que vemos um espetáculo tão exuberante. Nos leva a memória para a Roma e seus imortais mosaicos!" Todos esticaram seus copos para o Cirurgião. Ramiro voltou a encher os copos de maneira pródiga, diante dos olhos amuados do Coronel. O Presidente da Junta continuou: "Para celebrarmos nossa imensa alegria por esse espinhoso trabalho, proponho uma boa quadrilha a quatro vozes!

[101] Os subordinados adoravam as quadrilhas do Médico, quando ele se embriagava nas Operações de Ordem Social. Dr. Ramiro era um exímio mímico na reprodução de semblantes. ― Pode ser o Jeca-tatu Chefe? inquiriu o Escrivão. ― Sim, sim, sim! ― gritou o Médico, e acrescentou: ― Acho que vem bem a calhar com a situação em que nos encontramos! ― Todos riram e o Tenente acrescentou, encarando o Coronel ― O Jeca é um dos nossos prediletos e está bem ensaiadinho, Coroné. Rio muito comigo mesmo! ― Sim, Chefe ― disse o Delegado ― podemos usar a coreografia do dia de São João. O Médico se moveu de um lado para o outro. Inteiriçou-se e rosnou: "Tudo pronto, canalha?" ― Deslocaram-se para o salão principal. Na frente ia o Médico. Marchavam sem se deslocar. Requebravam ancas, debicando descaradamente do velho salineiro. Foram seguidos pelo brado do tenente: "Avançar!” Imitando o repto dos taróis, os primeiros a atacar os bordões foram os tenores:

Jeca-tatu
Jeca-tatu
Jeca-tatu
Jeca-tatu


Esticando o pescoço como uma pequena cegonha o Tenente atirou seu gorjeio metálico. Remedava o clarim:

Pega o tatu
Pega o tatu
Pega o tatu
Pega o tatu


Em seguida no ribombar do bumbo, o baixo do Delegado:

Come o tatu
Come o tatu
Come o tatu
Come o tatu


Completando a fanfarra entraram as caixas do Escrivão:

Cuidado com a casca
Cuidado com a casca
Cuidado com a casca
Cuidado com a casca


O Médico fez o solo de acabamento.

Prá não se engasgar
Prá não se engasgar
Prá não se engasgar
Prá não se engasgar


Não é que a coisa funcionava mesmo!

[102] Estavam todos impecáveis. Enquanto representavam a quadrilha, exerciam as funções públicas recebendo gordos salários do governo. Tramoias combinadas em surdina, faziam deles uma máfia exemplar. O Coronel acabou sendo contagiando pela suarenta e musical tropelia. Esqueceu-se de que estavam ali para debochar dele e decidir do destino de sua neta, e foi seguindo o cordão. Rodopiava atrás da fanfarra como uma piorra doida. Fazia rolar a velha cadeira de rodas e revelava um volúvel traço de personalidade.

[103] Dragonas, coturnos, quepes e cinturões combinavam perfeitamente com sedas, linhos e cabelos à gomalina. Exibiam-se, imaginando-se heróis da Batalha do Riachuelo. Tudo estava saindo às mil maravilhas quando uma espécie de pântano surgiu no chão da cena: o Chefe da Fanfarra tropeçou no tapete. Submeteu-se a piruetas para manter-se de pé, sobre um chão que lhe fugia, com os sentidos embotados pelo álcool. O homem perdia o prumo físico e emocional. Arribava e desmontava, como submetido a uma feitiçaria, de que não conseguia se livrar. Com muito esforço, livre da epidemia de diagonais que lhe assolava, retornou à posição vertical. Arrepanhou os panos das bainhas das calças e iniciou uma dança primitiva.

[104] Marcava o chão com o salto dos sapatos, e vez por outra atacava o solo com a biqueira. Repetiu aquilo, no mesmo lugar, infinitas vezes. Uma poeira fina e sufocante ergueu-se do tapete surrado. Agudizavam-se as pancadas sobre as pranchas de madeira. Ora encurtava os golpes, ora alongava as pausas. Em seguida disparou uma sequência de chutes. Então ele parou!

[105] Estatelado, olhava o chão num único ponto imóvel. Suando dobrou a cabeça em direção ao solo. Dobrou-se ao nível dos pés, enxergando de cabeça para baixo as fisionomias na plateia. O potentado descobrira algo que faria mover toda a engrenagem da Junta do Poder. Levantou a voz opaca e emitiu frase breve:

Enrolem essa merda desse tapete na direção dos meus pés!





              26 - O ALÇAPÃO
[106] Com a liberação da cobertura espessa o Cirurgião voltou a pular. Ouviu-se nitidamente um som oco. Todos estatelaram os olhos em direção ao alçapão que havia sido descoberto. As tábuas regulares acusavam uma diferença diagonal e oblíqua. Era isso! Ele parou calmo e disse para o Tenente Rebouças: — Me empresta teu punhal, Claudinho. — O militar retirou ordeiramente a arma branca e a estendeu para o superior. Dr. Ramiro abaixou-se e fincou a faca entre as costelas das pranchas. Olhava com frieza para os subordinados. Forçou a faca, usando o vértice de uma tábua como apoio. Crispou o rosto e se utilizou de toda a sua força disponível. A tábua rangeu e cedeu! O Médico se ergueu: era um alçapão.

― Grampo nele Claudinho! ― gritou para o Tenente.

― Não posso algemar o Coronel Agenor Eustáquio Ferreira Furtado de Freitas, Chefe! Ele é primo do irmão do cunhado do falecido prefeito.

― Isso foi antes do golpe! Eu mando prender e matar o prefeito e toda a família dele. Grampo nele, já disse Tenente. Todos temeram aquela atitude destemperada. O Médico raramente fazia o uso ostensivo da força.

― Vamos descer! Alertem os homens da varanda! Coluna por um, armas na mão. O Capataz Geral estava visivelmente alterado por aquilo que descobrira.

[107] O Tenente cumpriu a ordem e meteu os grampos nos pulsos do Velho Caudilho. Debaixo das botas do militar, estava agora jogado no chão e algemado o Coroné. Viam-se os adornos reluzentes das grossas algemas que esperaram por ele durante todo o tempo da comilança. A doença da menina era só um pretexto: o que eles queriam era capturar Eustáquio. O alçapão viera a calhar! O descendente de poderosos já estava nas mãos de um poder obscuro. Manietado e atado ao seu veículo de tração humana, o velho impotente assistia à invasão de seu aposento secreto.




              27 - A COVA ESCURA
[108] A cova escura ocupava toda a extensão do porão. Podia-se distinguir, sob a luz baça que escoava por duas claraboias laterais, um bem trabalhado tapete de brocado vermelho. Jaziam sob as entradas de luz, estantes apinhadas de livros. Na ala do fundo, em contraste com tudo aquilo, um cintilante atelier de pintura. Sobre seu cavalete um facho de luz delicada passava por uma rachadura entre as pedras. Na parede oposta ao alçapão uma infinidade de quadros eróticos exibia a camponesa Zefa participando das mais variadas atividades políticas que se possa imaginar. Quem a via coberta com aqueles andrajões cinzentos não imaginava o colorido das suas manifestações nos mais variados comitês. Zefa vivia agora para sempre naquelas telas. Podia orgulhar-se de ver seu corpo maltratado pelo trabalho, exigindo liberdade, salário e direitos fundamentais.

― Não acredito! ― gritou o Médico. ― Quem imaginava que esse traste velho tinha tanta imaginação?

[109] Na visão da junta, tudo estava claro agora. O coronel era comunista. E essa era a causa da doença da menina.